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Felipe

Quarta, 24 Outubro 2012 15:04
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Quando li a notícia não entendi. Ou melhor, não quis acreditar. Um dia antes, havia uma enorme corrente rolando na internet pedindo doação de sangue para esse menino. Como era possível tudo ter acabado? Felipe morreu. Não, eu não o conhecia. Posso dizer que sou amiga de longa data de primos dele, mas não entendo que precise me explicar por ser solidária nesta dor. Felipe tinha onze anos e, como se costuma dizer, uma vida inteira pela frente. Foi fácil descobrir que ele gostava do mar e que tinha muitos amigos. Está tudo documentado na rede social. Imagino que deva ter aprendido a surfar com o pai. Imaginar cenas de Felipe surfando não combina em nada com a tragédia que brutalmente se abateu sobre esse menino, mas são ondas e pranchas que chegam junto com Felipe na minha mente. Felipe foi cremado há poucos dias. As fotos dele e as mensagens trocadas entre parentes e amigos ainda salpicam pela internet e me convidam a pensar na vida e na morte. Consegui falar por telefone com sua prima, que me fez saber que Felipe foi atingido por uma bactéria assassina. Uma pequena ferida pode ter sido a porta de entrada para essa tragédia. Difícil ter alguma certeza, além da que nos faz refletir sobre a fragilidade da nossa existência. Trocamos algumas frases. Queria ser capaz de dizer alguma coisa que ajudasse, mas estava muito emocionada e foi ela quem me explicou que estão todos muito tristes, mas que falam da chegada de Felipe no céu quase como se fosse uma linda solenidade. Falam de outros assuntos que já não incluem Felipe. Ouço ainda que, apesar de estarem esfacelados, tentam cair de pé. Esse jeito de enfrentar adversidades, resume minha amiga, é marca registrada da família que Felipe e ela pertencem, a família K. Desligamos e me lembrei que de dois em dois anos, já é uma tradição, as centenas de membros da K, vindos de vários pontos do planeta, se juntam e sem medo de fazer muito barulho explodem em manifestações de alegria e também sem nenhum pudor, extravasam suas muitas outras emoções. No próximo encontro, imagino que Felipe estará mais do que presente. Também imagino o quanto o sorriso doce desse menino vai iluminar o caminho dos que seguirão suas vidas sem ele. E assim, irmanada com os K, vou me voltar para as outras direções que minha vida exige.

Diálogo

Sexta, 04 Janeiro 2013 15:50
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- Outra vez? - É. Eles vão se mudar novamente. - Já mudaram tanto... Você já devia estar acostumada. - Verdade, mas dessa vez não são só os dois, os netos vão junto. - Você sabe o motivo? - Claro! Além de um belo projeto de trabalho, eles têm um sonho de viver entre amigos de acordo com as crenças e os valores deles. - Parece bem legal. - Claro que é. Conheço e gosto muito dos amigos que farão parte dessa aventura. Só posso torcer para dar certo. - Então, qual o motivo desse ranço de tristeza? - Tenho muita pena de me afastar das crianças. - Ah! Você está com pena de você... Golpe baixo, não acha? - Não queria estar me sentindo assim como uma coitadinha, mas essa coisa de ficar longe dos netos me pegou em cheio. - Você tem parentes e amigos que têm os filhos e netos na Bahia, nos Estados Unidos, na Austrália, na França, em Israel... - Eu sei, realmente fica impossível choramingar perto deles. Tenho pensado bastante e creio que essa busca de um lugar melhor, de uma vida melhor demonstra ter uma relação direta com a necessidade de se afastar dos progenitores. É duro aceitar que um filho possa precisar se afastar de mim... - Faz muito sentido. Poderíamos ficar aqui filosofando sobre a luta pelo poder e sobre a necessidade dos filhos de obterem o reconhecimento dos pais. - É, tem muita coisa para refletir, mas acredito que não tenha nada a ver com menos amor. - Claro que não! Não posso deixar de pensar que apesar de amar muito, também me afastei de meus familiares. - Então, você tem que admitir que também escapou da toca para conhecer outros mundos e outras pessoas. - Admito. Meu marido e eu tínhamos uma boa explicação. Ele recebeu uma boa oferta de promoção para trabalhar em outro estado. - Você sabe que poderiam ter recusado. - Verdade. Poderíamos ter ficado junto de nossos pais e irmãos. No entanto, resolvemos que tínhamos que conferir a oportunidade que apareceu para nós. - Foi difícil enfrentar a separação? - Foi. Lembro que choramos muito em diversas oportunidades, mas a maior choradeira foi na véspera de irmos de mudança. - Quem chorou? - Meu marido, eu, nossos filhos e cada um que abraçamos. Era para ser uma festa de despedida... - E depois? - Afirmo de boca cheia que não há como ter arrependimentos. Afirmo também que os laços com os nossos familiares queridos não se afrouxou. Seguimos nos amando e aprendemos a lidar com a distância. - Então é a sua vez de entender a necessidade deles de bater asas. - Eu sei... Agora meu papel é o de quem fica, de quem torce e aguarda as notícias. Vou tratar de arrumar uma mala leve e um monte de dias para viajar. - Trate de incluir seu marido nesse seu plano para 2013. - Ah! Ele vai estar junto. Tenho certeza. - Assim é que se fala! Até seu sorriso voltou! - Foi muito bom conversar com você. Obrigada. - Não há de quê. Se precisar, sabe onde me achar...

