Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: desejo - Vista da Janela

Desejos

Sexta, 05 Outubro 2012 00:00
Publicado em Blog
O primeiro carro de meu pai foi um Morris. Depois veio um Buick, uma Kombi, diversos fuscas, e outros que sempre tiveram o título de carro de nossa família.  Em 1956, eu tinha três anos. Nessa época, papai se deixou fascinar pela vontade de ter uma televisão em casa. Seu fascínio o levou a comprar um móvel que tinha uma TV, um rádio e um toca disco. Foi um fato histórico e criou um motivo de visitação ao nosso modesto apartamento de fundos na Tijuca, no RJ. Anos mais tarde, a bola da vez do desejo dele se voltou para um aparelho de ar condicionado, que foi instalado no seu quarto. Meu irmão e eu íamos com nossos colchões, travesseiros e lençóis fazer farra nas noites de calor no quarto de nove metros quadrados com cama de casal, mesas de cabeceira, penteadeira e guarda roupa. Quando papai anunciou que queria se mudar para um apartamento em Copacabana, fizemos resistência, pois estávamos bem onde estávamos. Pela minha mãe, não teríamos saído de perto da nossa escola, do clube e de onde moravam muitos amigos. Mas papai não usava freios quando o assunto era desejo e nossa família foi para Copacabana no fim da década de 60. Durante um tempo, mamãe fazia questão de nos lembrar do quanto a melancia e muitas outras frutas da Tijuca eram melhores do que as que comíamos na zona sul... Quando minha mãe descobriu o prazer de andar com papai na praia, até as melancias adoçaram. Meu pai almoçava todos os dias com a família. Sempre trazia novidades e adorava nos surpreender. Tinha muito jeito para ser artista e desconfio que um grande sonho de atuar lhe acompanhou ao longo de sua vida. Um dia, comprou um radio que, segundo nos garantiu, pegava diversas capitais do mundo, inclusive Moscou e Nova York. Com esse rádio papai nos brindava com espetáculos impagáveis. Pedia silêncio absoluto, aumentava a antena no máximo, grudava uma orelha no aparelho e fazia uma tradução dos chiados e zumbidos que escutava. Fazia da nossa sala um palco e capturava completamente nossas atenções. Olhando para papai através dessas memórias, percebo que posso ficar horas enfileirando mais e mais situações, onde ele era um exímio perseguidor e realizador de seus sonhos. Sei falar também dos sonhos de meu irmão, de minha mãe, de meu marido, de meus filhos, de amigos e... Uma inquietação me domina.  Na verdade é um mal estar. Constato que sou muito atenta em relação aos desejos dos que me cercam. E os meus? Quero entender melhor essa situação. Para começar, vou ruminar a dúvida do quanto vivi pegando carona nos desejos e sonhos dos outros. É um bom começo e uma grande oportunidade!

Impasse

Sábado, 02 Julho 2011 18:06
Publicado em Blog
Ela havia concordado em desistir. Foi capaz de entender que uma festa custaria caro e que ninguém estava com dinheiro sobrando. Pareceu entender também que na vida temos que ter prioridades e bom senso. Seu noivo estava guardando tudo o que podia para comprar um carro. Eles iriam morar nos fundos da casa da avó dele e não iriam pagar nada por isso. Então, abrindo mão do vestido, das flores, das fotos e filmes, dos doces e bolo e mais algumas despesas poderiam começar a vida de casados sem dívidas. Parecia perfeito. Mas, como uma flor esquecida num vaso com pouca água, ela foi murchando. Havia nela um desejo que estava sendo atropelado por falas coerentes. O rapaz, muito bonzinho, bastante batalhador, mas imaturo e pouco sensível, não entendeu o que se passava com ela. Numa conversa com amigos, lhe orientaram para caprichar mais no sexo. Ele tentou, mas não era nada disso que ela queria. Rejeitou a oferta do seu macho fechando a cara, as pernas e assim, fechou também o tempo, provocando uma grande tensão no ar. Como o estrago já estava mesmo feito, ela juntou coragem e como diriam os mais simples, enfiou o pé na jaca voltando ao tema da festa de casamento. Ele se mostrou sem paciência. Que saco! Já estava tudo certo. Você adora falar de coisas que já foram resolvidas! Com os olhos espantados pelo exagero que sentiu na reação dele, a noivinha abriu seu peito e mostrou o que estava lhe fazendo mal. Se concordamos casar sem festa e pareceu para você que estava tudo certo, saiba que não está. Aliás, para mim nunca esteve. Gosto de imaginar a alegria e emoção de ter nossos parentes e amigos nos abraçando, dançando e festejando a nossa união. E as contas? Fala gatinha, quem vai pagar? Para tudo existe um jeito na vida... Claro! Eu posso me matar de trabalhar, me enforcar com dívidas e comprar sua noite de princesa... É assim? Calma, podemos fazer a festa no salão do condomínio da sua irmã, podemos preparar comidas, como se fazia antigamente, um bando de mulheres na cozinha dando conta de tudo. Iria ser bárbaro contar com esse mutirão de amigas! E seu vestido? Vai contratar uma fada ou os ratinhos da Cinderela? Posso alugar um ou até pedir emprestado. Sem deixar a noiva acabar de colocar todas suas idéias, o noivo caprichou bem num grosso e firme "NÃO!". Era como uma queda de braços. O casamento está marcado. Sem festa ela disse que não vai. Com festa, ele não curte e não quer. Foi incrível como ao mesmo tempo, como num coral a duas vozes, se ouviu ambos dizendo: você não me entende e não me respeita! Estou pagando para saber o fim dessa história...

