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Pedaços

Quinta, 24 Janeiro 2013 09:36
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  Estava distraído. A lufada de ar gélido lhe atingiu como um tapa. Olhou pela janela e viu os indícios de uma tempestade que, provavelmente muito em breve, iria despencar. Quando a porta bateu, ele se assustou com o barulho, falou um palavrão e deu um pulo. Detestava levar sustos. Resmungando, levantou-se e foi fechar a janela. Estava só e desinibido para seguir falando o que lhe desse na telha. Xingou o tempo, apesar de, entre os dentes, reconhecer que era um mal necessário. Empalideceu quando notou cacos pelo chão. Merda! O que ainda poderia acontecer num dia assim? Buscou uma vassoura e com muita vontade de se livrar do estorvo, se pôs a juntar os pedaços do que havia sido um vaso. Sentiu necessidade de interromper  sua pressa. Sentou-se no chão. Espalhou-se ao lado dos cacos do vaso. Parece que, de alguma forma, misturou-se com eles. Lacrimejando, foi lembrando a ocasião em que esse vaso entrou na sua vida. Estavam de férias. Como havia sido bom! Tudo deu certo. Passeavam olhando e apreciando o comércio. No meio de tantas lojinhas e vitrines encantadoras foram fisgados por esse objeto. Era, sem dúvida, um belo vaso. Ela disse que sempre sonhou ter um como aquele. Pode nem ter sido um pedido, mas naquela época, ele era refém de cada pequeno gesto ou palavra da sua amada. Entrou na loja e não barganhou, nem quando escutou o valor exorbitante. O vaso ajudou a enfeitar a casa deles tanto tempo... Ele achou um lenço no bolso. Secou seu rosto, mas chorava tanto que não demorou a voltar a encharcá-lo. Murmurou palavras como se falasse com um amigo... Ela não quis levar nada. Nem mesmo o vaso...Estava exaurido, nocauteado. Sentindo a pujança da dor causada pela partida dela, de repente entendeu sua semelhança com o vaso em cacos.        

A MULHER DO PESCADOR DE PRIMEIRA VIAGEM

Quinta, 07 Novembro 2013 18:37
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O marido foi pescar. Quando era jovem havia tentado realizar essa façanha, mas era casado, tinha dois filhos e, como todo assalariado brasileiro, só tinha direito a trinta dias de férias.  Para conseguir sair de fininho e vazar para algum rio, precisaria ter muita lábia para convencer tanto a mulher como o chefe. Naquela época, como já foi mencionado, ele era jovem e não teve o traquejo necessário. O tempo passou, na verdade foram mais de três décadas que passaram. Como ele nunca mais falou no assunto, a mulher achou que o marido havia se esquecido do antigo desejo. Então, nesse ano surgiu a grande oportunidade de ir pescar pela primeira vez na vida e ele se agarrou a ela com unhas e dentes. Foi com um grupo, onde eram todos machos e pescadores de muitos rios, de muitas estórias e de muitos peixes. Fizeram algumas reuniões prévias. Eram encontros sempre à noite, em dias de semana e a mais de 100 km de sua casa. Para espanto da mulher, ele não faltou a nenhum e sempre levou junto uma boa dose de bom humor e entusiasmo. A partir desses encontros, ele pode se organizar e tomar suas providencias. Vacina, caixa de iscas, cremes, remédios, bermudas, meias, varas, sapatos, camisetas e chapéu. Ela notou que ele voltava das reuniões como um cachorro que tenta segurar o rabo para não mostrar toda a alegria... E aí? Foi legal? Ele lhe contava alguma coisinha, mas logo desviava o assunto. Ela sentia que estava sendo colocada fora das piadas, dos risos e de alguma parte nublada, mas muito boa. Foi longe. Foi até as revistas em quadrinhos da sua infância. Lembrou-se de uma tabuleta que havia na porta do clube de meninos que dizia, sem meias palavras, que menina não entra... Entendeu a situação e se resignou. Passou a se dedicar a procurar entender o que o motivou a ir pescar. Seu marido já lhe havia surpreendido com atividades bem incomuns como criar rãs, fazer curso de reflexoterapia e heiki, fazer aulas de cerâmica e mágica, aprender ski aquático e até criar escargots dentro do apartamento. Então, ela raciocinou que em se tratando de um homem com um grau de ansiedade como o dele, pescar pode ter sido uma escolha para buscar uma mudança de padrão. Pode ser que a paz, o cenário bucólico de um rio, um barco, a mata nas margens e o tempo passando sem nenhuma exigência tenham sido as grandes âncoras da sua viagem para pescar. Acrescentou ainda a troca enriquecedora que ele deve ter vislumbrado, através da vivência com pessoas com outras experiências de vida. Essas conclusões lhe deram muita esperança e ela se sentiu muito bem ao carrega-las consigo para todos os lados nesses dias sem ele. Algumas pessoas, no entanto, quiseram lhe cutucar. De um modo quase confidencial, lhe revelaram que a embarcação onde seu marido estava era um local de alta categoria, muita cerveja, caipirinha, boa comida e muita esbórnia. Não mordeu essa isca. Tinha mais o que fazer. Aliás, tinha um bocado de coisas para fazer. Depois que ele viajou, numa noite dessas, no meio da madrugada, hora em que as luzes da sua alma costumam se acender, o pensamento nele tomou conta dela. Desejou que ele estivesse bem e com saúde. Em seguida, se colocou a pensar que não combinaram se ele trará peixes, pois o freezer pifou e pode ser que ele tenha se esquecido disso. Depois lembrou que não sabia ao certo o horário da sua chegada, mas pensou em providenciar um bom almoço de qualquer modo. Constatou que estava ocupando e tentando distrair sua mente fazendo uma lista de questões práticas. Ela conhecia bem as artimanhas da sua cabecinha e entendeu que estava fugindo de encarar seus sentimentos. Esse entendimento levou-a adiante. Conseguiu questionar se ele estaria sentindo o tanto de saudades suas, quanto ela estava sentindo saudades dele. Uma lágrima lhe escapou. Sentiu o beijo dele no seu rosto e, prontamente entendeu que estava perambulando no terreno sagrado do amor. Sentiu-se pronta para recebê-lo de volta.

ENCONTRO COMIGO

Terça, 25 Fevereiro 2014 12:21
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 Um forte odor que emanava dela me fez sentir uma imediata repugnância. Ela estava completamente despenteada, seus cabelos, assim como meus pensamentos guiados pela minha imaginação, davam a entender que queriam alçar voo. Era jovem, morena, magra e estava mal coberta por um vestido roto e bem sujo. O perfume que estava em meu corpo pareceu desejar outros ares, mas o máximo que pode fazer foi tentar se evaporar. Achei que a moça quis me provocar, exibindo cacos de dente na boca ao esboçar um sorriso emoldurado por lábios sem cor. Sem ter como fugir ou simplesmente trocar de lugar, afinal o ônibus estava lotado e eu estava encalacrada, sentada num banco, sentindo o ventre da moça no meu ombro, resignei-me e baixei a cabeça. Foi então que notei seus pés imundos. Um par de pés grandes, sem nenhuma delicadeza, sem nada que os enfeitasse ou que os amparasse. Pés descalços, que davam sinais de estarem plenamente acostumados com as agruras da vida. Num reflexo, encolhi os meus que estavam dentro dos sapatos especiais que eu usava para me dar mais conforto. Meti-os para debaixo do banco e os fiz ficarem por lá, como se os estivesse colocando de castigo. Parecia que ela se segurava com firmeza. No entanto, eu acreditava que numa freada ela poderia parar no meu colo e sujar e amassar minha roupa. Ao me dar conta da possibilidade desse transtorno, olhei melhor para ela e, sem querer, sorri. Foi um sorriso pequeno, de meia boca, sem nem ao menos mostrar dentes ou alguma intimidade. Ainda assim, foi o que bastou. Como um bicho esfomeado ela sorveu cada pedacinho do meu sorriso. Tive a nítida sensação de escutar barulho de algemas me prendendo. Então, em desespero, quis sair daquela condução. Fiz menção de me levantar. Ela notou e não colaborou. Com joelhos e cotovelos, fui degladiando com ela e depois com cada uma das pessoas até me ver fora daquele ônibus. De pé, na calçada, respirei aliviada. Uma lufada de vento me fez sentir frio. Abotoei meu casaco e tentei desaparecer em mim.