FESTA DE FAMÍLIA

Terça, 19 Fevereiro 2013 07:59
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  Nem todo mundo dá importância a encontros familiares. Eu dou. Sinto um gosto especial ao rever um monte de pessoas que não vejo há muito tempo e que são galhos da árvore genealógica da minha família. Foi com esse espírito que fui à festa do bar mitzva do priminho Nati. Quando recebi o convite, minha memória imediatamente voou para o nascimento daquele menino. Era o segundo filho. Hoje essa família cresceu e tem crianças de um ano até uma meiga mocinha de quinze. Já são sete filhos. Todos saudáveis e bonitos. Só para vê-los, já valeria a pena. Como meus primos, os donos da festa, são judeus ortodoxos, sabia da importância de ser recatada. Escolhi um vestido apropriado. Cheguei cedo. Gentilmente, uma senhora veio avisar que meu marido teria que ir para o outro lado. A festa tinha dois lados: homens e mulheres. Nós sabíamos que seria assim. Aos poucos, os convidados foram chegando. Abracei e beijei primas e tias. A irmã de meu pai, tia Terezinha, a avó do menino que estava sendo festejado, mostrou-me que trazia uma bolsa que havia ganhado de minha mãe. Eu lhe mostrei que usava os brincos dela. Não precisamos falar mais nada. Sabíamos que era nosso modo de trazer mamãe para a festa. Fui sabendo novidades. A tia que vai ter que reoperar o joelho, a prima que perdeu trinta quilos, a mudança de escola da Gabi e seu desejo de ser veterinária, o primo de Israel que chegou para passar férias com a família, a vontade de ser estilista da pequena Isa, a prima que voltou a ficar bem com o marido e mais um monte de assuntos aparentemente desprovidos de grande importância, mas  que para mim faziam muito sentido. Quis abraçar os primos e tios não ortodoxos, mas não tive coragem de passar para o lado masculino. Fiquei parada na separação do salão olhando os rabinos, os homens e meninos de preto e não consegui me mexer. Acenei para um tio querido e fiquei feliz quando ele passou para o lado das mulheres. Depois do primeiro transgressor, outros se revelaram. Papai certamente viria me beijar e abraçar. Ele ficaria um tempo conversando comigo. Eu estava pensando nele, quando me dei conta de que ninguém chamou a atenção daqueles homens que estavam no lado das mulheres. A regra estava clara, mas não foi motivo para criar brigas e discussões. Lembrei que há um ensinamento judaico que fala da importância de não fazer uma pessoa se sentir constrangida. Foi uma bela demonstração de respeito a esse ensinamento. Quando notei que as mulheres estavam dançando em roda, deixei-me tomar por uma alegria contagiante e fui participar. Parecia que todas queriam se abraçar. O simples fato de se ver provocava uma sensação muito boa, algo como uma grande onda de ternura. A festa foi filmada e fotografada. Garçons serviam gostosuras. Tudo estritamente casher. A música só foi interrompida na hora do discurso do jovem Nati. Como quem percebe que o encanto estava para ser quebrado, fui me despedindo. Quando me dei conta, estava na estrada voltando para casa. Meu marido me conhece há muito tempo e sabe como fico depois de uma imersão como a que fiz nessa festa. Fomos conversando bem de mansinho. Falei do meu lado e ele do dele. Havia uma lua linda no céu. Senti que, aos poucos, bem aos poucos, minha alma foi se afastando daquele salão.     

