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Pequena palestra para um Dia das Mães

Sexta, 10 Maio 2013 09:57
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Honestamente, a primeira emoção que me inunda no Dia das Mães é a saudade que sinto da minha Mãe. Não é tristeza, nem revolta. Longe disso! É uma saudade mansa e já calejada. É como um vento que descabela, mas não maltrata. Só faz questão de que se saiba que está presente. Parece que o que acontece então, é que mamãe chega mais perto. Como se tivesse viajado para longe, para algum lugar indefinido e distante e, por algum motivo inexplicável, ela se aproxima. Passo a sentir a sua presença, seu cheiro me inebria e seu toque delicado me domina. O doce conforto de estar embalada em seus braços se traduz numa incomparável sensação de paz. Sou levada a fechar os olhos e, por um momento, fico confusa a ponto de eu me indagar se voltei a ser criança. São momentos mágicos. Não sei como, nem quando passei a ter acesso a esses momentos. Não sei ensinar ninguém a fazer o mesmo. Nem pensem que é má vontade. É assim mesmo... foge a qualquer esfera racional e lógica. E eu adoro... Após me saciar e me sentir plenamente bem no meu papel de Filha, posso direcionar-me para a Mãe que sou. Sinto alegria revisitando histórias com meus dois filhos. Fui uma mãe jovem. No meu tempo... (Quem diria que eu já estaria usando esse recurso!) Bem, no meu tempo, casávamos por volta dos vinte anos e não demorávamos a ter filhos. Não há nada na minha vida que se compare com as grandes emoções que vivi nesse papel de Mãe. À medida que meus filhos foram crescendo, fui percebendo necessidades diferentes. O espantoso foi perceber cada vez menos necessidades. Fui me tornando dispensável. Um choque! E agora? Aprenderam a voar e até deixaram o ninho. Já haviam me falado sobre isso... Depois de digerir bem toda essa grande novidade, consegui entender direitinho que passei a ser mãe de adultos e não demorei muito a me permitir sentir orgulho de ter feito um bom trabalho. Depois que os filhos cresceram e se casaram, vivi, sem saber, como se estivesse me preparando para uma tremenda e fabulosa aventura. Foram anos de construção de algo novo em mim: uma Avó. Descobri que guardava um desejo de voltar a segurar bebes no colo, fazê-los adormecer cantando músicas da jovem guarda ou do cancioneiro judaico, brincar no chão, dar banho, alimentar... e tudo isso foi crescendo dentro de mim. A grande novidade era que não me cabia nenhuma possibilidade de ajudar a fazer acontecer. Querer ser avó é um desejo de quem está na torcida, de quem, no máximo, acompanha o jogo, mas não joga. Uma vez cheguei a ganhar uma linda boneca de meu filho Marcelo e de sua esposa Regiane, era para eu me acalmar... Minha primeira neta, Luna, já tem 4 anos. Como se tivessem arrombado comportas, foram surgindo os meus outros netos: Melissa, 3, Leo, 2 e Giovana 7 meses.  Sou avó exatamente da maneira que minha vontade sonhou. Não posso ser original num tema como esse. Não esperem isso de mim. Preciso afirmar que reconheço e sua muito grata pela benção de ter tido meus filhos e meus netos. Sou grata também pelas noras e sogra que tenho. Nada dessa história teria acontecido se não fosse um encontro que se deu no século passado, em 1969. Era carnaval.  Um moço fantasiado de esfarrapado chamou minha atenção. Não ficamos, nem fomos audaciosos  a ponto de avançar sinais. No nosso tempo a toada era mais devagar... Namoramos 5 anos. Fizemos planos e sonhamos muito. Queríamos muito mais que alguns tons de cinza, queríamos o arco íris inteiro. E fomos buscar. Foi esse moço que me transformou primeiro em mulher e depois em mãe. Esse moço é hoje avô junto comigo. Poderia eu ter tido um rumo melhor? Uma história mais espetacular? Não acredito que seria possível. Vivo a melhor das histórias. Às vezes sou protagonista, outras sou coadjuvante e outras apenas plateia. Cada vez, creio eu, estou tentando melhorar na arte de entrar e sair de cena. Aplaudo a todos, filhos, noras e netos. Dou a mão para o meu marido e sinto alegria e paz inundarem minha alma, puro farguinign... Para concluir, desejo para vocês nesse próximo Dia das Mães: Que cada um de vocês possa relembrar e celebrar sua história de vida! Que suas mães, onde quer que elas estejam, consigam se aproximar de vocês e lhe aquecer os corações!

DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34
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(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

AULAS DE PIANO

Quinta, 20 Abril 2017 16:16
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Era uma vez, há muito tempo, uma menininha alegre e esperta, chamada Rosali. Era você vovó? Era. Bem, Rosali ia à escola e tinha muitos amigos lá. Um dia, sua amiga Sara lhe contou que havia começado a aprender a tocar piano. Falou maravilhas da professora, das músicas e de como era fácil ser uma pianista. Iria viajar pelo mundo todo tocando piano para grandes plateias... Rosali ficou impressionada e com a certeza que essa era uma atividade bem legal. Todos os dias, Sara contava os progressos que fazia e assim, Rosali foi ficando cada vez com mais vontade de também fazer essa aula. Antes de falar com a mamãe, Rosali conversou com seu irmão, Julio. Ele era só um ano e vinte dias mais velho que ela. Eram muito bons amigos. Julio adorava música e facilmente se entusiasmou pela ideia de também aprender a tocar piano. Numa noite depois do jantar, quando papai e mamãe estavam silenciosos lendo, Julio e Rosali pediram licença por interrompê-los e se puseram a falar sobre aulas de piano. Os olhos azuis de mamãe brilharam. Ela logo gostou da ideia. Mamãe disse para o papai que tocar um instrumento é muito bom para o desenvolvimento das crianças. Papai explicou que concordava que era uma ótima ideia, mas precisava saber se ele conseguiria pagar pelas aulas. Vovó, seu pai, nosso bisavô, trabalhava em que? Ele sempre foi comerciante. Assim que casou vendia joias, passados uns anos, teve loja de brinquedos, depois loja de carros e mais tarde se tornou um corretor de imóveis. O que é isso? É a pessoa que vende casas, terrenos e apartamentos. Seu bisavô tinha um jeito especial para fazer negócios. Sua conversa era agradável e interessante. As pessoas gostavam de lhe escutar. Ele me ensinou o valor da palavra. Tudo o que dizemos é importante. Não podemos falar bobagens nem mentiras para não perdermos nunca a credibilidade. Vó... Calma, eu explico. Quando a pessoa perde a credibilidade é quando não se acredita mais nessa pessoa. Puxa! Isso não é nada bom mesmo! Bem, Rosali sabia dizer o preço das aulas e papai disse que daria para pagar uma aula por semana para cada um. Julio e Rosali deram gritos de alegria! Mamãe começou a falar que ia procurar uma professora, quando Rosali a interrompeu e lhe entregou um papel com o nome, endereço e telefone da professora da Sara. Papai exclamou: Que menina eficiente! Mamãe ligou logo para a professora e combinou que no dia seguinte, às dez horas levaria seus filhos para conhecê-la. Rosali e Julio dormiam no mesmo quarto e naquela noite ficaram de conversa até tarde. Eles estavam muito animados. Foi difícil sossegar, mas acabaram adormecendo. No dia seguinte, acordaram mais cedo do que o normal, escovaram os dentes, foram para a cozinha e como mamãe não estava lá, prepararam tudo que iam precisar para o café da manhã, comeram, beberam e foram se arrumar. Quando mamãe levantou da cama e foi para o banheiro, até levou um susto quando viu as duas crianças prontas na porta de casa. Eu já me senti assim vovó. Quando foi? Foi quando fui pela primeira vez na aula de equitação. Papai disse que eu não cabia dentro de mim! Era assim mesmo que eu estava! E você? Já ficou assim? Sim! Quando fui viajar de avião pela primeira vez. Era uma viagem para a casa da Bisa Edith no RJ. Foi muito legal! Bem, Mamãe não demorou a ficar pronta e os três saíram de casa em direção à casa da professora de piano, que por sinal, chamava-se Dona Irene. Vovó, qual o carro que sua mamãe tinha? Nenhum. Minha mamãe