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CHORONA

Quinta, 01 Agosto 2013 12:00
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Ela não se conformava em estar sozinha. Queria, de qualquer jeito, um namorado. E enquanto falava, chorava demonstrando grande pena de si mesma. Foi bem dramática quando revelou que já estava beirando os trinta e que o fato de sua irmã estar grávida lhe enchia de pavor: Agora iria mesmo virar titia! Tinha que achar alguém urgente!  Parece mentira, mas a moça sofria de verdade. Ela já havia cansado de ir a bares e baladas e estava chegando à conclusão que esses lugares não se prestavam para resolver sua questão. No entanto, me perguntou em prantos: onde deveria ir para achar a luz da sua vida? Onde estava a sua metade da laranja? Meu silêncio ajudou-a a prosseguir no seu relato de insucessos. Confessou que apesar de detestar se exercitar em academias, andou frequentando uma das mais badaladas, empinando seus glúteos e dando o melhor de si para fazer poses sensuais aprendidas em vídeos eróticos. Não conseguiu nada com todo esse esforço. Depois da faculdade, fez um curso no exterior. Seu objetivo era importar um namorado. Que fiasco! Suas frases eram entremeadas com fungadas e a repetição monótona da sua queixa. Imaginei essa moça, acompanhada de sua aflição, tentando caçar um macho e provocando o efeito contrário ao desejado. Tudo indica que sua ansiedade afugenta em vez de atrair. Talvez, ouso achar, que essa moça deva ter sido submetida a uma overdose de contos que acabavam com “casaram e viveram felizes para sempre” . Essa moça acreditou nisso! Nunca lhe passou pela cabeça que Cinderela poderia ser muito feliz usando tênis, em vez do sapatinho de cristal. Também ela não pensou que tanto Rapunzel como Bela Adormecida teriam muito a ganhar, se dessem um jeito de cair fora de assumir compromissos eternos com seus príncipes salvadores. Elas precisavam dar uma espairecida para buscar descobrir como caíram em tamanhas enrascadas! Acredito que a inconformada e chorona tem como se aprumar, ficar forte e seguir melhor sua vida. Não vai ser com conselhos, nem lendo livros de auto ajuda. Isso ela já vem tentando e não deu resultado. Vai precisar descobrir que não é metade de nada. É inteira. Vai precisar descobrir que tem luz suficiente. É perfeita. Para chorona parar de fungar vai ter que enfrentar se conhecer. Coragem garota! Vale a pena!

SEM CHÃO

Sexta, 08 Maio 2015 09:45
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Duas mulheres andavam elegantes numa rua movimentada, em sentidos opostos, a passos rápidos e com seus mais diversos pensamentos em ebulição, fazendo com que suas cabeças estivessem no mundo da lua. Esta é uma fórmula quase perfeita para um pequeno desastre. Não deu outra... O encontrão foi inevitável. As duas perderam o equilíbrio. Com muito custo, afinal pareciam uma dupla de dançarinas bêbadas, conseguiram se aprumar nos respectivos saltos bem altos. No meio dessa cena, suas bolsas caíram e se abriram. Vários objetos que estavam dentro das bolsas, acomodados e quietos, subitamente pareceram ter ganhado vida e, sem cerimonia, se espalharam pela calçada. Ninguém pode afirmar, mas aquela bagunça na rua deve ter provocado algum grau de vergonha naquelas duas senhoras que nem se conheciam. Era como se cada uma estivesse expondo sua nudez de forma diferente e dramaticamente reveladora. Os olhares dos transeuntes, provavelmente, contribuíam para aumentar o desconforto nelas. Estava tudo misturado, até os risinhos sem graça que elas tentavam segurar. Teriam que separar o que era de uma e o que era da outra. Ambas se agacharam e iniciaram o trabalho que tinham pela frente. Sem introdução, deram início à tarefa. Essa chave deve ser sua... É, obrigada. Os absorventes? Eu também tinha alguns na minha bolsa. Lembra quantos? Não... Vamos dividir... Certo? Claro... Essa cartela de remédio é minha. Eu também já usei esse ai, mas não me dei bem com ele. Você sentia a boca seca? Demais! E engordei muito também. Ah! Essa merda faz engordar! Pois é... Converse com seu médico. Nesse instante, como notaram que a coisa