Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: Relacionamento - Vista da Janela

Prazer Maldito

Quarta, 28 Novembro 2012 09:16
Publicado em Blog
Ela gosta muito de beber. Senta num bar, nas tardes de sábado ou domingo com amigos e, com a ajuda deles, entorna algumas dúzias de latas ou garrafas de cerveja. Sempre sai inteira e, segundo ela, em perfeitas condições, inclusive de dirigir. No último sábado, ela e duas amigas foram numa festa. O convite custou caro, mas podiam comer e beber à vontade desde a hora do almoço até de madrugada. Depois de forrar um pouco a barriga, ela resolveu experimentar vodka com suco de morango. Gostou. As amigas optaram pela cerveja. As três comeram e beberam um monte. A ideia era tentar fazer valer o preço alto que investiram nos convites. Bebiam e davam risadas. Pouco antes da meia noite, as três amigas acharam por bem encerrar o programa. A motorista exalando vodka sentou ao volante. Colocou o cinto de segurança e deu a partida. Precisou manobrar. Ao dar a ré, o carro bateu em alguma coisa e parou. As três tiveram muita sorte. Quase que imediatamente, a motorista começou a vomitar e, em seguida, apagou. Apavoradas, as duas amigas conseguiram puxar a inconsciente para fora do carro. Jogaram-lhe água, deram tapinhas no seu rosto, gritaram no seu ouvido, abriram à força as suas pálpebras, mas nada a fazia voltar a si. Com um esforço medonho, recolocaram-na no carro, dessa vez esparramada no banco de trás. Foram para um hospital. Esperaram um bocado para conseguir um atendimento. Constataram que ninguém tem pena de bêbado. Um médico, por fim, avaliou a situação e aplicou glicose na veia da moça alcoolizada. Esperaram duas horas pela alta da amiga e a levaram para casa. Despejaram a amiga dentro do quarto dela e foram embora. Quando a bebedora de vodka acordou sentia um grande mal estar. Não sabia dizer como chegou à sua casa. Estava ainda com a roupa e os sapatos que havia ido à festa. Sentiu medo do que pudesse ter acontecido. Encarou-se no espelho do banheiro. Notou os vestígios do vômito da noite anterior. Sua imagem lhe deu asco e uma enorme repugnância. Vomitou mais uma vez. Arrastou-se para o banho. Voltou para cama e, aos poucos, durante o dia foi se refazendo. Quando as amigas ligaram, falaram de tudo como se fosse uma piada, uma comédia. O susto e o medo foram enterrados. Ela e as amigas estão prontas para a próxima.

ALMAS DISTANTES

Terça, 05 Fevereiro 2013 08:28
Publicado em Blog
Era tarde da noite e ela rolava na cama sem conseguir dormir. Seus pensamentos teimavam em ficar lembrando o domingo chuvoso que estava acabando. A família viajou e ela estava só. Assim que acordou, ainda de pijama, ficou horas na internet. Quando sentiu fome, esquentou alguma coisa e almoçou. Sem nada melhor para fazer, resolveu aceitar o convite do seu avô e foi lhe visitar. O velho recebeu a neta adolescente com um abraço demorado. Ela não era acostumada com aquele abraço. Teve a impressão de que o avô estava mais envelhecido. Preferiu achar que era culpa da bengala. Notou que ele arrumou uma bandeja com chá e bolo para os dois. Achou singelo, mas não mencionou seu parecer. Então, vamos jogar? Ele mostrou o tabuleiro de palavras cruzadas. Ela deu um sorriso murcho, levantou o polegar e pensou que tanto fazia. Ele captou sua indiferença, mas não deu bola. Sentaram-se um de frente para o outro.  Decidiram na sorte quem iria iniciar. O avô colocou a primeira palavra e puxou conversa perguntando como andava a vida da neta. Ela teve que pensar bastante para fazer poucos pontos e foi monossilábica na resposta para ele. De fato, não disse nada de relevância. Poderia falar da balada no clube ou do seu plano de morar na Austrália... Preferiu ligar o som e deixar uma música dominar o ambiente. Foram jogando. Ele foi colocando peças e quis saber se ela queria ouvir como andava a vida dele. Meio distraída, a jovem disse que sim. Tudo bem. Ele começou a falar da falta que sentia da avó dela. Ela o interrompeu. Vô, vamos falar de outras coisas? Falar da vovó é muito triste. O velho perguntou a neta se ela sabia que ele teria que fazer uma cirurgia. Ela disse que falar de doença também era muito chato. Continuaram jogando. O avô perguntou para a jovem o que achava das últimas eleições. Política, vovô! Faça-me um favor... Num dado momento, o avô fez uma palavra com todas as peças. Ganhou pontos extras e comemorou como se tivesse ganhado um campeonato. Sem achar graça nenhuma, ela pediu para parar o jogo. O avô se serviu do bolo e do chá. Ela pegou seu i-phone e começou a dedilhar. Passaram-se alguns minutos. E agora, vô? O que vamos fazer? Ele propôs olhar a chuva em silêncio. Ela achou que não havia entendido bem. Ele se sentou diante da janela e se calou. Ela não sabia fazer coisas assim... Quando ela começou a falar, ele lhe interrompeu fazendo suavemente o gesto do dedo indicador encostado nos lábios. Ela ficou perplexa. Não sabia se estava ofendida, irada ou simplesmente chateada. Levantou-se para ir embora. Procurou sua bolsa e também um gesto ou uma palavra do avô que lhe impedisse a partida. O avô nada fez, nem falou. A chuva seguia forte. Assim mesmo, ela foi.    

