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VAIBES DIFERENTES

Quarta, 11 Setembro 2013 13:23
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Quando o telefone tocou, o rumo de sua vida poderia ser outro. Mas, ela não atendeu. Não escutou o som abafado que vinha de dentro da sua bolsa. Para piorar a situação, havia o barulho do chuveiro. Não escutou mesmo. Era ele querendo se desculpar, querendo outra chance, querendo lhe mostrar que ainda lhe queria tanto. Mas, ela não escutou e não atendeu. Ela nem ao menos se remoeu por ter perdido essa oportunidade. Quanto a ele... Ele ficou ruminando ideias. Achou que ela olhou para o celular e vendo que era ele quem a chamava, solenemente o ignorou. Num primeiro instante nem acreditou que ela seria capaz de uma atitude dessas. Justo ela que era tão educada... Logo passou a ter certeza que ela estaria lhe revidando por atrasos, descuidos e um monte de bolas que ele andou pisando nos últimos tempos. E se fosse uma urgência? Como ela poderia ser tão fria assim? Que vaca! Chegou a pensar que ela até estaria sentindo prazer em não lhe atender. Chegou a vê-la sorrindo... Chegou a imaginá-la chamando uma amiga e gargalhando com ela. Que safada e metida a besta! Imediatamente ele se arrependeu de ter ligado. Pegou um atalho mental e saiu cantando pneus com raiva. Descobriu-se raivoso. E gostou da sensação. Aquela puta! Quanto tempo perdido! E pensar que ele queria se desculpar... Desculpar de quê? Só se for de ser um idiota. Enquanto isso, ela saiu do banho e reparou que tinha uma ligação perdida. Teve vontade de não responder o chamado. Ficou curiosa e sentiu-se fisgada como quem morde uma isca. O que será que ele poderia querer? Até para pedir desculpas ele era sem jeito. Ela sabia que ele nunca iria ser muito diferente. A última briga foi feia e definitiva. E se lhe desse mais uma oportunidade? Ela não queria mais ficar nesse vai e vem, mas, ele mexia com ela de um jeito quase obsceno... O que ela sentia com ele não estava escrito em lugar nenhum. Viria outro? A fila iria andar? Um melhor? E se não viesse? Melhor garantir esse... Melhor ligar e saber o que ele queria. Ligou. A surpresa dele foi proporcional à raiva que ele estava dela. Não era macho de se encolher. Atendeu. Foi seco e bruto. Fala! Ela não entendeu o tom e tentou iniciar um diálogo. Foi você quem me ligou... Ele cortou a fala dela e disparou frases como se estivesse picando uma carta de amor em pedacinhos. Ah! Resolveu parar de gracinha? Quer conversar? Agora não quero mais falar nada. Agora tudo mudou. Vê se vaza. Sai da minha vaibe. E desligou. Ela não entendeu nada.

