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Um Ato de Amor

Sábado, 07 Julho 2012 11:28
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Meus pensamentos adoram se enroscar nas minhas memórias. Isso é um fato. Quando atendo pacientes, nem faço força para isso não acontecer. Entendo que me ajuda a ajudar quem me procura. Outro dia, enquanto ouvia a narrativa queixosa de um paciente sobre as dificuldades de sua esposa, percebi que a escuta dele em relação a ela estava baixa. Essa postura dele me fez enganchar numa época em que meu marido viajava mais de cem km todos os dias para chegar ao trabalho. Como dormia em casa, tinha que fazer o mesmo percurso para voltar. Foram mais de dez anos. Viajava muito para o exterior. Muitas vezes me levava junto e assim estive como princesa em lugares lindos. Ganhava bem. Tinha carro da empresa. Em casa não faltava nada... só a presença dele. Um dia ele começou a falar em mudança. Queria largar aquela vida. Queria ficar mais perto de mim e dos filhos. Lembro bem como isso me assustou. Pensei na segurança que o seu contra cheque nos dava todos os meses e em todos os cantos da sereia que seu emprego nos fez ouvir durante muitos anos. Fui um empecilho, mais que isso, uma barreira forte contra seu desejo. Em algum momento, finalmente, parei de resistir e notei a urgência que havia no sonho do meu companheiro. A mudança aconteceu e nossas vidas foram adiante. Quando acreditamos que possuímos o dom de saber a verdade das coisas, o melhor caminho ou qualquer outra maluquice desse gênero nossa escuta cessa. Escutar o outro é um ato de amor. Saber escutar não só as palavras, como os suspiros, as pausas e interpretar todo o conteúdo não verbal é uma arte orquestrada pelo coração. Foi por muito pouco, por estar acomodada e por não querer ouvir nada que abalasse meu equilíbrio, que eu quase sufoquei quem me era mais caro, quem tanto amava. Depois desses lampejos indaguei meu paciente sobre o que ele poderia me dizer dos sonhos de sua esposa. Ele desembuchou uma resposta rápida, como se estivesse num duelo e atirasse: os sonhos dela arrebentam os meus! E como quem chuta em gol sem goleiro para defender falei de mansinho: Pois é...então, agora me fale dos seus medos...

