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DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34
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(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

IRMÃOS PARA SEMPRE

Terça, 06 Dezembro 2016 16:36
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É incrível! Como é maravilhoso voltar a sentir emoções de fatos que aconteceram há mais de vinte anos... Tenho a sensação de estar longe do aqui e agora. Sinto-me observadora e participante. Adoro essa sensação! Com os dedos sou também uma narradora. O lugar onde me vejo é ao lado de meu pai, quando ele passou cerca de um mês hospitalizado, se recuperando da cirurgia de retirada de um terço do pulmão direito, por conta de um câncer.      Mamãe e eu estávamos sempre com ele, embora papai tivesse uma capacidade ilimitada de conversar, fazer amigos e, portanto, seus dias eram cheios. Para as crianças que apareciam na sua frente, enquanto se exercitava andando pelo corredor, papai oferecia números de mágica. Para os jovens internados como ele, papai tinha palavras e histórias que faziam sentido e melhoravam o ânimo de todos. Os médicos e enfermeiros aprenderam a não ter pressa quando faziam visita a meu pai ou tinham que fazer algum procedimento nele. Sempre fluía uma conversa bem gostosa e o quarto do papai se tornou uma espécie de oásis no hospital. Dr Sergio, chefe da equipe de oncologia, visitava papai quase todos os dias, sentava, conversava, ria e algumas vezes notei que ele saía balançando a cabeça. Imagino, não posso ter certeza, que podia estar pensando em como o bom humor e o otimismo ajudam uma pessoa a enfrentar os grandes desafios que a vida impõe. Até para casais com problemas papai chegou a oferecer seu ombro amigo, sua boa escuta e filosofias de vida. Eu brincava com ele dizendo que ele mantinha um consultório irregular no hospital sem ter o diploma apropriado. Numa das manhãs, depois das rotinas habituais, meu pai escutou batidas na porta. Em alto e bom som, fez saber a quem vinha lhe ver que podia entrar. A porta foi sendo aberta bem lentamente, como se a pessoa que a empurrasse estivesse hesitante. Pode até ser que ao empurrar a porta, a pessoa precisasse se empurrar também. Era preciso se endireitar, reequilibrar-se. Era importante sorrir e não demonstrar pena ou tristeza ao ver meu pai mais fraco, mais magro, mais envelhecido. Creio que papai intuía essas coisas e, em geral, ajudava quem vinha ao seu encontro. Quando a porta ficou bem aberta, deu para ver que a pessoa que estava ali era minha tia, irmã caçula do papai. Terezinha veio carregada de sacolas e pacotes. Lembro que ela estava de saia preta, sapato baixo, meia calça de seda, cabelo arrumado para trás e para o alto, olhar meio esbugalhado e uma respiração um pouco ofegante. Ela havia preparado de véspera patê de fígado de galinha e trouxe uma panela cheia. Verdade! Trouxe uma panela! No caminho para o hospital, comprou salame kosher, pepino azedo e pão preto. Trouxe ainda uma torta de queijo, burekas e um rocambole de chocolate. Minha tia sempre foi exagerada e meu pai sempre foi guloso. Que dupla! Entra minha irmã! O quarto do hospital ficou uma bagunça. Papai queria provar cada coisa que sua irmã lhe trouxe. Minha mãe, sabiamente, não se metia nesse assunto. Eu lembro que provei a torta de queijo e até hoje associo essa doçura ao cenário do quarto do papai no hospital. Depois que a etapa de regalos foi cumprida, minha tia se sentou numa cadeira ao lado de meu pai e começou a puxar conversa. Estavam animados lembrando histórias, falando dos meus avós, dos dois outros irmãos, de Ibirarema e dos cachorros Duque e Diana. Os dois conversavam tão animados como se tivessem voltado no tempo. Minha mãe e eu éramos meras espectadoras. Num dado momento, minha tia tirou um envelope da sua bolsa e fez solene um anúncio: Chaim Lejb, esse é o convite de casamento da minha filha mais velha! Papai convocou mamãe: Esther, pega meu óculos para eu poder ler. Tenho quase certeza que o convite estava escrito em hebraico, idish e português. A data do casamento seria em um mês. Titia dava explicações sobre a cerimonia, que seria realizada dentro do ritual judaico ortodoxo. Minha tia estava eufórica e falava demonstrando sua euforia e excitação. Papai escutava atento. Num dado momento, minha tia mudou sutilmente seu jeito de falar e, posso quase jurar que ela gaguejou. Começou a falar sobre chapéus. Perguntou se papai se lembrava de uns chapéus pretos, altos que se usava na Polônia. Papai lhe respondeu que saiu da Polônia ainda criança, mas tinha essa lembrança sim. Titia prosseguiu dizendo que o pai do noivo e os irmãos dele usavam esses chapéus. Papai olhou bem para sua irmã e disse: “Nu...”. Ele usou a pequena palavra em idish que posso tentar traduzir por “e daí?“ Titia pareceu recuar e mudou de assunto: Quer mais um pedacinho da torta? Impaciente papai respondeu: Não! Continua o que você estava falando. Titia balançou a cabeça e como se mirasse num alvo disparou: Andei falando com minha filha e pensamos que é muito desejável que os tios da noiva usem esse mesmo tipo de chapéu... Todos estariam elegantes e iguais... Papai continuou impávido. Ele devia estar pensando. Papai tinha o raciocínio rápido e logo veio com sua resposta: Minha irmã, acredito que para uma festa como esta, você vai ter que providenciar muitas coisas. Você vai providenciar flores, não vai? Vou... Você vai providenciar um carro para levar a noiva, comida, alguém para fotografar, alguém para filmar... Claro! Claro, mas... Então, minha irmã, já que vai providenciar tantas coisas, providencie um irmão, pois este aqui não é adequado para o que você precisa. Não posso me fantasiar do que não sou... Minha tia também raciocina rapidamente e interrompeu meu pai. Colocou as mãos na cabeça, levantou-se da cadeira e ficou repetindo diversas vezes uma única palavra: Esquece! Esquece! Esquece! Titia parecia atormentada. Papai deixou que ela se acalmasse por si. Aos poucos, minha tia se acalmou e conseguiu dizer para seu irmão que mais importante que qualquer coisa era tê-lo com ela no casamento da filha. Papai sabia que o caso estava encerrado e começou a brincar. Posso ir sem chapéu? Pode! Nem preto, nem branco? Sim! Nem alto, nem baixo? Claro Chaim Lejb, foi bobagem minha! Então quero lhe dizer minha irmã, que estou me recuperando e agora tenho uma motivação extra para querer ficar bem. Vou caprichar mais ainda nos exercícios de fisioterapia. Os dois se abraçaram. Eu vi minha tia e meu pai chorando.   Minha tia voltou muitas vezes para visitar meu pai antes do casamento. Nunca vi minha tia chegar sem um monte de pacotes. Era sua maneira de chegar. Ela gostava de falar dos doces, das guloseimas e assim, carinhosamente e sem pressa, ia colocando sua alma pertinho da do meu pai, seu irmão. Estava tudo certo entre eles dois. Eles podiam voltar a conversar sobre Ibirarema ou sobre o casamento que ia acontecer em breve. Podiam falar sobre qualquer coisa. Não ficou nada emperrado, não ficou nada sem ser dito ou como acontece entre tantas pessoas, nada ficou mal dito. Papai conseguiu com grande dificuldade ir a esse casamento. Ainda não estava totalmente recuperado. Quando viu sua sobrinha, aproximou-se dela e lhe disse algumas palavras sobre o tanto que ele desejava que ela fosse feliz. Ela lhe assegurou que estava exatamente onde queria e com quem queria. Depois da cerimônia, papai não conseguiu dançar, nem ficar muito tempo. Ele sentia um cansaço extremo. Não tenho certeza, minha memória está nublada, mas acho que voltamos para o hospital. Naquela época, nunca poderia imaginar o tanto que me tocou esse episódio. Cada vez que relembro essas cenas, agradeço meu pai e minha tia pelo amor e respeito que um teve pelo outro. Como se fosse semente, decido jogar esse texto ao vento, respiro fundo, coloco um ponto final e volto para onde sei que também é o meu lugar.

