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Brincadeira de bola

Sábado, 11 Agosto 2012 15:32
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A tarde estava bonita e os meninos se divertiam. Chutavam bola de um gol para o outro num campo improvisado. Vai logo! Gol! Agora agarre essa bomba... Num dado momento, uma menina surgiu. Ela se sentou no chão, bem próxima de onde os dois irmãos estavam e se mostrou interessada em se tornar espectadora daquela brincadeira. Os jogadores gostaram, mas o problema é que a garota veio com um refrigerante numa garrafa de vidro. O jogo foi interrompido para que um aviso importante fosse dado. Cuidado com a menina!  Mire bem para não provocar um acidente. O jogo prosseguiu pra lá e pra cá, até que um chute sem pé nem cabeça espatifou a garrafa de vidro da menina. O jogador que fez a falta saiu correndo. Parecia que ele tinha por certo que estava sendo perseguido. Surgiu na frente de sua mãe totalmente esbaforido, suado e sem cor. Sem se exasperar, afinal tinha prática de lidar com as urgências de gente miúda, ela lhe perguntou qual era o problema. Do alto de seus sete anos e num fôlego só, despejou seu pânico. Tem uma menina que quer me matar! Vem tomar uma água e me conte... O que houve? Cadê seu irmão? Estávamos jogando bola, quando uma menina se sentou com uma garrafa perto do nosso jogo. Falei para tomar cuidado e eu mesmo acabei acertando em cheio na garrafa. Foi sem querer... A mãe não precisou maiores explicações. Vamos! Ajude-me a levar uma vassoura, pá e jornal para catar todo vidro quebrado. Encontraram a menina perto do local do jogo. Não parecia que ela tinha perseguido ninguém, muito menos tinha ares de quem iria cometer um assassinato. A mãe garantiu para a garota que assim que limpasse tudo, iria lhe comprar um novo refrigerante. O menino pediu desculpas e, cheio de dedos, abraçou a menina. Tudo se resolveu. E como fecho especial, uma espécie de cereja do bolo de uma estória tão singela, o filho lançava sem parar um olhar de gratidão para mãe, enquanto eu, ou melhor, a menina, chupava seu refrigerante num canudinho, sem pressa nenhuma de acabar aquele momento...

Vista da Janela de Melissa Michelsohn

Terça, 11 Dezembro 2012 22:21
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Dessa vez, Melissa não fez pose. Uma fotógrafa atenta e sensível capturou esse momento na sua festa de 3 anos. Vou me atrever a contar para vocês por onde me parece que Melissa estava devaneando. Melissa enxerga uma festa de gente grande. Luna, sua prima queimadinha do sol, está chegando em cima da hora com os cabelos curtos e um namorado novo a tiracolo. Elas se abraçam e demonstram o quanto estavam com saudades uma da outra. Sem que percebam, Melissa segreda no ouvido da prima que achou bonito o moço que ela arrumou. Dão risadas... Elas eram pequenas quando as circunstâncias da vida as separaram, mas parece que a distância só fez foi alimentar a união e amizade entre elas. Luna está se formando em biologia e conta sua grande novidade: pretende trabalhar na ONU. Tio Marcelo e tia Regiane se mostram orgulhosos. Num canto animado, Leo está conversando com sua tia Sandra. Ele conta sobre sua vontade de morar fora do país, talvez Austrália, talvez Canadá... Não sabe bem o que vai estudar, mas quer conhecer o mundo antes de se casar. Tia Sandra pergunta se ele vai se adaptar, se tem algum receio, mas ele lhe conta que o primo Flávio, do Rio, tem lhe dito maravilhas sobre Vancouver e o tio Jacky o convidou para passar uns tempos na casa dele em Sidney. Giovana está falando com as avós sobre as durezas deste ano do vestibular e como anda estudando muito para entrar em Medicina. Giovana é meiga e tem um jeitinho doce. Além de irmã, é uma grande amiga. Melissa se vê com mais atenção. Está uma moça bonita. Seus cabelos lisos e longos estão presos num rabo de cavalo. De mãos dadas com seu namorado, Diego, ela conta para os tios de SP sobre o seu trabalho de fim de curso na graduação em Teatro da UNICAMP. Já se apresentou fazendo algumas pontas e até apareceu numa novela na televisão. Apesar do calor, Melissa quis comemorar seus 22 anos no salão de festas do prédio do vovô Rony. Quis uma festa para reunir a família e alguns amigos mais chegados. Seus pais e tios dão risadas gostosas. Sempre é assim. Seu pai é impossível e sabe contar piadas e casos muito engraçados. Melissa sempre escutou que o pai da vovó Rosali, o biso Chaim, era muito extrovertido e que seu pai se parece muito com ele. Ela pensa que seu pai seria um ótimo ator. Melissa enxerga as bisas Edith, Peche e Ida conversando e sorrindo. Pode ser que não escutem tudo o que uma diz para a outra, mas com certeza elas arrumam um modo de se entender. Sua mãe e tia Regiane estão chamando para cantar parabéns. Giovana abraça vovô Eduardo e brinca com vovô Rony escondendo rápido seu mais moderno i-phone. Melissa sopra as velas depois dos Parabéns. Faz um pedido enquanto corta o bolo. Não pode falar o que pediu. Por segundos ela fecha os olhos. Ela olhou para sua janela. Eu olhei para minha. Assim que abre os olhos, Melissa sorri para mim.

