Leo

Quarta, 04 Maio 2011 16:38
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Leo está prestes a completar um mês. Fecho os olhos para relembrar os momentos mágicos, a poesia e as pitadas surreais do seu nascimento. Foi do jeito que minha nora e meu filho desejaram e se preparam. Foi na casa deles, com uma parteira, uma doula e uma pediatra. Enquanto ele nascia no banheiro de seus pais, havia um homem montando um armário, num dos quartos da casa, que não percebeu nada de extraordinário acontecendo. Isso parece piada, mas é a prova de que tudo transcorreu no maior sossego. Faço minha memória voltar para o dia 15 de abril, uma sexta feira, quando meu filho me ligou e me perguntou se eu gostaria de conhecer Leo, meu neto. Depois que consegui entender a mensagem, fiquei atordoada. Ou vice e versa... Peguei minha bolsa e com as chaves do carro na mão, fui para o elevador. Mudei de idéia e voltei para buscar uma torta que eu havia acabado de assar. Dando a partida no carro, liguei para o meu marido. Ele já sabia e estava a caminho também. Cheguei e entrei direto no quarto do casal. Leo estava nos braços de sua mãe com seu pai ao lado. Meu filho e minha nora tinham no olhar um brilho de muita emoção. Reparei então nas mulheres que estavam lá trabalhando. Pareciam ter estendido uma tenda de proteção e amor naquele quarto. Tive, então, a nítida impressão de sentir a presença de meus pais, sogro, irmão, meus avós e até da minha Tia Pola. Dei um jeito de cumprimentá-los. Acho que só Leo notou. Peguei-o nos meus braços e revivi pela terceira vez a sensação abençoada de entrar em contato com uma vida que havia acabado de começar. Coloquei Leo no colo do meu marido e ele também se embriagou de emoção. Passamos a ouvir os relatos de como as coisas aconteceram. A parteira e a doula acompanharam com calma a evolução das contrações. Minha nora se comportou o tempo todo corajosa e tranquila. A banheira com água quente, segundo ela, aliviou bastante as dores. Meu filho foi um companheiro maduro e amoroso. Ninguém interferiu com manobras, muito menos com instrumentos. Às 09h58min Leo nasceu e logo chorou, ao respirar pela primeira vez, sem que ninguém lhe batesse para isso. Quando a pulsação do cordão umbilical cessou, meu filho cortou-o. O relato nesse instante foi interrompido, pois a pediatra foi examinar Leo. Ele estava bem. A doula tratava de deixar tudo em ordem. A parteira certificava-se das boas condições da sua parturiente. Parecia que estavam todas para ir embora. Senti que era uma hora propícia para um café com torta de ricota embora fosse quase meio dia. Minha nora adorou a idéia. Cada um comeu um pedaço da torta e com o café fizemos o primeiro brinde à saúde do Leo. Foi uma festa! Quanta alegria naquele quarto! Posso jurar que vi meu avô dançando, minha avó pedindo para ele se comportar, meu sogro e mamãe com lágrimas nos olhos, Tia Pola e Julio sorrindo e meu pai piscando para mim, como me dizendo que a vida vale muito a pena, exatamente por momentos como esse.