SONHANDO ACORDADA

Segunda, 09 Janeiro 2017 15:02
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Inesperadamente uma mensagem dele apareceu para mim. Achei estranho, mas ao mesmo tempo, senti um sabor apimentado e forte. Ele queria me encontrar. Havia urgência nas palavras dele. Na verdade, não era nas palavras. A urgência eu percebi em alguma sutileza, possivelmente numa vírgula ou nas reticencias que ele usou. Fazia mais de um ano que eu não tinha nenhuma noticia dele. Era assim que funcionava nossa relação que tem o título de amigos de infância. Estudamos juntos desde o antigo ginásio e nos separamos quando cada um foi fazer sua faculdade. Eu o admirava muito e tenho uma nítida lembrança de, com cerca de onze anos, escrever uma redação citando-o como um futuro presidente do Brasil. Minha previsão não se cumpriu. Ele se tornou médico. Durante muitos anos morou fora do país. Casou, teve filhos, separou, casou novamente e no meio de tudo isso deve ter tido algumas paqueras. Quando eu era menina, tentei fisgá-lo. Além de ótimo aluno e garoto bonito, ele sempre foi muito educado, portanto soube se esquivar de minha investida com elegância: não podemos namorar, pois não quero perder nunca minha amiga. Levei um tempo para entender o fora que levei e até para me permitir sentir uma pitadinha de raiva dele. A raiva não durou e nossas vidas foram em frente. Quando voltamos a nos encontrar já éramos avós, ou quase, não lembro bem. Nossos encontros sempre se deram junto com outros amigos da época da escola e aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Assim como todos nós, ele estava envelhecendo. Seu cabelo ruivo tornou-se prateado e seu porte atlético havia se tornado apenas uma lembrança de décadas atrás. Dava para perceber que era guloso e que não conseguia abrir mão dos prazeres que uma boa mesa podia lhe proporcionar. Sua conversa era interessante e seu sorriso tinha ainda aquele antigo charme. Ele nunca foi como eu, alguém que ri à toa e escancarado. Ele sempre foi mais econômico nas suas demonstrações de sentimentos e emoções. Pode ser que essa era sua maneira de capturar a atenção e até o coração de desavisados. Com muito cuidado, como se estivesse andando em pedras lisas e escorregadias, durante nossos encontros, eu me dedicava a entender melhor os sinais que vinham dos seus olhos. Percebia com frequência uma tristeza fugaz e bem disfarçada. Como sempre estávamos com os outros amigos, nossos assuntos prediletos eram os livros e filmes. Se algumas vezes tentamos falar de assuntos íntimos, logo alguém transformava o tema em piada e rapidamente libertava-nos de uma possível cilada emocional. Agora ele quer me encontrar. Só nós dois. Sem nossos amigos, sem marido, nem esposa. Impetuosa como de costume, já lhe respondi que topo o encontro. Ele sugeriu um jantar. Eu cheguei a escrever, mas apaguei a pergunta audaciosa se era à luz de velas... Para não perder o costume, nessa última troca de mensagens, já nos atualizamos sobre os últimos livros lidos. Fiquei surpresa quando ele escreveu que quer comentar comigo sobre esses livros no nosso encontro. Já entendi que teremos um tempo de aquecimento antes de entrar no assunto principal. Ri sozinha da minha inibição de lhe dizer que minha digestão à noite é terrível e que se eu jantar, seguramente ficarei sem dormir. Tenho pensado, nos momentos em que a vida me dá trégua, no que vamos conversar no nosso jantar. Vamos falar sobre meu irmão, que era seu grande amigo e, como estaremos sozinhos, poderemos até chorar abraçados. Poderemos nos lembrar de nossos pais e das vezes que todos estivemos juntos e felizes.  Será que ele tem alguma ideia de organizar um lar de amigos para morarem juntos na velhice? Isso até que seria interessante... Será que falaremos dos planos que fizemos para os nossos filhos e avaliaremos o que de fato aconteceu? Será que vamos filosofar sobre a rapidez com que a vida passou? Falaremos sobre o amor? Um pensamento sombrio me assalta e me incomoda. Será que ele está doente e quer se despedir? Será que quer discutir sobre a eutanásia como fizemos na nossa colônia de férias quando tínhamos onze ou doze anos? Meu Deus! Ainda falta um mês para ficar imaginando e sonhando... Quem sabe ele está arrependido e quer aceitar o pedido de namoro que lhe fiz há mais de quarenta anos? Tenho que me preparar. Não posso me deixar pegar de surpresa. Aqueles olhos são ciladas. Talvez eu deva treinar soltar o não para qualquer pergunta. Tenho sempre o sim pronto na ponta da língua. Preciso inverter esses dois. Vou começar a treinar na frente do espelho! Estou gostando muito de imaginar e sonhar com nosso encontro. Contei para o meu marido e ele nem se incomodou. Ou ele é muito seguro de si, ou seguro de mim ou entende que dois velhos amigos podem ir jantar sem maiores problemas. Sorte a minha! Ainda não comecei a pensar na roupa que eu vou usar. Decidi que o perfume deverá ser bem discreto. Talvez use a velha e boa alfazema... Vou passar só um batom e nada de maquiagem. Aposto que ele nem pensou, nem vai pensar em nada disso. Falta um mês. Seria legal se ele mandasse uma mensagem querendo saber que tipo de comida eu prefiro para escolher o local do encontro. Será que eu diria: café com leite e torrada integral com queijo? Duvido...