não seria tão rápida, elas improvisaram um modo mais confortável, esticaram os lencinhos que identificaram como seus e se sentaram sobre eles no meio fio. Assim indicaram que estavam mais disponíveis e presentes. Um peito se abriu e uma conversa começou a fluir. Mês passado fui mandada embora do emprego. Fiquei sem chão. Ainda estou meio assim. Fui num psiquiatra e ele me receitou esse medicamento. Sei que vai passar. Sem saber como seguir com esse assunto complicado, a ouvinte do drama da outra catou a primeira coisa que encontrou no chão e assim mudou o tema da prosa. Essa lanterna é sua? A desempregada aceitou a mudança de tema. É. Com alívio, a outra seguiu nesse rumo. Nunca pensei em ter uma lanterna na bolsa. Essa é de um bom tamanho. Quer para você? Jura? Está me dando de presente? Claro, pode ficar. Enfiando o presente na bolsa, sentiu que um pensamento lhe martelava a cabeça: Como alguém pode estar mal e ser generosa ao mesmo tempo? Espanou essa dúvida e pegou um retrato do chão. Que lindas fotos! Obrigada... Eu carrego a família toda comigo. Posso ver? Claro! Esse é meu marido, aqui é meu filho e do lado é a minha filha. Nessa outra foto estão meus pais e meus irmãos comigo na praia. Que lindos! Você está casada há quanto tempo? Vinte anos. Que beleza! E você? Casei no ano passado. Ainda não tenho filhos e nem sei se vou ter. Tal revelação causou um silêncio com pitadas de assombro e estranhamento. Ficou no ar a diferença entre elas, como se tivessem descoberto que eram de times ou até de seitas diferentes. Ainda tinha muita coisa espalhada e não dava para ficar em transe para sempre. A casada a menos tempo esticou o braço para pegar cartões e carteiras. Notou que seus cartões de crédito estavam embaralhados com documentos que não lhe pertenciam. Passou tudo para a outra e pediu para que ela separasse o que era dela. Estou vendo que desse bolo todo só me pertencem meu RG e CPF. Já falta pouca coisa. É... Nem está sendo tão complicado... Tem um desodorante que deve ser seu, pois eu não levo isso comigo. É meu mesmo. Sem controlar uma curiosidade meio sem pé nem cabeça quis saber se o desodorante tinha bom cheiro. Posso ver? Que suave! Vou anotar a marca. Olhe ali uma caneta e um caderninho... Devem ser seus.  Exatamente! Tenho milhões de dicas colecionadas nesse caderninho. Bacana... Eu anoto coisas no meu i phone. Acaba dando no mesmo. É... Claro. Essa maçã é sua. Eu sempre trago comigo uma fruta ou uma barrinha por recomendação da nutricionista. É mesmo? Eu procuro comer de três em três horas. E é magra desse jeito! É uma questão de hábito alimentar e faz bem para saúde. Você deveria fazer o mesmo. Quase dava para ver como o conselho saiu da boca de uma e bateu de frente com a surpresa da outra. Uma nota de vinte quis fugir da cena pegando carona numa lufada de vento.  A que tinha acabado de guardar a maçã fez uma defesa espetacular e agarrou a nota fujona. Peguei! Você lembra quanto tinha na carteira? Mais ou menos... E você? Não lembro. E agora? Como vamos fazer a divisão? Vou contar todo o dinheiro espalhado, inclusive as moedas. Aqui tem R$ 237,75. Sei que eu não tinha muito dinheiro. Você acha que tinha menos de cinquenta? Acho. Fique com cinquenta e eu fico com o resto, assim não vamos errar muito. Que incrível! Nunca pensou que existisse gente assim... Ainda estava guardando o dinheiro, quando percebeu a aflição na fala da sua nova conhecida. Não estou achando meu i phone! Ele vai aparecer... Calma! Veja, o danadinho está quase no bueiro. Ainda bem, obrigada, sem ele fico perdida. Eu sei, comigo é igual. Agora nossos batons... Temos que admitir que nossos gostos são bem parecidos. Incrível! Tem até dois de cores e marcas iguais. Só que um já está mais gasto. Qual será o seu e qual será o meu? Ah! Tenho certeza que esse mais novo é meu. Posso guarda-lo? Bem, se você tem tanta certeza... Tenho! Não pode ser esse outro aqui? Não! Esse está usado de uma forma que não é minha. Nem minha! Um silêncio breve e grave deu um tom azedo àquele diálogo. Você acha que estou mentindo? Não, acho que você pode estar enganada. Mas não estou... Devolve o meu