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TENTE NÃO ADIVINHAR

Segunda, 15 Agosto 2016 11:04
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Com a cabeça totalmente dominada por pensamentos rodopiantes, quase foi um milagre ter percebido que o elevador havia chegado e estava vazio. Entrou. Apertou no andar dela. Olhou-se no espelho. Deu um jeito no cabelo. Notou algumas rugas. O elevador parou. Fez menção de sair e esbarrou num homem que entrava. Notou que não era o andar dela. Muito sem graça, voltou para o seu lugar, mas dessa vez ficou de costas para o espelho. O elevador voltou a parar. A porta não abriu. O homem que o acompanhava no elevador disse um palavrão. Deu para entender que o elevador estava com algum problema. Pegou o fone para pedir ajuda à portaria. Não funcionava. Nem um som. O homem que o acompanhava no elevador se mostrou mais nervoso e puxou o fone de sua mão dizendo “me dá essa merda aqui”. Quando ele percebeu que o fone estava quebrado repetiu o palavrão anterior e começou a suar na testa. E agora? Essa foi a frase que repetiu três vezes aos berros. Calma... Essa foi a única palavra que, mesmo pronunciada de forma calma e serena, detonou a avalanche que estava contida naquele homem que o acompanhava no elevador. Socos, berros e muitos palavrões transbordaram por cada metro cúbico do elevador. Foi incrível perceber como os pensamentos que poucos instantes teimavam em não lhe abandonar, se escafederam. Pode notar que havia uma placa que dizia que cabiam 12 pessoas naquele espaço. Que sorte que só eram duas! Que azar que eram dois, sendo que um se transtornou, se agigantou e fez daquele espaço um cubículo quase irrespirável. O cara estava mal. O cara estava surtado. Tentou o celular, mas não pegava. Controlou-se para não esboçar nenhum sorriso, mas estava convicto de que teria um tempo a passar com aquele homem naquele lugar. O homem era forte e parecia que tinha um grande estoque de socos, berros e palavrões. Seguia desvairado. Subitamente o elevador se mexeu. Desnecessário mencionar o grande espanto e alívio. Quando a máquina parou era no andar dela. Saiu apressado e em frações de segundo se viu completamente atônito ao perceber que o homem que estava ao seu lado no elevador também saiu e também se dirigiu para a porta dela. Agora já se olhavam com ares de interrogação. Deve ter sido muito difícil conter as perguntas esclarecedoras, mas nada foi falado depois que o mais afoito tocou a campainha e ambos esperaram a porta se abrir. Sem dúvida alguma escutaram passos e a voz dela cantando, muito mal, um samba antigo. Ela encostou-se à porta, deve ter ficado na ponta dos pés e olhado pelo visor. Depois disso, fez-se de morta e não se escutou mais nenhum som que viesse de dentro do apartamento. Obviamente ali estava acontecendo uma situação. Tem tempo para um café? A resposta veio pelos ombros e pela cabeça. Andaram em direção ao elevador e com o olhar mostraram-se sem vontade de reviver a experiência recente no elevador parado. Desceram pelas escadas. Parecia um exercício para deixa-los tontos. Chegaram ao térreo. Havia uma padaria na esquina. Dois cafés. Puros, sem açúcar, sem adoçante. O tema foi introduzido de forma chula: Afinal, que porra é essa? Ela marcou com você? Sim, mas não para hoje. Eu já estava no prédio e resolvi dar um pulo para tirar umas dúvidas antes de lhe entregar o orçamento da reforma da cozinha. Está na cara que entrou em contato com dois profissionais para poder escolher. Ficou sem graça ao nos ver juntos. Risos e gargalhadas desenfreadas. Como é seu nome? Trocaram os cartões profissionais. Numa conversa franca e animada, combinaram um jeito de não perder a cliente. Quem sabe até conseguiriam fazer esse projeto juntos? Os tempos não estão para abrir mão de nada. Falando em tempo, parece que os dois se esqueceram dele. De totais estranhos, eles já pareciam amigos com certa intimidade. Mais um café? Não, obrigado... Tenho que ir. Só uma coisinha... Fale! Quer uma indicação de um bom psiquiatra?  Um sorriso foi a resposta e a introdução do convite: já que você quer cuidar de mim, vem em casa hoje à noite para jantarmos juntos...        

