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Impasse

Sábado, 02 Julho 2011 18:06
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Ela havia concordado em desistir. Foi capaz de entender que uma festa custaria caro e que ninguém estava com dinheiro sobrando. Pareceu entender também que na vida temos que ter prioridades e bom senso. Seu noivo estava guardando tudo o que podia para comprar um carro. Eles iriam morar nos fundos da casa da avó dele e não iriam pagar nada por isso. Então, abrindo mão do vestido, das flores, das fotos e filmes, dos doces e bolo e mais algumas despesas poderiam começar a vida de casados sem dívidas. Parecia perfeito. Mas, como uma flor esquecida num vaso com pouca água, ela foi murchando. Havia nela um desejo que estava sendo atropelado por falas coerentes. O rapaz, muito bonzinho, bastante batalhador, mas imaturo e pouco sensível, não entendeu o que se passava com ela. Numa conversa com amigos, lhe orientaram para caprichar mais no sexo. Ele tentou, mas não era nada disso que ela queria. Rejeitou a oferta do seu macho fechando a cara, as pernas e assim, fechou também o tempo, provocando uma grande tensão no ar. Como o estrago já estava mesmo feito, ela juntou coragem e como diriam os mais simples, enfiou o pé na jaca voltando ao tema da festa de casamento. Ele se mostrou sem paciência. Que saco! Já estava tudo certo. Você adora falar de coisas que já foram resolvidas! Com os olhos espantados pelo exagero que sentiu na reação dele, a noivinha abriu seu peito e mostrou o que estava lhe fazendo mal. Se concordamos casar sem festa e pareceu para você que estava tudo certo, saiba que não está. Aliás, para mim nunca esteve. Gosto de imaginar a alegria e emoção de ter nossos parentes e amigos nos abraçando, dançando e festejando a nossa união. E as contas? Fala gatinha, quem vai pagar? Para tudo existe um jeito na vida... Claro! Eu posso me matar de trabalhar, me enforcar com dívidas e comprar sua noite de princesa... É assim? Calma, podemos fazer a festa no salão do condomínio da sua irmã, podemos preparar comidas, como se fazia antigamente, um bando de mulheres na cozinha dando conta de tudo. Iria ser bárbaro contar com esse mutirão de amigas! E seu vestido? Vai contratar uma fada ou os ratinhos da Cinderela? Posso alugar um ou até pedir emprestado. Sem deixar a noiva acabar de colocar todas suas idéias, o noivo caprichou bem num grosso e firme "NÃO!". Era como uma queda de braços. O casamento está marcado. Sem festa ela disse que não vai. Com festa, ele não curte e não quer. Foi incrível como ao mesmo tempo, como num coral a duas vozes, se ouviu ambos dizendo: você não me entende e não me respeita! Estou pagando para saber o fim dessa história...