batom! É meu! Já guardei e não vou devolver nada. Aliás, já estou muito atrasada. Essas porcarias que ainda estão pelo chão devem ser suas. Já ficamos tempo demais nessa cena esdrúxula! Sem cerimônia e se apoiando nas costas da outra, levantou-se, fez alguns movimentos para desamassar sua roupa e tentou ficar recomposta. A que serviu de apoio, admirada, ainda no chão, parecendo anestesiada diante das mudanças de humor e do modo de se comportar da outra mulher, apenas se restringiu a olhar. Virou espectadora. A que estava levantada deu uns passos como indo embora, mas voltou, se abaixou e pegou seu lencinho. Depois disso, muito solene e sem se despedir, girou seus calcanhares e tomou seu rumo.  De quem seria aquele batom? Como foi possível degringolar uma conversa que estava se encaminhando tão bem só por causa de um batom? A mulher sentada no meio fio ergueu o braço como querendo chamar a mulher que minutos atrás estava lhe confidenciando intimidades, mas se deu conta que nem sabia seu nome. Baixou o braço e abortou a ideia. Não achou sensato emitir um grito na direção de alguém que se mostrou tão perturbada e sem equilíbrio. Queria entender... Talvez não tenha percebido alguns sinais, talvez tenha perdido a oportunidade de conversar e ajeitar aquela confusão. Sem ter em quem se apoiar, pegou seu lencinho e foi se erguendo bem devagar, parecia que erguia uma carga muito pesada. Ficou de pé e sem chão, mesmo assim tomou também seu rumo.

DA MENINA GISELA ATÉ O BELGA QUE SÓ FALAVA PIU

Terça, 30 Junho 2015 15:27
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Gisela nasceu na Alemanha em 1928. Tinha uma vida bem parecida com a de outras tantas crianças alemãs, até que o nazismo se instalou no poder. Gisela era judia. Seus sonhos e sua vida viraram de cabeça para baixo. Foi esse pesadelo que levou Gisela e outros 45 mil judeus alemães a emigrar para a Argentina. Não havia mais lugar para vestidos bordados e engomados, nem meias brancas  e sapatinhos de verniz. O cenário de sua vida passou a ser o campo. Suas roupas passaram a ser rústicas, tinham que ser apropriadas para alguém que cultivava a terra e cuidava de bichos. Não demorou a conhecer Ernesto. Com feridas e cicatrizes bem semelhantes às dela, ele lhe pareceu perfeito. Encontraram o essencial e o belo que havia em um e em outro. Souberam reconhecer que tinham tudo para serem amigos e companheiros para vida toda. Decidiram apostar no amor que sentiam e se casaram. Juntos se sentiram fortes e capazes de ousar planejar o futuro. Deu certo! Tiveram três filhos. Ernesto arrumou um sócio e junto com ele fez uma fábrica de frios, salsichas e embutidos em geral. Gisela ajudava na fábrica, cuidava da casa, da comida e dos filhos. Os dias, na casa de Ernesto e Gisela, começavam muito cedo, quase sempre no escuro. Contas a pagar, clientes para satisfazer, filhos para educar, marido para agradar e a vida passando ligeiro. Algumas noites, Gisela ficava acordada tentando dar um ritmo mais lento àquele tempo apressado. Ela queria saborear mais devagar alguns momentos que se misturaram no turbilhão de dias, meses e anos que voaram rápido demais. No escuro e no silêncio, Gisela revia uma mistura de luta, de sonhos se realizando e de crianças virando adultos prestes a voar para longe. Gisela estava certa. Duas filhas se casaram, emigraram e em outros países tiveram seus filhos. Gisela e Ernesto eram loucos por seus cinco netos e viajar passou a ser sinônimo de alegria e prazer do reencontro familiar. Talvez as viagens fossem o combustível necessário para que Gisela pudesse suportar o que estava para acontecer. Sorrateiras e sem pedir permissão, doenças e situações temidas invadiram a sua vida. Duas perdas enormes acometeram Gisela num espaço de tempo muito curto. Seu filho morreu e poucos meses depois ficou viúva. Nessa época, já beirando os oitenta anos e bastante fragilizada, Gisela achou sensato deixar-se cuidar. Passou a morar no Brasil, perto da família, mas, dona de seu nariz, num apartamento seu. Sabia da importância de manter sua independência. A mulher corajosa, forte e incansável havia se transformado numa