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PARA VIVIAN

Sexta, 24 Maio 2013 09:07
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A notícia veio seca: morreu. Não deixou margem para choro de desespero, nem coro de lamúrias. Morreu depois de dez anos doente. No entanto, a notícia incomodou como uma bofetada inesperada. O que pode explicar ou confortar? Não sei. Sou pequena demais ou inculta demais para atinar com tamanha provação que um ser humano pode ter que passar. O senhor que morreu,  Dr José, era médico. Tinha uma vida ativa. Lembro-me de escutar como ele corria e tinha compromissos. Sua esposa quase sempre o acompanhava, já que ambos eram ginecologistas. Usavam bips que os tiravam no meio de festas e reuniões com amigos e familiares para centros cirúrgicos. Na primeira vez que presenciei isso ocorrer, Vivian, sua filha e anfitriã, me segredou que não era motivo de consternação, pois foi assim a vida inteira. Ela me garantiu que estava acostumada e que nada disso abalava o grande amor que tinha por aquele homem. Como meu pai era comerciante e minha mãe dona de casa, nas nossas festas ninguém os chamavam para lugar nenhum e, certamente, eles não iriam sair da festa por nada. Dr. José, por sua vez, não se chateava por conta de ter que mudar de programa e deixava até transparecer o orgulho por ter sido chamado para algum parto ou alguma emergência. Não guardo lembranças dele fazendo discursos ou rindo desbragadamente, mas quando o assunto era medicina, o tom de sua voz tinha um enorme entusiasmo. Somando umas poucas situações, assumi, e posso estar redondamente enganada, que Dr. José confundia a própria vida com sua carreira. Sua energia de trabalho parecia inesgotável. Quando o diagnóstico de Alzheimer lhe foi dado, foi difícil acreditar. As desculpas para os primeiros esquecimentos, que já eram os sintomas, vieram como escudos contra uma provável calúnia. A doença foi implacável. Encontrei Dr. José sendo carregado para assistir a formatura de medicina do neto. Carregaram também todas as dificuldades da doença que já estavam grudadas nele, mas ele foi. O que será que ele entendeu que estava acontecendo? O que teria tido vontade de falar ou fazer? Maldita doença! Lembro que muita gente se comportou com ele, como se tudo estivesse absolutamente normal. Eu não consegui. Fui até ele e lhe disse boa noite. Não houve resposta. O seu silêncio não calou seu olhar, que me fez saber de sua raiva e impotência por estar preso numa jaula invisível, mas intransponível. Não posso garantir se foi isso realmente que ele sentiu, mas de minha parte, era o que eu percebi fervendo dentro de mim. Vivian notou minha emoção e veio novamente me tranquilizar. Não havia mais nada a fazer ou sugerir, pois seu pai estava nas mãos dos melhores médicos e enfermeiros. Depois desse evento, nem estou certa se o encontrei novamente. Tudo que soube dele, foi através da Vivian. Os anos foram passando e Vivian corria. Gostava muito de correr. Os anos passaram, Vivian parou de correr e virou poeta e avó. Talvez avó e poeta.  A poesia se tornou seu trabalho, seu vício e seu remédio. Os netos, que bênção, lhe apontam todos os dias para a continuidade e alegria da vida. Vidas que seguem... Shalom!