não dirigia. Ela chegou a tirar a carteira de motorista, mas isso já é outra história... Bem, Mamãe deu uma mão para o Julio e a outra para Rosali. Depois que caminharam uma meia hora, chegaram numa rua calma e bonita. Logo escutaram o som de um piano. Os três ficaram parados como encantados por uma magia. Era lá! Era aquela a casa da professora Irene! Mamãe tocou a campainha. O piano se calou. Em poucos segundos, uma senhora de cabelos pretos, arrumados como se fosse um capacete e vestida com uma linda saia estampada de flores apareceu. Era a professora vovó? Sim! E ela usava brincos de pérola que combinavam com um colar também de pérolas. Bem, Quem quer ser o primeiro? Foram essas as palavras iniciais da professora. Julio apontou para Rosali ao mesmo tempo em que Rosali apontou para Julio. Que engraçado vovó! Pois é, mamãe não achou muita graça e disse para Rosali ser logo a primeira. Julio e mamãe ficaram num sofá perto do piano. Os dois sabiam que não podiam conversar e nem fazer barulho. Eles não podiam atrapalhar a aula da Rosali. Não é fácil ficar assim! Que situação! De repente, apareceu um menino. Ele devia ter uns sete ou oito anos. Uma idade como a do Julio ou como da Rosali. O menino estava descalço, de shorts, sem camisa e bem suado. Ele chegou bem perto do Julio e quase sussurrando, convidou-o para brincar no quintal atrás da casa. O Julio foi? Claro! Ele foi correndo, nem virou para trás. Mamãe, num ímpeto, se levantou como se fosse fazer Julio voltar para o sofá. Pensou melhor, fez um gesto, que fazia muito sem perceber, de erguer ligeiramente o braço e abaixar a mão, meio que dizendo para si mesma para deixar o menino aproveitar. O quintal não era grande, mas Julio admirou o espaço como um pássaro que sai da gaiola. Um sorriso largo encheu seu rosto. Vó, eu vou fazer um desenho do Julio com essa boca bem grande ocupando todo o seu rosto. Ótima ideia! Bem, Julio notou que havia uma marcação de gol feita com um par de chinelos. Era mais que um convite para jogar bola. Os meninos não perderam tempo. Aquele espaço se tornou para eles um estádio e o jogo era a decisão de um campeonato mundial. Os dois meninos gritaram, chutaram e fizeram montes de gols. Essa alegria toda durou mais ou mesmo uma meia hora, que foi quando a professora deu por terminada a aula da Rosali e sem fazer nenhum intervalo, num tom de voz seco e forte, disparou uma pergunta para mamãe: Onde está o seu filho? Puxa vovó, a professora era meio brava, não era? Ela era de poucas palavras, poucos sorrisos e acabava parecendo brava. Bem, Mamãe devia estar entretida com seus pensamentos e até se sobressaltou com o questionamento repentino. Meu filho deve estar com o seu. Em silêncio, a professora deu as costas para mamãe e foi para o quintal. Mateus! E agora? Como esse menino suado e imundo vai se sentar para uma aula de piano? Julio era esperto e logo entendeu duas coisas: primeiro que o novo amigo se chamava Mateus e segundo que ele estava levando uma bronca da mãe dele. Dona Irene estava chateada e colocou as mãos na cintura como esperando uma resposta do seu filho. Mateus pediu calma para a mãe e saiu de cena. Logo voltou com uma toalha e uma camiseta limpa para emprestar para Julio. Deu certo. O problema foi solucionado e em poucos minutos Julio estava à frente do piano, ao lado da professora Irene. Mamãe nem podia perguntar para Rosali se ela gostou da aula, não queria fazer barulho e levar bronca daquela mulher braba. Mateus ficou com pena de perder o parceiro do futebol, mas rapidamente deve ter lembrado a expressão que diz que quem não tem cão, caça com gato e foi cochichar no ouvido da Rosali algumas palavras que fizeram a pequena menina balançar a cabecinha e segui-lo