idosa baixinha, com olhos atentos e pele muito branca que tinha um cheiro de sabonete gostoso. Tinha uma aparência meiga, algumas rugas e um sorriso nem sempre disponível nos primeiros tempos. Acreditava que o tempo ia lhe ajudar a voltar a se sentir em paz e sem a dolorosa sensação que habitava seu peito. Queria sair da depressão em que se encontrava e para tanto, aceitava qualquer boa ideia ou ajuda para amenizar sua dor. Foi aí que surgiu o Belga. Gisela ganhou um acompanhante para se sentir menos sozinha e fazê-la alegre. Gisela recebeu o Belga com os braços abertos. Bem, na verdade, não chegaram a se abraçar, pois o Belga estava numa gaiola... É... O Belga era um lindo canário que passou a atender pelo nome de Hansi. Foi amor à primeira vista! Depois de um ano que Hansi tinha chegado à vida de Gisela, ela programou uma viagem de um mês. Tinha que arrumar alguém para cuidar de seu pequeno amigo. Não foi difícil, pois Rosa, uma boa vizinha, logo que soube do problema, escreveu um bilhete e colocou-o embaixo da sua porta: “Querida Gisela, Posso cuidar do seu querido canário. Não será difícil e acho que vou gostar. Pode ficar despreocupada que vou contar para ele suas notícias todos os dias, assim ele não vai se esquecer de você. Lembro de ter visto seu passarinho comendo maçã. Vou providenciar para que ele tenha essa fruta todos os dias. Você acha bom? Tenho algumas perguntas para lhe fazer. Acho que suas respostas vão me ajudar. Ele vê TV? Bebe sucos? Coca Cola? Sai para passear? Dorme com luz acesa? Como ele gosta de ser chamado? Ele recebe beijinhos antes de dormir? Precisarei que me traga suas roupas, chinelinhos e escovas de cabelo e de dente. Aguardo suas recomendações. Beijos, Rosa” Assim que Gisela leu o bilhete de Rosa, escreveu uma resposta e, sem perder tempo, colocou-a embaixo da porta de Rosa: “Querida Rosa, Eu lhe agradeço por querer cuidar do meu amiguinho. Ele não precisa de muito. Você terá que limpar a gaiola dele todos os dias, dar-lhe comida e água fresca. Ele não bebe sucos, nem refrigerantes. Bebidas alcoólicas de jeito algum. Só água. Sim, ele gosta muito de maçã e vai adorar se você cortar pequenas fatias para ele, pois ele não sabe usar a faca. A cada dez dias ele ganha um pedacinho de ovo duro com a casca. Penso que deve ser bom para ele um pouco de cálcio para os ossos das perninhas e das asas, mas não exagere! Lembre-se que seu estômago é bem menor que o nosso.Ele se chama Hansi e parece que fica feliz quando escuta seu nome. Quando ele quer falar, ele faz piu. Você vai acabar entendendo que apesar de ser um idioma de uma única palavra, piu pode significar muitas coisas. Quando ele fica mudo pode ser que também esteja sentindo ou querendo dizer alguma coisa. Acredito que ele vai precisar alguns dias para se acostumar com você e para poder conversar abertamente e sem timidez. Tenha paciência e você, assim como eu, vai chegar a ter conversas bem interessantes com o pequeno Hansi. Hansi já irá para sua casa vestido com a sua roupa e quando ele tomar banho, ele a lavará ao mesmo tempo em que estiver lavando seu corpinho. Nunca consegui achar chinelos para ele, portanto o deixo sempre descalço. Ele parece gostar de ficar assim, você não precisa mudar esse hábito. Hansi não sai para passear, porém adora ficar na sacada do apartamento olhando o movimento da rua. Como você não tem sacada, leve a gaiola para perto da janela ou experimente ligar a TV e veja se ele gosta. Tome cuidado para que Hansi não fique exposto a uma corrente de ar e quando o levar para seu banho de sol diário, não o deixe muito tempo ao sol, para que ele não torre de calor. Neste momento, ele está numa fase que não canta e ainda por cima está perdendo penas... Deve estar pressentindo minha viagem, não sei... Se a coisa piorar, leve-o num veterinário que entenda de psiquiatria de canários. Deixe-o conversar a sós com o profissional para que ele abra seu coraçãozinho e se sinta melhor. Não deixo uma luz acesa para Hansi durante a noite. Fiz isso desde o primeiro dia que ele chegou e parece que assim está bem. Em geral, quando vou dormir à noite, ele já está dormindo