ARTIMANHAS DA MINHA CABEÇA

Segunda, 14 Janeiro 2013 09:06
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Fico muito intrigada quando não me lembro do nome de uma pessoa. Quando isso acontece, em geral, consigo saber se gosto dela, sei dizer o que ela faz, lembro fatos que passamos juntas, mas o nome escafede de tal forma, que não há como encontrá-lo no meio de tantas coisas que coexistem na minha cabeça. Ontem, passei pela minha portaria e quis saber como estava a moça que faz a limpeza do prédio. Ela andou gripada. Quando a vi, foi como se imediatamente estivesse entrando num jogo, sem que eu tivesse a mínima intenção de fazê-lo. Esqueci seu nome. Conversei com ela tentando não demonstrar minha falha. Consegui saber que ela melhorou. Seu nome? Nem uma pista. E, para tornar o jogo mais interessante, minha memória resolveu me estampar em letras garrafais um nome que eu não escutava há décadas: Gontijo Theodoro. Foi assim mesmo. Do nada. Acredito que pouca gente conhece alguém com esse nome. Fiquei feliz, pois logo lembrei direitinho de quem se tratava. Ele foi o Repórter Esso durante quase vinte anos numa emissora de televisão. Possuía uma voz maravilhosa e uma dicção perfeita. Minha mãe usava a aparição do Gontijo na TV para colocar as crianças na cama. Na época da minha infância, costumava-se encerrar as atividades infantis por volta das 20 horas e assim sobrava um tempo para os adultos. À medida que íamos crescendo, meu irmão e eu, ganhávamos direito a um tempo a mais do Repórter Esso. Ir para cama no final do programa foi uma conquista que passamos a ter após os oito ou dez anos. Isso tudo me fez pensar que ninguém assistia desenhos ou programas infantis nessa hora. E como só tínhamos um aparelho de TV, quem não gostasse de saber notícias, podia ir brincar ou ler, só não podia atrapalhar quem estivesse assistindo o Repórter Esso. Imagino que para meus pais e muita gente daquela época, receber as notícias pela boca do Gontijo era como se bebessem água de fonte garantida. Alguma coisa me distraiu...Talvez um raio de sol ou um passarinho, e quando dei por mim, já estava bem longe da minha portaria e dos primeiros pensamentos que me ocorreram ao sair de lá. Achei graça. Sei que funciono assim muitas vezes. Parece que engancho em coisas soltas que estão voando dentro da minha cabeça. É como se eu sorteasse uma carta no meio de uma montanha delas. Sinto muito prazer e não tenho medo. Não acho que essa forma de saltitar de pensamento em pensamento seja um indício de alguma doença. Pelo contrário, acredito que é um privilégio conseguir entrar em contato com vivências antigas. Quanto a descobrir o nome que minha memória escondeu, vou perguntar novamente a moça e pronto! Para que ele não suma de novo, vou escrevê-lo na minha agenda, gravá-lo no meu computador e, mais importante, vou falar esse nome todas as vezes que me encontrar com a dona dele.