BRUNA

Sexta, 22 Fevereiro 2013 17:21
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Dormi bem, mas acordei estranha. Consigo notar que o sol brilha. Noto, contudo, um desassossego dentro de mim. Quero entender e frear essa onda. Preparo meu café com leite e, como tenho um tempinho, pego uma revista que assino e nunca leio. Folheio-a e deixo-a para lá. Olho a hora e constato que a minha ajudante está atrasada. Escuto a voz do vizinho e me incomoda a sua ladainha pelo telefone. Ele parece gostar de fazer reclamações. Tenho e-mails para organizar, mas não sinto nenhum tesão para fazer isso. Já são mais de quinhentos. Que explodam! Procuro uma receita na internet e acabo resolvendo que vou fazer do meu jeito. O noticiário estampa que o Papa vai cair fora. Por mim, pode ir. Minha cabeça me lembra que a menina Bruna vai iniciar sua quimio na semana que vem. Resolvo abrir esse arquivo. As recordações de outras quimios me invadem. Sinto a excitação de revisitar um lugar querido. Lembro de chegar bem cedo no Hospital com minha mãe e receber o carinho de cada pessoa que formava a equipe de oncologia. Lembro de ver as crianças que faziam a quimio. Lembro dos sorrisos daquelas crianças, que serviam como avisos para que as pessoas não levassem tristeza e angustia para perto delas. Quem faz quimio acaba entendendo o ritmo lento das gotas da medicação. Só entra uma gota de cada vez. É assim que funciona e que dá certo. Não precisa, nem pode ser nada veloz. É o maior aprendizado de paciência. Bruna vai aprender. Bruna vai ser cercada de médicos, enfermeiras, nutricionistas e muitos outros profissionais que estarão trabalhando para lhe ajudar. Bruna tem sorte. Tem uma família para lhe dar todo o suporte, para lhe dar amor. Pode ser que, no futuro, decida ser médica ou enfermeira para poder dar vazão a sua gratidão. Pode ser que prefira deixar essa decisão para mais tarde e queira antes conhecer o mundo. Quem há de saber isso agora? Bruna hoje tem onze anos e olhos no futuro. Bruna hoje deve estar se preparando para sua quimio. É com ela que estou agora e com quem quero estar. É para ela que meu coração se dirige. Há muita gente que está torcendo por Bruna e que vai vibrar a cada etapa que ela ultrapassar. Um brinde à vida, à vida de Bruna. Le Chaim!

CUTUCANDO UM ENGASGO

Terça, 19 Março 2013 17:40
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Muito já se falou sobre as fases em que os escritores passam empacados. Penso que isso pode acontecer em decorrência de algum engasgo. Algo que tem que sair da garganta e não saiu. Recentemente, andei numa dessas fases. Nada que eu escrevia passava de algumas linhas, nem era interessante o bastante. Sabia que precisava vasculhar o que estava me acontecendo. Fechei portas, desliguei celulares e me coloquei frente a frente comigo mesma. Vamos lá... O que você tem? O que está pegando? Teimei em me responder que não era nada e que eu estava bem. Então, por que andava me incomodando tanto, quando as pessoas me perguntavam dos netos que foram para longe? Tive que reconhecer que esse incômodo poderia ser a chave do enigma. Resolvi tentar desengasgar me forçando a lembrar das cenas no aeroporto. Aproveitei para escrever. As malas e bagagens foram despachadas. As crianças tinham espaço para correr. Se ninguém as freasse, tinham também pessoas para atropelar. Estavam eufóricas com a perspectiva de viajar de avião. Os pais das crianças, o avô e eu estávamos em outra sintonia. Nossas feições misturavam preocupações não ditas com a vontade de parecermos alegres. Não obtivemos um resultado muito bom, mas ficamos assim mesmo. Alguém quer um café, uma água? Hum... Pode ser uma boa ideia. Sentamos e nos dedicamos a esperar uma garçonete que nos atendesse e trouxesse nosso pedido. As crianças deram umas colheradas numa comida que foi improvisada ainda em casa. De vez em quando, olhávamos os avisos de partidas e fazíamos a leitura dos acontecimentos. O avião para Manaus foi cancelado... O de Florianópolis está no horário... Para variar o assunto, examinávamos as pessoas que desfilavam para nós. Olha a barba daquele homem... Como alguém pode andar num salto como o daquela mocinha? E ainda por cima puxando mala... Nossas falas eram o que se costumava chamar antigamente de papo furado. Era difícil contar um caso. Mais difícil ainda era contar uma piada. Depois que a água e o café foram consumidos e pagos, um silêncio embaçado, arrastado e até rançoso veio se chegando a nós. É... Acho que é melhor irmos entrando... Chamei Luna e lhe mostrei como as pessoas faziam. Veja! Elas se abraçam forte e depois umas ficam e outras entram ali. Seus olhos demonstraram que estava entendendo. Convidei-a: Vem me dar um abraço! Voou no meu colo. Com seus bracinhos em volta do meu pescoço, ela me lembrou do que eu lhe havia explicado meses atrás. Vovó! Vamos olhar a lua. Você vai olhar para ela da sua janela e eu vou olhar da minha. Vamos olhar a mesma lua... Vamos nos sentir pertinho assim... E, foi assim que seus quatro anos me surpreenderam e me fisgaram. Ela soube usar bem a história de olhar para a lua para se sentir próxima de alguém que está distante! Foi difícil segurar o nó na garganta e não chorar me despedindo daquela menininha...  Achei o engasgo! Só pode ser esse! Tem até jeito de armadilha! E agora? O que faço com essa descoberta? Sei que eles estão bem. Estão felizes e isso tem deixado meu coração em paz. Imagino que as novidades inundaram a vida da minha neta e levaram para longe o arranjo sentimental que fizemos. É hora de dar um basta. Sei que coisas assim não se mudam facilmente por decreto, mas tenho que ser firme e tentar. Portanto, declaro para os devidos fins, que após devidamente registrada numa crônica, a partir de agora considero por mim engolida a tirada genial da pequena Luna. E bola pra frente!

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