e, por isso, não posso lhe dar um beijinho. Ainda assim, antes de ir me deitar sempre lhe digo boa noite. Ele parece que sente e noto que suspira como se gostasse de ouvir minha voz e meu desejo. Por favor, siga fazendo isso para que ele continue dormindo bem todas as noites. Se alguma noite ele não dormir, não se preocupe, ele pode estar pensando e lembrando  coisas importantes da vida dele. Não o perturbe nessa hora. Ele precisa do escuro e do silêncio. São alimentos para a alminha dele. Creio que isso é tudo. Hansi está contente de ir de férias para sua casa. Beijos, Gisela” Gisela viajou e Rosa tomou conta de Hansi com muito amor e carinho. Levou-o num veterinário e soube que é normal uma queda anual das penas. Ficou aliviada. Rosa percebeu que Hansi não dormiu algumas noites, mas deixou-o em paz. Deu tudo certo. Um mês passou até bem rápido. Hansi disse piu na hora em que Gisela veio buscá-lo para voltar para a casa dela. Rosa entendeu que Hansi estava reconhecendo Gisela. Entendeu também que era seu discurso de despedida. Era o fim de uma linda temporada com ele. Rosa se voltou para a amiga e só então percebeu como ela estava mais bonita, mais leve e até sorridente. Havia voltado bem melhor. Que alegria! Foi inútil Rosa disfarçar sua emoção. Tem gente que tem lágrimas que teimam em cair, ainda que a pessoa tente de tudo para impedi-las. Era o caso da Rosa. Gisela abraçou forte e demoradamente a amiga. Elas não precisaram dizer nada. Hansi sentiu vontade de voltar à cena e disse outro piu...

NO CINEMA

Terça, 11 Julho 2017 10:02
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Assim que a luz apagou, o aparelhinho começou a vibrar dentro da bolsa. Não era algo contínuo. Vibrava e parava e então recomeçar a vibrar. Sem dúvida, era alguém querendo falar com ela naquele momento. Como ela não queria falar com ninguém, tentou ignorar o incômodo. O filme começou. A vibração não parava. Alguém insistia como se tivesse algo urgente para resolver. Quem seria? Embora fizesse força para prestar atenção no filme, começou a ficar preocupada. Beto havia terminado o namoro com ela há três semanas e desde então não se falaram. Seria ele? Se fosse, o que ele poderia estar querendo? Na tela, um homem alto e muito magro entrega um pacote para uma mulher ruiva e gorda. Melhor não atender se for o Beto. Ela jurou que nunca mais falaria com ele. Chorou por ele durante quase uma semana. Agora que estava melhor, não poderia se dispor a escutar sua fala melosa e sedutora. Esse Roberto é um perigo ambulante. Não! Opa! A ruiva da tela parece que desmaiou. O aparelho seguia vibrando. Quem sabe era a Virgínia querendo lhe contar sobre a festa de ontem? Ora, mas isso não mereceria tanta insistência. No filme, três crianças se despedem de um homem, que parece ser o pai, que tudo indica que vai trabalhar, e saem para andar de bicicleta num lugar que parece um subúrbio americano. O pai liga o carro, dá a ré e sai cantarolando. A ruiva aparece na cozinha. Ué! Ela ficou boa? Que saco! Essa droga não para de vibrar! E se eu olhar quem é... Não! Estou no cinema. Como estou resolvida a não atender, que importa olhar quem seja? O homem magro e alto agora está no metrô. Ele tem um jeito sinistro. O pai das crianças está sentado do lado do magro. Ela percebeu que não estava entendendo nada. Sua bolsa parecia que estava viva. Gemia e tinha movimento. Um senhor atrás dela lhe cutucou e lhe pediu para desligar seu celular. Ela fez cara de paisagem e quis saber se ele estava ouvindo alguma coisa. Ele disse que sim. Ela lhe cumprimentou pela boa audição, apesar da idade avançada. O senhor não achou graça e falou alguns impropérios de forma exasperada. Algumas pessoas se manifestaram pedindo silêncio. O celular seguia vibrando. Chega! Nem ela estava aguentando mais aquela tortura. Tinha que resolver se iria atender ou se iria desligar o aparelho. Seu olhar se prendeu nas três crianças que agora brincam num parque. O parque tem outras crianças. Está um lindo dia de céu azul, mas faz frio, já que todas estão de gorros e casacos. Quem terá levado essas crianças para esse lugar? A música do filme faz