NA CORDA BAMBA

Terça, 18 Novembro 2014 17:08
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Ela é uma viúva que não sei precisar se tem oitenta anos ou quase isso. Até há pouco tempo ela trabalhava muito dentro e fora de casa. Saía cedo e voltava tarde. Seus olhos são brilhantes e atentos. Dentro de sua cabeça habitam mil histórias, frutos das suas vivências profissionais e familiares. Foi a filha que durante anos cuidou da mãe e do pai. Cuidou ainda de muita gente e nem sempre cuidou de si. Quando se aposentou, descobriu que seu bairro era muito bonito e tinha mil coisas que nunca havia reparado. Sou como uma prisioneira que acabou de ser libertada... Ando deslumbrada olhando as pessoas, o movimento, as flores, árvores e a arquitetura dos prédios. Para comemorar a aposentadoria, fez uma linda viagem com uma de suas filhas. Sentia falta do trabalho, mas estava gerenciando muito bem essa nova fase da vida. Então, apareceu um problema. Sem entender como acontecia, subitamente, em algumas ocasiões se desequilibrava e caia. E, foi assim que dentro de uma loja de objetos de cristais, ela funcionou como um elefante num bazar e derrubou toda uma prateleira antes de chegar ao chão. Que sufoco! Ela passou a reclamar com todo mundo que as ruas da cidade são um grande perigo, pois estão cheias de obstáculos que muitas vezes lhe provocavam quedas. Foi a vários médicos. Fez inúmeros exames. Constatou que tem mesmo um problema. Foi orientada a passar a andar acompanhada de gente ou bengala. Como fazer isso, sendo ela como um passarinho que andou solto a vida inteira? Quem sabe essa coisa ruim poderia passar? Ela sabia que estava sendo teimosa, mas afirmava que sua cabeça ainda não aceitava bengala. Faz pouco tempo, há umas semanas atrás, ela se arrumou e se enfeitou para ir ao casamento da neta do seu primo querido. Lamentou muito o fato de suas filhas não terem sido convidadas, mas sabia que hoje em dia, os convites para as festas não são mais privilégios de família. E assim, ela se dispôs a ir sozinha mesmo. Chamou um taxi e foi. Chegou a tempo de ver a cerimônia toda. O local estava lotado, mas ela não conhecia quase ninguém. Essa constatação lhe fez pensar que seus conhecidos que teriam sido convidados, andavam adoentados ou já tinham morrido. Como seria divertido estar com seus irmãos e seus pais! Sempre era uma farra! Tudo era motivo de risos... Balançou a cabeça. Esse tempo passou. Quando acabou a parte religiosa e todos se dirigiram para se acomodar nas mesas do salão de festas, ela fez o caminho inverso. Estava decidida a ir cumprimentar seu primo. Foi pedindo licença e, com jeito, foi usando seus cotovelos. Conseguiu chegar onde queria, num lugar bem visível, ao lado de um enorme jarro de vidro com belíssimas flores. Estava excitada. Logo o primo iria passar por ela e tudo o que ela queria era que ele a visse. Ele veio se aproximando duro e solene, como quem estava num outro mundo. Ela, com uma animação que sempre lhe foi muito peculiar, agitava os braços e soltava gritos de votos de saúde para os noivos e mazal tov (boa sorte em hebraico). Ele, meio atrapalhado, como quem tivesse sido despertado de um transe, ou talvez desejoso de dar um fim no alvoroço da prima, esticou sua mão para cumprimentá-la. Ela estranhou aquela mão estendida. Esperava um abraço forte, demorado e cheio de amor e carinho entre primos. Ainda assim, aceitou a mão dele. Naquele mesmo instante, o seu equilíbrio fugiu e ela tentou se apoiar em alguma coisa. Foi pior. Caiu derrubando o enorme jarro de flores, que se espatifou e molhou-a inteira. Como estava de mão dada com o primo, ele também foi parar no chão. Ela um pouco por cima dele, o que, por sorte, amorteceu bem a queda. Que cena! Então, ela fechou os olhos. Fechou bem os olhos para não ver mais nada. Teve vergonha. Pediu ajuda e foi para o banheiro. Foi examinar os estragos e se colocou de castigo por lá durante uma hora. Quando se sentiu melhor, foi procurar o primo para se desculpar. Ela imagina que ele pode ter tido vontade de fugir dela, mas não fez isso. Novamente ele lhe estendeu a mão. Dessa vez o aperto das mãos aconteceu. Frio e apressado. Então, sem dançar, sem jantar e sem abraçar, ela achou que já era hora de ir embora para casa. Chamou outro taxi. Não demorou muito e um carro chegou. O motorista devia ter a idade dela. Entrou, disse seu endereço e deixou escapar sua admiração: O senhor ainda trabalha... Pois é, enquanto der, vou levando. E a senhora? Ela lhe disse que se aposentou e agora estava se treinando para ser uma equilibrista que anda em cordas bambas. Ele mordeu a isca... Ela contou o que lhe aconteceu na festa. Ele riu. Não falou em bengala, não a recriminou, não quis saber de doenças, muito menos mencionou mil perigos. Apenas riu. Ela ficou grata e conseguiu rir junto com ele.

