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Um Ato de Amor

Sábado, 07 Julho 2012 11:28
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Meus pensamentos adoram se enroscar nas minhas memórias. Isso é um fato. Quando atendo pacientes, nem faço força para isso não acontecer. Entendo que me ajuda a ajudar quem me procura. Outro dia, enquanto ouvia a narrativa queixosa de um paciente sobre as dificuldades de sua esposa, percebi que a escuta dele em relação a ela estava baixa. Essa postura dele me fez enganchar numa época em que meu marido viajava mais de cem km todos os dias para chegar ao trabalho. Como dormia em casa, tinha que fazer o mesmo percurso para voltar. Foram mais de dez anos. Viajava muito para o exterior. Muitas vezes me levava junto e assim estive como princesa em lugares lindos. Ganhava bem. Tinha carro da empresa. Em casa não faltava nada... só a presença dele. Um dia ele começou a falar em mudança. Queria largar aquela vida. Queria ficar mais perto de mim e dos filhos. Lembro bem como isso me assustou. Pensei na segurança que o seu contra cheque nos dava todos os meses e em todos os cantos da sereia que seu emprego nos fez ouvir durante muitos anos. Fui um empecilho, mais que isso, uma barreira forte contra seu desejo. Em algum momento, finalmente, parei de resistir e notei a urgência que havia no sonho do meu companheiro. A mudança aconteceu e nossas vidas foram adiante. Quando acreditamos que possuímos o dom de saber a verdade das coisas, o melhor caminho ou qualquer outra maluquice desse gênero nossa escuta cessa. Escutar o outro é um ato de amor. Saber escutar não só as palavras, como os suspiros, as pausas e interpretar todo o conteúdo não verbal é uma arte orquestrada pelo coração. Foi por muito pouco, por estar acomodada e por não querer ouvir nada que abalasse meu equilíbrio, que eu quase sufoquei quem me era mais caro, quem tanto amava. Depois desses lampejos indaguei meu paciente sobre o que ele poderia me dizer dos sonhos de sua esposa. Ele desembuchou uma resposta rápida, como se estivesse num duelo e atirasse: os sonhos dela arrebentam os meus! E como quem chuta em gol sem goleiro para defender falei de mansinho: Pois é...então, agora me fale dos seus medos...

VÉSPERA DO FIM DE FÉRIAS

Quinta, 18 Janeiro 2018 08:39
Publicado em Blog
Não seria correto simplificar tudo que passei numa noite mal dormida assumindo que apenas foi desagradável ficar sem dormir direito. Preciso confessar que acima de tudo foi espantoso. Fiquei rolando na cama na véspera do fim das minhas férias. Nunca imaginaria que tal fato acontecesse, visto que estou com 64 anos e já trabalho há mais de trinta e cinco anos como psicóloga clinica. A sensação de obrigação e volta à rotina pode ter tocado numa questão delicada: o que faço com o precioso tempo de minha vida?  Ao tentar me responder fui levada para lugares não totalmente estranhos, mas lugares não muito visitados. Tenho plena noção que o exercício da psicologia me tornou alguém que se especializou ou se refinou na arte de escutar. De uma forma espetacular, percebi que minha mente abriu portas e janelas para expor os mais diversos materiais que andei escutando e que estavam registrados na minha memória. Num primeiro momento, talvez num ataque de covardia, quis resistir e adormecer. Quis acabar com aquele desfile de desejos, dramas, ambições, doenças e muito mais. Segurei firme meu travesseiro e fiz dele um escudo. Dobrei as pernas. Estiquei as pernas. Rolei para um lado. Esbarrei no companheiro, que demonstrou sua insatisfação através de um muxoxo. Rolei para o outo lado. Tentei colocar um travesseiro a mais na cabeça. Nada deu certo! Entendi por fim que era impossível não aceitar um convite vindo de uma instância tão especial e simplesmente adormecer.  Resignada aceitei a situação. Foi como se aceitasse fazer as pazes comigo mesma e parasse de brigar. Achei uma posição boa ao colocar uma mão no peito e outra na testa. Minha respiração entrou numa cadência e num ritmo suave. Percebi que me acalmei. Nesse momento, fiquei à disposição da minha alma e de tudo que ela achava que eu precisava revisitar. E assim foi. Escutei relatos de adolescentes entediados e zangados com seus pais. Escutei jovens sem planos, sem alegria de viver. Escutei noras se queixando de sogras e vice versa. Escutei profissionais estressados e irremediavelmente adoecidos por conjunturas venenosas. Escutei casais que já se amaram e se perderam no meio de algum caminho nublado. Escutei pessoas que querem ser alguém, mas não conseguem chegar nem perto do que almejam. Escutei pais e mães que não sabem colocar limites e educar seus filhos. Escutei pessoas de todas as idades falando de desejos, amores e sexo. Escutei pessoas doentes cheias de medo da morte. Escutei idosos resignados com a morte e cheios de raiva pela vida que estão levando. Escutei pessoas que querem ser respeitadas. Escutei também uns poucos relatos de sucesso, de conquistas e de alegrias. Não sei exatamente quanto tempo fiquei vivendo essa retrospectiva. Lembro que não senti vontade que acabasse, mas acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci. Acordei com o barulho do despertador. Por um reflexo condicionado, pulei da cama. Entrei na sequencia de atividades que me levaram em pouco mais de meia hora a estar pronta para ir trabalhar. O trajeto de minha casa até meu trabalho é curto e em quinze minutos a pé cheguei ao prédio onde tenho o meu consultório. Entrei no elevador e respirei fundo. Olhei-me no espelho, sorri sem exagero, gostei do que vi e me enxerguei pronta para recomeçar a trabalhar. Ainda no elevador, escutei assombrada uma voz zombeteira e estridente que me provocou: Está mesmo?    

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