Pequena palestra para um Dia das Mães

Sexta, 10 Maio 2013 09:57
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Honestamente, a primeira emoção que me inunda no Dia das Mães é a saudade que sinto da minha Mãe. Não é tristeza, nem revolta. Longe disso! É uma saudade mansa e já calejada. É como um vento que descabela, mas não maltrata. Só faz questão de que se saiba que está presente. Parece que o que acontece então, é que mamãe chega mais perto. Como se tivesse viajado para longe, para algum lugar indefinido e distante e, por algum motivo inexplicável, ela se aproxima. Passo a sentir a sua presença, seu cheiro me inebria e seu toque delicado me domina. O doce conforto de estar embalada em seus braços se traduz numa incomparável sensação de paz. Sou levada a fechar os olhos e, por um momento, fico confusa a ponto de eu me indagar se voltei a ser criança. São momentos mágicos. Não sei como, nem quando passei a ter acesso a esses momentos. Não sei ensinar ninguém a fazer o mesmo. Nem pensem que é má vontade. É assim mesmo... foge a qualquer esfera racional e lógica. E eu adoro... Após me saciar e me sentir plenamente bem no meu papel de Filha, posso direcionar-me para a Mãe que sou. Sinto alegria revisitando histórias com meus dois filhos. Fui uma mãe jovem. No meu tempo... (Quem diria que eu já estaria usando esse recurso!) Bem, no meu tempo, casávamos por volta dos vinte anos e não demorávamos a ter filhos. Não há nada na minha vida que se compare com as grandes emoções que vivi nesse papel de Mãe. À medida que meus filhos foram crescendo, fui percebendo necessidades diferentes. O espantoso foi perceber cada vez menos necessidades. Fui me tornando dispensável. Um choque! E agora? Aprenderam a voar e até deixaram o ninho. Já haviam me falado sobre isso... Depois de digerir bem toda essa grande novidade, consegui entender direitinho que passei a ser mãe de adultos e não demorei muito a me permitir sentir orgulho de ter feito um bom trabalho. Depois que os filhos cresceram e se casaram, vivi, sem saber, como se estivesse me preparando para uma tremenda e fabulosa aventura. Foram anos de construção de algo novo em mim: uma Avó. Descobri que guardava um desejo de voltar a segurar bebes no colo, fazê-los adormecer cantando músicas da jovem guarda ou do cancioneiro judaico, brincar no chão, dar banho, alimentar... e tudo isso foi crescendo dentro de mim. A grande novidade era que não me cabia nenhuma possibilidade de ajudar a fazer acontecer. Querer ser avó é um desejo de quem está na torcida, de quem, no máximo, acompanha o jogo, mas não joga. Uma vez cheguei a ganhar uma linda boneca de meu filho Marcelo e de sua esposa Regiane, era para eu me acalmar... Minha primeira neta, Luna, já tem 4 anos. Como se tivessem arrombado comportas, foram surgindo os meus outros netos: Melissa, 3, Leo, 2 e Giovana 7 meses.  Sou avó exatamente da maneira que minha vontade sonhou. Não posso ser original num tema como esse. Não esperem isso de mim. Preciso afirmar que reconheço e sua muito grata pela benção de ter tido meus filhos e meus netos. Sou grata também pelas noras e sogra que tenho. Nada dessa história teria acontecido se não fosse um encontro que se deu no século passado, em 1969. Era carnaval.  Um moço fantasiado de esfarrapado chamou minha atenção. Não ficamos, nem fomos audaciosos  a ponto de avançar sinais. No nosso tempo a toada era mais devagar... Namoramos 5 anos. Fizemos planos e sonhamos muito. Queríamos muito mais que alguns tons de cinza, queríamos o arco íris inteiro. E fomos buscar. Foi esse moço que me transformou primeiro em mulher e depois em mãe. Esse moço é hoje avô junto comigo. Poderia eu ter tido um rumo melhor? Uma história mais espetacular? Não acredito que seria possível. Vivo a melhor das histórias. Às vezes sou protagonista, outras sou coadjuvante e outras apenas plateia. Cada vez, creio eu, estou tentando melhorar na arte de entrar e sair de cena. Aplaudo a todos, filhos, noras e netos. Dou a mão para o meu marido e sinto alegria e paz inundarem minha alma, puro farguinign... Para concluir, desejo para vocês nesse próximo Dia das Mães: Que cada um de vocês possa relembrar e celebrar sua história de vida! Que suas mães, onde quer que elas estejam, consigam se aproximar de vocês e lhe aquecer os corações!