YOM KIPUR

Quinta, 19 Setembro 2013 10:03
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YOM KIPUR* Cada ano que chega o Dia do Perdão, relembro os ensinamentos que recebi ainda criança e como tal imagino o Todo Poderoso inscrevendo nomes num grande livro. Tudo em meio a nuvens e paisagens celestiais. Sei, pois foi assim que aprendi, que tenho que pensar em tudo o que andei fazendo e verificar se há algo que posso resolver, ou, ao menos, remediar. Um vacilo numa hora dessas pode ser literalmente fatal! Neste ano de 5774, aos primeiros sons do Kol Nidrei*derramei algumas lágrimas. Quase não acompanhei as rezas pelo livro de orações. E não foi por rebeldia. Preferi ir para longe, ainda que a voz do rabino insistisse em tentar me cutucar. Devaneei como quem ganhou asas e se soltou sem obedecer a nenhuma limitação convencional. Foi extasiante. Não demorou muito e eu embarquei num doce reencontro com meus avós. Abracei-os, sentindo seus peitos fartos e macios, como se fossem ninhos, como se fossem lugares que eu tanto andei a procura. Estava eu nesse estado de graça, quando um movimento incomum me despertou. Algumas mulheres discutiam. Fazia calor na sinagoga cheia. Praticamente todos os lugares estavam lotados. As janelas estavam fechadas por motivo de segurança e muita gente devia estar pensando como que o projeto de comprar e instalar ar condicionados não teve êxito ainda... Então, indiscutivelmente, fazia um calor do Senegal. Dois ventiladores velhos zumbiam sem entusiasmo espalhando o ar quente por algumas senhoras. Os dois não davam conta de alcançar toda a mulherada. Apesar de não ser um grande alívio, sentir o ar jogado por um dos ventiladores era o melhor que se poderia ter.  Portanto, junto com o calor, subiu à cabeça de algumas mulheres a dúvida sobre quem teria o direito de usufruir desse fachguinign*? Preocupei-me com o rabino. Ele precisava ficar concentrado. O tumulto poderia quebrar todo o clima da reza. As partes em conflito pareciam não se importar com nada. Na verdade, parecia que se esqueceram de onde estavam. As mais ousadas se levantaram e moveram o velho aparelho para lhes favorecer. A indignação daquelas que anteriormente estavam se refrescando foi sentida no ambiente. O ar quente ficou tomado por olhares furiosos e manifestações meio abafadas contendo, provavelmente um monte de maus pensamentos. Como encaixar tamanho absurdo nesse dia tão sagrado? Acontece que logo a paz foi reestabelecida. As orações tomaram conta novamente da sinagoga e eu pude voltar ao meu devaneio. Não posso obrigar ninguém a acreditar, mas escutei meus avós conversando sobre brigas que aconteciam nos campos de concentração por causa de qualquer pedaço de alimento. Querer o melhor para si parece uma atitude feia e errada, mas disseram eles, sem dúvida, é uma atitude profundamente humana. Deixar que o outro fique com o melhor pedaço do frango, com a melhor cama ou até mesmo com o vento de um velho ventilador pode mostrar que existe um senso de respeito, mas pode mostrar que existe uma subordinação exagerada ou até desnecessária a alguma autoridade. Nós judeus já fomos obrigados a respeitar muitas autoridades. Gostamos de dar nossas opiniões e fazer valer nossas idéias. Aprendemos que não somos obrigados a engolir nada e que podemos discutir, sempre respeitando o outro. Será que a discussão acaba sendo mais positiva que o incômodo que ela causa? Meus avós me responderam que sim. Eles me falaram que a partir da discussão, alguma coisa pode acontecer e que por outro lado, nada pode mudar enquanto todos estão acomodados, por exemplo, sentindo calor. Percebi que já era hora de nos despedirmos. Segurei a vontade de pedir que ficassem mais. Sei que não poderiam. Ganhei beijos, abraços, recomendações e quando quis saber quando eles voltariam... Notei que se foram. Naquele momento, todas as pessoas estavam cantando abraçadas a última reza da noite. Não havia nenhum sinal da discussão que houve anteriormente. Os desejos de um bom ano, de saúde e de tantas coisas boas eram repetidos a cada cumprimento trocado entre todos os que estavam na sinagoga. Como muitos, fui descansar e no dia seguinte voltei para as rezas da manhã. Ainda fazia calor, mas como tinha menos gente, os dois velhos aparelhos, como guerreiros, davam conta do que tinham que fazer. Quase na hora do IZCOR* , apareceu um dos membros da comunidade carregando um ventilador novinho e depois mais um. O que tinha tudo para levar o título da guerra do Yom Kipur, virou o Milagre de Yom Kipur. Três mulheres decidiram não só se rebelar contra a posição dos aparelhos, mas também enfrentaram a regra de não comprar coisas no dia sagrado. Graças a essas rebeldes o calor foi muito melhor suportado. Escutei meus avós gargalhando quando os quatro ventiladores brindaram as mulheres com ventos por todos os lados. Nós sabíamos, sabíamos! A esposa do rabino ao meu lado disse que nunca viu alguém que alternava choro e riso como eu no dia de Yom Kipur. Não me faltam motivos, lhe expliquei. Ela pediu que eu escrevesse sobre eles. Prometi escrever e como foi uma promessa no dia mais sagrado, corri para cumpri-la.                   * Kol Nidrei ou Kol Nidre (do aramaico כל נדרי Todos os votos) é uma declaração judaica recitada nas sinagogas no início do serviço noturno de Yom Kipur. Esta declaração permite aos presentes anular votos feitos e não cumpridos. A melodia lembra uma suplica de perdão e é repetida três vezes com o máximo de fervor. Fachguinign significa em idish um prazer muito grande, uma sensação maravilhosa. IZCOR é a oração em memória dos pais falecidos YOM KIPUR é o Dia do Perdão. O mais sagrado dos feriados religiosos judaicos.      

