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BENTO QUERIA SER VENTO - Infantil

Segunda, 16 Março 2015 14:46
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Era uma vez um menino chamado Bento. Era pequeno e cheio de energia. Tinha seis anos, olhos espertos e uma cabeça que pensava sem parar. Numa tarde de domingo, Bento parecia distraído, sentadinho no chão, não muito longe de sua casa, brincando com uma varetinha, olhando o que acontecia ao seu redor. Olhava e pensava. E pensava e pensava... O vento parecia fora de si. Estranho? Pode ser, mas era essa a impressão que Bento tinha, pois enxergava que o vento estava totalmente louco, fazendo portas baterem, vestidos e saias serem levantados e fazendo também papéis e miudezas voarem. Fora toda essa bagunça ainda havia gente correndo para todos os lados. Que força o vento tem! Enquanto Bento refletia sobre o poder do vento, escutava a voz de sua mãe que lhe chamava: Bento! Vem para casa! Beeeento! Onde você está? Vai cair uma tempestade. Ô menino... Precisamos fechar a casa! Como, às vezes, acontece com as crianças, Bento estava sem vontade de obedecer. Seguindo a desobediência, Bento saiu em disparada gritando. Gritava como se vento fosse. Sou o Veeeeeento! Beeento Veeeento! Sem nenhuma preocupação com a chuva forte que estava sendo anunciada, Bento foi se distanciando de sua moradia. Sou Veeeento! Veeento! Dois dentes de leite da frente já haviam caído e Bento estava achando graça falar que era vento, pois a falta dos dentes fazia a palavra vento sair de forma engraçada. Ventava na sua boca... Veeeento! Seguiu correndo, imaginando que estava voando. Não demorou muito, foi parar na beira do lago. Notou que a água estava descolorida de negro. O céu escuro refletido no lago dava um aspecto bem diferente de quando os dias são claros e o céu é azul. Não havia ninguém na beira do lago. Nem patos, nem sapos, nem passarinhos. Só a ventania cada vez mais forte e ele, Bento, o menino que parecia que engoliu o desassossego. Com os braços bem esticados, Bento tentava ensaiar voos para todos os lados. Em alguns momentos o vento lhe dava a impressão de que iria lhe levantar, mas Bento não estava nem um pouquinho assustado. Pelo contrário, ele estava deslumbrado. Depois de ir para lá e para cá, Bento sentiu vontade de mudar de brincadeira. Atirou longe seus sapatos e correu para colocar os pés na água. Achou delicioso e refrescante!  Essa alegria não durou muito, pois trovões e relâmpagos passaram a se revezar fazendo com que o céu ficasse com uma aparência sinistra. Gotas de chuva começaram a cair. Gotas grossas. Bento lembrou que era perigoso ficar na água, mesmo só com os pés, pois algum raio poderia ser atraído e cair nele. Isso não é brincadeira! É coisa séria! Ainda bem! Bento saiu do lago. Levantou-se para ir pegar seus sapatos. Não reparou na raiz de uma árvore, tropeçou e caiu. Sentiu uma dor forte. Machucou seu pé. A tempestade seguia muito forte. Trovões e relâmpagos estavam mais ferozes e insistentes. Raios pareciam cair pertinho dele. Bento começou a sentir medo. Sabia que tinha que sair de onde estava. Ficar perto de árvores era muito perigoso, pois as árvores também atraem os raios. Bento sentiu que estava ficando mais e mais assustado.  Queria estar em casa com sua mamãe e papai. Queria estar na sua cama sequinha. Teve vontade de chorar e imaginou que seus pais deveriam estar preocupados com ele. Fez um esforço grande e se levantou com a ajuda de um pau que achou jogado na grama. Estava totalmente molhado por causa da chuva. Estava encharcado. Queria conseguir voltar rápido como o vento, mas a dor lhe fazia dar passos pequenos e bem devagar. A brincadeira que ele havia tanto gostado já não tinha graça nenhuma. Lembrou que deveria ter respondido, quando sua mãe lhe chamou. Ah! Como queria escutar sua mamãe lhe chamando novamente... Beeeeeeento! Era ela! Sua mamãe estava lhe procurando. Aqui mamãe! Beeeeento! Agora era a voz do seu papai. Ah! Que alegria! Estou aqui! Papai! Mamãe! Em poucos instantes, Bento e seus pais estavam abraçados. Papai lembrou que era melhor saírem logo dali. Colocou Bento no colo e acompanhado da mamãe não demoraram a chegar a casa deles. Onde você estava menino? Correndo... Achando que era o vento... Brincando... Ouvindo mamãe chamar e não respondendo... Fingi que não escutei. Isso não foi nada bonito, disse a mamãe. Não vou mais fazer isso não. Acho que não quero mais saber de ser vento, sou Bento. Isso já é muito bom! Papai e mamãe concordaram com ele, lhe abraçaram e lhe encheram de beijos. Os três estavam felizes e, de dentro de casa, sãos, salvos e juntos contemplaram a tempestade que ainda caiu um bom tempo.

