Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: Trabalho - Vista da Janela

A infratora

Segunda, 15 Outubro 2012 15:13
Publicado em Blog
Enquanto se dirigia à sala do chefe, foi fazendo uma retrospectiva do que lhe aconteceu, desde que no café da manhã soube que iria estrear uma peça em sua cidade. Antes de começar qualquer coisa no trabalho, buscou as informações que precisava na internet e, movida por um impulso incontrolável, saiu de mansinho sem falar com ninguém. Quando chegou ao local para comprar os ingressos, não tinha vaga para estacionar, mas um rapaz bem apessoado orientou-a para deixar o carro em cima da calçada. Foi o que fez e, correndo, entrou no prédio. A recepcionista que lhe atendeu, apresentou-lhe quase todos os dentes num sorriso largo, disse para ela se sentar e aguardar. Quis explicar que tinha pressa, mas a mocinha mostrou-se ocupada. Uns vinte minutos se passaram. A mulher que queria ir ao teatro, impaciente,  começou a andar de um lado para o outro na frente do balcão da recepção. A recepcionista, já sem seu sorriso inicial, decidiu usar uma técnica infalível. A senhora entende... O sistema está lento e tudo fica difícil... O arrependimento se estampou no rosto da mulher, quase ao mesmo tempo em que o rapaz bem apessoado surgiu dizendo que tinha um guarda lá fora fotografando o carro na calçada. O guarda se empertigou ao ver a mulher chegando aflita. Então, é a senhora a infratora? Não! Sou do bem. Só pensei que não ia demorar... Minha senhora, isso não é desculpa. Não atrapalhei nada... Se alguém quisesse passar, a senhora nitidamente atrapalhou!  Mas... Quer mesmo discutir?Está na cara que a senhora é uma dessas que nos enxergam como pilantras. Eu?!!! Nunca! Eu gosto de vocês... Que nada! A senhora deve falar que somos da indústria das multas... De jeito nenhum! E como quem saboreava um prato inigualável, o guarda espichou a conversa. Quando achou que já havia espezinhado a coitadinha o suficiente, liberou-a, dizendo que dessa vez ia deixar passar. A infratora agradeceu a gentileza, sabendo que ele estava blefando. Voltou para o trabalho. Estava chateada por conta da multa e frustrada sem os ingressos. De longe, dava para ouvir seu nome sendo berrado pelo chefe. Ainda teria que contar tudo para o marido. O dia parece que ia ser longo...