O FORMULARIO

Quinta, 13 Dezembro 2018 16:54
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Junto com a correspondência, veio um formulário para ser completado. Ao perceber em mim um ar de “pra que isso”, meu marido se apressou a explicar que era uma medida aprovada na reunião de condomínio e era para a segurança do prédio. O novo síndico quer que todos os moradores atualizem seus dados. Isso significa, em primeiro lugar, os nomes, telefones e e-mails. No mesmo formulário tem a parte que corresponde à garagem e os carros que a utilizam. Até aí fácil e rápido. Por fim, três nomes de pessoas a quem devam procurar em caso de urgência. Aí pegou! Essa parte ficou reverberando estranhamente dentro de mim. Como tenho dois filhos, pensei que nada é mais correto que lhes incumbir desta tarefa, quando ocorrer essa triste necessidade um dia. Preenchi as duas linhas sem querer entrar nas discussões que pipocavam na minha cabeça. E o terceiro nome? Caramba! Havia uma pessoa que sempre esteve presente e sempre me ajudou. Hoje ele é um executivo ocupado, viaja muito e não tem tempo para nada. Não posso colocar o nome dele. Certamente ele não estará disponível. Então quem? No prédio, apesar de mais de duas décadas morando no mesmo lugar, não sinto a intimidade necessária para convocar um vizinho para me socorrer. Não tenho o costume de entrar no apartamento deles. Imaginei ter que me expor, caída, mal arrumada, ou nua e suja... Não! Parece que estou de antemão me desculpando por algum trabalho que venha a causar, mas melhor não... Veio a minha mente algumas pessoas que já estão cuidando de outras. Achei que seria uma enorme falta de sensibilidade de minha parte aumentar a carga de uma pessoa assim sem mais nem menos! Não tenho irmãos e meus primos e tios moram longe de mim. Muitos dos meus amigos estão vivendo seus próprios e complicados problemas. Definitivamente, não cabem os meus nas suas costas. O espaço em branco foi aumentando. Quem? Uns dois porteiros do clube e todos os do meu prédio sempre me cumprimentam alegremente e sabem meu nome... Não. Não sinto que deva colocar o nome de um deles. Essa tarefa exige mais intimidade. Então minha cabelereira ou a manicure? Até podem ser, mas quero seguir pensando. Quem estaria por perto, disponível, forte e capaz de tomar decisões e encaminhar uma ajuda? Estranhamente, mas como costuma me acontecer, essa busca me jogou no passado. Dessa vez eu estava nos meus catorze anos, morava com meus pais e irmão num prédio, em Copacabana. Um dia chegando da escola, encontrei mamãe muito aflita e ela me revelou que a filha da vizinha do quarto andar tinha tentado se suicidar. Levaram a moça e sua mãe para o hospital. O pai que havia chegado minutos após, ficou sozinho e atordoado no apartamento deles. Sem trocar de roupa, beber água ou dar a oportunidade da razão ter alguma voz, fui ao encontro do homem atordoado e o acompanhei num taxi até sua esposa e filha no hospital num bairro vizinho. Não lembro nada além de chegar ao hospital e voltar para casa. Carrego junto com essa lembrança uma sensação de ter feito a coisa certa com rapidez. No entanto, e ainda bem, minhas reflexões atuais me apontam para a impulsividade da jovem que eu era na época. Com a pressa de resolver, me livrar da enorme angustia, muito provavelmente, consegui atropelar outras pessoas. Eu levei o pai para o hospital. Será que a esposa dele e sua filha o queriam lá? Será que um parente deles estava a caminho para fazer isso? E se eu não tivesse ido? Minha mente se desloca para lembranças de outras épocas. Ainda segui me adiantando e agindo como “heroína salvadora” em muitos momentos de minha vida. Era a minha busca de afeto e admiração. Possivelmente, algumas vezes, consegui essa tão desejada retribuição. Em outras, deixei que a inconveniência respingasse. Enquanto isso a terceira linha segue em branco. Esse espaço no formulário, que está tão complicado para eu preencher, me faz ir longe e fundo. Há quem nem vá acreditar, mas como sou dada a aceitar de cabeça convites de mergulhos dentro de mim, esse exercício de escolha me faz sentir pequenininha e encolhida. E ainda fraca. Frágil. Não consigo chamar ninguém. Estou molhada. Pode ser suor. Quero me mexer para demonstrar que vivo. Consigo um movimento com uma perna. Não sei se adiantou... Não ouço nada. O silêncio me preenche. É assim que me enxergo, tentando imaginar a tal situação de emergência. Para fazer a coisa bem difícil, meu marido não está por perto. Ele sim saberia me ajudar. Mas como uma regra de um jogo cruel, ele, no tal futuro, na situação de emergência, nesta que me força a escolher quem vai me ajudar, ele não estará por perto. O formulário parece gritar que não tem o dia todo para esperar um nome. Sinto, pela forma mais cadenciada e tranquila da minha respiração, que estou calma. Sei que o exercício deve terminar. Respiro devagar. Inspiro e solto. Sinto meu corpo. É como se fizesse uma chamada mental de cada parte... Dedos do pé? Presente! Joelhos? Presente! E assim vai. E então me alongo. Estou inteira novamente com a folha de papel e as opções que havia pensado para compor o trio salvador. Estou achando que esse novo síndico, sem nem de longe adivinhar o motivo, começou muito bem sua gestão.            

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