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QUEM ME ENVIOU UM QUEIJO?

Sexta, 22 Janeiro 2016 17:04
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Quando cheguei à garagem do meu prédio, ainda não estava escuro, mas era o fim do meu dia de trabalho. Eu estava feliz tanto pelo que realizei, quanto pela programação que eu iria me brindar para ter uma noite de paz e prazer. Já podia me ver sentada no sofá da sala com um lanche gostoso, escolhendo um bom filme para assistir. Lá pelas dez da noite, iria para cama ler um livro que, como um animal fiel, já estaria à minha espera na cabeceira. Deixei meus pensamentos rolarem, fiz as manobras para entrar na minha vaga e quando estava quase desligando o carro, percebi que um jovem vizinho me aguardava segurando gentilmente a porta do elevador. Apressei o passo, agradeci e entrei. Apertamos os botões de nossos andares. Trocamos algumas palavras. O elevador logo parou. Era o zelador que tinha correspondências e uma sacola para mim. Notei que se tratava de uma sacola térmica. Perguntei quem a havia deixado. Ele me respondeu sem pestanejar: Rita! Devo ter feito uma cara muito estranha. O zelador emendou: Regina! Meu semblante deve ter revelado a continuação do meu questionamento. Não lembro! Desculpe-me, mas ela falou e eu não estou conseguindo lembrar... Agora o nome que parece que foi dito é Cristina. Isso! Foi Cristina. Olhei para o meu jovem e gentil vizinho e percebi sua impaciência. Com razão. Obrigada, Sr. Mario, acho que pode ser Cristina... Vou averiguar e qualquer coisa, eu lhe avisarei. Assim que cheguei no meu apartamento, larguei minha bolsa, correspondências e a sacola térmica no balcão da cozinha. Estava curiosa. Abri a sacola térmica em busca de algum envelope, alguma mensagem. Nada. Havia apenas um saco plástico transparente e dentro dele um queijo minas com um jeito apetitoso.  Mais que depressa fui lavar as mãos e voltei para experimentar um pedacinho. Hummmm. Que delícia! Rita... Regina... Cristina... Eu havia estado com uma pessoa com um desses nomes. Ela me contou sobre sua decisão de se cuidar e se alimentar melhor. Claro! Devia ser ela. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que havia recebido o queijo, por sinal delicioso, e que queria me certificar se foi ela quem me presenteou com essa gostosura saudável. A resposta não demorou. Poderia ter sido ela, mas não foi. Ela me sugeriu vasculhar entre outras pessoas que gostam de mim tanto quanto ela. Liguei para o zelador. Sabia que não iria adiantar para muita coisa, mas talvez estivesse com necessidade de compartilhar o andamento dessa estranha situação. Sr. Mario, não era quem eu pensei que poderia ter sido... O senhor não lembra de mais nada? Deixe-me ver... Ah! A pessoa disse que era irmã do Marquinhos. Isso! Foi ele quem, na verdade, lhe mandou o queijo de presente. Marquinhos? É. Desse nome tenho certeza. Por que a senhora não olha no seu facebook? Fechei os olhos, balancei a cabeça e tive vontade de rir. Sr. Mario, se alguém aparecer falando do queijo ou da sacola, pode me ligar, estarei acordada. Olhei para o queijo e para a faca suja. Cortei mais um pedaço. Muito bom! Recordei que Marquinhos era o nome de um antigo cabelereiro. Durante um bom tempo cortei cabelo com ele. Conversávamos bastante, mas... Não. Não imaginava que ele iria surgir do nada usando um queijo como pretexto. Como se estivesse conduzindo uma charrete, eu segurei firme as rédeas e meus pensamentos me levaram para outro lugar. Há uns cinquenta e poucos anos convivi com outro Marquinhos. Foi no período do primário na escola. Será que aquele Marquinhos virou um fazendeiro que me descobriu e cheio de saudades apareceu, meio tímido, diga-se de passagem, deixando uma sacola térmica com um queijo de sua produção? Não consegui embarcar nessa fantasia. Na verdade, eu não podia ter certeza de nome algum. Comecei a pensar que talvez o queijo não era para mim. Algum outro morador era o destinatário daquela delícia. Experimentei pela primeira vez a sensação desconfortável de estar fazendo algo errado. Havia