em direção ao quintal. Vó, Mateus chamou a Rosali para jogar bola? Exatamente! O futebol, como se dizia na gíria daquela época, voltou a comer solto! Rosali sabia chutar direitinho, gritava e se esbaldava com cada gol que ela ou Mateus fazia. Que pena que deu quando a aula do Julio acabou e Mamãe foi até o quintal para chamar Rosali para ir embora para casa. Mateus choramingou que a partida ainda não tinha terminado e sugeriu que os três poderiam ficar brincando. Dona Irene nem deixou Mateus terminar suas argumentações e lembrou que todos precisariam se aprontar para escola. Semana que vem eles voltarão e então vocês vão brincar novamente. Com essas palavras, Dona Irene abriu a porta e estendeu a mão para se despedir da mamãe e dos novos alunos. Mamãe, Julio e Rosali caminharam meia hora de volta para casa. Foram conversando. Mamãe queria saber se eles gostaram. Sim! Eu gostei, disse o Julio. E eu também, disse a Rosali. A professora disse que vocês vão precisar estudar em casa. É... Ela falou sim. Todos os dias! Pode deixar mamãe. Naquela semana, entre a primeira e a segunda aula, Julio e Rosali  fizeram algumas vezes um exercício de escala. Vó, como é esse exercício? Eles tinham que tocar dó, ré mi, fá, sol, lá, si, dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó com as duas mãos muitas vezes. Bem, A semana passou e quando Julio e Rosali chegaram à casa da professora para a segunda aula, Dona Irene perguntou imediatamente se mamãe havia trazido a camiseta do Mateus. Mamãe lhe entregou um embrulho, onde a camiseta estava lavada e passada. Então, a professora se dirigiu para as crianças e indagou quem iria ser o primeiro a ter aula. Os dois repetiram o mesmo gesto de um apontar o outro. Vó, dessa vez a mamãe achou graça? Não achou nenhuma graça. Mamãe ficou surpresa, mas rapidamente deu a ordem para que Rosali fosse a primeira. Não é justo, mamãe. Fui a primeira da outra vez, agora e a vez do Julio ser o primeiro! Não, mãe! Eu quero ser o segundo! Eu é que quero! Dona Irene já estava colocando as mãos na cintura, quando mamãe se abaixou e ficando mais perto dos seus filhos perguntou: Quando eu quis saber na semana passada se vocês gostaram, vocês me disseram que gostaram. Acho que eu não fiz a pergunta direito. Vocês gostaram da aula de piano? Querem estudar esse instrumento? Ou vocês gostaram de brincar com Mateus de jogar bola no quintal? Julio foi o primeiro a responder. Eu gostei de jogar futebol com Mateus e prefiro jogar a tocar piano. Mamãe não conseguiu segurar seu desapontamento, mas a sinceridade do filho era muito mais importante. E você, Rosali. Rosali queria dizer que também preferiria brincar, mas achou que sua mãe iria ficar muito decepcionada com ela. Rosali sentia que precisava dar uma resposta. Parecia que um relógio fazia tic, tac na sua cabeça. Bem, eu gostei das duas coisas. Com essa resposta, Rosali imaginou que mamãe ficaria mais feliz. Vó, então ela teve que ter a aula? Mas ela não queria... De fato, mamãe deu por encerrada a conversa, apontando a banqueta ao lado da cadeira da professora para Rosali se sentar. A aula teve inicio. O futebol e a algazarra no quintal também. Rosali se esforçou para não imaginar Julio e Mateus brincando e se divertindo, mas cada vez que Rosali pensava em não pensar, mais ela pensava neles. Foi ficando triste e se afastando da aula. Lágrimas começaram a correr pelo seu rostinho. O que está acontecendo menina? Nada... Minha mão está doendo um pouco. Era verdade, mas não era a razão das lágrimas. Dona Irene tentou seguir com escalas, bemóis e sustenidos, mas o interesse da Rosali já havia evaporado. Vó, eu já tentei não pensar numa coisa e essa coisa ficou o tempo todo na minha cabeça. O que era? Era