Executivo em trapos

Sábado, 25 Junho 2011 16:47
Publicado em Blog
Ele sempre soube que não era nenhum super homem. Ainda assim, vivia como se nada pudesse lhe atingir. Trabalhava sem moderação. Usava ternos impecáveis e seu andar dava a impressão de ser alguém cheio de orgulho de si mesmo. Um tipo que acreditava que deu certo. Era um desses executivos que constantemente viajava pelos quatro cantos do mundo para se encontrar com pessoas muito ocupadas e, provavelmente pensava que eram tão importantes como ele. Sua cabeça estava ligada nos assuntos de trabalho todas as vinte e quatro horas de cada dia. Tinha uma família. Todos tinham tudo e muito. Isso significa, embora nem fosse preciso esclarecer, que tinham carros, boas roupas, jóias e tudo o que podiam comprar. De vez em quando, esse homem levava a esposa e filhos a um bom restaurante ou até a uma viagem ao exterior. Como sua cabeça não largava o trabalho, eram raros os momentos em que ele realmente aproveitava algum lazer. Claro que a sequência deste relato era previsível. Desenlaces como o desse homem, já aconteceram em muitas famílias e muitas empresas têm arquivados casos semelhantes. O cara adoeceu e todo mundo pensou que ele iria morrer. O desespero bateu forte. Houve um tempo sombrio e terrível. Nesse ponto tudo poderia voltar a ser como era ou, numa virada de mesa surpreendente e espetacular, poderia acontecer o início de um processo de transformação. Incrível como a sua família se comportou! Nem a mulher, nem os filhos, aguentaram ver aquele homem tão abatido, tão borocoxô. Revezaram-se para não lhe deixar só. Como não estavam acostumados com ele, não sabiam bem o que fazer para lhe alegrar. Nada parecia lhe dar prazer. Como tinham vontade de vê-lo logo curado, concluíram que ele sofria por estar longe de tudo o que se relacionava a trabalho. Com a melhor das boas intenções, colocaram seu computador e seu celular na cabeceira. Bateram palmas quando perceberam que as ligações estavam voltando a pipocar. O homem melhorou. A família ficou aliviada. Isso quer dizer que ele conseguiu colocar sua velha máscara, toda a sua fantasia e saiu novamente voando pelo mundo afora. Depois de um tempo, exatamente como era de se esperar, um novo episódio de doença aconteceu. Dessa vez, foi mais grave. Ficou acamado, com muitas dores e bastante deprimido. Fui vê-lo. Fui com o intuito de escutar seus fundos de olhos e decifrar seus menores movimentos. Estava abatido. Era como um animal ferido que fora capturado. Não estava nada bem. Quase não reagia. Ainda assim, escutei um som terrível de agonia muda. Por um momento, me reportei ao famoso quadro, " O Grito" , do norueguês Edvard Munch. Fiquei chocada com a força do desespero que senti vinda daquele homem. Claro que posso ter feito uma projeção. Não duvido, nem discordo. Afinal, tenho clareza da minha indignação quanto a maneira que muitas empresas tratam seus recursos humanos. É tudo tão sutil, que nem parece errado ou abuso. Exigem, sem declarar, dedicação absoluta, tempo, suor, saúde e tudo o que ainda conseguirem espremer. Reinam através do horror que as pessoas sentem de poderem ser mandadas embora, se não atenderem às expectativas, ou falando de forma mais chula, se mijarem fora do penico. Compram almas por moedas brilhantes e de valores duvidosos. É tão difícil conseguir entrar numa empresa! Aquele que consegue, acredita que é uma honra ou um privilégio, no mínimo. Passa então a fazer de tudo para agradar. Tudo passa a ser pouco. Faz mais. Vai esticando a corda...Voltei meu olhar para o homem na cama. Que triste figura! Parecia um trapo emaranhado em lençóis. Desejei que lhe fosse possível enxergar toda a loucura de vida em que se enfiou e que ainda lhe restassem forças para um pulo. Por fim, torci para que ele também fosse capaz de escutar fundos de olhos, afinal os meus lhe falaram um bocado!

Pausa

Sábado, 30 Julho 2011 20:28
Publicado em Blog
Faz bastante tempo, no consultório, escutei um rapaz me dizer que torcia para ficar com gripe ou resfriado nos finais de semana. Achei estranho. Minha fisionomia mostrou-lhe que não alcancei onde ele queria chegar. Ele notou. Explicou que era pelo cansaço. Se estivesse doente poderia descansar, caso contrário a agenda familiar era sempre lotada. Fiquei com pena dele. O tempo passou. Num intervalo de um trabalho numa empresa, há alguns anos, um executivo me falou que, de tempos em tempos, se dava uma tarde ou um dia de "bem súbito". Era um tempo para curtir. Se tivesse um mal súbito teria que parar tudo e cuidar de si. Então, achou sensato se brindar dessa forma. Semana passada, lembrei-me desses dois fatos. Retornei gripada das férias. O corpo doía, estava toda congestionada e com um frio que cobertor e pijama não davam conta de resolver. Tomei remédio, chá e um banho quente. Fui dormir pensando que amanheceria curada. Besta ilusão dos que se acreditam tão importantes... Tive que ser sensata. Fiz ligações e desmarquei tudo. Comecei a sentir uma certa empolgação. Ajeitei um livro na cabeceira e me vi diante de vinte e quatro horas só para mim. Embora a gripe tirasse um pouco do encanto da situação, me dei conta de que saberia tirar proveito do meu dia. O livro que devorei era sobre Chico Buarque, escrito por Wagner Homem e me foi dado por uma grande amiga meses atrás. Ela me convidou para um café com bolo de fubá na sua casa. Só nós duas. Tínhamos não muito mais que uma hora. Como amantes apressadas, tiramos os sapatos e nos esparramamos à vontade no chão. Poderíamos usar aquele tempo falando de mil coisas. Não nos faltavam assuntos. Nunca faltou. Gracinhas dos netos, histórias envolvendo maridos e outros parentes, tudo foi falado rapidamente, como se fosse introdução. Para marcar bem a cena, minha amiga se levantou e por instantes sumiu. Quando retornou, tinha um livro para me dar. Fez questão de folheá-lo comigo. Sabia que eu iria gostar. Estava tudo lá: nossa época de juventude e as músicas que sabíamos de cor. A hora que tínhamos voou. Cantamos A Banda, Meu Refrão, Pedro Pedreiro, Folhetim e muitas outras. Cantamos emocionadas, como quem sabe um idioma incomum e acha um parceiro para conversar. Pensei que iria ler logo esse tal livro, mas as urgências e as obrigações não me davam nenhum espaço livre. Minha gripe deu. Entendi plenamente o rapaz que torcia pelo seu álibi de fim de semana. Sem nenhum desgaste, sem discussões, bastou mencionar a gripe e tudo pôde ser cancelado ou adiado. Na manhã seguinte, talvez levada pela gostosa sensação de não precisar fazer nada, tive vontade de viver um "bem súbito". Resolvi tirar mais um dia, acabar o livro, andar devagar pela minha casa, não atender celular, nem checar mensagens no computador. Tirei sonecas no meio da manhã, tomei banho fora de hora, almocei quando senti fome e chorei olhando as flores iluminadas pelo sol da tarde na minha varanda.