Dorme Luna

Sábado, 09 Julho 2011 18:09
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Estava na penumbra contando uma história para minha neta mais velha. Era uma história inventada por mim sobre uma Princesinha que, como essa minha neta, não sabia adormecer sozinha. Com seus dois anos e meio e uma enorme capacidade para absorver minhas propostas de faz de conta, Luna me escutava atentamente. A princesa da história estava deixando o rei e a rainha loucos. Eles faziam de tudo para ela adormecer, mas não conseguiam. Quando a princesa era neném se acostumou a dormir sem chorar. Adormecia sempre com a boquinha cheia de leite do peito de sua mãe. Uma gracinha. Os problemas começaram quando parou de se alimentar dessa maneira. O rei e a rainha, que eram fortes e amavam muito sua princesinha, passaram a se revezar para colocá-la em seus braços e cantar músicas para chamar seu sono. A princesinha adorava a voz dos pais e a cada dia foi aumentando o tempo em que ficava no colo deles pelos corredores do palácio real. Como a princesa estava crescendo e ficando pesada , a rainha, cheia de dores nas costas, achou melhor mudar esse método. Passaram a adotar uma rotina. Ela jantava, escovava os dentes, ouvia uma história e então, o rei ou a rainha, sem dizer mais nada, batia no bumbum dela. A princesa achou muito esquisita essa novidade. Era preciso fazer muita força para ficar de olhos fechados. Como não conseguia sossegar, pedia mil coisas. Dizia que queria água. Pedia para fazer xixi. Queria ver as estrelas e os planetas no céu. Tagarelava sem parar com um monte de palavras incríveis e frases desconcertantes para a sua pouca idade. Demonstrava possuir uma inteligência considerável, mas fechar os olhos e dormir, isso não sabia. Tiveram que apelar para o feiticeiro real. Com seu chapéu pontudo, barba longa e roupa engraçada ele pediu para ver o travesseiro da princesa. Examinou-o cuidadosamente dos dois lados. Cheirou-o e o apalpou. Com ares de quem havia descoberto algo muito importante, declarou: Princesa, todos os travesseiros tem dois lados, mas só um dos lados é o que conduz aos sonhos. Para você dormir, não precisa de nada, nem de ninguém, basta achar o lado certo e começar o seu sonho... Vovó, o que é sonho? Foi desse jeito que Luna me interrompeu. Respondi que sonho é uma história que aparece na cabeça da gente quando dormimos. Pode começar num campo bonito cheio de flores. Pode aparecer uma chuva forte ou um lago com peixinhos dourados. Luna fechou os olhos talvez vencida pelo cansaço, talvez querendo experimentar a mágica que eu, ou o feiticeiro, estava lhe propondo. Continuei lhe dizendo que o fantástico é que de repente ela poderia se ver nesse lugar. Poderia aparecer correndo com amiguinhos ou mesmo deitadinha olhando para o céu. Notei que ela se mexia, como buscando uma posição. Senti sua respiração entrando numa cadencia lenta. Levantei de mansinho. Saí do quarto acreditando que Luna adormecera.

Diálogo

Sexta, 04 Janeiro 2013 15:50
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- Outra vez? - É. Eles vão se mudar novamente. - Já mudaram tanto... Você já devia estar acostumada. - Verdade, mas dessa vez não são só os dois, os netos vão junto. - Você sabe o motivo? - Claro! Além de um belo projeto de trabalho, eles têm um sonho de viver entre amigos de acordo com as crenças e os valores deles. - Parece bem legal. - Claro que é. Conheço e gosto muito dos amigos que farão parte dessa aventura. Só posso torcer para dar certo. - Então, qual o motivo desse ranço de tristeza? - Tenho muita pena de me afastar das crianças. - Ah! Você está com pena de você... Golpe baixo, não acha? - Não queria estar me sentindo assim como uma coitadinha, mas essa coisa de ficar longe dos netos me pegou em cheio. - Você tem parentes e amigos que têm os filhos e netos na Bahia, nos Estados Unidos, na Austrália, na França, em Israel... - Eu sei, realmente fica impossível choramingar perto deles. Tenho pensado bastante e creio que essa busca de um lugar melhor, de uma vida melhor demonstra ter uma relação direta com a necessidade de se afastar dos progenitores. É duro aceitar que um filho possa precisar se afastar de mim... - Faz muito sentido. Poderíamos ficar aqui filosofando sobre a luta pelo poder e sobre a necessidade dos filhos de obterem o reconhecimento dos pais. - É, tem muita coisa para refletir, mas acredito que não tenha nada a ver com menos amor. - Claro que não! Não posso deixar de pensar que apesar de amar muito, também me afastei de meus familiares. - Então, você tem que admitir que também escapou da toca para conhecer outros mundos e outras pessoas. - Admito. Meu marido e eu tínhamos uma boa explicação. Ele recebeu uma boa oferta de promoção para trabalhar em outro estado. - Você sabe que poderiam ter recusado. - Verdade. Poderíamos ter ficado junto de nossos pais e irmãos. No entanto, resolvemos que tínhamos que conferir a oportunidade que apareceu para nós. - Foi difícil enfrentar a separação? - Foi. Lembro que choramos muito em diversas oportunidades, mas a maior choradeira foi na véspera de irmos de mudança. - Quem chorou? - Meu marido, eu, nossos filhos e cada um que abraçamos. Era para ser uma festa de despedida... - E depois? - Afirmo de boca cheia que não há como ter arrependimentos. Afirmo também que os laços com os nossos familiares queridos não se afrouxou. Seguimos nos amando e aprendemos a lidar com a distância. - Então é a sua vez de entender a necessidade deles de bater asas. - Eu sei... Agora meu papel é o de quem fica, de quem torce e aguarda as notícias. Vou tratar de arrumar uma mala leve e um monte de dias para viajar. - Trate de incluir seu marido nesse seu plano para 2013. - Ah! Ele vai estar junto. Tenho certeza. - Assim é que se fala! Até seu sorriso voltou! - Foi muito bom conversar com você. Obrigada. - Não há de quê. Se precisar, sabe onde me achar...

