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UMA ORQUÍDEA MUITO ESPECIAL

Sexta, 19 Agosto 2016 11:59
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Um vento forte interrompeu meu sono e a calma da noite. Portas e janelas bateram como se tivessem urgência de avisar que alguma coisa grave estava por acontecer ou como se apenas precisassem me fazer levantar da cama para tomar as providências necessárias. Devo ter demorado, pois quando levantei a chuva já estava começando a cair. É preciso coragem para sair debaixo das cobertas e se dispor a lidar com janelas histéricas numa noite de temporal. Sempre penso nisso, levo um tempo, mas acabo me sentindo forte o bastante para enfrentar as rajadas de vento e a chuva que costuma me molhar nessas situações. As portas da varanda estavam escancaradas e o chão da sala todo molhado. Nada muito grave, nada muito fora do comum. Quando ia fechar as portas que separam a varanda da sala, minha atenção se voltou para o vaso que estava balançando, ou melhor dizendo, tremendo por ação da chuva e da ventania. Era a bela orquídea com seis dos seus treze botões em flor. Fui capturada. Nós já nos conhecemos há algum tempo. Ela é linda e me sensibiliza muito quando ela esta florindo. É como se ela estivesse lentamente parindo até dar à luz a cada uma das suas flores. Alguns dias são necessários para acabar esse processo e o resultado que ela nos apresenta é sempre de muito capricho e arte. Penso que ela deve ficar exausta... Ao vê-la sujeita à intempérie, tive pena dela. Esse foi o meu sentimento. Achei que ela era frágil e não iria aguentar a tormenta. Num impulso, peguei o vaso da orquídea e coloquei-o a salvo na mesa da sala. Dei as costas para a orquídea e continuei a dar conta do que precisava fazer. Quando todas as janelas tinham sido fechadas, não havia mais nenhuma porta batendo, já tinha secado com um pano a água que a chuva fez entrar e eu poderia voltar para cama, ao passar pela sala, com uma nitidez absurda, escutei a orquídea me chamar. Num primeiro momento não acreditei. Como eu quis conferir, fui bem perto dela e esse pode ter sido meu erro. Quem lhe pediu para me trocar de lugar? Fiquei absolutamente pasma e atônita. Levou um tempo para eu começar a lhe dar alguma resposta. Parecia que ela se divertia com o meu assombro. Você poderia ficar sem suas flores, iria se machucar se ficasse exposta como estava. Como você pode afirmar uma coisa dessas? Fui criada para viver na natureza. Eu só quis lhe ajudar... Mas ninguém lhe pediu ajuda. Eu não queria ser ajudada. Eu queria sentir que era capaz de ficar onde estava. Queria sentir a chuva e o vento em mim. Você me tirou à força, me desrespeitou. Você deve fazer isso em outras situações... Pensa que é boa, que faz o bem, mas é uma tirana. Agora eu estava chocada. Como era possível? Sentei-me numa das cadeiras que rodeiam a mesa da sala e assim fiquei pertinho daquela flor. Minha orquídea tinha sido contundente. Não me deixou nenhuma brecha para escapar das suas acusações. Eu não tinha alternativa. Tive que vasculhar episódios em busca de situações semelhantes ao que havia acabado de passar. Fui lembrando... E lembrando... A flor estava muda. Deve ter adormecido ou não tinha mais razão para falar comigo. Eu não estava mais certa se devia ou não mexer com ela. Senti vontade de colocá-la de volta na varanda, mas havia acabado de aprender que precisava consultá-la. Tentei ser delicada e sussurrei baixinho: Você quer ir de volta para varanda? Agora está fresquinho lá fora, parece gostoso. A orquídea se mostrou diferente. Com um jeitinho muito maroto me fez saber que estava gostoso onde estava. Então... É, deixe-me ficar agora na sala. Ficarei linda para enfeitar sua mesa. E o vento? A chuva? Foi até bom não ter me molhado, nem passado pelas provações da tormenta. Agora já está tarde, estou cansada para ser novamente mexida. Vai dormir querida. Posso assegurar que suas palavras chegaram a mim de uma forma quase doce.  Do corredor joguei um beijo para ela e fui cambaleando para minha cama.

VÉSPERA DO FIM DE FÉRIAS

Quinta, 18 Janeiro 2018 08:39
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Não seria correto simplificar tudo que passei numa noite mal dormida assumindo que apenas foi desagradável ficar sem dormir direito. Preciso confessar que acima de tudo foi espantoso. Fiquei rolando na cama na véspera do fim das minhas férias. Nunca imaginaria que tal fato acontecesse, visto que estou com 64 anos e já trabalho há mais de trinta e cinco anos como psicóloga clinica. A sensação de obrigação e volta à rotina pode ter tocado numa questão delicada: o que faço com o precioso tempo de minha vida?  Ao tentar me responder fui levada para lugares não totalmente estranhos, mas lugares não muito visitados. Tenho plena noção que o exercício da psicologia me tornou alguém que se especializou ou se refinou na arte de escutar. De uma forma espetacular, percebi que minha mente abriu portas e janelas para expor os mais diversos materiais que andei escutando e que estavam registrados na minha memória. Num primeiro momento, talvez num ataque de covardia, quis resistir e adormecer. Quis acabar com aquele desfile de desejos, dramas, ambições, doenças e muito mais. Segurei firme meu travesseiro e fiz dele um escudo. Dobrei as pernas. Estiquei as pernas. Rolei para um lado. Esbarrei no companheiro, que demonstrou sua insatisfação através de um muxoxo. Rolei para o outo lado. Tentei colocar um travesseiro a mais na cabeça. Nada deu certo! Entendi por fim que era impossível não aceitar um convite vindo de uma instância tão especial e simplesmente adormecer.  Resignada aceitei a situação. Foi como se aceitasse fazer as pazes comigo mesma e parasse de brigar. Achei uma posição boa ao colocar uma mão no peito e outra na testa. Minha respiração entrou numa cadência e num ritmo suave. Percebi que me acalmei. Nesse momento, fiquei à disposição da minha alma e de tudo que ela achava que eu precisava revisitar. E assim foi. Escutei relatos de adolescentes entediados e zangados com seus pais. Escutei jovens sem planos, sem alegria de viver. Escutei noras se queixando de sogras e vice versa. Escutei profissionais estressados e irremediavelmente adoecidos por conjunturas venenosas. Escutei casais que já se amaram e se perderam no meio de algum caminho nublado. Escutei pessoas que querem ser alguém, mas não conseguem chegar nem perto do que almejam. Escutei pais e mães que não sabem colocar limites e educar seus filhos. Escutei pessoas de todas as idades falando de desejos, amores e sexo. Escutei pessoas doentes cheias de medo da morte. Escutei idosos resignados com a morte e cheios de raiva pela vida que estão levando. Escutei pessoas que querem ser respeitadas. Escutei também uns poucos relatos de sucesso, de conquistas e de alegrias. Não sei exatamente quanto tempo fiquei vivendo essa retrospectiva. Lembro que não senti vontade que acabasse, mas acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci. Acordei com o barulho do despertador. Por um reflexo condicionado, pulei da cama. Entrei na sequencia de atividades que me levaram em pouco mais de meia hora a estar pronta para ir trabalhar. O trajeto de minha casa até meu trabalho é curto e em quinze minutos a pé cheguei ao prédio onde tenho o meu consultório. Entrei no elevador e respirei fundo. Olhei-me no espelho, sorri sem exagero, gostei do que vi e me enxerguei pronta para recomeçar a trabalhar. Ainda no elevador, escutei assombrada uma voz zombeteira e estridente que me provocou: Está mesmo?    