pensar que alguma coisa vai acontecer. Um cachorro corre atrás de uma bola. A vibração do seu celular não para. Ela enfia a mão na bolsa e pega o aparelho. Sabe que a luz pode incomodar alguém, então se abaixa e, como se estivesse amarrando os cadarços de seu tênis, tenta identificar a chamada que não lhe dava sossego. Não consegue. O celular escorrega de sua mão. Não acredita no que lhe aconteceu. Volta para a posição anterior e mira na tela. O homem alto e magro está agora num aeroporto. Pela sua fisionomia, meio sério, meio tenso, achou que ele estava indo numa viagem de negócios. A ruiva apareceu de repente para viajar também. Volta a pensar no seu maldito aparelho que foi parar embaixo de uma das poltronas na fila da frente. O cachorro corre feito louco e uma das três crianças está atrás dele. Um carro surge do nada e o motorista freia desesperadamente. O momento é de grande emoção, mas ela escuta o barulho do celular vibrando. Ela toma coragem e pede para a pessoa sentada à sua frente pegar o seu aparelho. Era uma senhora de óculos, de certa idade e até com muita boa vontade. A mulher se mexeu, se revirou, mas não conseguiu achar o aparelho. Quando a senhora insistiu na busca, fazendo um esforço maior de se abaixar, conseguiu a façanha de deixar cair seus próprios óculos. Inesperadamente um palavrão curto e seco se fez ouvir em meio ao silêncio que reinava na sala do cinema. Quem diria? Uma senhora... Sem óculos a mulher não enxergava quase nada, essa foi a explicação para o desabafo de baixo calão. O rapaz ao lado da senhora foi convocado para ajudar a achar os óculos. Ele disse que não. Queria ver o filme. A mulher buscou outra ajuda. Sem enxergar quase nada, ela apenas identificou que era uma moça que estava abraçada numa outra pessoa.  Quando o filme acabar vai ser mais fácil... Agora não dá! A criança atropelada estava num hospital. Alguém parecia chorar baixinho numa fila bem próxima. O celular seguia vibrando. O homem que se alterou no início do filme, voltou à cena avisando que iria chamar o gerente. Só quero achar meus óculos. E eu quero o meu celular. Cala a boca! Quero ver o filme! A ruiva está num close e de óculos escuros. Será que aconteceu alguma coisa grave? Se alguém pisar nos meus óculos vou ter um troço. Fica quieta! Eu não enxergo sem óculos! Então dorme... Mas que falta de educação! A essas alturas o filme já estava totalmente sem pé nem cabeça. A dona do celular ainda escutava o som que o seu vibrar emitia. Levantou do seu lugar e, decidida, foi engatinhar na fila a sua frente. Um jovem, saído de algum lugar não identificado, teve compaixão, se juntou a ela e sussurrou que iria ajudar na busca. Numa cena patética, os dois desconhecidos engatinhavam tateando no escuro. Não demoraram a achar os objetos perdidos. Os óculos e o celular estavam próximos. Ainda agachado, o rapaz solidário fez a entrega solene para a senhora que não devia estar enxergando nada: Seus óculos... Obrigada! Muito obrigada! Cala a boça! Não enche! Um carro em alta velocidade corta uma estrada em meio a um temporal. O celular vibrou mais uma vez. Dessa vez, estava na mão dela e ela se rendeu. Decidiu que queria saber quem era. Foi ver. O celular emudeceu e escureceu. Acabou a carga. Morreu. O jovem tinha acabado de voltar para o seu lugar. Ela enfiou o celular na bolsa com raiva. O homem magro e alto está num quarto com a ruiva. O rapaz solidário estava olhando para ela. Era um olhar insistente, tanto que percebeu. Olhou de volta. Ele fez um sinal sutil com a cabeça. Ela ficou confusa. O que será que ele queria? A ruiva estava séria. O homem magro dormia. O rapaz agora fazia um gesto com a mão. Ele mostrava que queria sair do cinema. Era um convite. Ela se levantou devagar. Sacudiu a cabeça como que para se livrar das travas e das dúvidas. Ajeitou o cabelo talvez para parecer bonita. Num último olhar para a tela viu a ruiva com uma arma na mão. Que se explodam todos! Virou-se em direção a saída. Por uma fração de minuto, respirou ou fez uma oração... Quem há de saber? Com passos decididos, saiu do escuro.

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