Diálogo

Sexta, 04 Janeiro 2013 15:50
Publicado em Blog
- Outra vez? - É. Eles vão se mudar novamente. - Já mudaram tanto... Você já devia estar acostumada. - Verdade, mas dessa vez não são só os dois, os netos vão junto. - Você sabe o motivo? - Claro! Além de um belo projeto de trabalho, eles têm um sonho de viver entre amigos de acordo com as crenças e os valores deles. - Parece bem legal. - Claro que é. Conheço e gosto muito dos amigos que farão parte dessa aventura. Só posso torcer para dar certo. - Então, qual o motivo desse ranço de tristeza? - Tenho muita pena de me afastar das crianças. - Ah! Você está com pena de você... Golpe baixo, não acha? - Não queria estar me sentindo assim como uma coitadinha, mas essa coisa de ficar longe dos netos me pegou em cheio. - Você tem parentes e amigos que têm os filhos e netos na Bahia, nos Estados Unidos, na Austrália, na França, em Israel... - Eu sei, realmente fica impossível choramingar perto deles. Tenho pensado bastante e creio que essa busca de um lugar melhor, de uma vida melhor demonstra ter uma relação direta com a necessidade de se afastar dos progenitores. É duro aceitar que um filho possa precisar se afastar de mim... - Faz muito sentido. Poderíamos ficar aqui filosofando sobre a luta pelo poder e sobre a necessidade dos filhos de obterem o reconhecimento dos pais. - É, tem muita coisa para refletir, mas acredito que não tenha nada a ver com menos amor. - Claro que não! Não posso deixar de pensar que apesar de amar muito, também me afastei de meus familiares. - Então, você tem que admitir que também escapou da toca para conhecer outros mundos e outras pessoas. - Admito. Meu marido e eu tínhamos uma boa explicação. Ele recebeu uma boa oferta de promoção para trabalhar em outro estado. - Você sabe que poderiam ter recusado. - Verdade. Poderíamos ter ficado junto de nossos pais e irmãos. No entanto, resolvemos que tínhamos que conferir a oportunidade que apareceu para nós. - Foi difícil enfrentar a separação? - Foi. Lembro que choramos muito em diversas oportunidades, mas a maior choradeira foi na véspera de irmos de mudança. - Quem chorou? - Meu marido, eu, nossos filhos e cada um que abraçamos. Era para ser uma festa de despedida... - E depois? - Afirmo de boca cheia que não há como ter arrependimentos. Afirmo também que os laços com os nossos familiares queridos não se afrouxou. Seguimos nos amando e aprendemos a lidar com a distância. - Então é a sua vez de entender a necessidade deles de bater asas. - Eu sei... Agora meu papel é o de quem fica, de quem torce e aguarda as notícias. Vou tratar de arrumar uma mala leve e um monte de dias para viajar. - Trate de incluir seu marido nesse seu plano para 2013. - Ah! Ele vai estar junto. Tenho certeza. - Assim é que se fala! Até seu sorriso voltou! - Foi muito bom conversar com você. Obrigada. - Não há de quê. Se precisar, sabe onde me achar...

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook