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Dilema

Sábado, 13 Agosto 2011 20:36
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Esse caso se passou nos anos 70. Carnaval no Rio de Janeiro.Um casal com crianças pequenas, vinte e poucos anos (naquela época se faziam filhos bem antes dos trinta) e pouca grana. O melhor programa era o condomínio em Teresópolis. Lá fugiam do calor e podiam se encontrar com casais amigos que também tinham filhos pequenos. Chegaram na sexta-feira no final do dia. Ela foi preparar o jantar, fazer as camas e desfazer as malas. As crianças correram para brincar. Ele recebeu um bilhete (não existiam celulares naquela época). Um amigo tinha um assunto urgente. Como urgências de amigos sempre foram prioridades, foi saber do que se tratava. Já era tarde quando voltou. Ao entrar no quarto, sentiu o convite em forma de perfume que ela lhe havia deixado no ar. Fizeram amor. Ainda estavam suados e meio ofegantes, quando ele anunciou que precisava contar sobre a conversa que teve com o amigo. Ela ficou apreensiva e pensou em doença. Nada disso. É uma oportunidade única. Então, ela tentou adivinhar: um negócio, um bom emprego, uma viagem para os dois casais... Ele interrompeu sua mulher como quem corre atrás de um balão de gás para impedi-lo de ir para o céu. Tinha que falar logo. O amigo tinha dois ingressos para um camarote do desfile das Escolas de Samba no sábado. Irrecusável, não? Ela achou que não havia entendido. Ele, tomado por um entusiasmo incontrolável, falava da sorte que lhe caiu do céu. Imagine só, ele e eu, comendo e bebendo rodeados de samba e alegria... Só em sonhos! Para finalizar a conversa, disse que a mulher do amigo foi compreensiva, super legal e deu o maior apoio para que eles fossem. Com um bocejo tentou fazer o fim da cena, mas nesse momento parece que uma onça acordou dentro dela. Não acho boa idéia, nem vejo nenhuma grande oportunidade. Ele arregalou os olhos e iniciou o discurso do ofendido. Ela não ligou. Rolaram mais de uma hora numa discussão feroz. Vou de qualquer jeito! De mim você não ganha aval para farra! Você é louca! E você? Esperto? Já disse que vou! Então não precisa voltar... O sábado do feriado amanheceu azedo por conta da briga do casal. As crianças queriam passear, andar a cavalo, jogar bola, fazer qualquer coisa e choramingavam para obter a atenção de seus pais. A mãe anunciou que tinha que fazer umas compras. Saiu com seus óculos escuros e seus olhos vermelhos. O pai empurrou as crianças para brincarem com os amiguinhos e ficou quieto num canto. Depois do almoço o amigo chegou cheirando a perfume gostoso e com um colar havaiano no pescoço. Tá pronto? Vamos? O som da voz que respondia era quase inaudível, mas era um não. Tá brincando? Não acredito! Nem fale mais nada comigo, isso não se faz. Uma porta bateu. O casal se estranhou. Ele levou um tempo para entender se perdeu mesmo uma grande oportunidade. Ela foi taxada de possessiva e controladora por quase todos os que ficaram sabendo da história. Tiveram que conversar um bocado, mas acabaram se acertando. Quer saber? Tão certinhos até hoje...

Retomando as Rédeas

Sexta, 19 Outubro 2012 19:28
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Quando o despertador tocou ela pulou da cama e, como em todos os dias, se sentiu como se estivesse entrando em cena. Foi catando roupas e brinquedos espalhados no seu caminho para o banheiro. Enquanto escovava os dentes reparou no seu rosto amassado, nos seus olhos esbugalhados. Quis não dar importância, mas procurou no espelho pela garota bonita e animada que já não encontrava há muito tempo. Como não achou, limitou-se a suspirar e seguiu. Cutucou cada um dos filhos para que acordassem. Esperou que resmungassem e então, deu por cumprida essa tarefa. No corredor, trombou com o marido de cuecas. Ele emitiu um som que ela entendeu como sendo bom dia. Foi para cozinha e tirou da geladeira potes e frascos. Picou mamão. Fez café e torradas. Com gritos chamou a família para vir tomar o café da manhã. Todos, inclusive ela, tinham que engolir rápido os alimentos e sair em disparada. O tempo escasso era estressante demais para ela. Quando menina, seu pai sabia da sua dificuldade para acordar cedo e sempre lhe ajudou. Ele chegava ao cúmulo da generosidade amorosa vestindo-lhe na cama, enquanto lhe fazia afagos e dizia coisas engraçadas. Seu pai também tinha hora para ir trabalhar, mas nunca perdeu a paciência com ela. Sem conseguir lembrar como a rotina maluca se instalou na sua vida, afastou uma lágrima torcendo para que não estivessem lhe notando. Não estavam. Um livro da escola havia sumido e se escutava uma gritaria. A filha mais nova lhe chamou no banheiro. Tinha que ajudá-la a se limpar. Deixou recados grudados na geladeira para a empregada. Assinou a permissão para o filho ir a um passeio. O marido, sorvendo o seu café, arrumado e cheiroso, já estava em outro mundo vendo notícias e e-mails no seu i-pad. Ela sentiu inveja. E ódio. Sabia que não ia ajudar em nada se começasse uma briga com ele, então deixou para lá. Lembrou que tinha que dar um dinheiro para a filha comprar o lanche na escola. Estava sem dinheiro na carteira. Ainda bem que mantinha uma bolsinha de moedas para emergências. Foi a salvação. Moveu-se em direção ao marido para se despedir dele. Deram-se um beijo sem se tocar, talvez até sem gostar. Teve a impressão de ouvi-lo dizer alguma coisa sobre uma lâmpada queimada, mas não entendeu onde era. A buzina da van anunciou que as crianças tinham que estar prontas para escola. Estavam quase, mas foram assim mesmo. Quando o último filho saiu, a porta da casa bateu e entrou um silêncio. Ela sentiu vontade de ficar quieta e saborear a paz que havia ao seu redor. Sabia que não tinha direito a esse luxo. Não podia chegar atrasada mais uma vez no seu trabalho. Entrou no seu carro e a vontade de não ir à parte alguma lhe veio muito forte. De forma automática, passou um batom vermelho nos lábios e colocou o cinto de segurança. Deu a partida, ligou o som e tentou se animar. Não conseguiu achar seu ânimo. Ficou pensando que devia ter muita coisa errada na maneira que estava levando a sua vida. Sentiu urgência de mudanças. Acelerou o carro e sentou-se mais ereta. Ao olhar de relance no espelho retrovisor, reconheceu um certo brilho que há muito não via no seu olhar... Estava viva!

Diálogo

Sexta, 04 Janeiro 2013 15:50
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- Outra vez? - É. Eles vão se mudar novamente. - Já mudaram tanto... Você já devia estar acostumada. - Verdade, mas dessa vez não são só os dois, os netos vão junto. - Você sabe o motivo? - Claro! Além de um belo projeto de trabalho, eles têm um sonho de viver entre amigos de acordo com as crenças e os valores deles. - Parece bem legal. - Claro que é. Conheço e gosto muito dos amigos que farão parte dessa aventura. Só posso torcer para dar certo. - Então, qual o motivo desse ranço de tristeza? - Tenho muita pena de me afastar das crianças. - Ah! Você está com pena de você... Golpe baixo, não acha? - Não queria estar me sentindo assim como uma coitadinha, mas essa coisa de ficar longe dos netos me pegou em cheio. - Você tem parentes e amigos que têm os filhos e netos na Bahia, nos Estados Unidos, na Austrália, na França, em Israel... - Eu sei, realmente fica impossível choramingar perto deles. Tenho pensado bastante e creio que essa busca de um lugar melhor, de uma vida melhor demonstra ter uma relação direta com a necessidade de se afastar dos progenitores. É duro aceitar que um filho possa precisar se afastar de mim... - Faz muito sentido. Poderíamos ficar aqui filosofando sobre a luta pelo poder e sobre a necessidade dos filhos de obterem o reconhecimento dos pais. - É, tem muita coisa para refletir, mas acredito que não tenha nada a ver com menos amor. - Claro que não! Não posso deixar de pensar que apesar de amar muito, também me afastei de meus familiares. - Então, você tem que admitir que também escapou da toca para conhecer outros mundos e outras pessoas. - Admito. Meu marido e eu tínhamos uma boa explicação. Ele recebeu uma boa oferta de promoção para trabalhar em outro estado. - Você sabe que poderiam ter recusado. - Verdade. Poderíamos ter ficado junto de nossos pais e irmãos. No entanto, resolvemos que tínhamos que conferir a oportunidade que apareceu para nós. - Foi difícil enfrentar a separação? - Foi. Lembro que choramos muito em diversas oportunidades, mas a maior choradeira foi na véspera de irmos de mudança. - Quem chorou? - Meu marido, eu, nossos filhos e cada um que abraçamos. Era para ser uma festa de despedida... - E depois? - Afirmo de boca cheia que não há como ter arrependimentos. Afirmo também que os laços com os nossos familiares queridos não se afrouxou. Seguimos nos amando e aprendemos a lidar com a distância. - Então é a sua vez de entender a necessidade deles de bater asas. - Eu sei... Agora meu papel é o de quem fica, de quem torce e aguarda as notícias. Vou tratar de arrumar uma mala leve e um monte de dias para viajar. - Trate de incluir seu marido nesse seu plano para 2013. - Ah! Ele vai estar junto. Tenho certeza. - Assim é que se fala! Até seu sorriso voltou! - Foi muito bom conversar com você. Obrigada. - Não há de quê. Se precisar, sabe onde me achar...

CUTUCANDO UM ENGASGO

Terça, 19 Março 2013 17:40
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Muito já se falou sobre as fases em que os escritores passam empacados. Penso que isso pode acontecer em decorrência de algum engasgo. Algo que tem que sair da garganta e não saiu. Recentemente, andei numa dessas fases. Nada que eu escrevia passava de algumas linhas, nem era interessante o bastante. Sabia que precisava vasculhar o que estava me acontecendo. Fechei portas, desliguei celulares e me coloquei frente a frente comigo mesma. Vamos lá... O que você tem? O que está pegando? Teimei em me responder que não era nada e que eu estava bem. Então, por que andava me incomodando tanto, quando as pessoas me perguntavam dos netos que foram para longe? Tive que reconhecer que esse incômodo poderia ser a chave do enigma. Resolvi tentar desengasgar me forçando a lembrar das cenas no aeroporto. Aproveitei para escrever. As malas e bagagens foram despachadas. As crianças tinham espaço para correr. Se ninguém as freasse, tinham também pessoas para atropelar. Estavam eufóricas com a perspectiva de viajar de avião. Os pais das crianças, o avô e eu estávamos em outra sintonia. Nossas feições misturavam preocupações não ditas com a vontade de parecermos alegres. Não obtivemos um resultado muito bom, mas ficamos assim mesmo. Alguém quer um café, uma água? Hum... Pode ser uma boa ideia. Sentamos e nos dedicamos a esperar uma garçonete que nos atendesse e trouxesse nosso pedido. As crianças deram umas colheradas numa comida que foi improvisada ainda em casa. De vez em quando, olhávamos os avisos de partidas e fazíamos a leitura dos acontecimentos. O avião para Manaus foi cancelado... O de Florianópolis está no horário... Para variar o assunto, examinávamos as pessoas que desfilavam para nós. Olha a barba daquele homem... Como alguém pode andar num salto como o daquela mocinha? E ainda por cima puxando mala... Nossas falas eram o que se costumava chamar antigamente de papo furado. Era difícil contar um caso. Mais difícil ainda era contar uma piada. Depois que a água e o café foram consumidos e pagos, um silêncio embaçado, arrastado e até rançoso veio se chegando a nós. É... Acho que é melhor irmos entrando... Chamei Luna e lhe mostrei como as pessoas faziam. Veja! Elas se abraçam forte e depois umas ficam e outras entram ali. Seus olhos demonstraram que estava entendendo. Convidei-a: Vem me dar um abraço! Voou no meu colo. Com seus bracinhos em volta do meu pescoço, ela me lembrou do que eu lhe havia explicado meses atrás. Vovó! Vamos olhar a lua. Você vai olhar para ela da sua janela e eu vou olhar da minha. Vamos olhar a mesma lua... Vamos nos sentir pertinho assim... E, foi assim que seus quatro anos me surpreenderam e me fisgaram. Ela soube usar bem a história de olhar para a lua para se sentir próxima de alguém que está distante! Foi difícil segurar o nó na garganta e não chorar me despedindo daquela menininha...  Achei o engasgo! Só pode ser esse! Tem até jeito de armadilha! E agora? O que faço com essa descoberta? Sei que eles estão bem. Estão felizes e isso tem deixado meu coração em paz. Imagino que as novidades inundaram a vida da minha neta e levaram para longe o arranjo sentimental que fizemos. É hora de dar um basta. Sei que coisas assim não se mudam facilmente por decreto, mas tenho que ser firme e tentar. Portanto, declaro para os devidos fins, que após devidamente registrada numa crônica, a partir de agora considero por mim engolida a tirada genial da pequena Luna. E bola pra frente!

O BILHETE

Quinta, 28 Março 2013 17:28
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  Fui à ótica para dar um jeitinho nos meus óculos escuros. Era a terceira ou quarta vez que eu os levava para algum remendo. Não dava mais! Tive que aceitar a realidade. Pode jogá-los fora... Pedi apenas o estojo. Como se eu estivesse com um pássaro ferido nas mãos, delicadamente, tirei de dentro dele um bilhete e mostrei o papel já bem surrado para o homem que estava me atendendo. O olhar que recebi demonstrava mais que interesse. Era um olhar que me abraçou e me convidou a ler aquela mensagem: “À minha queridinha Rosali, Se eu pudesse lhe dar todas as felicidades possíveis e imagináveis... Se eu pudesse fazer com que você ficasse sempre saudável de corpo e alma... Se eu pudesse dar-lhe muitas alegrias e “naches”... Então eu não seria Mãe, mas uma pessoa com poderes mágicos. O meu turbante não me dá esses poderes... Mas os meus desejos são tão fortes, e pelo AMOR de filha e pessoa que você é, tenho certeza, D’us vai me escutar! Parabéns pelo aniversário! (51). Beijos, Beijos com muito carinho, Mamãe! 20/07/2004.” Eu não me contive e terminei de ler chorando. Um copo de água apareceu na minha frente. Agradeci o gesto. Bebi um gole. O homem me deu a certeza de ter disponibilidade para saber mais sobre minha história e senti vontade de lhe contar sobre como de repente, num dia como outro qualquer, o câncer de minha mãe apareceu. Foi apenas dois ou três meses antes dela escrever esse bilhete. Surgiu tão esquisito. Mamãe me ligou para dizer que sua calça nova não fechava na cintura. Não achei importante. Minha cabeça estava ocupada com outros assuntos. Corta os doces, mãe, e capricha na hidro. Isso não vai ser nada. Dias depois, ela insistiu e marquei um médico. Havia razão de sobra para sua preocupação. Ela foi internada e depois dos exames fez uma cirurgia exploratória. O médico apareceu no quarto do hospital já tarde da noite. Veio a temida notícia. Estávamos já deitadas e ouvimos a sentença caladas. Quando o médico saiu, mamãe pediu para apagar a luz e disse que era hora de dormir. Vamos conversar melhor sobre isso amanhã. Boa noite, minha filha. Não acreditei que ela conseguisse conciliar o sono! Em poucos segundos, escutei seu ressonar. Ela adormeceu em paz. Creio que naquela noite, ela resolveu que ia se agarrar no seu bom humor e na sua forma leve de encarar as situações que a vida lhe apresentava. Quis ainda compartilhar com aquele homem uma lembrança que me ocorreu. Perguntei se ele queria escutar. Por favor, conte... Então, disse a ele, que uma vez, numa fila de cinema, mamãe se fez passar por uma pessoa que adivinhava o futuro, pois seu turbante, o mesmo que ela cita no bilhete, lhe fazia incorporar essa personagem. Uma moça acreditou e queria marcar hora... Eu e o homem da ótica trocamos sorrisos. Como você voltou a falar no bilhete, me disse o homem, fiquei com uma curiosidade sobre uma palavra que sua mãe usou. O que é “naches” (lê-se narres)? É uma palavra em idish. Tenta traduzir uma mistura de orgulho com felicidade, um sentimento quase que indescritível. Aquela coisa que acontece com muita frequência no peito de um pai ou de uma mãe, quando um filho ou filha se forma, se casa, ganha um neném, recebe alguma promoção na vida ou até, simplesmente, demonstra estar de bem com a vida. Ele disse que entendeu. Achava até que já havia sentido “naches” dos seus filhos. Sorri. Ele passou a me mostrar armações. Meia hora depois, saí da loja com óculos novos e com a sensação de ter feito uma longa viagem.    

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