UM AMOR DE FILHOS

Quarta, 25 Novembro 2015 09:31
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Estavam bem cansados quando finalmente chegaram ao hotel. Ele se jogou na cama. Ela sentou no sofá e começar a falar sobre sair e fazer compras e sobre a decepção dos netos e outras tantas frases, quando ele a interrompeu. Não entre nesse caminho agora. Vamos apreciar o silêncio maravilhoso desse quarto e depois teremos tempo para tudo o que for preciso. Como estava realmente exausta, ela concordou. Ambos são idosos e ele, ainda por cima, vem sendo acompanhado pelo Mal de Parkinson há mais de uma década. Fizeram uma viagem cansativa. Foram mais de onze horas de avião, fora quatro horas de atraso do voo e mais um par de horas para chegar ao aeroporto do embarque e depois do aeroporto do destino até o hotel. Uma das filhas, a que mora perto deles, fez de tudo para que o estresse da viagem fosse minimizado. Só não foi junto. Ajudou a escolher as roupas que seriam adequadas para viagem, a arrumar as malas e, por fim, fotografou as muitas malas e bagagens que seus pais estavam levando. Dessa forma, acreditou que estava tudo organizado e sob controle. Os desconfortos que o Parkinson provoca fizeram com que ele perambulasse pelo avião a noite toda. Ela, como sempre, descansou meio que superficialmente, não fechando os dois olhos ao mesmo tempo, para poder cuidar do marido. Ainda assim, desde que saíram de casa até a chegada ao hotel, foram se distraindo e achando motivos para amenizar as dificuldades que estavam enfrentando.  A animação do casal para fazer uma viagem tão longa e desgastante foi por conta da maioridade religiosa da neta caçula, o Bat Mitzva da Maia. Para algumas pessoas esse motivo pode não exercer nenhum apelo especial. Para esse casal e sua família de três filhos, uma nora, dois genros, cinco netos, fora a irmã, sobrinhos e agregados foi mais que o bastante para que enxergassem a rara e imperdível oportunidade de um belíssimo encontro. Fora todos os detalhes da cerimônia religiosa e da festa, os pais de Maia pensaram nas acomodações, transportes, alimentação e até diversão para os que vinham de outros países e cidades distantes. Fizeram o máximo para tudo sair perfeito. Os avós de Maia foram instalados no mesmo andar onde o café da manhã é servido no hotel, de tal forma que eles não tivessem que se locomover muito. O quarto deles era espaçoso o suficiente para poderem receber visitas. Assim que a notícia que os avós chegaram se espalhou, o descanso do casal foi interrompido. Todos os outros parentes já haviam chegado e estavam aflitos para se ver e se abraçar. O quarto dos avós foi invadido pela parentada eufórica e barulhenta. O ar quase ficou rarefeito, possivelmente alguma reação, não cientificamente comprovada, sobre a quantidade de emoções por metro quadrado e o oxigênio que é demandado nessas situações.  Além dos abraços e beijos demorados, o olhar brilhante e atento do filho percebeu uma inquietação na sua mãe. Ele notou, além do cansaço da viagem, que sua mãe estava incomodada com alguma coisa. Ele quis saber o que estava acontecendo, o que a preocupava. Ela foi sucinta e despejou o incomodo: Perdemos uma mala. Não chegou? Não sei. Sabe qual é? Uma mala vermelha. Alguém não se conteve: Não viram as fotos? Não. Nenhum de nós dois se lembrou de fazer isso. Muitas vozes se cruzaram, uma balburdia encheu o recinto, mas deu para entender que  se tratava de uma mala com uma importância singular, pois tinha um monte de presentes, principalmente para os netos. Ninguém sabia o que dizer quando a avó começou a chorar. Alguém teve o bom senso de fazer a retirada de uma boa parte das pessoas daquele quarto. Deveriam ficar apenas o casal de idosos e seus três filhos. Eu queria muito ficar perto deles e desobedeci à regra sugerida. Fiz da minha permanência algo quase imperceptível (pelo menos assim acreditei), fiquei