VÁ VOCÊ TAMBÉM!

Quinta, 07 Dezembro 2017 16:51
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No primeiro domingo de dezembro, um grupo de trinta pessoas fez acontecer o último evento do ano de 2017 da Biblioteca Regina Bin da Sociedade Israelita Beth Jacob de Campinas. Visitamos o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em SP. Tivemos a honra de sermos guiados pelo Professor Reuven Faingold e também pela Orientadora Educacional Ilana R. Iglicky durante três horas dentro do Memorial. Todos do grupo foram unânimes em salientar o conhecimento do Professor Reuven e sua capacidade de transmitir e contextualizar os fatos e dados históricos. Ilana explicou e apresentou a parte referente à cultura dos imigrantes judeus com muita propriedade. Somos gratos por tanta generosidade de ambos. Visitar um Memorial do Holocausto é dispor-se a reverenciar os Seis Milhões de Judeus inocentes assassinados e fazer reflexões sobre a capacidade de intolerância, brutalidade e ódio que proliferaram nas mentes nazistas. Há quem diga que não quer mais saber desse tema, já se abalou demais com fotos, livros e filmes. São pessoas que acreditam que precisamos de alegria e que não devemos remoer eternamente as vozes que nos chegam dos escombros. Sem querer escutar tais vozes, ou sussurros desesperados, essas pessoas evitam se conectar com a responsabilidade de passar adiante tudo o que aconteceu. Parece não se interessar pela onda de negação do holocausto. Também não lhes interessa se os jovens, estudantes de escolas públicas ou particulares, sabem mais ou menos sobre os fatos relacionados ao nazismo, holocausto e II Guerra Mundial. Esquecer é o caminho para alguma forma de repetição e é um insulto à memória de todos que foram executados no holocausto. Definitivamente esquecer não beneficia a nós, judeus, nem a nenhuma pessoa interessada na paz e na justiça social. No mesmo prédio e não por acaso, também funciona o Memorial da Imigração Judaica. A ligação entre os sobreviventes, os que escaparam antes do holocausto e toda a riqueza cultural que veio para o Brasil é feita com arte e delicadeza. A arquitetura e a decoração de todo o prédio nos fazem esquecer que estamos no Bom Retiro e nos convidam a viajar para algum lugar que não existe. Dias depois dessa visita, meus pensamentos apontam para muitos questionamentos, que ainda precisam ser digeridos, e uma certeza: Cada pessoa que passa pelo Memorial, acaba aceitando, sem fazer nenhum contrato, a obrigação moral de fazer outras pessoas irem lá. Esse é um Memorial que precisa ser conhecido por toda a comunidade judaica, para que todos os judeus saibam que há quem esteja preocupado com assuntos relevantes como esse. E, é um Memorial para ser visitado por escolas, faculdades e grupos das mais diversas origens para que a história não se deturpe jamais! Kol ha Kavod para todos que de alguma forma estão ligados a idealização, construção e manutenção do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto!  

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