A MULHER DO PESCADOR DE PRIMEIRA VIAGEM

Quinta, 07 Novembro 2013 18:37
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O marido foi pescar. Quando era jovem havia tentado realizar essa façanha, mas era casado, tinha dois filhos e, como todo assalariado brasileiro, só tinha direito a trinta dias de férias.  Para conseguir sair de fininho e vazar para algum rio, precisaria ter muita lábia para convencer tanto a mulher como o chefe. Naquela época, como já foi mencionado, ele era jovem e não teve o traquejo necessário. O tempo passou, na verdade foram mais de três décadas que passaram. Como ele nunca mais falou no assunto, a mulher achou que o marido havia se esquecido do antigo desejo. Então, nesse ano surgiu a grande oportunidade de ir pescar pela primeira vez na vida e ele se agarrou a ela com unhas e dentes. Foi com um grupo, onde eram todos machos e pescadores de muitos rios, de muitas estórias e de muitos peixes. Fizeram algumas reuniões prévias. Eram encontros sempre à noite, em dias de semana e a mais de 100 km de sua casa. Para espanto da mulher, ele não faltou a nenhum e sempre levou junto uma boa dose de bom humor e entusiasmo. A partir desses encontros, ele pode se organizar e tomar suas providencias. Vacina, caixa de iscas, cremes, remédios, bermudas, meias, varas, sapatos, camisetas e chapéu. Ela notou que ele voltava das reuniões como um cachorro que tenta segurar o rabo para não mostrar toda a alegria... E aí? Foi legal? Ele lhe contava alguma coisinha, mas logo desviava o assunto. Ela sentia que estava sendo colocada fora das piadas, dos risos e de alguma parte nublada, mas muito boa. Foi longe. Foi até as revistas em quadrinhos da sua infância. Lembrou-se de uma tabuleta que havia na porta do clube de meninos que dizia, sem meias palavras, que menina não entra... Entendeu a situação e se resignou. Passou a se dedicar a procurar entender o que o motivou a ir pescar. Seu marido já lhe havia surpreendido com atividades bem incomuns como criar rãs, fazer curso de reflexoterapia e heiki, fazer aulas de cerâmica e mágica, aprender ski aquático e até criar escargots dentro do apartamento. Então, ela raciocinou que em se tratando de um homem com um grau de ansiedade como o dele, pescar pode ter sido uma escolha para buscar uma mudança de padrão. Pode ser que a paz, o cenário bucólico de um rio, um barco, a mata nas margens e o tempo passando sem nenhuma exigência tenham sido as grandes âncoras da sua viagem para pescar. Acrescentou ainda a troca enriquecedora que ele deve ter vislumbrado, através da vivência com pessoas com outras experiências de vida. Essas conclusões lhe deram muita esperança e ela se sentiu muito bem ao carrega-las consigo para todos os lados nesses dias sem ele. Algumas pessoas, no entanto, quiseram lhe cutucar. De um modo quase confidencial, lhe revelaram que a embarcação onde seu marido estava era um local de alta categoria, muita cerveja, caipirinha, boa comida e muita esbórnia. Não mordeu essa isca. Tinha mais o que fazer. Aliás, tinha um bocado de coisas para fazer. Depois que ele viajou, numa noite dessas, no meio da madrugada, hora em que as luzes da sua alma costumam se acender, o pensamento nele tomou conta dela. Desejou que ele estivesse bem e com saúde. Em seguida, se colocou a pensar que não combinaram se ele trará peixes, pois o freezer pifou e pode ser que ele tenha se esquecido disso. Depois lembrou que não sabia ao certo o horário da sua chegada, mas pensou em providenciar um bom almoço de qualquer modo. Constatou que estava ocupando e tentando distrair sua mente fazendo uma lista de questões práticas. Ela conhecia bem as artimanhas da sua cabecinha e entendeu que estava fugindo de encarar seus sentimentos. Esse entendimento levou-a adiante. Conseguiu questionar se ele estaria sentindo o tanto de saudades suas, quanto ela estava sentindo saudades dele. Uma lágrima lhe escapou. Sentiu o beijo dele no seu rosto e, prontamente entendeu que estava perambulando no terreno sagrado do amor. Sentiu-se pronta para recebê-lo de volta.

ATITUDE

Quarta, 15 Outubro 2014 10:54
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Quando ela chegou, ele, como de costume, já estava no seu mundo paralelo. Era assim que ela chamava a vida que ele levava na frente do computador. Ela foi tomar um banho e ficou à vontade. Foi à cozinha, pegou alguma coisa para comer e assim que ficou satisfeita, chamou-o para conversar. Ele quis saber do que se tratava. Precisamos conversar... Não pode deixar para depois? Ela insistiu. Ele acabou perdendo a concentração e o game que estava jogando. Do que se trata? Pode falar... Qual a ordem do dia? Alguma nova queixa ou vai repetir as velhas ladainhas?  Precisamos falar de nós, das nossas vidas... Ele sinalizou seu desinteresse abrindo a boca disparando bocejos repetidos. Posso voltar pro meu computador? Antes que ele continuasse com seu repertório conhecido e sem graça ela declarou: Nosso casamento acabou! Ele arregalou os olhos como um bicho que foi pego numa armadilha. Ela ganhou coragem e seguiu dizendo que estava cansada de viver só e que queria voltar a ter sonhos e planos junto com alguém. Queria voltar a ser desejada e desejar. Tudo foi sendo falado sem alterar o tom de voz, apenas com o olhar bem firme nos olhos dele. Ele iniciou um gaguejar destrambelhado para questionar o que mais ela queria dele, se lhe faltava alguma coisa, se ele bebia ou batia nela, se queria um carro novo... O que era? Sem esperar resposta, ele deu um murro na mesa e num berro colocou para fora o seu pior pesadelo: você deve ter se enrabichado por outro! Sem se alterar, ela disse que já havia dito o que queria e acrescentou que ainda não tinha nenhum outro na história. Ele estava impressionado e irritado com a calma dela. Perguntou se ela estava sob o efeito de algum medicamento novo. Ou seria a nova terapia? Ah! Devia ser isso! Estavam colocando minhocas na cabeça de sua mulher. Ela que sempre esteve tão bem e sem reclamar de nada durante tantos anos, agora queria se separar... Não fazia o menor sentido para ele. Era pura armação! Fale mulher! Ela não respondeu nada. Fez-se um silêncio pesado e incômodo. Ele voltou a bocejar. Disse, então, que estava com sono, que queria ir para cama. Ela lhe desejou boa noite, esperou pelos seus roncos mais fortes e cadenciados, trocou de roupa, pegou sua mala que já estava pronta, deu uma última boa olhada pela casa, soprou um beijo na direção dele e, como se estivesse inebriada por ter acabado de receber seu alvará de soltura, abriu a porta e saiu de casa.  