num canto encolhida e muda. As duas filhas se colocaram cada uma de um lado da mãe. Sem nenhuma combinação, as duas iniciaram uma sessão de carinhos e afagos e em poucos segundos deu para perceber que a mãe reagiu e parou de chorar. Conte mãe! Conte como foi... Conte o que aconteceu. Escutaram uma, duas ou dez vezes o que a mãe precisava contar. Parecia que ela tinha que se exorcizar. Embora o incômodo maior estivesse dentro da mãe, o pai também quis explicar como foi que a situação aconteceu. Ninguém lhe tirou a palavra, muito pelo contrário, estavam atentos em atitude respeitosa. Os três filhos não tiveram dificuldades para entender que seus pais simplesmente esqueceram aquele objeto. Foram embora com outras malas e não retiraram a tal mala vermelha da esteira. Foi isso. Nada demais! Um esquecimento. Apesar de terem constatado a causa do problema, nenhum dos filhos riu, nem demonstrou chateação pelo imprevisto. Para começar a tranquilizar os pais, disseram que esse tipo de situação pode acontecer com qualquer um. Não perguntaram sobre o valor em dinheiro do que tinha na mala, nem cogitaram outra coisa a fazer que não fosse resgatar a mala vermelha. Eles se organizaram. Pediram para mãe alguns dados e disseram que fariam de tudo para recuperar a mala. Fizeram ligações telefônicas, entraram na internet e, assim, já começaram a recuperar o mais importante, a calma e o equilíbrio da mãe. Tiraram dela um peso e o colocaram para si. Eu estava lá. Fui testemunha da forma madura e amorosa com que aqueles filhos agiram. Aliás, já os vi fazendo isso em outras ocasiões... Conheço muita gente, muitos são pais, muitos são filhos, mas não são muitos que sabem ser maduros e amorosos. Saí do quarto silenciosamente. Saí tentando não me fazer notar. Fui andar um pouco pelos arredores daquele hotel. As folhas avermelhadas explodiam pelas árvores. Fazia frio. Fiquei revendo as cenas que havia acabado de presenciar. Tão incomum. Fui andando sem rumo, gostando de dar um tempo para pensar na importância e singularidade do que aconteceu. Voltei ao hotel. O pequeno saguão estava lotado de gente da minha família. Abracei cada um dos meus três primos com força e sem pressa de largar. Para cada um deles falei o quanto eu admirei a forma como eles agiram. Os três reagiram com uma mistura de espanto com “não sei do que você está falando”. Não expliquei. Não havia como fazer isso naquele lugar e naquele momento. Guardei o ocorrido num canto especial da minha memória e sabia que um dia iria escrever sobre tudo que presenciei e senti.        

UM SUPER HERÓI NO TEMPO DO BONDE - Crônica Infantil

Segunda, 30 Novembro 2015 16:33
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Era um começo de dia como outro qualquer na casa de Zaidá (vovô no idioma idish). Buba ( vovó no idioma idish) aprontava o café da manhã e o colocava na mesa da sala. Sempre a mesa estava coberta por uma toalha bonita e limpa e cada um tinha seu prato, seus talheres, a xícara e o guardanapo de pano.   Zaidá acordava cedo para se exercitar e tomar um banho de água gelada. Ele acreditava que sua boa saúde dependia dos exercícios e do choque térmico que sentia com a água do chuveiro. Estherzinha se aprontava para ir à escola. Não dava tempo para muita conversa, mas Zaidá adorava brincar e aprontar situações para fazer sua família se alegrar. Nesse dia, Zaidá decidiu esconder a frigideira. Buba começou a procurar sem imaginar que fosse uma peça que seu marido estava lhe pregando. Buba se abaixou e vasculhou bem no armário embaixo da pia. Como não encontrou o que procurava, tirou todas as panelas para fora do armário. Pediu ajuda à filha. Zaidá assistia a toda àquela agitação sem dizer nada e sem rir, o que era mais difícil. A frigideira era importante, pois Buba a usava para fritar ovos todas as manhãs. Buba já estava ficando sem paciência, quando Zaidá sugeriu que