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UM PEDIDO BIZARRO

Terça, 15 Setembro 2015 14:20
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  Estávamos na piscina, duas fotógrafas e eu. Só nós três em toda aquela grande piscina ao ar livre, em pleno inverno, num fim de tarde de domingo. A água estava tépida e as árvores em volta balançavam devagar evidenciando que havia um vento suave. Quando as duas chegaram, eu já estava na água. Gostei de vê-las. Senti que elas também gostaram de me ver. Entraram na piscina sem se incomodar com a temperatura da água. Nadaram cinquenta metros e pararam perto de mim. Não demorou muito, começamos a papear. Com a ajuda de flutuadores, ficamos nos mexendo fazendo discretas alegorias com as pernas e com os braços. Não somos íntimas, nem nos conhecemos há muito tempo. Ainda assim as palavras saíam fáceis. Falamos de casos que aconteceram conosco, coisas que pareciam que tinham que vir à tona. Junto com a conversa me veio a sensação de termos colocado cadeiras na frente de nossas casas, numa rua de um bairro, num interior qualquer, bonito, calmo e muito gostoso. E eu que nunca morei em casa, nem no interior, muito menos levei cadeira para parte alguma para conversar com vizinhas! Será que estaria eu sob o efeito de alguma magia produzida pelas cores do fim de tarde ou pelas fotógrafas falantes? Não sei. A prosa seguiu e eu contei para elas que iria fazer uma viagem em breve. Fazendo um pequeno mistério, disse que era um lugar diferente e que elas não iriam adivinhar. Depois que elas falaram algumas possibilidades exóticas, fui benevolente e contei: Alaska. Notei que ficaram pasmas. Ambas deram gritinhos de euforia e foram alternando observações sobre meu destino: Um cruzeiro perto do Polo Norte. Um encontro com ursos polares! As cores desse lugar, as fotos maravilhosas... De repente pararam. Durante a pausa uma olhou para outra. Um olhar sapeca, levado e divertido ao mesmo tempo. Então, a mais velha, não se conteve e pediu para irmã falar. Vai, fala... Pode pedir... Não tem nada de mais... Ela não vai pensar que você é louca... Ela sabe que você é artista e artistas têm dessas coisas... Fiquei curiosa. Sabia que estava para escutar algo incomum. Ela começou como quem tateia no escuro. Bem, eu tenho uma coleção... Com mais confiança seguiu. Uma coleção vinda de várias partes do mundo. Fique à vontade se não quiser trazer. Não preciso lhe dar dinheiro, pois não custa nada. Nem vai pesar muito ou ocupar espaço demais na sua bagagem. Queria que você me trouxesse uma coisa do Alaska. Do que se trata?  Tenho quase certeza de que nessa hora elas se olharam e piscaram. Pode ser que até riram. Foi tudo muito rápido. Ar. Essa foi a resposta. Escutei perfeitamente e nem duvidei de ter confundido o som e ter chegado à palavra errada. De qualquer forma, achei melhor me certificar. Você quer que eu lhe traga o ar do Alaska? Sabia que você iria entender logo! Escolha um lugar especial e coloque no vidrinho que vou lhe dar. Você pode fazer isso? Respondi sem hesitar, talvez estivesse abduzida. Posso. De verdade? Sim. Não acha que é loucura? Bem... É, no mínimo, um pedido inusitado... O vento, que até então estava agradável, foi sendo substituído por uma brisa gelada. Notei que havia escurecido. Era hora de ir embora. Saímos da água e rapidamente nos enrolamos em nossas toalhas. Estava muito frio. Uma pressa necessária e esquisita fez com que nos despedíssemos de forma súbita. Elas correram para o vestiário e eu fui embora pela rua escura com o meu roupão em cima do maillot molhado. Os dias foram passando sem muito tempo para nada além dos afazeres de rotina. Na véspera do dia da viagem, enquanto fazia a lista do que pretendia levar, tocou o interfone. Era para avisar que uma senhora havia deixado um pequeno embrulho para mim. Fui até a portaria. O porteiro me entregou um pequeno vidro dentro de um saquinho de pano. Coloquei-o na palma da minha mão. Um vidrinho de geleia protegido por um pano. Quando entrei no meu apartamento, meu marido quis saber se fui buscar alguma coisa que ele havia comprado pela internet. Murmurei que não e já ia começar a contar