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PÉROLA INESPERADA

Segunda, 07 Janeiro 2013 10:52
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Fiz um intervalo. Fui tomar um café na padaria. Sentei-me de forma a apreciar o movimento da rua. Sempre faço isso. É como se entrasse num cinema, sem pagar ingresso e sem saber que filme vai passar. Foquei numa dupla de passantes. Os dois caminhavam lado a lado. Nada diziam. Pareciam ocupados com pensamentos sérios. O céu estava cinza e não demorou a despejar chuviscos. Os pingos da chuva logo engrossaram. Para evitar ficarem molhados, precisavam correr e buscar abrigo. Não foi o que fizeram. Deram a entender que queriam mesmo sentir a água fria e experimentar as sensações que viriam a seguir. Não demoraram a começar a rir. Do nada. Como se tivessem chapados. Não creio que estavam, mas quem há de saber? A chuva deve ter acordado algumas partes que andavam adormecidas neles. Era nítida a sensação de alegria que vinha de dentro deles. Deram-se as mãos. A rua passou a ser o palco deles. Ora corriam um pouco mais, ora davam passos mais lentos. Num dado momento, ergueram os braços numa demonstração nítida de que não tinham medo dos trovões, nem dos relâmpagos. Foi lindo de se ver! Dançaram ao som da tempestade. Não deixaram escapar nenhuma poça. Pularam em todas. Sempre rindo. Até as bengalas ajudavam na coreografia. Devia fazer muito tempo que não encaravam uma loucura dessas. Quando a chuva acalmou, eles estavam abraçados, encharcados e com jeito de sentirem falta de ar. Notei que havia acabado meu café. Levantei. Tive vontade de bater palmas, mas paguei minha conta e voltei para trabalhar.

Duas Histórias de Cachorros Levados

Segunda, 15 Abril 2013 09:23
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A primeira: Um mocinho queria muito viajar para o exterior. Na verdade, queria encontrar a namorada que estava mochilando pela Europa. Além da grande vontade, ele não tinha recursos para ir a lugar algum. Como um milagre, surgiu uma oportunidade de viajar sem pagar passagem. Bastaria levar um cão. O grande problema era que o moço tinha uma aversão por bichos. No tocante a cachorros, poderia se dizer que tinha uma verdadeira fobia. Tinha que dar uma resposta rápida. Durante os seus momentos de reflexão para decidir se iria ou não, suou muito e até se sentiu mal, mas, por amor ou coisa parecida, acabou topando a empreitada. Sorriu amarelo quando, já no aeroporto, conheceu seu companheiro de viagem. Era grande. Teve a impresão que se tratava de um pequeno cavalo. O moço chegou a pensar que era alguma armação dos amigos. Não era. Fez o check in. Deu tudo certo. Havia uma parada para troca de aeronave em Paris antes de chegar ao destino final. O previsto era para ficarem em terra umas duas horas. Coisas acontecem... Avisaram que ficariam oito. Chegou a pensar na Torre Eiffel... Mas em poucos minutos a Cia Aérea entregou o cão para o rapaz tomar conta dele durante o tempo de espera no aeroporto. O cachorro tinha fome. O moço tinha pouca grana e também tinha fome. Dividiram um queijo quente. Andaram para cima e para baixo. Ficou lívido quando o cão precisou fazer suas necessidades. Achou que um guarda poderia lhe dar voz de prisão e lhe levar algemado. Limpou tudo correndo e não deixou nenhum vestígio de sujeira. Andaram mais um pouco, mas foram vencidos pelo cansaço e se deitaram esparramados no chão do aeroporto. Inexplicavelmente, o moço sentiu vontade de fazer carinhos no cão. Recebeu em troca lambidas afetuosas. Quem viu deve ter até se emocionado com a cena de afeto explícito. O cachorro e o rapaz desembarcaram bem no destino final. O melhor de tudo dessa experiência inusitada, segundo o moço, foi que seu medo acabou. E a namorada? Nem deu bola para ele. Estava tão em outra, que nem quis escutar como o seu ex amado conseguiu chegar ao seu encontro. Ou melhor, ao seu desencontro...   A segunda: Outro rapaz queria viajar e também se deparou com a oportunidade de ir acompanhando um cachorro. Havia uma grande urgência. O moço era do tipo afoito, daqueles que prestam pouca atenção a explicações. Escutou que precisava ter o passaporte em dia e ele tinha. Também entendeu que a viagem tinha que ser imediata. Ele podia ir. Era um vôo direto. Uma barbada. Não ouviu mais nada e nem perguntou. E foi. Entregaram-lhe o cão dentro do local onde iria viajar. Nem viu a cara do bicho. Parecia que estava dormindo. Embarcou. Sonhou e fez planos. Comeu e bebeu com muito gosto tudo que lhe ofereceram. Sentiu-se um rei. Ao chegar ao destino, não demorou a se desembaraçar de todos os trâmites e logo estava num taxi. O dia estava bonito, tudo estava perfeito e ele sentiu vontade de checar se o animal estava bem. Estranhou imediatamente. O bicho estava muito quieto. Demais. Inerte. Sem reação. Horror! O cachorro estava morto!!!!! E agora? O que fazer? Pediu para o taxista parar. Explicou seu drama. O sujeito foi legal e se prontificou a ajudar. Para encurtar a história, conseguiram achar um bichinho bem parecido com o falecido. O preço? Uma pequena fortuna, mas o que fazer nessa circunstância? Usou o cartão de crédito que a mãe havia lhe dado para usar somente em caso de grande emergência. Era o caso. Pediu ao motorista para parar quando estavam passando por um rio. Como se estivesse se livrando de uma praga, atirou-o da ponte e considerou que fez o que tinha que ser feito. Seguiram para o endereço de entrega do cachorro. Um homem já aguardava na porta. Parecia um pouco aflito. O rapaz saiu do taxi com o cachorrinho na mão. O homem empalideceu. Queria falar e não conseguia. Apontava para o cão. O rapaz achou que ele notou alguma diferença e que percebeu que era outro animal. Ficou branco também. O taxista pediu para receber e caiu fora. Quando o homem aflito e pálido conseguiu falar, disse que o que estava acontecendo era impossível. O rapaz, que era do tipo afoito, (lembram?) já estava prestes a jogar a toalha e declarar sua culpa, quando o homem falou que estava preparado para um dia triste, muito triste mesmo. Aguardava o corpo de seu cãozinho para enterrá-lo no jardim de sua casa. Definitivamente, não entendia como ele estava ali, diante dele, vivo. Sem ter naquele momento nenhum recurso melhor, o rapaz desmaiou. E o fim da história? Bem, o rapaz era afoito, mas não era mentiroso. Gaguejou, mas contou a verdade.     

ABRAM ALAS! AQUI NÃO FICO!

Quarta, 04 Dezembro 2013 09:29
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Ela preferiu ir de metrô. Era a escolha mais acertada, pois chegaria mais rápido e pagaria menos. Conseguiu comprar o bilhete depois de enfrentar uma fila de vinte minutos. Não estava habituada e nem gostava de estar no meio de tanta gente. Não dá para explicar o que acontece no terminal Tietê em SP nas tardes de domingo. Muitas malas, pacotes, barulho, muitas crianças, jovens, velhos, gente simples, gente nem tão simples, gente de todo jeito. Sentiu um desconforto crescendo. Sua garganta estava seca e dando sinais de estar apertada. Como não era dada a desistir dos seus intentos, respirou fundo, pediu informações, desceu e subiu escadas rolantes e, seguindo placas, chegou ao local correto para aguardar o seu transporte. Ficou comportada atrás da linha amarela. Notou que nem todos respeitavam essa ordem. Aguardou poucos instantes e escutou o barulho do metrô chegando. Formou-se uma aglomeração medonha. Quando as portas se abriram, algumas pessoas saltaram e um bolo de gente, com ela no meio, entrou. O vagão estava lotado. Ficou em pé e se deu por feliz por, ao menos, conseguir se segurar para não cair numa freada. Enxergou o mapa das estações. Identificou onde estava e quantas estações ainda faltavam. Calculou que em menos de dez minutos chegaria ao seu destino. Havia uma muralha de pessoas entre ela e a porta. Falou com a pessoa à sua frente que precisava se deslocar. Parece que a pessoa não lhe ouviu. Não se mexeu, nem lhe deu bola. Pode ser que não lhe escutou mesmo, pois o barulho era grande. Uma agonia foi crescendo dentro dela. Precisava estar mais bem colocada, se quisesse conseguir sair daquele vagão! Pensou em gritar, mas desistiu. Pensou em usar a força, mas não sabia como, não tinha prática de usar a violência. Então, pensou que muita gente também iria descer na mesma estação que ela, e assim, não teria problema. Escutou o nome da estação que era o seu destino. As portas se abriram e quase ninguém se moveu. Disse: por favor, por gentileza, deixem – me passar, por obséquio... Mas ninguém se abalou. Escutou o sinal das portas se fechando. Novamente precisou achar um meio de se acalmar e foi o que fez acreditando que poderia saltar numa estação à frente e depois voltar... Claro que esse retorno teria um preço também, mas não queria pensar nisso naquele momento. Em poucos minutos, chegou à próxima estação. Novamente ouviu o sinal das portas se abrindo. Ainda estava muito difícil conseguir se mexer e alcançar a saída. Um sinal de alarme parece que disparou dentro dela. Chega! Quero sair daqui! Com coragem e força soltou seus pulmões: Abram alas, arredem! Suando e com o coração aos pulos, se deu conta de que foi cuspida do vagão. Era tamanha sua alegria e emoção que ria e chorava ao mesmo tempo. Conseguiu! Essa história não me sai da cabeça. Fiz analogias e recordei momentos complicados em que quis sair de "vagões"... Você já se viu em situações assim? Ainda espera que os outros lhe deem passagem? Sentiu curiosidade e quer tentar passar por essa experiência? Domingo está chegando... Depois me conta...  

ENCONTRO COMIGO

Terça, 25 Fevereiro 2014 12:21
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 Um forte odor que emanava dela me fez sentir uma imediata repugnância. Ela estava completamente despenteada, seus cabelos, assim como meus pensamentos guiados pela minha imaginação, davam a entender que queriam alçar voo. Era jovem, morena, magra e estava mal coberta por um vestido roto e bem sujo. O perfume que estava em meu corpo pareceu desejar outros ares, mas o máximo que pode fazer foi tentar se evaporar. Achei que a moça quis me provocar, exibindo cacos de dente na boca ao esboçar um sorriso emoldurado por lábios sem cor. Sem ter como fugir ou simplesmente trocar de lugar, afinal o ônibus estava lotado e eu estava encalacrada, sentada num banco, sentindo o ventre da moça no meu ombro, resignei-me e baixei a cabeça. Foi então que notei seus pés imundos. Um par de pés grandes, sem nenhuma delicadeza, sem nada que os enfeitasse ou que os amparasse. Pés descalços, que davam sinais de estarem plenamente acostumados com as agruras da vida. Num reflexo, encolhi os meus que estavam dentro dos sapatos especiais que eu usava para me dar mais conforto. Meti-os para debaixo do banco e os fiz ficarem por lá, como se os estivesse colocando de castigo. Parecia que ela se segurava com firmeza. No entanto, eu acreditava que numa freada ela poderia parar no meu colo e sujar e amassar minha roupa. Ao me dar conta da possibilidade desse transtorno, olhei melhor para ela e, sem querer, sorri. Foi um sorriso pequeno, de meia boca, sem nem ao menos mostrar dentes ou alguma intimidade. Ainda assim, foi o que bastou. Como um bicho esfomeado ela sorveu cada pedacinho do meu sorriso. Tive a nítida sensação de escutar barulho de algemas me prendendo. Então, em desespero, quis sair daquela condução. Fiz menção de me levantar. Ela notou e não colaborou. Com joelhos e cotovelos, fui degladiando com ela e depois com cada uma das pessoas até me ver fora daquele ônibus. De pé, na calçada, respirei aliviada. Uma lufada de vento me fez sentir frio. Abotoei meu casaco e tentei desaparecer em mim.

BENTO QUERIA SER VENTO - Infantil

Segunda, 16 Março 2015 14:46
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Era uma vez um menino chamado Bento. Era pequeno e cheio de energia. Tinha seis anos, olhos espertos e uma cabeça que pensava sem parar. Numa tarde de domingo, Bento parecia distraído, sentadinho no chão, não muito longe de sua casa, brincando com uma varetinha, olhando o que acontecia ao seu redor. Olhava e pensava. E pensava e pensava... O vento parecia fora de si. Estranho? Pode ser, mas era essa a impressão que Bento tinha, pois enxergava que o vento estava totalmente louco, fazendo portas baterem, vestidos e saias serem levantados e fazendo também papéis e miudezas voarem. Fora toda essa bagunça ainda havia gente correndo para todos os lados. Que força o vento tem! Enquanto Bento refletia sobre o poder do vento, escutava a voz de sua mãe que lhe chamava: Bento! Vem para casa! Beeeento! Onde você está? Vai cair uma tempestade. Ô menino... Precisamos fechar a casa! Como, às vezes, acontece com as crianças, Bento estava sem vontade de obedecer. Seguindo a desobediência, Bento saiu em disparada gritando. Gritava como se vento fosse. Sou o Veeeeeento! Beeento Veeeento! Sem nenhuma preocupação com a chuva forte que estava sendo anunciada, Bento foi se distanciando de sua moradia. Sou Veeeento! Veeento! Dois dentes de leite da frente já haviam caído e Bento estava achando graça falar que era vento, pois a falta dos dentes fazia a palavra vento sair de forma engraçada. Ventava na sua boca... Veeeento! Seguiu correndo, imaginando que estava voando. Não demorou muito, foi parar na beira do lago. Notou que a água estava descolorida de negro. O céu escuro refletido no lago dava um aspecto bem diferente de quando os dias são claros e o céu é azul. Não havia ninguém na beira do lago. Nem patos, nem sapos, nem passarinhos. Só a ventania cada vez mais forte e ele, Bento, o menino que parecia que engoliu o desassossego. Com os braços bem esticados, Bento tentava ensaiar voos para todos os lados. Em alguns momentos o vento lhe dava a impressão de que iria lhe levantar, mas Bento não estava nem um pouquinho assustado. Pelo contrário, ele estava deslumbrado. Depois de ir para lá e para cá, Bento sentiu vontade de mudar de brincadeira. Atirou longe seus sapatos e correu para colocar os pés na água. Achou delicioso e refrescante!  Essa alegria não durou muito, pois trovões e relâmpagos passaram a se revezar fazendo com que o céu ficasse com uma aparência sinistra. Gotas de chuva começaram a cair. Gotas grossas. Bento lembrou que era perigoso ficar na água, mesmo só com os pés, pois algum raio poderia ser atraído e cair nele. Isso não é brincadeira! É coisa séria! Ainda bem! Bento saiu do lago. Levantou-se para ir pegar seus sapatos. Não reparou na raiz de uma árvore, tropeçou e caiu. Sentiu uma dor forte. Machucou seu pé. A tempestade seguia muito forte. Trovões e relâmpagos estavam mais ferozes e insistentes. Raios pareciam cair pertinho dele. Bento começou a sentir medo. Sabia que tinha que sair de onde estava. Ficar perto de árvores era muito perigoso, pois as árvores também atraem os raios. Bento sentiu que estava ficando mais e mais assustado.  Queria estar em casa com sua mamãe e papai. Queria estar na sua cama sequinha. Teve vontade de chorar e imaginou que seus pais deveriam estar preocupados com ele. Fez um esforço grande e se levantou com a ajuda de um pau que achou jogado na grama. Estava totalmente molhado por causa da chuva. Estava encharcado. Queria conseguir voltar rápido como o vento, mas a dor lhe fazia dar passos pequenos e bem devagar. A brincadeira que ele havia tanto gostado já não tinha graça nenhuma. Lembrou que deveria ter respondido, quando sua mãe lhe chamou. Ah! Como queria escutar sua mamãe lhe chamando novamente... Beeeeeeento! Era ela! Sua mamãe estava lhe procurando. Aqui mamãe! Beeeeento! Agora era a voz do seu papai. Ah! Que alegria! Estou aqui! Papai! Mamãe! Em poucos instantes, Bento e seus pais estavam abraçados. Papai lembrou que era melhor saírem logo dali. Colocou Bento no colo e acompanhado da mamãe não demoraram a chegar a casa deles. Onde você estava menino? Correndo... Achando que era o vento... Brincando... Ouvindo mamãe chamar e não respondendo... Fingi que não escutei. Isso não foi nada bonito, disse a mamãe. Não vou mais fazer isso não. Acho que não quero mais saber de ser vento, sou Bento. Isso já é muito bom! Papai e mamãe concordaram com ele, lhe abraçaram e lhe encheram de beijos. Os três estavam felizes e, de dentro de casa, sãos, salvos e juntos contemplaram a tempestade que ainda caiu um bom tempo.

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