Almoço de Domingo

Sábado, 16 Julho 2011 18:12
Publicado em Blog
Estava só e pensativo. A certeza de que tudo vai ser igual lhe incomoda. O telefone vai tocar. Uma voz alegre lhe fará perguntas sobre como foi a semana e se tudo andou bem. Em poucos minutos virá o convite para o almoço de domingo e fim. Muita gente lhe fala sobre sua sorte de ainda ter família. Há amigos que sentem nostalgia desse programa dominical e, em geral, lhe explicam, com lágrimas nos olhos, que já perderam seus entes queridos. Do que será que essas pessoas sentem tanta falta? Será que era mesmo tão bom? Não se considera exageradamente crítico, mas não sente vontade de escutar as opiniões políticas dos seus irmãos e cunhados, os papos sobre as dietas ou as tendências da moda. Sente horror com a balbúrdia das crianças correndo em volta da mesa. As sobremesas que sua mãe faz, invariavelmente, lhe dão azia. Fica deprimido quando nota escapar flatulências de seu pai. Será que também vai chorar um dia com saudades desse programa? Como dizer que não vai ao almoço? Pior ainda, como dizer que não quer ir? Sua vontade de participar desses almoços virou algo como um caldo azedo que se formou da mistura de muita culpa com o receio de magoar. Queria até ser capaz de dar uma de doido e faltar sem dar nenhuma explicação. Mas, como é considerado bonzinho, sabe ser incapaz de fazer uma grosseria dessas. Sonha com a possibilidade de um domingo almoçar com amigos. Queria não ter a sagrada obrigação familiar. Parece que assinou um contrato, sem nunca ter feito isso. E o pior é que sente que a multa será medonha. Queria poder sentir falta e, aí sim, até aparecer de surpresa. Como para boicotar seus pensamentos, o telefone toca. Ele atende. Tudo. Tudo bem. Foi sim, foi boa a semana. Não. Nenhuma novidade. Ah! Vai ter o frango da nona... Tenta mostrar algum entusiasmo pela notícia sobre o que será servido. Como não consegue, entende que chegou no seu limite. Tem que conseguir falar! Uma gota de suor escapa de sua testa e pinga espatifada no chão. Ele se vê na gota e dá um grito: Não! Não quer o frango, filho? Não é isso! Por favor, me escute! Seu tom de voz não é o de sempre. Não estou nervoso. Não, não gritei. É que quero falar e não consigo que me ouça. Não tenho nada. Não estou diferente. Percebe a voz de choro. Isso lhe atinge em cheio! Não consegue suportar. Embora totalmente imóvel, tem a estranha sensação de erguer as mãos para o alto. O suor já sai em bicas. Suspira. Do outro lado da linha, ele ouve entre fungadas, o questionamento sobre o que ele queria tanto falar. Sente o peito apertado. A fala travada parece que lhe fere. E assim, desiste. Murmura que esquecera, não devia ser nada muito importante... Claro que vou. Acha um lenço no bolso da calça e com um único gesto elimina os vestígios do seu transtorno. Recompõe-se. Consegue perguntar se precisa levar alguma coisa, desliga e se joga no sofá. Por que é tão difícil? Semana que vem pode tentar novamente. Mas como?