nesse dia poderiam comer ovos cozidos, nesse caso, não seria preciso a frigideira. Como Zaidá e Estherzinha tinham hora para sair e já estavam quase ficando atrasados, Buba concordou com a ideia. Quando ela foi pegar os ovos na geladeira deu um grito e começou a falar em idish: Manale! Bistu Michiguene Guevorn? (Manoel! Você ficou maluco?) O que foi mamãe? O que foi? Olhe! A frigideira! Como ela veio parar aqui? Estherzinha quase chorou de tanto rir. Zaidá pulava e dançava fazendo com que a Buba também entrasse no clima. Que farra! Zaidá e Estherzinha comeram apressadamente, despediram-se da Buba e foram para o ponto do bonde. Não demorou nem um minuto e o bonde chegou. O motorneiro era o mesmo todos os dias. Ele conhecia todos os passageiros e tinha o hábito de cumprimentá-los: Bom dia Sr. Manoel! Bom dia Estherzinha! Subam! Puxou a cordinha e o sino que anunciava a partida do bonde soou. O trajeto até a escola levava uma meia hora passando por ruas calmas e arborizadas. Era um bonito passeio. Estherzinha, como fazia muitas vezes, recitou a propaganda que ficava ao lado do motorneiro: Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado, mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado. Zaidá gostava de ouvir sua filha falando alto, para todo mundo ouvir. Quando ela acabou, Zaida foi o primeiro a aplaudir. O bonde ainda não estava nem cinco minutos distante do ponto onde Zaidá e Estherzinha subiram, quando, sem mais nem menos, Estherzinha começou a gritar: AI! Pai! Pai! Que foi? O que está acontecendo? Você está sentindo alguma coisa? Não! Eu esqueci meu caderninho! E daí? Eu preciso dele! Preciso muito! De verdade! Tem muita coisa importante lá! Ah! Papai! A essas alturas, Estherzinha, que nem era uma menina chorona, não conseguiu conter as lágrimas. Então foi a vez de Zaida usar sua voz num tom bem alto: Motorneiro! Motorneiro! Pare o bonde! O pedido do Zaidá chegou como uma ordem nos ouvidos do motorneiro, que puxou o freio e imediatamente parou o bonde. Sr. Manoel, o que está acontecendo? O senhor pode me explicar? Posso! Estherzinha precisa do seu caderno que ficou em casa. Vou buscá-lo. Vou bem rápido. Não mova esse bonde até eu voltar! Nenhum passageiro reclamou ou, sequer, duvidou da decisão daquele pai em ajudar sua filha. O motorneiro ficou de boca aberta, como se fosse argumentar alguma coisa, mas nada falou. Zaidá ainda recomendou para sua filha ficar bem, sem sair dali, que ele já voltava. Todos do bonde viram como ele saiu em disparada. Chegou à sua casa esbaforido. Buba estranhou e até se assustou quando trombou com ele na cozinha. O que houve? Você está todo suado? Parece que andou correndo pelas ruas... Cadê Estherzinha? Calma Dora! Está tudo bem. Não tenho tempo para lhe dar maiores explicações. Estherzinha está no bonde. Ela se esqueceu de levar seu caderninho. É eu notei... E o guardei na gaveta ao lado da cama dela. Corre! Pegue o caderno, pois preciso voltar logo com ele. Buba entregou o caderno e Zaidá saiu numa disparada maior ainda. Encontrou o bonde no mesmo lugar onde o havia deixado. Quase sem fôlego, subiu nos estribos do bonde e sentou-se ao lado da sua filha. Estava quase sem ar, tamanho o esforço de tanta correria. Estherzinha abraçou-o e beijou-o muitas vezes. Alguém apareceu com um copo de água, nem se sabe de onde, mas foi ótimo para Zaidá se recuperar. Todos aplaudiram Zaidá, que se mostrou encabulado, afinal, na cabeça dele, qualquer pai faria isso pela sua filha. Como o ator principal daquela encenação, Zaidá se levantou, dirigiu seu olhar para os passageiros e também para o condutor do veículo e falou: Obrigado a todos pela ajuda e paciência. Depois, soltando a voz a plenos pulmões gritou: Motorneiro!...Toca o bonde! (Dedico esse texto para meus netos e todas as crianças que ainda gostam de ouvir histórias)     

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