ANIVERSÁRIOS

Terça, 26 Fevereiro 2013 08:34
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Meus netos comemoraram seus aniversários juntos. Ela fez quatro em fevereiro e ele fará dois em abril. A festa foi na casa onde moram. Minha nora se esmerou na decoração. Corações de papel laminado esparramados pelo chão davam a impressão de serem pétalas de rosas. Os convidados, na sua maioria, tiraram os sapatos assim que entraram. Tinha um pula-pula e uma piscina de bolinhas. Não tinha refrigerante algum. Sucos de frutas foram sendo feitos durante toda a festa. As comidas foram colocadas ao alcance das crianças e dos adultos. Ninguém serviu ninguém. Quase me esqueci disso, mas lembrei a tempo de disfarçar e deixar a bandeja com tortas salgadas no lugar de onde a tirei. O professor de capoeira da aniversariante distraiu as crianças durante uma hora, falando mansinho e fazendo exercícios da arte que ele domina. As crianças gingaram, pularam e rolaram. Aprenderam nomes como cabaça e berimbau. Depois, foi a vez de outro professor, o Alê. Com o violão em punho e jeito de menino levado, cantou e contou estórias. Não falou na Cinderela, nem no Rei Leão ou no Nemo. Contou estórias de índios e lendas das matas. Hipnotizou as crianças que lhe escutaram. Algumas crianças foram na piscina. Todas, em algum momento, gastaram um pouco de suas energias na cama elástica. Quando sentiram vontade pegaram frutas, milho cozido, pães de queijo ou alguma outra comidinha. Os brigadeiros evaporaram assim que as duas crianças sopraram suas velas. A festa durou quase cinco horas. Todos se divertiram e tudo deu certo. Enquanto tentava adormecer, foi inevitável recordar de quando eu era criança, pois sempre comemorei meu aniversário junto com meu irmão. Menos de 30 dias separavam nossos aniversários. Isso significava juntar no playground do prédio onde morávamos nossas duas turmas da escola, umas cinquenta crianças. Significava, entre muitas delícias, montanhas de cachorro quente e de sanduiches de queijo que esticavam. Na hora de cantar os parabéns, não faltavam centenas de brigadeiros, um bolo de morango e um pavê de amendoim. Não sabíamos que guaraná e coca cola faziam mal e bebíamos litros e litros. Corríamos e ríamos. Brincávamos muito. Devíamos fazer bastante barulho e bagunça. Adormeci com sorrisos de crianças desfilando na minha cabeça. Meus netos, os amiguinhos deles, meu irmão, meus amiguinhos... Acordei com a deliciosa sensação de ter sorrido a noite toda.  

CUTUCANDO UM ENGASGO

Terça, 19 Março 2013 17:40
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Muito já se falou sobre as fases em que os escritores passam empacados. Penso que isso pode acontecer em decorrência de algum engasgo. Algo que tem que sair da garganta e não saiu. Recentemente, andei numa dessas fases. Nada que eu escrevia passava de algumas linhas, nem era interessante o bastante. Sabia que precisava vasculhar o que estava me acontecendo. Fechei portas, desliguei celulares e me coloquei frente a frente comigo mesma. Vamos lá... O que você tem? O que está pegando? Teimei em me responder que não era nada e que eu estava bem. Então, por que andava me incomodando tanto, quando as pessoas me perguntavam dos netos que foram para longe? Tive que reconhecer que esse incômodo poderia ser a chave do enigma. Resolvi tentar desengasgar me forçando a lembrar das cenas no aeroporto. Aproveitei para escrever. As malas e bagagens foram despachadas. As crianças tinham espaço para correr. Se ninguém as freasse, tinham também pessoas para atropelar. Estavam eufóricas com a perspectiva de viajar de avião. Os pais das crianças, o avô e eu estávamos em outra sintonia. Nossas feições misturavam preocupações não ditas com a vontade de parecermos alegres. Não obtivemos um resultado muito bom, mas ficamos assim mesmo. Alguém quer um café, uma água? Hum... Pode ser uma boa ideia. Sentamos e nos dedicamos a esperar uma garçonete que nos atendesse e trouxesse nosso pedido. As crianças deram umas colheradas numa comida que foi improvisada ainda em casa. De vez em quando, olhávamos os avisos de partidas e fazíamos a leitura dos acontecimentos. O avião para Manaus foi cancelado... O de Florianópolis está no horário... Para variar o assunto, examinávamos as pessoas que desfilavam para nós. Olha a barba daquele homem... Como alguém pode andar num salto como o daquela mocinha? E ainda por cima puxando mala... Nossas falas eram o que se costumava chamar antigamente de papo furado. Era difícil contar um caso. Mais difícil ainda era contar uma piada. Depois que a água e o café foram consumidos e pagos, um silêncio embaçado, arrastado e até rançoso veio se chegando a nós. É... Acho que é melhor irmos entrando... Chamei Luna e lhe mostrei como as pessoas faziam. Veja! Elas se abraçam forte e depois umas ficam e outras entram ali. Seus olhos demonstraram que estava entendendo. Convidei-a: Vem me dar um abraço! Voou no meu colo. Com seus bracinhos em volta do meu pescoço, ela me lembrou do que eu lhe havia explicado meses atrás. Vovó! Vamos olhar a lua. Você vai olhar para ela da sua janela e eu vou olhar da minha. Vamos olhar a mesma lua... Vamos nos sentir pertinho assim... E, foi assim que seus quatro anos me surpreenderam e me fisgaram. Ela soube usar bem a história de olhar para a lua para se sentir próxima de alguém que está distante! Foi difícil segurar o nó na garganta e não chorar me despedindo daquela menininha...  Achei o engasgo! Só pode ser esse! Tem até jeito de armadilha! E agora? O que faço com essa descoberta? Sei que eles estão bem. Estão felizes e isso tem deixado meu coração em paz. Imagino que as novidades inundaram a vida da minha neta e levaram para longe o arranjo sentimental que fizemos. É hora de dar um basta. Sei que coisas assim não se mudam facilmente por decreto, mas tenho que ser firme e tentar. Portanto, declaro para os devidos fins, que após devidamente registrada numa crônica, a partir de agora considero por mim engolida a tirada genial da pequena Luna. E bola pra frente!