ANIVERSÁRIOS

Terça, 26 Fevereiro 2013 08:34
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Meus netos comemoraram seus aniversários juntos. Ela fez quatro em fevereiro e ele fará dois em abril. A festa foi na casa onde moram. Minha nora se esmerou na decoração. Corações de papel laminado esparramados pelo chão davam a impressão de serem pétalas de rosas. Os convidados, na sua maioria, tiraram os sapatos assim que entraram. Tinha um pula-pula e uma piscina de bolinhas. Não tinha refrigerante algum. Sucos de frutas foram sendo feitos durante toda a festa. As comidas foram colocadas ao alcance das crianças e dos adultos. Ninguém serviu ninguém. Quase me esqueci disso, mas lembrei a tempo de disfarçar e deixar a bandeja com tortas salgadas no lugar de onde a tirei. O professor de capoeira da aniversariante distraiu as crianças durante uma hora, falando mansinho e fazendo exercícios da arte que ele domina. As crianças gingaram, pularam e rolaram. Aprenderam nomes como cabaça e berimbau. Depois, foi a vez de outro professor, o Alê. Com o violão em punho e jeito de menino levado, cantou e contou estórias. Não falou na Cinderela, nem no Rei Leão ou no Nemo. Contou estórias de índios e lendas das matas. Hipnotizou as crianças que lhe escutaram. Algumas crianças foram na piscina. Todas, em algum momento, gastaram um pouco de suas energias na cama elástica. Quando sentiram vontade pegaram frutas, milho cozido, pães de queijo ou alguma outra comidinha. Os brigadeiros evaporaram assim que as duas crianças sopraram suas velas. A festa durou quase cinco horas. Todos se divertiram e tudo deu certo. Enquanto tentava adormecer, foi inevitável recordar de quando eu era criança, pois sempre comemorei meu aniversário junto com meu irmão. Menos de 30 dias separavam nossos aniversários. Isso significava juntar no playground do prédio onde morávamos nossas duas turmas da escola, umas cinquenta crianças. Significava, entre muitas delícias, montanhas de cachorro quente e de sanduiches de queijo que esticavam. Na hora de cantar os parabéns, não faltavam centenas de brigadeiros, um bolo de morango e um pavê de amendoim. Não sabíamos que guaraná e coca cola faziam mal e bebíamos litros e litros. Corríamos e ríamos. Brincávamos muito. Devíamos fazer bastante barulho e bagunça. Adormeci com sorrisos de crianças desfilando na minha cabeça. Meus netos, os amiguinhos deles, meu irmão, meus amiguinhos... Acordei com a deliciosa sensação de ter sorrido a noite toda.  

IRMÃOS PARA SEMPRE

Terça, 06 Dezembro 2016 16:36
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É incrível! Como é maravilhoso voltar a sentir emoções de fatos que aconteceram há mais de vinte anos... Tenho a sensação de estar longe do aqui e agora. Sinto-me observadora e participante. Adoro essa sensação! Com os dedos sou também uma narradora. O lugar onde me vejo é ao lado de meu pai, quando ele passou cerca de um mês hospitalizado, se recuperando da cirurgia de retirada de um terço do pulmão direito, por conta de um câncer.      Mamãe e eu estávamos sempre com ele, embora papai tivesse uma capacidade ilimitada de conversar, fazer amigos e, portanto, seus dias eram cheios. Para as crianças que apareciam na sua frente, enquanto se exercitava andando pelo corredor, papai oferecia números de mágica. Para os jovens internados como ele, papai tinha palavras e histórias que faziam sentido e melhoravam o ânimo de todos. Os médicos e enfermeiros aprenderam a não ter pressa quando faziam visita a meu pai ou tinham que fazer algum procedimento nele. Sempre fluía uma conversa bem gostosa e o quarto do papai se tornou uma espécie de oásis no hospital. Dr Sergio, chefe da equipe de oncologia, visitava papai quase todos os dias, sentava, conversava, ria e algumas vezes notei que ele saía balançando a cabeça. Imagino, não posso ter certeza, que podia estar pensando em como o bom humor e o otimismo ajudam uma pessoa a enfrentar os grandes desafios que a vida impõe. Até para casais com problemas papai chegou a oferecer seu ombro amigo, sua boa escuta e filosofias de vida. Eu brincava com ele dizendo que ele mantinha um consultório irregular no hospital sem ter o diploma apropriado. Numa das manhãs, depois das rotinas habituais, meu pai escutou batidas na porta. Em alto e bom som, fez saber a quem vinha lhe ver que podia entrar. A porta foi sendo aberta bem lentamente, como se a pessoa que a empurrasse estivesse hesitante. Pode até ser que ao empurrar a porta, a pessoa precisasse se empurrar também. Era preciso se endireitar, reequilibrar-se. Era importante sorrir e não demonstrar pena ou tristeza ao ver meu pai mais fraco, mais magro, mais envelhecido. Creio que papai intuía essas coisas e, em geral, ajudava quem vinha ao seu encontro. Quando a porta ficou bem aberta, deu para ver que a pessoa que estava ali era minha tia, irmã caçula do papai. Terezinha veio carregada de sacolas e pacotes. Lembro que ela estava de saia preta, sapato baixo, meia calça de seda, cabelo arrumado para trás e para o alto, olhar meio esbugalhado e uma respiração um pouco ofegante. Ela havia preparado de véspera patê de fígado de galinha e trouxe uma panela cheia. Verdade! Trouxe uma panela! No caminho para o hospital, comprou salame kosher, pepino azedo e pão preto. Trouxe ainda uma torta de queijo, burekas e um rocambole de chocolate. Minha tia sempre foi exagerada e meu pai sempre foi guloso. Que dupla! Entra minha irmã! O quarto do hospital ficou uma bagunça. Papai queria provar cada coisa que sua irmã lhe trouxe. Minha mãe, sabiamente, não se metia nesse assunto. Eu lembro que provei a torta de queijo e até hoje associo essa doçura ao cenário do quarto do papai no hospital. Depois que a etapa de regalos foi cumprida, minha tia se sentou numa cadeira ao lado de meu pai e começou a puxar conversa. Estavam animados lembrando histórias, falando dos meus avós, dos dois outros irmãos, de Ibirarema e dos cachorros Duque e Diana. Os dois conversavam tão animados como se tivessem voltado no tempo. Minha mãe e eu éramos meras espectadoras. Num dado momento, minha tia tirou um envelope da sua bolsa e fez solene um anúncio: Chaim Lejb, esse é o convite de casamento da minha filha mais velha! Papai convocou mamãe: Esther, pega meu óculos para eu poder ler. Tenho quase certeza que o convite estava escrito em hebraico, idish e português. A data do casamento seria em um mês. Titia dava explicações sobre a cerimonia, que seria realizada dentro do ritual judaico ortodoxo. Minha tia estava eufórica e falava demonstrando sua euforia e excitação. Papai escutava atento. Num dado momento, minha tia mudou sutilmente seu jeito de falar e, posso quase jurar que ela gaguejou. Começou a falar sobre chapéus. Perguntou se papai se lembrava de uns chapéus pretos, altos que se usava na Polônia. Papai lhe respondeu que saiu da Polônia ainda criança, mas tinha essa lembrança sim. Titia prosseguiu dizendo que o pai do noivo e os irmãos dele usavam esses chapéus. Papai olhou bem para sua irmã e disse: “Nu...”. Ele usou a pequena palavra em idish que posso tentar traduzir por “e daí?“ Titia pareceu recuar e mudou de assunto: Quer mais um pedacinho da torta? Impaciente papai respondeu: Não! Continua o que você estava falando. Titia balançou a cabeça e como se mirasse num alvo disparou: Andei falando com minha filha e pensamos que é muito desejável que os tios da noiva usem esse mesmo tipo de chapéu... Todos estariam elegantes e iguais... Papai continuou impávido. Ele devia estar pensando. Papai tinha o raciocínio rápido e logo veio com sua resposta: Minha irmã, acredito que para uma festa como esta, você vai ter que providenciar muitas coisas. Você vai providenciar flores, não vai? Vou... Você vai providenciar um carro para levar a noiva, comida, alguém para fotografar, alguém para filmar... Claro! Claro, mas... Então, minha irmã, já que vai providenciar tantas coisas, providencie um irmão, pois este aqui não é adequado para o que você precisa. Não posso me fantasiar do que não sou... Minha tia também raciocina rapidamente e interrompeu meu pai. Colocou as mãos na cabeça, levantou-se da cadeira e ficou repetindo diversas vezes uma única palavra: Esquece! Esquece! Esquece! Titia parecia atormentada. Papai deixou que ela se acalmasse por si. Aos poucos, minha tia se acalmou e conseguiu dizer para seu irmão que mais importante que qualquer coisa era tê-lo com ela no casamento da filha. Papai sabia que o caso estava encerrado e começou a brincar. Posso ir sem chapéu? Pode! Nem preto, nem branco? Sim! Nem alto, nem baixo? Claro Chaim Lejb, foi bobagem minha! Então quero lhe dizer minha irmã, que estou me recuperando e agora tenho uma motivação extra para querer ficar bem. Vou caprichar mais ainda nos exercícios de fisioterapia. Os dois se abraçaram. Eu vi minha tia e meu pai chorando.   Minha tia voltou muitas vezes para visitar meu pai antes do casamento. Nunca vi minha tia chegar sem um monte de pacotes. Era sua maneira de chegar. Ela gostava de falar dos doces, das guloseimas e assim, carinhosamente e sem pressa, ia colocando sua alma pertinho da do meu pai, seu irmão. Estava tudo certo entre eles dois. Eles podiam voltar a conversar sobre Ibirarema ou sobre o casamento que ia acontecer em breve. Podiam falar sobre qualquer coisa. Não ficou nada emperrado, não ficou nada sem ser dito ou como acontece entre tantas pessoas, nada ficou mal dito. Papai conseguiu com grande dificuldade ir a esse casamento. Ainda não estava totalmente recuperado. Quando viu sua sobrinha, aproximou-se dela e lhe disse algumas palavras sobre o tanto que ele desejava que ela fosse feliz. Ela lhe assegurou que estava exatamente onde queria e com quem queria. Depois da cerimônia, papai não conseguiu dançar, nem ficar muito tempo. Ele sentia um cansaço extremo. Não tenho certeza, minha memória está nublada, mas acho que voltamos para o hospital. Naquela época, nunca poderia imaginar o tanto que me tocou esse episódio. Cada vez que relembro essas cenas, agradeço meu pai e minha tia pelo amor e respeito que um teve pelo outro. Como se fosse semente, decido jogar esse texto ao vento, respiro fundo, coloco um ponto final e volto para onde sei que também é o meu lugar.

AULAS DE PIANO

Quinta, 20 Abril 2017 16:16
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Era uma vez, há muito tempo, uma menininha alegre e esperta, chamada Rosali. Era você vovó? Era. Bem, Rosali ia à escola e tinha muitos amigos lá. Um dia, sua amiga Sara lhe contou que havia começado a aprender a tocar piano. Falou maravilhas da professora, das músicas e de como era fácil ser uma pianista. Iria viajar pelo mundo todo tocando piano para grandes plateias... Rosali ficou impressionada e com a certeza que essa era uma atividade bem legal. Todos os dias, Sara contava os progressos que fazia e assim, Rosali foi ficando cada vez com mais vontade de também fazer essa aula. Antes de falar com a mamãe, Rosali conversou com seu irmão, Julio. Ele era só um ano e vinte dias mais velho que ela. Eram muito bons amigos. Julio adorava música e facilmente se entusiasmou pela ideia de também aprender a tocar piano. Numa noite depois do jantar, quando papai e mamãe estavam silenciosos lendo, Julio e Rosali pediram licença por interrompê-los e se puseram a falar sobre aulas de piano. Os olhos azuis de mamãe brilharam. Ela logo gostou da ideia. Mamãe disse para o papai que tocar um instrumento é muito bom para o desenvolvimento das crianças. Papai explicou que concordava que era uma ótima ideia, mas precisava saber se ele conseguiria pagar pelas aulas. Vovó, seu pai, nosso bisavô, trabalhava em que? Ele sempre foi comerciante. Assim que casou vendia joias, passados uns anos, teve loja de brinquedos, depois loja de carros e mais tarde se tornou um corretor de imóveis. O que é isso? É a pessoa que vende casas, terrenos e apartamentos. Seu bisavô tinha um jeito especial para fazer negócios. Sua conversa era agradável e interessante. As pessoas gostavam de lhe escutar. Ele me ensinou o valor da palavra. Tudo o que dizemos é importante. Não podemos falar bobagens nem mentiras para não perdermos nunca a credibilidade. Vó... Calma, eu explico. Quando a pessoa perde a credibilidade é quando não se acredita mais nessa pessoa. Puxa! Isso não é nada bom mesmo! Bem, Rosali sabia dizer o preço das aulas e papai disse que daria para pagar uma aula por semana para cada um. Julio e Rosali deram gritos de alegria! Mamãe começou a falar que ia procurar uma professora, quando Rosali a interrompeu e lhe entregou um papel com o nome, endereço e telefone da professora da Sara. Papai exclamou: Que menina eficiente! Mamãe ligou logo para a professora e combinou que no dia seguinte, às dez horas levaria seus filhos para conhecê-la. Rosali e Julio dormiam no mesmo quarto e naquela noite ficaram de conversa até tarde. Eles estavam muito animados. Foi difícil sossegar, mas acabaram adormecendo. No dia seguinte, acordaram mais cedo do que o normal, escovaram os dentes, foram para a cozinha e como mamãe não estava lá, prepararam tudo que iam precisar para o café da manhã, comeram, beberam e foram se arrumar. Quando mamãe levantou da cama e foi para o banheiro, até levou um susto quando viu as duas crianças prontas na porta de casa. Eu já me senti assim vovó. Quando foi? Foi quando fui pela primeira vez na aula de equitação. Papai disse que eu não cabia dentro de mim! Era assim mesmo que eu estava! E você? Já ficou assim? Sim! Quando fui viajar de avião pela primeira vez. Era uma viagem para a casa da Bisa Edith no RJ. Foi muito legal! Bem, Mamãe não demorou a ficar pronta e os três saíram de casa em direção à casa da professora de piano, que por sinal, chamava-se Dona Irene. Vovó, qual o carro que sua mamãe tinha? Nenhum. Minha mamãe não dirigia. Ela chegou a tirar a carteira de motorista, mas isso já é outra história... Bem, Mamãe deu uma mão para o Julio e a outra para Rosali. Depois que caminharam uma meia hora, chegaram numa rua calma e bonita. Logo escutaram o som de um piano. Os três ficaram parados como encantados por uma magia. Era lá! Era aquela a casa da professora Irene! Mamãe tocou a campainha. O piano se calou. Em poucos segundos, uma senhora de cabelos pretos, arrumados como se fosse um capacete e vestida com uma linda saia estampada de flores apareceu. Era a professora vovó? Sim! E ela usava brincos de pérola que combinavam com um colar também de pérolas. Bem, Quem quer ser o primeiro? Foram essas as palavras iniciais da professora. Julio apontou para Rosali ao mesmo tempo em que Rosali apontou para Julio. Que engraçado vovó! Pois é, mamãe não achou muita graça e disse para Rosali ser logo a primeira. Julio e mamãe ficaram num sofá perto do piano. Os dois sabiam que não podiam conversar e nem fazer barulho. Eles não podiam atrapalhar a aula da Rosali. Não é fácil ficar assim! Que situação! De repente, apareceu um menino. Ele devia ter uns sete ou oito anos. Uma idade como a do Julio ou como da Rosali. O menino estava descalço, de shorts, sem camisa e bem suado. Ele chegou bem perto do Julio e quase sussurrando, convidou-o para brincar no quintal atrás da casa. O Julio foi? Claro! Ele foi correndo, nem virou para trás. Mamãe, num ímpeto, se levantou como se fosse fazer Julio voltar para o sofá. Pensou melhor, fez um gesto, que fazia muito sem perceber, de erguer ligeiramente o braço e abaixar a mão, meio que dizendo para si mesma para deixar o menino aproveitar. O quintal não era grande, mas Julio admirou o espaço como um pássaro que sai da gaiola. Um sorriso largo encheu seu rosto. Vó, eu vou fazer um desenho do Julio com essa boca bem grande ocupando todo o seu rosto. Ótima ideia! Bem, Julio notou que havia uma marcação de gol feita com um par de chinelos. Era mais que um convite para jogar bola. Os meninos não perderam tempo. Aquele espaço se tornou para eles um estádio e o jogo era a decisão de um campeonato mundial. Os dois meninos gritaram, chutaram e fizeram montes de gols. Essa alegria toda durou mais ou mesmo uma meia hora, que foi quando a professora deu por terminada a aula da Rosali e sem fazer nenhum intervalo, num tom de voz seco e forte, disparou uma pergunta para mamãe: Onde está o seu filho? Puxa vovó, a professora era meio brava, não era? Ela era de poucas palavras, poucos sorrisos e acabava parecendo brava. Bem, Mamãe devia estar entretida com seus pensamentos e até se sobressaltou com o questionamento repentino. Meu filho deve estar com o seu. Em silêncio, a professora deu as costas para mamãe e foi para o quintal. Mateus! E agora? Como esse menino suado e imundo vai se sentar para uma aula de piano? Julio era esperto e logo entendeu duas coisas: primeiro que o novo amigo se chamava Mateus e segundo que ele estava levando uma bronca da mãe dele. Dona Irene estava chateada e colocou as mãos na cintura como esperando uma resposta do seu filho. Mateus pediu calma para a mãe e saiu de cena. Logo voltou com uma toalha e uma camiseta limpa para emprestar para Julio. Deu certo. O problema foi solucionado e em poucos minutos Julio estava à frente do piano, ao lado da professora Irene. Mamãe nem podia perguntar para Rosali se ela gostou da aula, não queria fazer barulho e levar bronca daquela mulher braba. Mateus ficou com pena de perder o parceiro do futebol, mas rapidamente deve ter lembrado a expressão que diz que quem não tem cão, caça com gato e foi cochichar no ouvido da Rosali algumas palavras que fizeram a pequena menina balançar a cabecinha e segui-lo em direção ao quintal. Vó, Mateus chamou a Rosali para jogar bola? Exatamente! O futebol, como se dizia na gíria daquela época, voltou a comer solto! Rosali sabia chutar direitinho, gritava e se esbaldava com cada gol que ela ou Mateus fazia. Que pena que deu quando a aula do Julio acabou e Mamãe foi até o quintal para chamar Rosali para ir embora para casa. Mateus choramingou que a partida ainda não tinha terminado e sugeriu que os três poderiam ficar brincando. Dona Irene nem deixou Mateus terminar suas argumentações e lembrou que todos precisariam se aprontar para escola. Semana que vem eles voltarão e então vocês vão brincar novamente. Com essas palavras, Dona Irene abriu a porta e estendeu a mão para se despedir da mamãe e dos novos alunos. Mamãe, Julio e Rosali caminharam meia hora de volta para casa. Foram conversando. Mamãe queria saber se eles gostaram. Sim! Eu gostei, disse o Julio. E eu também, disse a Rosali. A professora disse que vocês vão precisar estudar em casa. É... Ela falou sim. Todos os dias! Pode deixar mamãe. Naquela semana, entre a primeira e a segunda aula, Julio e Rosali  fizeram algumas vezes um exercício