grandes chances de estar comendo um queijo que não era meu. Coloquei o queijo na geladeira e resolvi adiar a continuação desse episódio para o dia seguinte. Ao acordar, logo percebi que estava com o queijo na cabeça. Ou talvez com Marquinhos... Mas, que bobagem! Eu estava ficando atrasada para trabalhar. Minha mente ficou ocupada o dia inteiro o suficiente para não haver a mínima brecha para o queijo. Quando cheguei do trabalho à noitinha, não tive coragem de cortar outro pedaço. Confesso que, fora a quase certeza de que estaria comendo algo que não me pertencia, me veio um pensamento maluco de que alguém poderia querer se passar por uma bruxa igual a que deu a maçã envenenada para a Branca de Neve. Parei na portaria para falar com o Sr. Mario. Era folga dele. Perguntei ao outro funcionário se havia algum recado para mim. Nada. Deixei para fazer as devidas investigações no dia seguinte. Fui dormir certa de que havia alguma coisa bem errada. Quando amanheceu, corri para revirar novamente a sacola térmica em busca de um bilhete bem escondido nela. Inútil. Fui fazer compras. Será que devia ou não comprar queijo para o fim de semana? Afinal, Marquinhos me mandou um queijo lindo... Tive que rir e estava tão distraída que quase bati no carrinho de uma senhora. Ela percebeu que eu estava no mundo da lua e me disse que paixão de outono é mesmo uma maravilha. Eu sorri e deixei-a acreditar no que tivesse vontade. Voltei para casa, arrumei tudo e desci na portaria. Perguntei pelo Sr. Mario e fiquei sabendo que ele só viria de tarde. Puxa! A zeladora quis saber o que estava me afligindo. Comecei a falar da sacola térmica e do queijo e logo ela me interrompeu exclamando: Então foi a senhora? Fui... Pouco tempo depois, eu estava batendo na porta da legítima dona do queijo e da sacola. Levei meu livro de crônicas com uma dedicatória me desculpando pela deliciosa fatia que eu comi. Minha vizinha me ofereceu outra fatia. Demos algumas risadas. Saí daquele apartamento sem a sacola e sem o queijo, mas em troca estava com a crônica todinha na cabeça... 

PORTARIA VIRTUAL

Quarta, 25 Setembro 2019 18:44
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Após mais de um ano de discussões acaloradas nas reuniões de condomínio, finalmente a ideia vingou. Em nome de diminuir o valor do condomínio, abrimos mão de termos uma equipe de funcionários para nos atender no prédio onde moro. Teremos agora o que a modernidade atribuiu o nome de portaria virtual. Com certeza estamos deixando para trás hábitos antigos de mordomias que não cabem mais num mundo moderno. Apesar de não ser do agrado de todos, os moradores devem separar seus lixos orgânicos dos recicláveis e levá-los devidamente acondicionados até o local apropriado. Não há mais uma pessoa que recolhe diariamente o lixo que ficava no andar de cada um. Temos que andar com umas fichas chamadas tags para abrir portas e portões. Se as esquecermos, o jeito é falar por um dos interfones com alguém, que não temos a menor ideia de quem seja e de onde está e que vai nos indagar questões para ter certeza que somos quem somos antes de abrir nossas portas e portões que nunca estavam fechadas. O direito a ter essas fichas de “abre-te sésamo” é restrito as famílias dos moradores. Isso vem causando polêmica, pois há patrões que insistem em dar os tags para suas empregadas domésticas. Eles alegam que elas trabalham nos apartamentos há muito tempo e possuem as chaves dos apartamentos, portanto, nada as impede de serem consideradas como pessoas de confiança. Acredito que essa questão, como sempre ocorre em impasses das mais diversas naturezas, vai ser resolvida quando o bom senso prevalecer sobre a rigidez. As escutas precisam estar apuradas para que se entenda o que de fato incomoda.   Nossas sacolas pesadas ou malas de viagem não passarão das nossas mãos para as mãos calejadas e gentis de algum dos nossos antigos funcionários.  