na época que eu queria ter um cachorro. Bem, Para Rosali, aquela aula durou um tempo sem fim. Pode levantar menina, a aula acabou. Mamãe, que ficou acompanhando a aula, dessa vez sem se distrair nos seus pensamentos, percebeu que Rosali não estava nada bem. Mamãe se abaixou para conversar com sua filha. Fale comigo... O que está acontecendo? Mamãe, eu também queria brincar, mas não consegui falar isso quando você perguntou. E as aulas de piano? Não lhe interessam mais? Acho que não. Você vai ficar triste mamãe? Eu ficaria muito triste se minha filha não conseguisse falar comigo o que pensa e o que sente. Venha mais pertinho, me dá um abraço bem apertado e gostoso Rosali! Quer dizer que eu posso parar com essas aulas? Pode. Posso vir aqui só para jogar bola no quintal com Mateus e Julio? Mamãe foi se erguendo e já ia responder, quando a professora se adiantou: Nem pensar! Aqui não é parque público. Puxa! Essa professora não era nada gentil, não é vovó? Não mesmo! Ela sabia muito bem dar ordens e falar palavras ásperas. Engraçado você dizer palavras ásperas vovó, mas dá para entender que são palavras que machucam, não é isso? Exatamente isso! Bem, Rosali e mamãe foram chamar o Julio para ir embora. Ele ainda queria brincar. Não dá... Precisamos ir. Julio obedeceu. A despedida da professora foi mais fria do que a da primeira vez. No caminho, os três tiveram tempo suficiente para conversar e acertar muito bem todo o assunto das aulas de piano. Depois, começaram a cantar. Estavam felizes. Estavam bem. Estavam leves e em paz. É bom demais se sentir assim!    

JULIO

Segunda, 22 Maio 2017 16:13
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Foi como se uma porta se abrisse súbita e inesperadamente pela força de um vento forte. Foi assim que me encontrei nesta madrugada diante de fatos que estavam empoeirados, embrulhados e guardados no sótão da minha alma. Tive o ímpeto de fugir, mas sabia que não tinha escolha. Muitas cenas estavam borradas. Meu irmão de quase 26 anos estava doente. Melanoma. Julio sempre teve muitas pintas. Era um charme que virou uma tragédia. Ele havia passado um tempo nos Estados Unidos, onde operou. O que exatamente será que ele operou? Lembro que seu médico oncologista americano se chamava Dr. Roland. Lembro que conversei com ele pelo telefone. Seu irmão vai voltar para o Brasil. Ele está curado? Ficou bom? Ele precisa voltar... Precisa ficar perto da família. Doutor, o senhor não está me respondendo... Preciso que o senhor cure meu irmão. É meu único irmão! Sei... Mas ele precisa ficar perto de vocês agora. Eu não fui capaz de interpretar essas falas. Julio voltou. Fui buscá-lo no aeroporto. Eu estava grávida. Naquele tempo, podíamos ver as pessoas assim que entravam no grande salão do desembarque. Papai devia estar ao meu lado, mas papai andava mudo e quase invisível naquela época. Vi meu marido e minha mãe. Acenei para eles. Onde estava meu irmão? Não o achei e cheguei a pensar que alguma mudança de última hora havia acontecido. Minha mãe e meu marido me abraçaram e com um susto entranhando no meu corpo, reconheci a voz do meu irmão naquele homem sem cabelo, envelhecido e sem brilho que vinha junto com eles. Julio ainda teria alguns meses de vida. Eu não tinha a mínima ideia de que o fim estava tão perto. Eu tinha um filho de dois anos e um para chegar em breve. O neném chegou um mês antes do tempo e o tio lhe conheceu. Julio me pediu que não o deixasse chorar. Estranho pedido. Não tive a oportunidade de saber o seu motivo. Cumpri o possível, me esforcei. Meus avós maternos fizeram uma festa de suas bodas de ouro. Julio foi. Não sei como ele estava se sentindo. Não sei se tinha dores. Ele foi. Foram meus sogros, primos, tios