SEM CHÃO

Sexta, 08 Maio 2015 09:45
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Duas mulheres andavam elegantes numa rua movimentada, em sentidos opostos, a passos rápidos e com seus mais diversos pensamentos em ebulição, fazendo com que suas cabeças estivessem no mundo da lua. Esta é uma fórmula quase perfeita para um pequeno desastre. Não deu outra... O encontrão foi inevitável. As duas perderam o equilíbrio. Com muito custo, afinal pareciam uma dupla de dançarinas bêbadas, conseguiram se aprumar nos respectivos saltos bem altos. No meio dessa cena, suas bolsas caíram e se abriram. Vários objetos que estavam dentro das bolsas, acomodados e quietos, subitamente pareceram ter ganhado vida e, sem cerimonia, se espalharam pela calçada. Ninguém pode afirmar, mas aquela bagunça na rua deve ter provocado algum grau de vergonha naquelas duas senhoras que nem se conheciam. Era como se cada uma estivesse expondo sua nudez de forma diferente e dramaticamente reveladora. Os olhares dos transeuntes, provavelmente, contribuíam para aumentar o desconforto nelas. Estava tudo misturado, até os risinhos sem graça que elas tentavam segurar. Teriam que separar o que era de uma e o que era da outra. Ambas se agacharam e iniciaram o trabalho que tinham pela frente. Sem introdução, deram início à tarefa. Essa chave deve ser sua... É, obrigada. Os absorventes? Eu também tinha alguns na minha bolsa. Lembra quantos? Não... Vamos dividir... Certo? Claro... Essa cartela de remédio é minha. Eu também já usei esse ai, mas não me dei bem com ele. Você sentia a boca seca? Demais! E engordei muito também. Ah! Essa merda faz engordar! Pois é... Converse com seu médico. Nesse instante, como notaram que a coisa não seria tão rápida, elas improvisaram um modo mais confortável, esticaram os lencinhos que identificaram como seus e se sentaram sobre eles no meio fio. Assim indicaram que estavam mais disponíveis e presentes. Um peito se abriu e uma conversa começou a fluir. Mês passado fui mandada embora do emprego. Fiquei sem chão. Ainda estou meio assim. Fui num psiquiatra e ele me receitou esse medicamento. Sei que vai passar. Sem saber como seguir com esse assunto complicado, a ouvinte do drama da outra catou a primeira coisa que encontrou no chão e assim mudou o tema da prosa. Essa lanterna é sua? A desempregada aceitou a mudança de tema. É. Com alívio, a outra seguiu nesse rumo. Nunca pensei em ter uma lanterna na bolsa. Essa é de um bom tamanho. Quer para você? Jura? Está me dando de presente? Claro, pode ficar. Enfiando o presente na bolsa, sentiu que um pensamento lhe martelava a cabeça: Como alguém pode estar mal e ser generosa ao mesmo tempo? Espanou essa dúvida e pegou um retrato do chão. Que lindas fotos! Obrigada... Eu carrego a família toda comigo. Posso ver? Claro! Esse é meu marido, aqui é meu filho e do lado é a minha filha. Nessa outra foto estão meus pais e meus irmãos comigo na praia. Que lindos! Você está casada há quanto tempo? Vinte anos. Que beleza! E você? Casei no ano passado. Ainda não tenho filhos e nem sei se vou ter. Tal revelação causou um silêncio com pitadas de assombro e estranhamento. Ficou no ar a diferença entre elas, como se tivessem descoberto que eram de times ou até de seitas diferentes. Ainda tinha muita coisa espalhada e não dava para ficar em transe para sempre. A casada a menos tempo esticou o braço para pegar cartões e carteiras. Notou que seus cartões de crédito estavam embaralhados com documentos que não lhe pertenciam. Passou tudo para a outra e pediu para que ela separasse o que era dela. Estou vendo que desse bolo todo só me pertencem meu RG e CPF. Já falta pouca coisa. É... Nem está sendo tão complicado... Tem um desodorante que deve ser seu, pois eu não levo isso comigo. É meu mesmo. Sem controlar uma curiosidade meio sem pé nem cabeça quis saber se o desodorante tinha bom cheiro. Posso ver? Que suave! Vou anotar a marca. Olhe ali uma caneta e um caderninho... Devem ser seus.  Exatamente! Tenho milhões de dicas colecionadas nesse caderninho. Bacana... Eu anoto coisas no meu i phone. Acaba dando no mesmo. É... Claro. Essa maçã é sua. Eu sempre trago comigo uma fruta ou uma barrinha por recomendação da nutricionista. É mesmo? Eu procuro comer de três em três horas. E é magra desse jeito! É uma questão de hábito alimentar e faz bem para saúde. Você deveria fazer o mesmo. Quase dava para ver como o conselho saiu da boca de uma e bateu de frente com a surpresa da outra. Uma nota de vinte quis fugir da cena pegando carona numa lufada de vento.  A que tinha acabado de guardar a maçã fez uma defesa espetacular e agarrou a nota fujona. Peguei! Você lembra quanto tinha na carteira? Mais ou menos... E você? Não lembro. E agora? Como vamos fazer a divisão? Vou contar todo o dinheiro espalhado, inclusive as moedas. Aqui tem R$ 237,75. Sei que eu não tinha muito dinheiro. Você acha que tinha menos de cinquenta? Acho. Fique com cinquenta e eu fico com o resto, assim não vamos errar muito. Que incrível! Nunca pensou que existisse gente assim... Ainda estava guardando o dinheiro, quando percebeu a aflição na fala da sua nova conhecida. Não estou achando meu i phone! Ele vai aparecer... Calma! Veja, o danadinho está quase no bueiro. Ainda bem, obrigada, sem ele fico perdida. Eu sei, comigo é igual. Agora nossos batons... Temos que admitir que nossos gostos são bem parecidos. Incrível! Tem até dois de cores e marcas iguais. Só que um já está mais gasto. Qual será o seu e qual será o meu? Ah! Tenho certeza que esse mais novo é meu. Posso guarda-lo? Bem, se você tem tanta certeza... Tenho! Não pode ser esse outro aqui? Não! Esse está usado de uma forma que não é minha. Nem minha! Um silêncio breve e grave deu um tom azedo àquele diálogo. Você acha que estou mentindo? Não, acho que você pode estar enganada. Mas não estou... Devolve o meu batom! É meu! Já guardei e não vou devolver nada. Aliás, já estou muito atrasada. Essas porcarias que ainda estão pelo chão devem ser suas. Já ficamos tempo demais nessa cena esdrúxula! Sem cerimônia e se apoiando nas costas da outra, levantou-se, fez alguns movimentos para desamassar sua roupa e tentou ficar recomposta. A que serviu de apoio, admirada, ainda no chão, parecendo anestesiada diante das mudanças de humor e do modo de se comportar da outra mulher, apenas se restringiu a olhar. Virou espectadora. A que estava levantada deu uns passos como indo embora, mas voltou, se abaixou e pegou seu lencinho. Depois disso, muito solene e sem se despedir, girou seus calcanhares e tomou seu rumo.  De quem seria aquele batom? Como foi possível degringolar uma conversa que estava se encaminhando tão bem só por causa de um batom? A mulher sentada no meio fio ergueu o braço como querendo chamar a mulher que minutos atrás estava lhe confidenciando intimidades, mas se deu conta que nem sabia seu nome. Baixou o braço e abortou a ideia. Não achou sensato emitir um grito na direção de alguém que se mostrou tão perturbada e sem equilíbrio. Queria entender... Talvez não tenha percebido alguns sinais, talvez tenha perdido a oportunidade de conversar e ajeitar aquela confusão. Sem ter em quem se apoiar, pegou seu lencinho e foi se erguendo bem devagar, parecia que erguia uma carga muito pesada. Ficou de pé e sem chão, mesmo assim tomou também seu rumo.