Encomendas devem chegar dentro de um horário estipulado para não darem com a cara na porta e terem que voltar para o lugar de onde vieram. O cheiro do prédio mudou. Quase diariamente litros de desinfetante com aromas florais eram esfregados desde o hall de entrada  até o último degrau da escadaria que vai até o decimo segundo andar. Hoje não é mais assim. Temos uma única funcionária que atende tudo o que for necessário durante seu horário de trabalho e uma vez por semana aparece uma faxineira que dá um tapa geral na limpeza. Dessa forma, o aroma de flores passou a existir só na memória de uns e outros como eu mais apegados a esses detalhes sensoriais. É uma nova era. Faz com que cada um seja muito mais responsável por tudo o que acontece ou possa acontecer no prédio. Aliás, parece que todos foram obrigados a refletir na existência desse espaço comum a que chamamos prédio. O apartamento, onde cada família mora, está inserido num espaço comum, que até então era apenas a passagem para chegar ou sair do próprio lar. Antes, se algo estava sujo ou quebrado, sabíamos que o zelador ou algum faxineiro iria resolver esse problema. Hoje estamos começando a entender que custa muito menos para todos nós se adotarmos um comportamento menos aristocrático e mais colaborativo. Alguns dos moradores já são capazes de catar folhas e papéis que o vento cismou de acumular na entrada do nosso prédio, ao invés de esperar que o dia da faxina chegue para que isso seja feito. Virou um assunto entre os moradores falar sobre nossa adaptação. Alguns falam da falta que sentem da pessoa que estava sentada quando passavam para sair ou entrar no prédio e lhes dava bom dia e as demais saudações. Eu sinto uma estranheza, olho para a cadeira vazia e tento engolir as palavras que ainda teimam em me escapar pela boca. Alguns moradores falavam que o fato de ter alguém sentado na portaria 24 horas lhes dava uma sensação de proteção. Tiveram que se render aos argumentos que lhes foram apresentados. A segurança total não existe. Nenhum porteiro poderá fazer nada diante de bandidos armados, por exemplo. E se alguém precisar de ajuda dentro do apartamento? Se cair? Teremos que pensar quem dos vizinhos pode prestar algum socorro. Antes ninguém precisava incomodar ninguém. Agora pode ser que aumente o grau de solidariedade entre os moradores. Esses funcionários trabalhavam conosco há pelo menos dez anos. Todos sabiam que eles faziam um trabalho que já não existe em muitas partes do mundo desde o século passado. Lembro-me da profissão dos ascensoristas de elevador que tinham como função acompanhar pessoas dentro dos elevadores, perguntar para qual andar iam e apertar o devido botão. Pode ser que muitos deles marcaram presença com toques de cordialidade ou humor. Muitos sabiam falar de política e traziam as principais notícias do dia espetacularmente resumidas já que o tempo para contá-las era pequeno. Apesar dessas qualidades ímpares, foram forçados a buscar outras ocupações. Penso que deve ter sido difícil, mas imagino quanta gente cresceu, se desenvolveu, estudou e foi buscar outras oportunidades. Os profissionais das portarias de prédios estão nessa mesma situação. Os anos de acomodação numa profissão fadada a acabar lhes conduziram ao ponto que chegamos. Foram indenizados, demitidos e nos deixaram órfãos de bajulações e paparicos que nos fizeram crer muito mais especiais e merecedores de atenções do que de fato somos. Num primeiro momento a sensação se aproxima a de termos caído do cavalo, mas já estamos sacudindo a poeira e logo estaremos nos levantando. Em alguns meses, após o pagamento de todas as rescisões, o valor do condomínio vai baixar. Com a diferença desse valor alguns moradores poderão comprar viagens, trocar de carros, pintar o apartamento ou fazer doações para causas sociais. Ou pode ser que o novo valor do condomínio, como atestam os estudos motivacionais relativos a aumentos de salario, logo se incorpore a realidade de cada um e nem se note uma grande vantagem por mais do que uns poucos meses. Então mergulharemos em reflexões e novas discussões sobre a mudança que teremos feito e sobre tantas outras que ainda haveremos de fazer.  

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