UMA ORQUÍDEA MUITO ESPECIAL

Sexta, 19 Agosto 2016 11:59
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Um vento forte interrompeu meu sono e a calma da noite. Portas e janelas bateram como se tivessem urgência de avisar que alguma coisa grave estava por acontecer ou como se apenas precisassem me fazer levantar da cama para tomar as providências necessárias. Devo ter demorado, pois quando levantei a chuva já estava começando a cair. É preciso coragem para sair debaixo das cobertas e se dispor a lidar com janelas histéricas numa noite de temporal. Sempre penso nisso, levo um tempo, mas acabo me sentindo forte o bastante para enfrentar as rajadas de vento e a chuva que costuma me molhar nessas situações. As portas da varanda estavam escancaradas e o chão da sala todo molhado. Nada muito grave, nada muito fora do comum. Quando ia fechar as portas que separam a varanda da sala, minha atenção se voltou para o vaso que estava balançando, ou melhor dizendo, tremendo por ação da chuva e da ventania. Era a bela orquídea com seis dos seus treze botões em flor. Fui capturada. Nós já nos conhecemos há algum tempo. Ela é linda e me sensibiliza muito quando ela esta florindo. É como se ela estivesse lentamente parindo até dar à luz a cada uma das suas flores. Alguns dias são necessários para acabar esse processo e o resultado que ela nos apresenta é sempre de muito capricho e arte. Penso que ela deve ficar exausta... Ao vê-la sujeita à intempérie, tive pena dela. Esse foi o meu sentimento. Achei que ela era frágil e não iria aguentar a tormenta. Num impulso, peguei o vaso da orquídea e coloquei-o a salvo na mesa da sala. Dei as costas para a orquídea e continuei a dar conta do que precisava fazer. Quando todas as janelas tinham sido fechadas, não havia mais nenhuma porta batendo, já tinha secado com um pano a água que a chuva fez entrar e eu poderia voltar para cama, ao passar pela sala, com uma nitidez absurda, escutei a orquídea me chamar. Num primeiro momento não acreditei. Como eu quis conferir, fui bem perto dela e esse pode ter sido meu erro. Quem lhe pediu para me trocar de lugar? Fiquei absolutamente pasma e atônita. Levou um tempo para eu começar a lhe dar alguma resposta. Parecia que ela se divertia com o meu assombro. Você poderia ficar sem suas flores, iria se machucar se ficasse exposta como estava. Como você pode afirmar uma coisa dessas? Fui criada para viver na natureza. Eu só quis lhe ajudar... Mas ninguém lhe pediu ajuda. Eu não queria ser ajudada. Eu queria sentir que era capaz de ficar onde estava. Queria sentir a chuva e o vento em mim. Você me tirou à força, me desrespeitou. Você deve fazer isso em outras situações... Pensa que é boa, que faz o bem, mas é uma tirana. Agora eu estava chocada. Como era possível? Sentei-me numa das cadeiras que rodeiam a mesa da sala e assim fiquei pertinho daquela flor. Minha orquídea tinha sido contundente. Não me deixou nenhuma brecha para escapar das suas acusações. Eu não tinha alternativa. Tive que vasculhar episódios em busca de situações semelhantes ao que havia acabado de passar. Fui lembrando... E lembrando... A flor estava muda. Deve ter adormecido ou não tinha mais razão para falar comigo. Eu não estava mais certa se devia ou não mexer com ela. Senti vontade de colocá-la de volta na varanda, mas havia acabado de aprender que precisava consultá-la. Tentei ser delicada e sussurrei baixinho: Você quer ir de volta para varanda? Agora está fresquinho lá fora, parece gostoso. A orquídea se mostrou diferente. Com um jeitinho muito maroto me fez saber que estava gostoso onde estava. Então... É, deixe-me ficar agora na sala. Ficarei linda para enfeitar sua mesa. E o vento? A chuva? Foi até bom não ter me molhado, nem passado pelas provações da tormenta. Agora já está tarde, estou cansada para ser novamente mexida. Vai dormir querida. Posso assegurar que suas palavras chegaram a mim de uma forma quase doce.  Do corredor joguei um beijo para ela e fui cambaleando para minha cama.

SONHANDO ACORDADA

Segunda, 09 Janeiro 2017 15:02
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Inesperadamente uma mensagem dele apareceu para mim. Achei estranho, mas ao mesmo tempo, senti um sabor apimentado e forte. Ele queria me encontrar. Havia urgência nas palavras dele. Na verdade, não era nas palavras. A urgência eu percebi em alguma sutileza, possivelmente numa vírgula ou nas reticencias que ele usou. Fazia mais de um ano que eu não tinha nenhuma noticia dele. Era assim que funcionava nossa relação que tem o título de amigos de infância. Estudamos juntos desde o antigo ginásio e nos separamos quando cada um foi fazer sua faculdade. Eu o admirava muito e tenho uma nítida lembrança de, com cerca de onze anos, escrever uma redação citando-o como um futuro presidente do Brasil. Minha previsão não se cumpriu. Ele se tornou médico. Durante muitos anos morou fora do país. Casou, teve filhos, separou, casou novamente e no meio de tudo isso deve ter tido algumas paqueras. Quando eu era menina, tentei fisgá-lo. Além de ótimo aluno e garoto bonito, ele sempre foi muito educado, portanto soube se esquivar de minha investida com elegância: não podemos namorar, pois não quero perder nunca minha amiga. Levei um tempo para entender o fora que levei e até para me permitir sentir uma pitadinha de raiva dele. A raiva não durou e nossas vidas foram em frente. Quando voltamos a nos encontrar já éramos avós, ou quase, não lembro bem. Nossos encontros sempre se deram junto com outros amigos da época da escola e aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Assim como todos nós, ele estava envelhecendo. Seu cabelo ruivo tornou-se prateado e seu porte atlético havia se tornado apenas uma lembrança de décadas atrás. Dava para perceber que era guloso e que não conseguia abrir mão dos prazeres que uma boa mesa podia lhe proporcionar. Sua conversa era interessante e seu sorriso tinha ainda aquele antigo charme. Ele nunca foi como eu, alguém que ri à toa e escancarado. Ele sempre foi mais econômico nas suas demonstrações de sentimentos e emoções. Pode ser que essa era sua maneira de capturar a atenção e até o coração de desavisados. Com muito cuidado, como se estivesse andando em pedras lisas e escorregadias, durante nossos encontros, eu me dedicava a entender melhor os sinais que vinham dos seus olhos. Percebia com frequência uma tristeza fugaz e bem disfarçada. Como sempre estávamos com os outros amigos, nossos assuntos prediletos eram os livros e filmes. Se algumas vezes tentamos falar de assuntos íntimos, logo alguém transformava o tema em piada e rapidamente libertava-nos de uma possível cilada emocional. Agora ele quer me encontrar. Só nós dois. Sem nossos amigos, sem marido, nem esposa. Impetuosa como de costume, já lhe respondi que topo o encontro. Ele sugeriu um jantar. Eu cheguei a escrever, mas apaguei a pergunta audaciosa se era à luz de velas... Para não perder o costume, nessa última troca de mensagens, já nos atualizamos sobre os últimos livros lidos. Fiquei surpresa quando ele escreveu que quer comentar comigo sobre esses livros no nosso encontro. Já entendi que teremos um tempo de aquecimento antes de entrar no assunto principal. Ri sozinha da minha inibição de lhe dizer que minha digestão à noite é terrível e que se eu jantar, seguramente ficarei sem dormir. Tenho pensado, nos momentos em que a vida me dá trégua, no que vamos conversar no nosso jantar. Vamos falar sobre meu irmão, que era seu grande amigo e, como estaremos sozinhos, poderemos até chorar abraçados. Poderemos nos lembrar de nossos pais e das vezes que todos estivemos juntos e felizes.  Será que ele tem alguma ideia de organizar um lar de amigos para morarem juntos na velhice? Isso até que seria interessante... Será que falaremos dos planos que fizemos para os nossos filhos e avaliaremos o que de fato aconteceu? Será que vamos filosofar sobre a rapidez com que a vida passou? Falaremos sobre o amor? Um pensamento sombrio me assalta e me incomoda. Será que ele está doente e quer se despedir? Será que quer discutir sobre a eutanásia como fizemos na nossa colônia de férias quando tínhamos onze ou doze anos? Meu Deus! Ainda falta um mês para ficar imaginando e sonhando... Quem sabe ele está arrependido e quer aceitar o pedido de namoro que lhe fiz há mais de quarenta anos? Tenho que me preparar. Não posso me deixar pegar de surpresa. Aqueles olhos são ciladas. Talvez eu deva treinar soltar o não para qualquer pergunta. Tenho sempre o sim pronto na ponta da língua. Preciso inverter esses dois. Vou começar a treinar na frente do espelho! Estou gostando muito de imaginar e sonhar com nosso encontro. Contei para o meu marido e ele nem se incomodou. Ou ele é muito seguro de si, ou seguro de mim ou entende que dois velhos amigos podem ir jantar sem maiores problemas. Sorte a minha! Ainda não comecei a pensar na roupa que eu vou usar. Decidi que o perfume deverá ser bem discreto. Talvez use a velha e boa alfazema... Vou passar só um batom e nada de maquiagem. Aposto que ele nem pensou, nem vai pensar em nada disso. Falta um mês. Seria legal se ele mandasse uma mensagem querendo saber que tipo de comida eu prefiro para escolher o local do encontro. Será que eu diria: café com leite e torrada integral com queijo? Duvido...

NO CINEMA

Terça, 11 Julho 2017 10:02
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Assim que a luz apagou, o aparelhinho começou a vibrar dentro da bolsa. Não era algo contínuo. Vibrava e parava e então recomeçar a vibrar. Sem dúvida, era alguém querendo falar com ela naquele momento. Como ela não queria falar com ninguém, tentou ignorar o incômodo. O filme começou. A vibração não parava. Alguém insistia como se tivesse algo urgente para resolver. Quem seria? Embora fizesse força para prestar atenção no filme, começou a ficar preocupada. Beto havia terminado o namoro com ela há três semanas e desde então não se falaram. Seria ele? Se fosse, o que ele poderia estar querendo? Na tela, um homem alto e muito magro entrega um pacote para uma mulher ruiva e gorda. Melhor não atender se for o Beto. Ela jurou que nunca mais falaria com ele. Chorou por ele durante quase uma semana. Agora que estava melhor, não poderia se dispor a escutar sua fala melosa e sedutora. Esse Roberto é um perigo ambulante. Não! Opa! A ruiva da tela parece que desmaiou. O aparelho seguia vibrando. Quem sabe era a Virgínia querendo lhe contar sobre a festa de ontem? Ora, mas isso não mereceria tanta insistência. No filme, três crianças se despedem de um homem, que parece ser o pai, que tudo indica que vai trabalhar, e saem para andar de bicicleta num lugar que parece um subúrbio americano. O pai liga o carro, dá a ré e sai cantarolando. A ruiva aparece na cozinha. Ué! Ela ficou boa? Que saco! Essa droga não para de vibrar! E se eu olhar quem é... Não! Estou no cinema. Como estou resolvida a não atender, que importa olhar quem seja? O homem magro e alto agora está no metrô. Ele tem um jeito sinistro. O pai das crianças está sentado do lado do magro. Ela percebeu que não estava entendendo nada. Sua bolsa parecia que estava viva. Gemia e tinha movimento. Um senhor atrás dela lhe cutucou e lhe pediu para desligar seu celular. Ela fez cara de paisagem e quis saber se ele estava ouvindo alguma coisa. Ele disse que sim. Ela lhe cumprimentou pela boa audição, apesar da idade avançada. O senhor não achou graça e falou alguns impropérios de forma exasperada. Algumas pessoas se manifestaram pedindo silêncio. O celular seguia vibrando. Chega! Nem ela estava aguentando mais aquela tortura. Tinha que resolver se iria atender ou se iria desligar o aparelho. Seu olhar se prendeu nas três crianças que agora brincam num parque. O parque tem outras crianças. Está um lindo dia de céu azul, mas faz frio, já que todas estão de gorros e casacos. Quem terá levado essas crianças para esse lugar? A música do filme faz pensar que alguma coisa vai acontecer. Um cachorro corre atrás de uma bola. A vibração do seu celular não para. Ela enfia a mão na bolsa e pega o aparelho. Sabe que a luz pode incomodar alguém, então se abaixa e, como se estivesse amarrando os cadarços de seu tênis, tenta identificar a chamada que não lhe dava sossego. Não consegue. O celular escorrega de sua mão. Não acredita no que lhe aconteceu. Volta para a posição anterior e mira na tela. O homem alto e magro está agora num aeroporto. Pela sua fisionomia, meio sério, meio tenso, achou que ele estava indo numa viagem de negócios. A ruiva apareceu de repente para viajar também. Volta a pensar no seu maldito aparelho que foi parar embaixo de uma das poltronas na fila da frente. O cachorro corre feito louco e uma das três crianças está atrás dele. Um carro surge do nada e o motorista freia desesperadamente. O momento é de grande emoção, mas ela escuta o