ATITUDE

Quarta, 15 Outubro 2014 10:54
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Quando ela chegou, ele, como de costume, já estava no seu mundo paralelo. Era assim que ela chamava a vida que ele levava na frente do computador. Ela foi tomar um banho e ficou à vontade. Foi à cozinha, pegou alguma coisa para comer e assim que ficou satisfeita, chamou-o para conversar. Ele quis saber do que se tratava. Precisamos conversar... Não pode deixar para depois? Ela insistiu. Ele acabou perdendo a concentração e o game que estava jogando. Do que se trata? Pode falar... Qual a ordem do dia? Alguma nova queixa ou vai repetir as velhas ladainhas?  Precisamos falar de nós, das nossas vidas... Ele sinalizou seu desinteresse abrindo a boca disparando bocejos repetidos. Posso voltar pro meu computador? Antes que ele continuasse com seu repertório conhecido e sem graça ela declarou: Nosso casamento acabou! Ele arregalou os olhos como um bicho que foi pego numa armadilha. Ela ganhou coragem e seguiu dizendo que estava cansada de viver só e que queria voltar a ter sonhos e planos junto com alguém. Queria voltar a ser desejada e desejar. Tudo foi sendo falado sem alterar o tom de voz, apenas com o olhar bem firme nos olhos dele. Ele iniciou um gaguejar destrambelhado para questionar o que mais ela queria dele, se lhe faltava alguma coisa, se ele bebia ou batia nela, se queria um carro novo... O que era? Sem esperar resposta, ele deu um murro na mesa e num berro colocou para fora o seu pior pesadelo: você deve ter se enrabichado por outro! Sem se alterar, ela disse que já havia dito o que queria e acrescentou que ainda não tinha nenhum outro na história. Ele estava impressionado e irritado com a calma dela. Perguntou se ela estava sob o efeito de algum medicamento novo. Ou seria a nova terapia? Ah! Devia ser isso! Estavam colocando minhocas na cabeça de sua mulher. Ela que sempre esteve tão bem e sem reclamar de nada durante tantos anos, agora queria se separar... Não fazia o menor sentido para ele. Era pura armação! Fale mulher! Ela não respondeu nada. Fez-se um silêncio pesado e incômodo. Ele voltou a bocejar. Disse, então, que estava com sono, que queria ir para cama. Ela lhe desejou boa noite, esperou pelos seus roncos mais fortes e cadenciados, trocou de roupa, pegou sua mala que já estava pronta, deu uma última boa olhada pela casa, soprou um beijo na direção dele e, como se estivesse inebriada por ter acabado de receber seu alvará de soltura, abriu a porta e saiu de casa.  