e alguns parentes que não víamos com frequência. Temos fotos para garantir isso. Que esforço Julio deve ter feito para comparecer nessa festa! Não sei ao certo se foi logo depois dessa festa ou pouco antes dela, mas o fato é que Julio anunciou que queria se casar. Que reboliço! Que confusão! Julio tinha uma namorada. Não era um namoro de muito tempo, ou pelo menos é assim que o fato está registrado na minha memória. Era uma moça não judia. Não lembro seu nome. Lembro que ela não tinha a aprovação da minha mãe, nem dos meus avós maternos. Eles queriam que Julio se casasse com uma moça judia. Não lembro o que papai achava. Posso imaginar que para ele a religião da moça e o impasse resultante não eram tão importantes, mas não posso garantir nada. Lembro escutar que a moça poderia estar se aproveitando de uma triste situação. Pensando nisso agora, me parece um absurdo sem pé nem cabeça. Eu, com menos um ano que meu irmão e ocupada com os filhos pequenos, não enxergava as garras da morte se aproximando dele. Os amigos do meu irmão conseguiam conversar, rir e, provavelmente, até chorar com ele. Um deles arrumou um apartamento e concedeu a realização do seu último desejo. Julio não casou, mas foi morar com a namorada. Meus pais o queriam perto de si, mas acabaram cedendo. Eles o ajudaram a montar o seu apartamento. Capaz que até minha avó tenha ajudado. Não sei, não lembro. Geladeira, fogão, televisão, batedeira, etc.. Eu estive lá. Não sei quantas vezes fui ao apartamento do meu irmão. Não imagino que foram muitas vezes. Guardo uma imagem do Julio deitado, descansando no seu quarto naquele apartamento. Lembro que havia um som forte vindo da sua respiração. Não era um ronco. Um som que traduzia um esforço. Não lembro o nome dela, da namorada. Ela estava lá e está esfumaçada na minha memória junto dessa respiração tão difícil e ruidosa. Não estou certa se falei com ela. Acho que nunca falei com ela. Eu adorava meu irmão. Tive sempre muitos ciúmes dele. Eu não sabia discriminar meu papel de irmã do papel de uma namorada. No meu aniversário de 25 anos, meu irmão não apareceu. Era uma pequena reunião no meu apartamento com meus filhos, marido e alguns amigos. Eu reclamei. Uma reclamação estúpida e fora de qualquer nexo. Julio estava mal. Eu não escutava, nem compreendia essa informação. Julio foi hospitalizado no dia seguinte ao meu aniversário ou talvez até já estivesse internado. Lembro que encontrei seu amigo médico no quarto do hospital. Dr. Silvio deve ter me dito coisas bem diferentes das que eu captei e levei comigo naquela ultima vez que vi meu irmão vivo. Ele vai ficar bem. Ele está até mais forte... E a namorada? Não a vejo nas minhas lembranças no dia do enterro, nem na casa de meus pais, nas rezas que foram feitas durante a semana de luto. A namorada evaporou. Foi a ultima mulher que meu irmão amou. Não sei o seu nome. Lembro escutar conversas do desmanche do apartamento do meu irmão. Ela ficou com tudo. Tudo? Quem sabe o que ela queria era apenas ele? Ela possivelmente deve ter esquecido o meu nome também. Precisei quase quarenta anos para revisitar essa moça. Eu não tinha olhos, nem ouvidos para a realidade tenebrosa. Não estava capacitada a entender, quanto mais analisar e emitir alguma conclusão. Foi assim que perdi uma pessoa que pode ter sido alguém muito especial, afinal meu irmão escolheu compartilhar seus últimos dias com ela. Olhei o despertador. Eram quase cinco horas. Olhei meu marido adormecido. Ele já estava comigo quando eu tive que conhecer essa dor.  Ajeitei-me nos seus braços. Estava sentindo uma emoção muito especial, como se tivesse entrado uma nesga de luz no sótão da minha alma.   

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