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Lembrança doída

Terça, 02 Agosto 2011 20:31
Publicado em Blog
A história que ela me contou se passou há muitas décadas. Lágrimas corriam pelo rosto da mulher que voltava a ser menina ao reviver sua memória. A fala era lenta e o tom baixo. Nunca consegui lhe agradar. Tentei a vida toda. Queria a aprovação da minha mãe. Será que era querer muito? Fez uma pausa como se fosse escolher a refeição num cardápio e assim elegeu um episódio de sua vida para me contar. Prosseguiu. Quando tinha menos de sete anos, minha mãe me ensinava a costurar e bordar. Ela, tal qual uma fada, fazia trabalhos dignos dos mais sinceros elogios. Ela, sem a mínima noção, esperava de mim, uma criança, o mesmo desempenho. Com pouco tempo aprendi a usar o dedal e a não me machucar com a agulha. Era uma garotinha pequena, mas capaz de ficar absorta com um monte de linhas coloridas por horas, só para estar na companhia de minha mãe. Meu lugar era numa cadeirinha de criança, que ficava ao lado da poltrona onde ela se sentava. Não conversávamos. Eu tinha a impressão que minha mãe não se divertia enquanto bordava ou costurava. Estava sempre séria. Quando eu tentava puxar algum assunto, ela me cortava dizendo que era imprescindível total atenção e concentração. Apesar de todo meu esforço para fazer um belo trabalho, aprendi a aceitar a ferocidade crítica de minha mãe. Sempre que eu mostrava para minha adorada mãe meu paninho bordado, ou um botão pregado, ela puxava violentamente uma linha desfazendo tudo o que eu havia feito. E, tal qual a mais temível bruxa, bradava uma única palavra: Refaça! Lembro que sentia uma dor no peito quando isso acontecia. Será que eu inventava essa dor? Sentia também muita vontade de chorar, mas prendia o choro para não enfurecer mais ainda minha mãe. Fora o medo, também tinha pena dela. Achava que ela devia ser triste por ter uma filha tão incapaz, tão burrinha! E, para alcançar um sorriso dela, um afago ou alguma palavra menos ríspida, eu me sujeitava, sem dar um pio, a sempre refazer tudo. Foi assim que aprendi a bordar, a costurar, e, principalmente, a me achar inferior. Minha mãe nunca teve consciência do mal que me fez. Atualmente ela é uma velhinha. É lúcida e gosta de contar essa mesma história rindo e orgulhosa de ter me ensinado a ser prendada. Ela me dá a impressão que, ainda hoje, seria capaz de puxar as linhas do meu bordado, jogar fora a comida que cozinhei ou destruir qualquer coisa que eu tenha feito só para me mandar refazer tudo.

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