CONVERSAS DE ÚLTIMA HORA

Terça, 04 Junho 2013 18:42
Publicado em Blog
Quero que você perca seu avião... Quando minha neta Luna choramingou seu desejo, senti vontade de abraçar as duas, a pequena e a ideia, e disse que quando chegasse ao aeroporto, poderia me esconder no banheiro e não escutar o chamado para embarcar. Seus olhos de menina de quatro anos sorriram para mim. Passamos a brincar de fazer caretas. Estávamos num restaurante e era o último dia da visita dos vovôs a seus dois netos e aos pais deles. Luna não tinha fome ou tinha muito mais emoções que apetite. Não comeu nada. Leo, pelo contrário, estava faminto e ocupado em dar cabo da comida que estava no seu prato. Ficamos uma hora nesse lugar. O sol estava manso e gostoso. Era o início de uma tarde de inverno na beira de uma praia, em Florianópolis. Apesar de estar tudo muito bom e agradável, tínhamos que comer rápido e ir para o aeroporto. No carro, Leo se pôs a mamar e logo dormiu. Luna se sentou no meu colo e fomos lembrando quantas coisas aconteceram em quatro dias. Falamos das aulas de capoeira e natação, das brincadeiras em casa, na rua, do churrasco na casa dos Dindos, do passeios no parquinho e na Fortaleza São José. Na verdade, não conversamos como quem faz um relatório ou presta contas. Conversamos como quem joga um jogo e assim processamos nossos pensamentos. Estava sentindo uma ligeira dor nas costas e, sem me queixar, logo fui lembrando do tanto que carreguei os dois netos no colo... Confesso que sei que se trata de um gesto absolutamente sem necessidade, pois ambos já andam e correm muito bem. Carrego com vontade de que nossos corações fiquem bem pertinho e se digam tudo o que precisam. Também sem precisar, ajudei nas refeições dando colheradas nas boquinhas. Ajudei na hora do banho e nas horas do xixi e cocô. Expliquei para Luna não esfregar com força o papel higiênico ao se limpar e me senti como quem passou adiante uma fórmula mágica... Contei histórias quando ambos estavam vestidos com seus pijaminhas novos. Reconheço que quando mãe, essas atividades não me cansavam tanto, mas minha vontade não era de outra coisa que não fosse estar ali, fazendo o que estava fazendo. Quando chegamos ao aeroporto, meu marido e eu pulamos rapidamente do carro como milho que estoura em pipoca. Beijamos o filho, a nora e as crianças. Demos as costas e entramos por uma porta de vidro. Meu marido notou que eu demonstrava procurar alguma coisa. O que você quer? Perguntei se ele sabia onde ficava o banheiro. Precisa ir agora? Não...foi uma ideia absurda que me passou na cabeça... Ele pegou minha mão e fomos em frente.  

ENCONTRO COMIGO

Terça, 25 Fevereiro 2014 12:21
Publicado em Blog
 Um forte odor que emanava dela me fez sentir uma imediata repugnância. Ela estava completamente despenteada, seus cabelos, assim como meus pensamentos guiados pela minha imaginação, davam a entender que queriam alçar voo. Era jovem, morena, magra e estava mal coberta por um vestido roto e bem sujo. O perfume que estava em meu corpo pareceu desejar outros ares, mas o máximo que pode fazer foi tentar se evaporar. Achei que a moça quis me provocar, exibindo cacos de dente na boca ao esboçar um sorriso emoldurado por lábios sem cor. Sem ter como fugir ou simplesmente trocar de lugar, afinal o ônibus estava lotado e eu estava encalacrada, sentada num banco, sentindo o ventre da moça no meu ombro, resignei-me e baixei a cabeça. Foi então que notei seus pés imundos. Um par de pés grandes, sem nenhuma delicadeza, sem nada que os enfeitasse ou que os amparasse. Pés descalços, que davam sinais de estarem plenamente acostumados com as agruras da vida. Num reflexo, encolhi os meus que estavam dentro dos sapatos especiais que eu usava para me dar mais conforto. Meti-os para debaixo do banco e os fiz ficarem por lá, como se os estivesse colocando de castigo. Parecia que ela se segurava com firmeza. No entanto, eu acreditava que numa freada ela poderia parar no meu colo e sujar e amassar minha roupa. Ao me dar conta da possibilidade desse transtorno, olhei melhor para ela e, sem querer, sorri. Foi um sorriso pequeno, de meia boca, sem nem ao menos mostrar dentes ou alguma intimidade. Ainda assim, foi o que bastou. Como um bicho esfomeado ela sorveu cada pedacinho do meu sorriso. Tive a nítida sensação de escutar barulho de algemas me prendendo. Então, em desespero, quis sair daquela condução. Fiz menção de me levantar. Ela notou e não colaborou. Com joelhos e cotovelos, fui degladiando com ela e depois com cada uma das pessoas até me ver fora daquele ônibus. De pé, na calçada, respirei aliviada. Uma lufada de vento me fez sentir frio. Abotoei meu casaco e tentei desaparecer em mim.

INDECISA

Quinta, 08 Outubro 2015 09:51
Publicado em Blog
Ela torce para que seja um bom momento, mas não tem certeza. Quer se despedir, mas tem a sensação de que pode incomodar e isso não é o que pretende. É estranho pensar que as crianças    estarão brincando e não vão interromper o que fazem para falar com ela. Só para falar com ela... Os adultos podem estar lendo, cozinhando, arrumando alguma coisa ou descansando e também podem preferir não ouvir suas despedidas. Essa hesitação nunca fez parte do modo dela se comportar. Em geral, sempre foi decidida e confiante. Estará ficando uma velha frouxa? Era tão firme... Por outro lado, pode estar aprendo a ser mais respeitosa. Suas urgências e necessidades podem esperar e assim têm a probabilidade de se revelar como desimportâncias. Qual o problema de viajar sem dizer tchau? Certamente nada muda no universo. O mundo vai continuar a girar igual. Ela sabe disso, mas é como se estivesse partindo levando uma bagagem incompleta. Fica lhe faltando falar as falas que traduzem seu carinho e amor e escutar desejos de boa viagem. Ora, pensa ela, certamente foi condicionada a esse tipo de comportamento. Era assim que seus pais e avós faziam. Mas quem sabe pode ser bom experimentar fazer diferente? Talvez nas primeiras vezes, como essa, sinta um nó, um aperto e até uma dor. Talvez com o tempo não sinta mais nada. Da sua garganta escapa um som. Parece que disse basta. Ao notar que estava falando sozinha fica encabulada. Frouxa e maluca... Ela pega o celular e procura alguma mensagem ou ligação que possa ter perdido. Não tem nada. Olha pela janela tentando fazer seu olhar chegar ao impossível. Num ímpeto resolve arriscar. Liga. Toca, toca e ninguém atende. Liga novamente. Nada. Deixa um recado. Desliga achando que não disse exatamente o que pretendia. Balança a cabeça. Agora é tarde. Pega sua mala, abre a porta e vai.

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook