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UM FIM DE DIA INESQUECÍVEL

Quarta, 30 Janeiro 2019 17:01
Publicado em Blog
Parecia que já era tarde. Na verdade, era hora do jantar das crianças, então não devia passar das dezenove horas. Meu cansaço fazia com que o meu relógio interno marcasse quase meia noite. Os dois meninos chegaram animados da escola. Era sempre assim. Fazia calor. Morávamos no Rio de Janeiro, onde o suor escorria o tempo todo, a não ser nos minutos debaixo do chuveiro. Sugeri que tomassem banho enquanto eu colocava a comida na mesa. Eles se largaram no sofá e ligaram a TV. Depois tomaremos banho. Está bem. Não durou muito tempo e percebi que cada um queria assistir um programa. Claro, senão não teria graça. As argumentações de ambas as partes foram se incendiando. As vozes viraram berros. O mais velho pegou o controle. O menor achou que era um convite para brigar. Quando cheguei à sala estavam embolados no chão. Parem com isso! Era uma briga misturada com brincadeira. Havia muita risada. Em geral, eu sabia que quase nunca essas situações acabavam bem. Então, começou a correria pelo apartamento. Era um apartamento de menos de oitenta metros quadrados. Os dois seguiam rindo. Eu estava cansada. Não estava com força nem para gritar, quanto mais para correr atrás deles e fazê-los sossegar. A intensidade dos risos, da correria e da bagunça chegou ao auge. Pensei comigo o que pode acontecer se uma única vez eu não me meter e deixa-los resolver sozinhos? Fui para cozinha. Os vizinhos deviam estar pensando que meus filhos estavam se matando. Era para eu me preocupar, mas dei de ombros, que se danem os vizinhos. Abri a geladeira e fui fisgada pela silhueta estimulante da garrafa de um refrigerante. Um gole iria me reanimar com certeza. Naquele tempo, os refrigerantes vinham em garrafas de vidro. Naquele tempo, eu ainda comprava refrigerante uma vez ou outra. A garrafa estava quase cheia. Tinha uma colherzinha no lugar da tampa. Meu marido um dia veio com essa novidade. Assim o gás não saía. Ele era o engenheiro da casa e se isso lhe agradava tanto, que mal havia em fazer? Quanto ao gás... Sei lá. Peguei a garrafa com uma das mãos. Foi tudo muito rápido. Da cozinha, ainda que de porta fechada, eu escutava o barulho infernal das crianças. A garrafa estava suada. Eu estava antecipando o prazer de beber aquele líquido gelado. Já podia até me sentir na neve com os ursos polares em um dos comerciais do refrigerante. Nem alcancei colocar o líquido no copo. A garrafa escorregou da minha mão. Na verdade ela deslizou. Foi direto para o meu pé. Eu devia estar dando um jeito na situação, fazendo os meninos sossegar, mas fui incapaz. Que dor! Escutei a chave na porta. Marido chegando. Sem vê-lo, pude imaginar sua aparência cansada de fim de dia. Aliás, páreo duro com a minha. Imaginei que ele poderia estar pensando que mãe é essa que nem consegue manter os filhos em paz? Essa era eu. Acontece. Errei. A dor estava lancinante, estava prestes a desmaiar. Não! Nada de desmaiar. Respirei fundo. Entrei na sala com a bolsa a tiracolo, com o dedão sangrando enrolado num pano de cozinha e avisei que estava indo pegar um taxi em direção a um pronto socorro. Eu levo você. Vamos todos juntos. Foi a minha vez de berrar: Não! Você fica com eles! Os pronomes foram ditos com clareza e muita ênfase. Feito uma louca me joguei para fora do apartamento. Eu tinha pressa. Pressa de fugir. Fugir da bagunça que reinava por minha falta de competência ou energia ou ambas as coisas. O dedão fraturado me possibilitou descansar e refletir por algumas horas dentro de um pronto socorro, que naquele momento me pareceu um lugar quase bucólico comparado com meu lar.

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