UM AMOR DE FILHOS

Quarta, 25 Novembro 2015 09:31
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Estavam bem cansados quando finalmente chegaram ao hotel. Ele se jogou na cama. Ela sentou no sofá e começar a falar sobre sair e fazer compras e sobre a decepção dos netos e outras tantas frases, quando ele a interrompeu. Não entre nesse caminho agora. Vamos apreciar o silêncio maravilhoso desse quarto e depois teremos tempo para tudo o que for preciso. Como estava realmente exausta, ela concordou. Ambos são idosos e ele, ainda por cima, vem sendo acompanhado pelo Mal de Parkinson há mais de uma década. Fizeram uma viagem cansativa. Foram mais de onze horas de avião, fora quatro horas de atraso do voo e mais um par de horas para chegar ao aeroporto do embarque e depois do aeroporto do destino até o hotel. Uma das filhas, a que mora perto deles, fez de tudo para que o estresse da viagem fosse minimizado. Só não foi junto. Ajudou a escolher as roupas que seriam adequadas para viagem, a arrumar as malas e, por fim, fotografou as muitas malas e bagagens que seus pais estavam levando. Dessa forma, acreditou que estava tudo organizado e sob controle. Os desconfortos que o Parkinson provoca fizeram com que ele perambulasse pelo avião a noite toda. Ela, como sempre, descansou meio que superficialmente, não fechando os dois olhos ao mesmo tempo, para poder cuidar do marido. Ainda assim, desde que saíram de casa até a chegada ao hotel, foram se distraindo e achando motivos para amenizar as dificuldades que estavam enfrentando.  A animação do casal para fazer uma viagem tão longa e desgastante foi por conta da maioridade religiosa da neta caçula, o Bat Mitzva da Maia. Para algumas pessoas esse motivo pode não exercer nenhum apelo especial. Para esse casal e sua família de três filhos, uma nora, dois genros, cinco netos, fora a irmã, sobrinhos e agregados foi mais que o bastante para que enxergassem a rara e imperdível oportunidade de um belíssimo encontro. Fora todos os detalhes da cerimônia religiosa e da festa, os pais de Maia pensaram nas acomodações, transportes, alimentação e até diversão para os que vinham de outros países e cidades distantes. Fizeram o máximo para tudo sair perfeito. Os avós de Maia foram instalados no mesmo andar onde o café da manhã é servido no hotel, de tal forma que eles não tivessem que se locomover muito. O quarto deles era espaçoso o suficiente para poderem receber visitas. Assim que a notícia que os avós chegaram se espalhou, o descanso do casal foi interrompido. Todos os outros parentes já haviam chegado e estavam aflitos para se ver e se abraçar. O quarto dos avós foi invadido pela parentada eufórica e barulhenta. O ar quase ficou rarefeito, possivelmente alguma reação, não cientificamente comprovada, sobre a quantidade de emoções por metro quadrado e o oxigênio que é demandado nessas situações.  Além dos abraços e beijos demorados, o olhar brilhante e atento do filho percebeu uma inquietação na sua mãe. Ele notou, além do cansaço da viagem, que sua mãe estava incomodada com alguma coisa. Ele quis saber o que estava acontecendo, o que a preocupava. Ela foi sucinta e despejou o incomodo: Perdemos uma mala. Não chegou? Não sei. Sabe qual é? Uma mala vermelha. Alguém não se conteve: Não viram as fotos? Não. Nenhum de nós dois se lembrou de fazer isso. Muitas vozes se cruzaram, uma balburdia encheu o recinto, mas deu para entender que  se tratava de uma mala com uma importância singular, pois tinha um monte de presentes, principalmente para os netos. Ninguém sabia o que dizer quando a avó começou a chorar. Alguém teve o bom senso de fazer a retirada de uma boa parte das pessoas daquele quarto. Deveriam ficar apenas o casal de idosos e seus três filhos. Eu queria muito ficar perto deles e desobedeci à regra sugerida. Fiz da minha permanência algo quase imperceptível (pelo menos assim acreditei), fiquei num canto encolhida e muda. As duas filhas se colocaram cada uma de um lado da mãe. Sem nenhuma combinação, as duas iniciaram uma sessão de carinhos e afagos e em poucos segundos deu para perceber que a mãe reagiu e parou de chorar. Conte mãe! Conte como foi... Conte o que aconteceu. Escutaram uma, duas ou dez vezes o que a mãe precisava contar. Parecia que ela tinha que se exorcizar. Embora o incômodo maior estivesse dentro da mãe, o pai também quis explicar como foi que a situação aconteceu. Ninguém lhe tirou a palavra, muito pelo contrário, estavam atentos em atitude respeitosa. Os três filhos não tiveram dificuldades para entender que seus pais simplesmente esqueceram aquele objeto. Foram embora com outras malas e não retiraram a tal mala vermelha da esteira. Foi isso. Nada demais! Um esquecimento. Apesar de terem constatado a causa do problema, nenhum dos filhos riu, nem demonstrou chateação pelo imprevisto. Para começar a tranquilizar os pais, disseram que esse tipo de situação pode acontecer com qualquer um. Não perguntaram sobre o valor em dinheiro do que tinha na mala, nem cogitaram outra coisa a fazer que não fosse resgatar a mala vermelha. Eles se organizaram. Pediram para mãe alguns dados e disseram que fariam de tudo para recuperar a mala. Fizeram ligações telefônicas, entraram na internet e, assim, já começaram a recuperar o mais importante, a calma e o equilíbrio da mãe. Tiraram dela um peso e o colocaram para si. Eu estava lá. Fui testemunha da forma madura e amorosa com que aqueles filhos agiram. Aliás, já os vi fazendo isso em outras ocasiões... Conheço muita gente, muitos são pais, muitos são filhos, mas não são muitos que sabem ser maduros e amorosos. Saí do quarto silenciosamente. Saí tentando não me fazer notar. Fui andar um pouco pelos arredores daquele hotel. As folhas avermelhadas explodiam pelas árvores. Fazia frio. Fiquei revendo as cenas que havia acabado de presenciar. Tão incomum. Fui andando sem rumo, gostando de dar um tempo para pensar na importância e singularidade do que aconteceu. Voltei ao hotel. O pequeno saguão estava lotado de gente da minha família. Abracei cada um dos meus três primos com força e sem pressa de largar. Para cada um deles falei o quanto eu admirei a forma como eles agiram. Os três reagiram com uma mistura de espanto com “não sei do que você está falando”. Não expliquei. Não havia como fazer isso naquele lugar e naquele momento. Guardei o ocorrido num canto especial da minha memória e sabia que um dia iria escrever sobre tudo que presenciei e senti.        

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