de escala. Vó, como é esse exercício? Eles tinham que tocar dó, ré mi, fá, sol, lá, si, dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó com as duas mãos muitas vezes. Bem, A semana passou e quando Julio e Rosali chegaram à casa da professora para a segunda aula, Dona Irene perguntou imediatamente se mamãe havia trazido a camiseta do Mateus. Mamãe lhe entregou um embrulho, onde a camiseta estava lavada e passada. Então, a professora se dirigiu para as crianças e indagou quem iria ser o primeiro a ter aula. Os dois repetiram o mesmo gesto de um apontar o outro. Vó, dessa vez a mamãe achou graça? Não achou nenhuma graça. Mamãe ficou surpresa, mas rapidamente deu a ordem para que Rosali fosse a primeira. Não é justo, mamãe. Fui a primeira da outra vez, agora e a vez do Julio ser o primeiro! Não, mãe! Eu quero ser o segundo! Eu é que quero! Dona Irene já estava colocando as mãos na cintura, quando mamãe se abaixou e ficando mais perto dos seus filhos perguntou: Quando eu quis saber na semana passada se vocês gostaram, vocês me disseram que gostaram. Acho que eu não fiz a pergunta direito. Vocês gostaram da aula de piano? Querem estudar esse instrumento? Ou vocês gostaram de brincar com Mateus de jogar bola no quintal? Julio foi o primeiro a responder. Eu gostei de jogar futebol com Mateus e prefiro jogar a tocar piano. Mamãe não conseguiu segurar seu desapontamento, mas a sinceridade do filho era muito mais importante. E você, Rosali. Rosali queria dizer que também preferiria brincar, mas achou que sua mãe iria ficar muito decepcionada com ela. Rosali sentia que precisava dar uma resposta. Parecia que um relógio fazia tic, tac na sua cabeça. Bem, eu gostei das duas coisas. Com essa resposta, Rosali imaginou que mamãe ficaria mais feliz. Vó, então ela teve que ter a aula? Mas ela não queria... De fato, mamãe deu por encerrada a conversa, apontando a banqueta ao lado da cadeira da professora para Rosali se sentar. A aula teve inicio. O futebol e a algazarra no quintal também. Rosali se esforçou para não imaginar Julio e Mateus brincando e se divertindo, mas cada vez que Rosali pensava em não pensar, mais ela pensava neles. Foi ficando triste e se afastando da aula. Lágrimas começaram a correr pelo seu rostinho. O que está acontecendo menina? Nada... Minha mão está doendo um pouco. Era verdade, mas não era a razão das lágrimas. Dona Irene tentou seguir com escalas, bemóis e sustenidos, mas o interesse da Rosali já havia evaporado. Vó, eu já tentei não pensar numa coisa e essa coisa ficou o tempo todo na minha cabeça. O que era? Era na época que eu queria ter um cachorro. Bem, Para Rosali, aquela aula durou um tempo sem fim. Pode levantar menina, a aula acabou. Mamãe, que ficou acompanhando a aula, dessa vez sem se distrair nos seus pensamentos, percebeu que Rosali não estava nada bem. Mamãe se abaixou para conversar com sua filha. Fale comigo... O que está acontecendo? Mamãe, eu também queria brincar, mas não consegui falar isso quando você perguntou. E as aulas de piano? Não lhe interessam mais? Acho que não. Você vai ficar triste mamãe? Eu ficaria muito triste se minha filha não conseguisse falar comigo o que pensa e o que sente. Venha mais pertinho, me dá um abraço bem apertado e gostoso Rosali! Quer dizer que eu posso parar com essas aulas? Pode. Posso vir aqui só para jogar bola no quintal com Mateus e Julio? Mamãe foi se erguendo e já ia responder, quando a professora se adiantou: Nem pensar! Aqui não é parque público. Puxa! Essa professora não era nada gentil, não é vovó? Não mesmo! Ela sabia muito bem dar ordens e falar palavras ásperas. Engraçado você dizer palavras ásperas vovó, mas dá para entender que são palavras que machucam, não é isso? Exatamente isso! Bem, Rosali e mamãe foram chamar o Julio para ir embora. Ele ainda queria brincar. Não dá... Precisamos ir. Julio obedeceu. A despedida da professora foi mais fria do que a da primeira vez. No caminho, os três tiveram tempo suficiente para conversar e acertar muito bem todo o assunto das aulas de piano. Depois, começaram a cantar. Estavam felizes. Estavam bem. Estavam leves e em paz. É bom demais se sentir assim!    

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