HÁ QUEM ENTENDA

Terça, 02 Julho 2019 08:14
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Descobri, há muito tempo, que me recarrego na água. Sem praia por perto, resolvo essa questão na piscina mesmo. Entro e logo sinto a água abraçar docemente a minha pele. Não escapa nem um pedaço do meu corpo. O prazer é imediato. Afundo e fecho os olhos. Deixo-me inundar pelo silêncio. Tudo que me chama, me cobra e por vezes até me tortura fica agora num outro lugar. Longe. Fico num estado de suspensão, sem pressão. Sou capaz de capturar a leveza de cada parte do meu corpo. Nesses instantes, músicas me invadem. Algumas são doces e calmas. Outras nem tanto. Gosto de todas. Faço movimentos. Imagino que bailo. Queria ter aulas de ballet quando era menina. Foi um querer sem força e mamãe não o capturou. Nunca fiz essas aulas. As sapatilhas e as roupas das bailarinas sempre me chamaram a atenção. Posso ter tido inveja e ciúmes. Não tenho certeza. No fundo da piscina, imagino que consigo bailar. Imagino que estou linda, uso uma maquiagem leve e elegante, visto um collant rosa pálido com saia frufrus e meus cabelos longos estão presos num coque bem feito. Ao som da música, movimento meus braços e pernas com o máximo de delicadeza. Viro as mãos lentamente. Deixo-me cair para um lado e depois para o outro. Solto o pescoço e ergo a fronte. Sou bailarina. Que alegria! Não sei o que os olhos dos outros enxergam. Em geral, pensar no que os outros pensam me desconcentra. Volto à tona e respiro. Encho meus pulmões ao máximo para fazer durar o próximo momento lá embaixo. E vou. Não sei ao certo se tocarei o fundo se esticar meus pés. Abraço meus joelhos e rodopio. Perco a noção espacial. Onde é para cima? Onde é para baixo? Doce sensação de bem estar. Seria assim no ventre materno? Em meio a esse estado tão sereno, me vem à lembrança um medo de uma forte dor de ouvido. Quando era criança tinha muita dor de ouvido um ou dois dias após ir à praia ou à piscina. Então, ficou registrada em mim a certeza de que ao entrar água nos meus ouvidos eu seria sempre amaldiçoada com muita dor. E ainda no fundo, totalmente inebriada com o grande prazer de estar leve e em paz, percebo que a minha resposta sensata vai eclodir. Costumo ser muito competente para dar respostas racionais. Dou um basta no meu prazer. Vou para a superfície e respiro. E penso que já foi bom. Queria ficar mais, mas me conformo com o que foi bom. Afinal, não vou querer ter dor de ouvido. Certo? Certo... E me aprumo. Seguro na borda. Abro os olhos. Há gente em volta. Alguns, sonolentos, esticados ao sol e preguiçosamente largados, parecem me olhar. Será que olharam? Tanto faz. Grito para mim mesma que não ligo. Decido que é hora de fazer outros exercícios. Não vou afundar nem deixar mais entrar água nos ouvidos. Agora vou nadar em vários estilos. Deito-me de bruços na água e inicio com uma escalada. Estico um dos braços e com a mão agarro uma corda imaginária. Alterno os braços. Já não estou com frufrus nem coque. Minha escalada exige força, mas principalmente coordenação e aproveitamento dos movimentos. Os joelhos se dobram, os pés empurram. Deslizo na água. Meus braços são como os remos num barco quando um bom remador os maneja. Gosto de voar nessas escaladas. Parece que escuto a voz da minha professora dizendo para ir mais rápido, mais rápido, mais rápido. Estou voando! Meu coração dispara. Sinto um alarme dentro de mim e diminuo a velocidade. Preciso me reequilibrar. Inspiro e expiro. Repito até me sentir bem. O alarme já parou de tocar. Largo a corda e passo a nadar de peito. Meu coração volta ao normal. Nada de correr mais. Agora o que importa é a resistência. Tenho ritmo e uma perfeita coreografia entre minhas pernas e braços. Minha cabeça afunda pouco. Obviamente, não posso permitir entrar água nos meus ouvidos. Não me sinto cansada. Posso nadar dezenas de vezes percorrendo a extensão da piscina. E vou e volto e vou e volto. Lembro que é preciso compensar a coluna. Viro e nado um pouco de costas. Olho para o céu. Admiro as nuvens. Identifico rostos e bichos. Eles somem rápido. Como se brincassem comigo. Costumo rir. Aparecem outros. Muito legal! Volto para o peito. E vou e volto e vou e volto. Imagino que seguro um monte de balões com gás. Eles se soltam de minhas mãos. Não me apavoro. Até acho divertido. Busco pegá-los de volta. São meus pensamentos. Confesso que muitas vezes, ao capturar um deles e me dar conta do que se trata eu o solto novamente e deixo que ele fuja para bem longe de mim. Sensação de alívio. Sinto-me bem. Continuo nadando. Indo e voltando. E examinando os balões que consigo recapturar. E soltando quando sinto que é o que devo fazer. O relógio da piscina me mostra que já é momento de parar de nadar. Não me oponho. O dia ainda me oferece vários convites. Vou para a borda. Hora do alongamento. Para alongar os músculos da coxa, costumo tomar cuidado com meus joelhos. Assim como os ouvidos, os joelhos sabem me fazer sentir dor. E eu não gosto nem um pouco quando isso acontece. Pronto! Consegui dobrar e depois esticar muito bem minhas pernas. Alongo os braços. Giro os ombros para frente e para trás. Só falta agora segurar firme na escada e subir os degraus para sair da piscina. Do lado de fora olho para água como se precisasse agradecer e fazer uma despedida. Não falo, apenas penso. Logo voltarei. Isso é certeza! 

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