JOGOS MODERNOS

Quarta, 28 Fevereiro 2018 16:52
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Eu ainda estava na cama tentando resolver o dilema de levantar ou me permitir um tempo de ócio a mais, quando o barulho do marido andando no corredor me fez decidir por colocar os pensamentos em ordem e ver o que tinha para fazer primeiro.  Decidi que o que queria fazer, antes de qualquer coisa, era lembrar o episódio que aconteceu no final da noite anterior. Chegamos de uma das nossas curtas viagens para o RJ. Quatro dias, muitos encontros e muitas emoções. Realmente muitas emoções! Emoções que ainda precisam ser mais bem digeridas, mas que, no momento, basta que se saiba que existiram. Comecei a lembrar de que quando saímos do aeroporto estava escuro e precisávamos achar um carro branco, de certa marca com um final de placa específico, acho que 73. A área de desembarque do aeroporto tem um espaço enorme, suficiente para uma caminhada saudável, mas eu não estava para isso àquela hora. Minha memória se juntou com a sensação de que estávamos num jogo que começou na escolha do aplicativo para encontrar o carro que nos levaria para casa. Não estou exagerando. Juro! Dá para ver pelo modo como meu marido se comporta cada vez que precisamos usar um veículo para nos transportar. Pegar um taxi virou a opção dos perdedores. Nós não! Meu marido tem três aplicativos, sendo que um ou dois deles se subdividem. Ele pode avisar que não tolera cigarro e vai gostar de ter balinhas e água para dizer que nem quer. Definitivamente nós conseguiríamos pegar um lindo carro, pelo menor preço e que fosse o mais rápido para chegar ao nosso destino. Assim que o avião pousou, meu marido pegou seu iphone e a busca começou. Seus dedos se moviam freneticamente e diante de uma e outra contrariedade um pequeno palavrão era cuspido de sua boca. Quando o carro era satisfatório, a distância que ele estava não era. Meu marido achou por bem me dizer que nossa cidade ainda não está entre as mais bem servidas deste tipo de serviço.  Eu já tinha conhecimento disso e devo ter respondido com um desses sons que não chegam a ser uma palavra. Da saída do avião até a saída do aeroporto há um percurso de cerca de quinze minutos. Durante os primeiros cinco minutos meu marido foi mexendo no seu aparelho e andando numa velocidade que me obrigou a ir bem mais depressa que meu corpo cansado estava querendo. A busca dele seguiu incessante. Ele passou a me mostrar quanto cada um cobrava. Meu marido estava com a faca e o queijo nas mãos para apertar um botão ou dar um comando e ganhar o tal jogo. Eu sabia que não era conveniente interrompê-lo e assim, após uns poucos minutos ele me anunciou triunfante que o nosso carro seria um HB, branco, com os números finais da placa, não tenho certeza, 73 e até disse o nome do motorista, que pode ter sido Rodrigo, ou outro qualquer. Como jogadores na última fase do jogo, passamos pelos portões do aeroporto em direção à área de desembarque. Agora só precisávamos achar o carro. Meu marido é mais alto que eu e com seu olhar consegue sempre varrer um campo bem grande. Andamos bastante de um lado para o outro. Fique perto de mim, ele me disse com uma voz firme, enquanto corria e buscava achar o carro que para nosso desgosto não estava facilmente à vista. No meu iphone diz que o carro está estacionado aqui. Experimentei dizer que o motorista poderia ter dado uma volta. Impossível! O aplicativo mostra que ele está aqui. Depois de um tempo, ousei dizer que não queria mais andar. Queria ir embora. Achei um lugar num banco e me sentei.  Empaquei. Meu marido começou a perceber que iria ser desclassificado do jogo. Ficou desacorçoado. Experimentei ajudar: Liga para o motorista. Já liguei! Ele não atende. Vou cancelar e buscar outro...  Nesse momento, enxerguei um taxi parado bem na nossa frente. O motorista do taxi saltou. Meu marido leu meus pensamentos e me disse que ele deveria estar aguardando alguém. O senhor está aguardando alguém? Não, estou livre. Quanto custa até o centro? O valor que ele deu era talvez 40% a mais que os carros que usam aplicativos. Rapidamente eu falei que o valor estava bom e que nós iríamos com ele. Meu marido entrou mudo no carro. Entre dentes me fez saber que ainda pagaríamos mais do que foi dito. Eu retruquei dizendo que pagaria quanto fosse. Ele foi eliminado do jogo. Estava amargando sua derrota, quando o motorista experimentou puxar conversa. Mudo ficou e eu troquei algumas falas com o motorista. Na porta de casa, meu marido me questionou se eu tinha dinheiro à mão. Achei minha carteira e tirei as notas para contar o dinheiro. Pronto! Por favor, confira se eu lhe dei o valor correto. O motorista contou e recontou. Não! A senhora me deu a mais. Ele me devolveu vinte e poucos reais. Boa noite e bom descanso! Vocês parecem cansados, mas já estão em casa e vão descansar. O senhor percebeu mesmo nosso cansaço. Boa noite para o senhor também. Meu marido se rendeu e desejou boa noite para o motorista. Game over.

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