Pausa

Sábado, 30 Julho 2011 20:28
Publicado em Blog
Faz bastante tempo, no consultório, escutei um rapaz me dizer que torcia para ficar com gripe ou resfriado nos finais de semana. Achei estranho. Minha fisionomia mostrou-lhe que não alcancei onde ele queria chegar. Ele notou. Explicou que era pelo cansaço. Se estivesse doente poderia descansar, caso contrário a agenda familiar era sempre lotada. Fiquei com pena dele. O tempo passou. Num intervalo de um trabalho numa empresa, há alguns anos, um executivo me falou que, de tempos em tempos, se dava uma tarde ou um dia de "bem súbito". Era um tempo para curtir. Se tivesse um mal súbito teria que parar tudo e cuidar de si. Então, achou sensato se brindar dessa forma. Semana passada, lembrei-me desses dois fatos. Retornei gripada das férias. O corpo doía, estava toda congestionada e com um frio que cobertor e pijama não davam conta de resolver. Tomei remédio, chá e um banho quente. Fui dormir pensando que amanheceria curada. Besta ilusão dos que se acreditam tão importantes... Tive que ser sensata. Fiz ligações e desmarquei tudo. Comecei a sentir uma certa empolgação. Ajeitei um livro na cabeceira e me vi diante de vinte e quatro horas só para mim. Embora a gripe tirasse um pouco do encanto da situação, me dei conta de que saberia tirar proveito do meu dia. O livro que devorei era sobre Chico Buarque, escrito por Wagner Homem e me foi dado por uma grande amiga meses atrás. Ela me convidou para um café com bolo de fubá na sua casa. Só nós duas. Tínhamos não muito mais que uma hora. Como amantes apressadas, tiramos os sapatos e nos esparramamos à vontade no chão. Poderíamos usar aquele tempo falando de mil coisas. Não nos faltavam assuntos. Nunca faltou. Gracinhas dos netos, histórias envolvendo maridos e outros parentes, tudo foi falado rapidamente, como se fosse introdução. Para marcar bem a cena, minha amiga se levantou e por instantes sumiu. Quando retornou, tinha um livro para me dar. Fez questão de folheá-lo comigo. Sabia que eu iria gostar. Estava tudo lá: nossa época de juventude e as músicas que sabíamos de cor. A hora que tínhamos voou. Cantamos A Banda, Meu Refrão, Pedro Pedreiro, Folhetim e muitas outras. Cantamos emocionadas, como quem sabe um idioma incomum e acha um parceiro para conversar. Pensei que iria ler logo esse tal livro, mas as urgências e as obrigações não me davam nenhum espaço livre. Minha gripe deu. Entendi plenamente o rapaz que torcia pelo seu álibi de fim de semana. Sem nenhum desgaste, sem discussões, bastou mencionar a gripe e tudo pôde ser cancelado ou adiado. Na manhã seguinte, talvez levada pela gostosa sensação de não precisar fazer nada, tive vontade de viver um "bem súbito". Resolvi tirar mais um dia, acabar o livro, andar devagar pela minha casa, não atender celular, nem checar mensagens no computador. Tirei sonecas no meio da manhã, tomei banho fora de hora, almocei quando senti fome e chorei olhando as flores iluminadas pelo sol da tarde na minha varanda.

ATITUDE

Quarta, 15 Outubro 2014 10:54
Publicado em Blog
Quando ela chegou, ele, como de costume, já estava no seu mundo paralelo. Era assim que ela chamava a vida que ele levava na frente do computador. Ela foi tomar um banho e ficou à vontade. Foi à cozinha, pegou alguma coisa para comer e assim que ficou satisfeita, chamou-o para conversar. Ele quis saber do que se tratava. Precisamos conversar... Não pode deixar para depois? Ela insistiu. Ele acabou perdendo a concentração e o game que estava jogando. Do que se trata? Pode falar... Qual a ordem do dia? Alguma nova queixa ou vai repetir as velhas ladainhas?  Precisamos falar de nós, das nossas vidas... Ele sinalizou seu desinteresse abrindo a boca disparando bocejos repetidos. Posso voltar pro meu computador? Antes que ele continuasse com seu repertório conhecido e sem graça ela declarou: Nosso casamento acabou! Ele arregalou os olhos como um bicho que foi pego numa armadilha. Ela ganhou coragem e seguiu dizendo que estava cansada de viver só e que queria voltar a ter sonhos e planos junto com alguém. Queria voltar a ser desejada e desejar. Tudo foi sendo falado sem alterar o tom de voz, apenas com o olhar bem firme nos olhos dele. Ele iniciou um gaguejar destrambelhado para questionar o que mais ela queria dele, se lhe faltava alguma coisa, se ele bebia ou batia nela, se queria um carro novo... O que era? Sem esperar resposta, ele deu um murro na mesa e num berro colocou para fora o seu pior pesadelo: você deve ter se enrabichado por outro! Sem se alterar, ela disse que já havia dito o que queria e acrescentou que ainda não tinha nenhum outro na história. Ele estava impressionado e irritado com a calma dela. Perguntou se ela estava sob o efeito de algum medicamento novo. Ou seria a nova terapia? Ah! Devia ser isso! Estavam colocando minhocas na cabeça de sua mulher. Ela que sempre esteve tão bem e sem reclamar de nada durante tantos anos, agora queria se separar... Não fazia o menor sentido para ele. Era pura armação! Fale mulher! Ela não respondeu nada. Fez-se um silêncio pesado e incômodo. Ele voltou a bocejar. Disse, então, que estava com sono, que queria ir para cama. Ela lhe desejou boa noite, esperou pelos seus roncos mais fortes e cadenciados, trocou de roupa, pegou sua mala que já estava pronta, deu uma última boa olhada pela casa, soprou um beijo na direção dele e, como se estivesse inebriada por ter acabado de receber seu alvará de soltura, abriu a porta e saiu de casa.  

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook