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Sábia decisão

Sábado, 18 Agosto 2012 00:00
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Ele estava mal. Para onde olhasse, estava tudo em desordem e tudo sem saída. As contas, algumas vencidas, e os projetos para dar andamento estavam lado a lado em cima da mesa, ou piscando na tela do seu maldito computador. Numa tentativa de escapar de alguma coisa ruim que estava bem dentro dele, avisou que ia sair, bateu a porta e num minuto alcançou a rua. Não tinha fome, nem sede. Aliás, nem vontade de andar ele tinha, mas se empurrou e foi. Os passos foram lhe levando e não havia importância se ia para direita ou esquerda, muito menos se andava rápido ou devagar. De repente, passou a mão no rosto. Estava sem se barbear. Essa revelação de desleixo lhe incomodou. Não queria escancarar seu baixo astral. Lembrou que seu pai falava muito sobre a importância de respirar, abrir os pulmões e se encher de vida. Parece que fazer essas inspirações mais profundas podiam lhe ajudar em alguma coisa. Sabia que, no mínimo, lhe colocavam mais perto dos conselhos do seu pai e isso já lhe dava uma espécie de consolo ou alívio. Mexeu os ombros como se quisesse soltar algum parafuso que estava lhe prendendo. Foi conseguindo ficar mais leve e até colocou sua cabeça mais ereta. Notou a cor do céu e gostou de olhar as árvores floridas. Parecia que havia encontrado um rumo legal para achar pensamentos que não lhe torturassem. Uma buzina o despertou assim que ele, inadvertidamente, deu alguns passos para atravessar a avenida. Tá maluco? Quer morrer? Ficou surpreso em ouvir justamente perguntas que estavam no porão da sua mente. Encolheu-se. Não sabia para onde ir, mas o juízo lhe disse que tinha que voltar para o trabalho. Foi voltando. Chegou à sua sala e constatou, sem nenhuma surpresa, que nada havia mudado por lá. Abriu a janela. Resolveu dar uma ordem naquela bagunça. Jogou fora montes de papéis. Separou cartões e anotações importantes. Fez algumas ligações e tomou providências. Quando acabou de limpar a sua caixa de e-mails já estava escurecendo. Deu-se conta de que havia conseguido melhorar, mas dessa vez não foi nada fácil. Tomou a decisão de que era inadiável destrinchar o emaranhado perturbador que vinha lhe assombrando. Chega! Era hora de buscar ajuda.

Leo

Quarta, 04 Maio 2011 16:38
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Leo está prestes a completar um mês. Fecho os olhos para relembrar os momentos mágicos, a poesia e as pitadas surreais do seu nascimento. Foi do jeito que minha nora e meu filho desejaram e se preparam. Foi na casa deles, com uma parteira, uma doula e uma pediatra. Enquanto ele nascia no banheiro de seus pais, havia um homem montando um armário, num dos quartos da casa, que não percebeu nada de extraordinário acontecendo. Isso parece piada, mas é a prova de que tudo transcorreu no maior sossego. Faço minha memória voltar para o dia 15 de abril, uma sexta feira, quando meu filho me ligou e me perguntou se eu gostaria de conhecer Leo, meu neto. Depois que consegui entender a mensagem, fiquei atordoada. Ou vice e versa... Peguei minha bolsa e com as chaves do carro na mão, fui para o elevador. Mudei de idéia e voltei para buscar uma torta que eu havia acabado de assar. Dando a partida no carro, liguei para o meu marido. Ele já sabia e estava a caminho também. Cheguei e entrei direto no quarto do casal. Leo estava nos braços de sua mãe com seu pai ao lado. Meu filho e minha nora tinham no olhar um brilho de muita emoção. Reparei então nas mulheres que estavam lá trabalhando. Pareciam ter estendido uma tenda de proteção e amor naquele quarto. Tive, então, a nítida impressão de sentir a presença de meus pais, sogro, irmão, meus avós e até da minha Tia Pola. Dei um jeito de cumprimentá-los. Acho que só Leo notou. Peguei-o nos meus braços e revivi pela terceira vez a sensação abençoada de entrar em contato com uma vida que havia acabado de começar. Coloquei Leo no colo do meu marido e ele também se embriagou de emoção. Passamos a ouvir os relatos de como as coisas aconteceram. A parteira e a doula acompanharam com calma a evolução das contrações. Minha nora se comportou o tempo todo corajosa e tranquila. A banheira com água quente, segundo ela, aliviou bastante as dores. Meu filho foi um companheiro maduro e amoroso. Ninguém interferiu com manobras, muito menos com instrumentos. Às 09h58min Leo nasceu e logo chorou, ao respirar pela primeira vez, sem que ninguém lhe batesse para isso. Quando a pulsação do cordão umbilical cessou, meu filho cortou-o. O relato nesse instante foi interrompido, pois a pediatra foi examinar Leo. Ele estava bem. A doula tratava de deixar tudo em ordem. A parteira certificava-se das boas condições da sua parturiente. Parecia que estavam todas para ir embora. Senti que era uma hora propícia para um café com torta de ricota embora fosse quase meio dia. Minha nora adorou a idéia. Cada um comeu um pedaço da torta e com o café fizemos o primeiro brinde à saúde do Leo. Foi uma festa! Quanta alegria naquele quarto! Posso jurar que vi meu avô dançando, minha avó pedindo para ele se comportar, meu sogro e mamãe com lágrimas nos olhos, Tia Pola e Julio sorrindo e meu pai piscando para mim, como me dizendo que a vida vale muito a pena, exatamente por momentos como esse.

Felipe

Quarta, 24 Outubro 2012 15:04
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Quando li a notícia não entendi. Ou melhor, não quis acreditar. Um dia antes, havia uma enorme corrente rolando na internet pedindo doação de sangue para esse menino. Como era possível tudo ter acabado? Felipe morreu. Não, eu não o conhecia. Posso dizer que sou amiga de longa data de primos dele, mas não entendo que precise me explicar por ser solidária nesta dor. Felipe tinha onze anos e, como se costuma dizer, uma vida inteira pela frente. Foi fácil descobrir que ele gostava do mar e que tinha muitos amigos. Está tudo documentado na rede social. Imagino que deva ter aprendido a surfar com o pai. Imaginar cenas de Felipe surfando não combina em nada com a tragédia que brutalmente se abateu sobre esse menino, mas são ondas e pranchas que chegam junto com Felipe na minha mente. Felipe foi cremado há poucos dias. As fotos dele e as mensagens trocadas entre parentes e amigos ainda salpicam pela internet e me convidam a pensar na vida e na morte. Consegui falar por telefone com sua prima, que me fez saber que Felipe foi atingido por uma bactéria assassina. Uma pequena ferida pode ter sido a porta de entrada para essa tragédia. Difícil ter alguma certeza, além da que nos faz refletir sobre a fragilidade da nossa existência. Trocamos algumas frases. Queria ser capaz de dizer alguma coisa que ajudasse, mas estava muito emocionada e foi ela quem me explicou que estão todos muito tristes, mas que falam da chegada de Felipe no céu quase como se fosse uma linda solenidade. Falam de outros assuntos que já não incluem Felipe. Ouço ainda que, apesar de estarem esfacelados, tentam cair de pé. Esse jeito de enfrentar adversidades, resume minha amiga, é marca registrada da família que Felipe e ela pertencem, a família K. Desligamos e me lembrei que de dois em dois anos, já é uma tradição, as centenas de membros da K, vindos de vários pontos do planeta, se juntam e sem medo de fazer muito barulho explodem em manifestações de alegria e também sem nenhum pudor, extravasam suas muitas outras emoções. No próximo encontro, imagino que Felipe estará mais do que presente. Também imagino o quanto o sorriso doce desse menino vai iluminar o caminho dos que seguirão suas vidas sem ele. E assim, irmanada com os K, vou me voltar para as outras direções que minha vida exige.

Diálogo

Sexta, 04 Janeiro 2013 15:50
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- Outra vez? - É. Eles vão se mudar novamente. - Já mudaram tanto... Você já devia estar acostumada. - Verdade, mas dessa vez não são só os dois, os netos vão junto. - Você sabe o motivo? - Claro! Além de um belo projeto de trabalho, eles têm um sonho de viver entre amigos de acordo com as crenças e os valores deles. - Parece bem legal. - Claro que é. Conheço e gosto muito dos amigos que farão parte dessa aventura. Só posso torcer para dar certo. - Então, qual o motivo desse ranço de tristeza? - Tenho muita pena de me afastar das crianças. - Ah! Você está com pena de você... Golpe baixo, não acha? - Não queria estar me sentindo assim como uma coitadinha, mas essa coisa de ficar longe dos netos me pegou em cheio. - Você tem parentes e amigos que têm os filhos e netos na Bahia, nos Estados Unidos, na Austrália, na França, em Israel... - Eu sei, realmente fica impossível choramingar perto deles. Tenho pensado bastante e creio que essa busca de um lugar melhor, de uma vida melhor demonstra ter uma relação direta com a necessidade de se afastar dos progenitores. É duro aceitar que um filho possa precisar se afastar de mim... - Faz muito sentido. Poderíamos ficar aqui filosofando sobre a luta pelo poder e sobre a necessidade dos filhos de obterem o reconhecimento dos pais. - É, tem muita coisa para refletir, mas acredito que não tenha nada a ver com menos amor. - Claro que não! Não posso deixar de pensar que apesar de amar muito, também me afastei de meus familiares. - Então, você tem que admitir que também escapou da toca para conhecer outros mundos e outras pessoas. - Admito. Meu marido e eu tínhamos uma boa explicação. Ele recebeu uma boa oferta de promoção para trabalhar em outro estado. - Você sabe que poderiam ter recusado. - Verdade. Poderíamos ter ficado junto de nossos pais e irmãos. No entanto, resolvemos que tínhamos que conferir a oportunidade que apareceu para nós. - Foi difícil enfrentar a separação? - Foi. Lembro que choramos muito em diversas oportunidades, mas a maior choradeira foi na véspera de irmos de mudança. - Quem chorou? - Meu marido, eu, nossos filhos e cada um que abraçamos. Era para ser uma festa de despedida... - E depois? - Afirmo de boca cheia que não há como ter arrependimentos. Afirmo também que os laços com os nossos familiares queridos não se afrouxou. Seguimos nos amando e aprendemos a lidar com a distância. - Então é a sua vez de entender a necessidade deles de bater asas. - Eu sei... Agora meu papel é o de quem fica, de quem torce e aguarda as notícias. Vou tratar de arrumar uma mala leve e um monte de dias para viajar. - Trate de incluir seu marido nesse seu plano para 2013. - Ah! Ele vai estar junto. Tenho certeza. - Assim é que se fala! Até seu sorriso voltou! - Foi muito bom conversar com você. Obrigada. - Não há de quê. Se precisar, sabe onde me achar...

PÉROLA INESPERADA

Segunda, 07 Janeiro 2013 10:52
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Fiz um intervalo. Fui tomar um café na padaria. Sentei-me de forma a apreciar o movimento da rua. Sempre faço isso. É como se entrasse num cinema, sem pagar ingresso e sem saber que filme vai passar. Foquei numa dupla de passantes. Os dois caminhavam lado a lado. Nada diziam. Pareciam ocupados com pensamentos sérios. O céu estava cinza e não demorou a despejar chuviscos. Os pingos da chuva logo engrossaram. Para evitar ficarem molhados, precisavam correr e buscar abrigo. Não foi o que fizeram. Deram a entender que queriam mesmo sentir a água fria e experimentar as sensações que viriam a seguir. Não demoraram a começar a rir. Do nada. Como se tivessem chapados. Não creio que estavam, mas quem há de saber? A chuva deve ter acordado algumas partes que andavam adormecidas neles. Era nítida a sensação de alegria que vinha de dentro deles. Deram-se as mãos. A rua passou a ser o palco deles. Ora corriam um pouco mais, ora davam passos mais lentos. Num dado momento, ergueram os braços numa demonstração nítida de que não tinham medo dos trovões, nem dos relâmpagos. Foi lindo de se ver! Dançaram ao som da tempestade. Não deixaram escapar nenhuma poça. Pularam em todas. Sempre rindo. Até as bengalas ajudavam na coreografia. Devia fazer muito tempo que não encaravam uma loucura dessas. Quando a chuva acalmou, eles estavam abraçados, encharcados e com jeito de sentirem falta de ar. Notei que havia acabado meu café. Levantei. Tive vontade de bater palmas, mas paguei minha conta e voltei para trabalhar.

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