QUEM ME ENVIOU UM QUEIJO?

Sexta, 22 Janeiro 2016 17:04
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Quando cheguei à garagem do meu prédio, ainda não estava escuro, mas era o fim do meu dia de trabalho. Eu estava feliz tanto pelo que realizei, quanto pela programação que eu iria me brindar para ter uma noite de paz e prazer. Já podia me ver sentada no sofá da sala com um lanche gostoso, escolhendo um bom filme para assistir. Lá pelas dez da noite, iria para cama ler um livro que, como um animal fiel, já estaria à minha espera na cabeceira. Deixei meus pensamentos rolarem, fiz as manobras para entrar na minha vaga e quando estava quase desligando o carro, percebi que um jovem vizinho me aguardava segurando gentilmente a porta do elevador. Apressei o passo, agradeci e entrei. Apertamos os botões de nossos andares. Trocamos algumas palavras. O elevador logo parou. Era o zelador que tinha correspondências e uma sacola para mim. Notei que se tratava de uma sacola térmica. Perguntei quem a havia deixado. Ele me respondeu sem pestanejar: Rita! Devo ter feito uma cara muito estranha. O zelador emendou: Regina! Meu semblante deve ter revelado a continuação do meu questionamento. Não lembro! Desculpe-me, mas ela falou e eu não estou conseguindo lembrar... Agora o nome que parece que foi dito é Cristina. Isso! Foi Cristina. Olhei para o meu jovem e gentil vizinho e percebi sua impaciência. Com razão. Obrigada, Sr. Mario, acho que pode ser Cristina... Vou averiguar e qualquer coisa, eu lhe avisarei. Assim que cheguei no meu apartamento, larguei minha bolsa, correspondências e a sacola térmica no balcão da cozinha. Estava curiosa. Abri a sacola térmica em busca de algum envelope, alguma mensagem. Nada. Havia apenas um saco plástico transparente e dentro dele um queijo minas com um jeito apetitoso.  Mais que depressa fui lavar as mãos e voltei para experimentar um pedacinho. Hummmm. Que delícia! Rita... Regina... Cristina... Eu havia estado com uma pessoa com um desses nomes. Ela me contou sobre sua decisão de se cuidar e se alimentar melhor. Claro! Devia ser ela. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que havia recebido o queijo, por sinal delicioso, e que queria me certificar se foi ela quem me presenteou com essa gostosura saudável. A resposta não demorou. Poderia ter sido ela, mas não foi. Ela me sugeriu vasculhar entre outras pessoas que gostam de mim tanto quanto ela. Liguei para o zelador. Sabia que não iria adiantar para muita coisa, mas talvez estivesse com necessidade de compartilhar o andamento dessa estranha situação. Sr. Mario, não era quem eu pensei que poderia ter sido... O senhor não lembra de mais nada? Deixe-me ver... Ah! A pessoa disse que era irmã do Marquinhos. Isso! Foi ele quem, na verdade, lhe mandou o queijo de presente. Marquinhos? É. Desse nome tenho certeza. Por que a senhora não olha no seu facebook? Fechei os olhos, balancei a cabeça e tive vontade de rir. Sr. Mario, se alguém aparecer falando do queijo ou da sacola, pode me ligar, estarei acordada. Olhei para o queijo e para a faca suja. Cortei mais um pedaço. Muito bom! Recordei que Marquinhos era o nome de um antigo cabelereiro. Durante um bom tempo cortei cabelo com ele. Conversávamos bastante, mas... Não. Não imaginava que ele iria surgir do nada usando um queijo como pretexto. Como se estivesse conduzindo uma charrete, eu segurei firme as rédeas e meus pensamentos me levaram para outro lugar. Há uns cinquenta e poucos anos convivi com outro Marquinhos. Foi no período do primário na escola. Será que aquele Marquinhos virou um fazendeiro que me descobriu e cheio de saudades apareceu, meio tímido, diga-se de passagem, deixando uma sacola térmica com um queijo de sua produção? Não consegui embarcar nessa fantasia. Na verdade, eu não podia ter certeza de nome algum. Comecei a pensar que talvez o queijo não era para mim. Algum outro morador era o destinatário daquela delícia. Experimentei pela primeira vez a sensação desconfortável de estar fazendo algo errado. Havia grandes chances de estar comendo um queijo que não era meu. Coloquei o queijo na geladeira e resolvi adiar a continuação desse episódio para o dia seguinte. Ao acordar, logo percebi que estava com o queijo na cabeça. Ou talvez com Marquinhos... Mas, que bobagem! Eu estava ficando atrasada para trabalhar. Minha mente ficou ocupada o dia inteiro o suficiente para não haver a mínima brecha para o queijo. Quando cheguei do trabalho à noitinha, não tive coragem de cortar outro pedaço. Confesso que, fora a quase certeza de que estaria comendo algo que não me pertencia, me veio um pensamento maluco de que alguém poderia querer se passar por uma bruxa igual a que deu a maçã envenenada para a Branca de Neve. Parei na portaria para falar com o Sr. Mario. Era folga dele. Perguntei ao outro funcionário se havia algum recado para mim. Nada. Deixei para fazer as devidas investigações no dia seguinte. Fui dormir certa de que havia alguma coisa bem errada. Quando amanheceu, corri para revirar novamente a sacola térmica em busca de um bilhete bem escondido nela. Inútil. Fui fazer compras. Será que devia ou não comprar queijo para o fim de semana? Afinal, Marquinhos me mandou um queijo lindo... Tive que rir e estava tão distraída que quase bati no carrinho de uma senhora. Ela percebeu que eu estava no mundo da lua e me disse que paixão de outono é mesmo uma maravilha. Eu sorri e deixei-a acreditar no que tivesse vontade. Voltei para casa, arrumei tudo e desci na portaria. Perguntei pelo Sr. Mario e fiquei sabendo que ele só viria de tarde. Puxa! A zeladora quis saber o que estava me afligindo. Comecei a falar da sacola térmica e do queijo e logo ela me interrompeu exclamando: Então foi a senhora? Fui... Pouco tempo depois, eu estava batendo na porta da legítima dona do queijo e da sacola. Levei meu livro de crônicas com uma dedicatória me desculpando pela deliciosa fatia que eu comi. Minha vizinha me ofereceu outra fatia. Demos algumas risadas. Saí daquele apartamento sem a sacola e sem o queijo, mas em troca estava com a crônica todinha na cabeça... 

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