o que fazia com aquele vidrinho na mão, quando ele me interrompeu dizendo que estava apurado e sem tempo para conversarmos. Completou dizendo que teríamos tempo de sobra durante a viagem. Apertei o vidrinho na minha mão e senti que alguma coisa diferente estava começando e mexendo comigo. Escolhi uma mala pequena e conveniente. Com cuidado, acomodei o vidrinho e depois todo o resto. A longa viagem transcorreu bem, sem surpresas. Quando finalmente entrei no navio onde faria o cruzeiro pelo Alaska, a primeira coisa que fiz foi me sentar e me certificar de que estava acordada. Era tudo tão bonito! Bonito demais! Como cheguei ali? Será que estava tudo certo mesmo? Alguns pensamentos começaram a rodopiar na minha cabeça. Viajei... Os outros passageiros deviam ser da realeza de algum lugar e eu teria entrado escondida... Era um engano! Meu navio deveria ser outro e como ninguém notou o erro, o embarque aconteceu. A qualquer momento, a polícia poderia chegar e me fazer descer daquele navio tão lindo... Meu marido, sem perceber, acabou com meu devaneio, convidando-me para almoçar. De braços dados com ele, fui me deixando inundar por um sentimento profundo de gratidão pelo privilégio de estar vivendo tamanha felicidade. Esse sentimento me acompanhou por toda a viagem.   Depois de um dia e meio de navegação, chegamos à primeira cidade do Alaska, Wrangel. Coloquei uma pochete que se mostrou perfeita para carregar documentos, cartão da cabine do navio, algum dinheiro e ainda o vidrinho. Andei de caiaque e me deslumbrei com cenários belíssimos. Fiquei uma hora e meia envolta pela natureza. Como uma música de fundo, podia escutar o som dos remos entrando e saindo da água. Precisei parar alguns minutos a fim de usufruir do silêncio daquele lugar. Toquei no vidrinho. Não. Não senti que era ali. Como é possível ter certeza? Eu tinha. Nas horas em que fiquei em Wrangel andei bastante e olhei para tudo como querendo absorver o cenário. Voltei inebriada e exausta para o navio. Mas não era dali o ar que iria para o vidrinho. O cruzeiro passou por várias cidades. Em cada uma delas, parei para sentir se era ou não o local para abrir o vidrinho e capturar o ar do local. Que poder estranho estava eu imbuída! Foi em Ketchikan, na última cidade que conheci do Alaska, que senti a certeza que estava aguardando. Essa foi a primeira cidade do Alaska e, atualmente, é a quinta cidade mais populosa deste estado americano com cerca de 8.000 habitantes. Quando escutei que Ketchikan é uma cidade com um clima muito chuvoso e frio na maior parte do tempo, fiquei buscando entender como as pessoas poderiam viver num lugar assim. Fui num museu. Assisti um filme (Ketchikan: The Artists ) que me deu a resposta que procurava. Ketchikan se transforma numa usina de artes e muita criatividade durante os longos meses de clima inóspito. Eles dançam, fazem teatro e apresentações musicais; fazem trabalhos com retalhos, fazem pinturas usando várias técnicas, fotografam, bordam e fazem esculturas. Todas essas atividades se tornam meios para que a vida aconteça de uma forma mais suave, mais feliz, mais sensível, bela e em grupo. Enquanto o filme passava pelos meus olhos, minha intuição foi se tornando certeza. Definitivamente, era de Ketchikan o ar que tinha que levar no vidrinho para minhas amigas fotógrafas. Ao sair do museu, numa cerimônia simples, mas significativa, abri a tampinha do vidrinho de geleia, pensei nas minhas amigas, na nossa conversa na piscina, pensei na felicidade que desejo para elas e capturei o ar daquela cidade. Cheguei do Alaska já faz uns dias. Precisava entregar o vidrinho, mas queria entregar junto com algumas palavras. Agora sinto que está tudo certo. Já posso deixar o vidrinho na porta delas. Começo a pensar que alguém, algum dia irá ter essa mesma incumbência que eu tive. E assim a coleção de ar de lugares especiais do mundo vai crescendo... Lindo! Definitiva e delicadamente lindo!  

DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34
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(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

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