barulho do celular vibrando. Ela toma coragem e pede para a pessoa sentada à sua frente pegar o seu aparelho. Era uma senhora de óculos, de certa idade e até com muita boa vontade. A mulher se mexeu, se revirou, mas não conseguiu achar o aparelho. Quando a senhora insistiu na busca, fazendo um esforço maior de se abaixar, conseguiu a façanha de deixar cair seus próprios óculos. Inesperadamente um palavrão curto e seco se fez ouvir em meio ao silêncio que reinava na sala do cinema. Quem diria? Uma senhora... Sem óculos a mulher não enxergava quase nada, essa foi a explicação para o desabafo de baixo calão. O rapaz ao lado da senhora foi convocado para ajudar a achar os óculos. Ele disse que não. Queria ver o filme. A mulher buscou outra ajuda. Sem enxergar quase nada, ela apenas identificou que era uma moça que estava abraçada numa outra pessoa.  Quando o filme acabar vai ser mais fácil... Agora não dá! A criança atropelada estava num hospital. Alguém parecia chorar baixinho numa fila bem próxima. O celular seguia vibrando. O homem que se alterou no início do filme, voltou à cena avisando que iria chamar o gerente. Só quero achar meus óculos. E eu quero o meu celular. Cala a boca! Quero ver o filme! A ruiva está num close e de óculos escuros. Será que aconteceu alguma coisa grave? Se alguém pisar nos meus óculos vou ter um troço. Fica quieta! Eu não enxergo sem óculos! Então dorme... Mas que falta de educação! A essas alturas o filme já estava totalmente sem pé nem cabeça. A dona do celular ainda escutava o som que o seu vibrar emitia. Levantou do seu lugar e, decidida, foi engatinhar na fila a sua frente. Um jovem, saído de algum lugar não identificado, teve compaixão, se juntou a ela e sussurrou que iria ajudar na busca. Numa cena patética, os dois desconhecidos engatinhavam tateando no escuro. Não demoraram a achar os objetos perdidos. Os óculos e o celular estavam próximos. Ainda agachado, o rapaz solidário fez a entrega solene para a senhora que não devia estar enxergando nada: Seus óculos... Obrigada! Muito obrigada! Cala a boça! Não enche! Um carro em alta velocidade corta uma estrada em meio a um temporal. O celular vibrou mais uma vez. Dessa vez, estava na mão dela e ela se rendeu. Decidiu que queria saber quem era. Foi ver. O celular emudeceu e escureceu. Acabou a carga. Morreu. O jovem tinha acabado de voltar para o seu lugar. Ela enfiou o celular na bolsa com raiva. O homem magro e alto está num quarto com a ruiva. O rapaz solidário estava olhando para ela. Era um olhar insistente, tanto que percebeu. Olhou de volta. Ele fez um sinal sutil com a cabeça. Ela ficou confusa. O que será que ele queria? A ruiva estava séria. O homem magro dormia. O rapaz agora fazia um gesto com a mão. Ele mostrava que queria sair do cinema. Era um convite. Ela se levantou devagar. Sacudiu a cabeça como que para se livrar das travas e das dúvidas. Ajeitou o cabelo talvez para parecer bonita. Num último olhar para a tela viu a ruiva com uma arma na mão. Que se explodam todos! Virou-se em direção a saída. Por uma fração de minuto, respirou ou fez uma oração... Quem há de saber? Com passos decididos, saiu do escuro.

13/11 - Palestra: "Relações melhores, vidas melhores"

Quinta, 01 Novembro 2012 15:39
Publicado em Agenda
No dia 13 de novembro farei uma palestra no Centro Cultural de Inclusão e Integração Social Guanabara com o tema: "Relações melhores, vidas melhores." O Centro Cultura fica na Rua Mário Siqueira, 829 em Campinas.  

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