DA SURPRESA AO ABRAÇO

Quarta, 05 Novembro 2014 16:03
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Ela chegou de surpresa. Era uma amiga antiga, que morava pertinho e, por circunstâncias da vida, foi para longe. É daquelas que nem podemos pensar muito na falta que fazem, para não ficarmos pensando só no tempo que já passou. Ela tinha menos de uma hora e queria colocar tudo em dia: maridos, namorados, filhos, netos, trabalhos e mais mil casos antigos e novos. Gostei de perceber que seus quase sessenta anos não atrapalham em nada seu animo e bom humor. Parecíamos duas adolescentes sentadas de lado, com as pernas encolhidas e uma de frente para a outra no mesmo sofá da sala. Contou que depois de quarenta anos, reencontrou um colega de escola que lhe ajudou a levantar o astral depois da última separação no ano passado. O colega era bonito, bem apessoado e chegado a um chamego como ele só! Era um homem equipado e atento para a arte do amor. Pelo tempo que nada acontecia nos últimos anos de casada, ela estava certa que sexo era coisa do passado e que suas chuteiras já podiam ser penduradas. Em seis meses dessa aventura, o galã lhe mostrou como estava errada. Foi um deleite. Reativou motores enferrujados e partes da máquina que estavam totalmente sem uso. Se não fosse a gula por sabores e cores de fêmeas diferentes, até que poderiam ser um belo casal. Foi uma pena... Com os olhos mareados, mas ao mesmo tempo ostentando um sorriso, contou-me que não fez dessa separação nenhuma tragédia, afinal já havia passado situações bem piores. Levantando-se como quem já estava começando a se despedir, me garantiu que estava livre e pronta para voltar a ser quem sempre foi e voar para onde tivesse vontade. Essa era a amiga que eu conheci! Nem eu, nem ela queríamos nos separar, então lhe sugeri que ficasse mais um pouco para comermos juntas uma pizza. Parece que acertei a deixa. Ela soltou a bolsa no chão e disse que não poderia ir embora, sem me contar uma passagem que ocorreu enquanto esteve casada com um homem ciumento e mal humorado. Voltamos para o sofá da sala e ela foi iniciando o relato como quem tinha um carretel para desenrolar. Era um fim de tarde de domingo. Só os dois e a TV ligada no programa para ajudar o fim do domingo acontecer. Nada na geladeira e pizza na certa. Deixei escapar um suspiro. Ela foi adiante. Disse que não aguentava mais esse tipo de refeição calórica, mas estava sem energia para discutir por tão pouco. Ele perguntou se podia ser quatro queijos, ela preferiria um queijo só, mas sabia que era mais fácil deixar pra lá. Quando avisaram que a pizza chegou, ela quase se levantou, mas lembrou que ele cismava com as conversas dela com estranhos. Na cabeça dele, provavelmente, o entregador não seria capaz de resistir aos encantos dela e nem ela aos apelos do moço. Sendo assim, ela ficou sentada e ele foi buscar a comida. Ela estranhou a demora dele, mas não se mexeu. Quando enfim ele apareceu, ela estranhou o aspecto da caixa da pizza. Estava suja e meio desconjuntada. Ela quase comentou alguma coisa, mas lembrou-se que poderia chatear seu marido. Nessas horas, ela sentia-se como uma prisioneira dentro dela mesma, mas tratava de pensar que não era tão ruim assim e que ele tinha mil outras qualidades. O marido colocou a caixa esquisita na mesa e os dois se sentaram para comer a pizza. Quando ele abriu a tampa da caixa, ela notou que havia sujeira em cima dos tomates e dos queijos. Um pouco de grama e até lama atestavam que o conteúdo da caixa havia caído no chão. Ela olhou para ele como pedindo uma explicação. Ele pegou seu prato e deu a entender que queria ser servido. Ela ensaiou um início de conversa. Você demorou... Ele abreviou um fim. O cara estava sem troco. Ela tentou de outro jeito. A caixa... Ele esmurrou a mesa e perguntou se dava para mudar de assunto.  Ela sentiu que não ia conseguir ficar sem falar alguma coisa, mas queria fazer força para evitar discussões desnecessárias. Quando tinha sentimentos fortes, era comum que ela sentisse vontade de rir. Era uma reação nervosa. Foi o que aconteceu. A vontade de rir foi ficando avassaladora. Ela tinha que fazer alguma coisa urgente. Lembrou que só havia uma saída. Uma vez, uma amiga lhe deu um conselho para resolver situações assim. Fixou o seu pensamento num ponto triste da sua vida e apertou a boca para engolir o riso e junto conseguiu até engolir a indignação. Olhou diretamente para a pizza repetindo sem som e sem parar apenas uma frase: “Meu pai morreu! Meu pai morreu”. Foi difícil, mas deu certo! Conseguiu não rir, nem falar nada sobre a grama e a lama. Enquanto contou para mim esse caso, chorava de tantas risadas. Eu também ri, apesar de perceber que o que aconteceu não era só uma comédia. Ela confessou que comeu um pedaço. Comeu por que quis. Sentiu vontade de misturar na boca as coisas que sentia com aquela última pizza que iria comer com aquele cara. Quis ter certeza de que nunca mais se submeteria daquele jeito. Comeu como quem tomou uma vacina. Já sem rir, nem chorar, ela me olhou nos olhos e me perguntou se eu concordava que era uma passagem importante da vida dela. Amigas se abraçam. Foi o que fizemos.  

DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34
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(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

JOGOS MODERNOS

Quarta, 28 Fevereiro 2018 16:52
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Eu ainda estava na cama tentando resolver o dilema de levantar ou me permitir um tempo de ócio a mais, quando o barulho do marido andando no corredor me fez decidir por colocar os pensamentos em ordem e ver o que tinha para fazer primeiro.  Decidi que o que queria fazer, antes de qualquer coisa, era lembrar o episódio que aconteceu no final da noite anterior. Chegamos de uma das nossas curtas viagens para o RJ. Quatro dias, muitos encontros e muitas emoções. Realmente muitas emoções! Emoções que ainda precisam ser mais bem digeridas, mas que, no momento, basta que se saiba que existiram. Comecei a lembrar de que quando saímos do aeroporto estava escuro e precisávamos achar um carro branco, de certa marca com um final de placa específico, acho que 73. A área de desembarque do aeroporto tem um espaço enorme, suficiente para uma caminhada saudável, mas eu não estava para isso àquela hora. Minha memória se juntou com a sensação de que estávamos num jogo que começou na escolha do aplicativo para encontrar o carro que nos levaria para casa. Não estou exagerando. Juro! Dá para ver pelo modo como meu marido se comporta cada vez que precisamos usar um veículo para nos transportar. Pegar um taxi virou a opção dos perdedores. Nós não! Meu marido tem três aplicativos, sendo que um ou dois deles se subdividem. Ele pode avisar que não tolera cigarro e vai gostar de ter balinhas e água para dizer que nem quer. Definitivamente nós conseguiríamos pegar um lindo carro, pelo menor preço e que fosse o mais rápido para chegar ao nosso destino. Assim que o avião pousou, meu marido pegou seu iphone e a busca começou. Seus dedos se moviam freneticamente e diante de uma e outra contrariedade um pequeno palavrão era cuspido de sua boca. Quando o carro era satisfatório, a distância que ele estava não era. Meu marido achou por bem me dizer que nossa cidade ainda não está entre as mais bem servidas deste tipo de serviço.  Eu já tinha conhecimento disso e devo ter respondido com um desses sons que não chegam a ser uma palavra. Da saída do avião até a saída do aeroporto há um percurso de cerca de quinze minutos. Durante os primeiros cinco minutos meu marido foi mexendo no seu aparelho e andando numa velocidade que me obrigou a ir bem mais depressa que meu corpo cansado estava querendo. A busca dele seguiu incessante. Ele passou a me mostrar quanto cada um cobrava. Meu marido estava com a faca e o queijo nas mãos para apertar um botão ou dar um comando e ganhar o tal jogo. Eu sabia que não era conveniente interrompê-lo e assim, após uns poucos minutos ele me anunciou triunfante que o nosso carro seria um HB, branco, com os números finais da placa, não tenho certeza, 73 e até disse o nome do motorista, que pode ter sido Rodrigo, ou outro qualquer. Como jogadores na última fase do jogo, passamos pelos portões do aeroporto em direção à área de desembarque. Agora só precisávamos achar o carro. Meu marido é mais alto que eu e com seu olhar consegue sempre varrer um campo bem grande. Andamos bastante de um lado para o outro. Fique perto de mim, ele me disse com uma voz firme, enquanto corria e buscava achar o carro que para nosso desgosto não estava facilmente à vista. No meu iphone diz que o carro está estacionado aqui. Experimentei dizer que o motorista poderia ter dado uma volta. Impossível! O aplicativo mostra que ele está aqui. Depois de um tempo, ousei dizer que não queria mais andar. Queria ir embora. Achei um lugar num banco e me sentei.  Empaquei. Meu marido começou a perceber que iria ser desclassificado do jogo. Ficou desacorçoado. Experimentei ajudar: Liga para o motorista. Já liguei! Ele não atende. Vou cancelar e buscar outro...  Nesse momento, enxerguei um taxi parado bem na nossa frente. O motorista do taxi saltou. Meu marido leu meus pensamentos e me disse que ele deveria estar aguardando alguém. O senhor está aguardando alguém? Não, estou livre. Quanto custa até o centro? O valor que ele deu era talvez 40% a mais que os carros que usam aplicativos. Rapidamente eu falei que o valor estava bom e que nós iríamos com ele. Meu marido entrou mudo no carro. Entre dentes me fez saber que ainda pagaríamos mais do que foi dito. Eu retruquei dizendo que pagaria quanto fosse. Ele foi eliminado do jogo. Estava amargando sua derrota, quando o motorista experimentou puxar conversa. Mudo ficou e eu troquei algumas falas com o motorista. Na porta de casa, meu marido me questionou se eu tinha dinheiro à mão. Achei minha carteira e tirei as notas para contar o dinheiro. Pronto! Por favor, confira se eu lhe dei o valor correto. O motorista contou e recontou. Não! A senhora me deu a mais. Ele me devolveu vinte e poucos reais. Boa noite e bom descanso! Vocês parecem cansados, mas já estão em casa e vão descansar. O senhor percebeu mesmo nosso cansaço. Boa noite para o senhor também. Meu marido se rendeu e desejou boa noite para o motorista. Game over.

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