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CONVERSAS DE ÚLTIMA HORA

Terça, 04 Junho 2013 18:42
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Quero que você perca seu avião... Quando minha neta Luna choramingou seu desejo, senti vontade de abraçar as duas, a pequena e a ideia, e disse que quando chegasse ao aeroporto, poderia me esconder no banheiro e não escutar o chamado para embarcar. Seus olhos de menina de quatro anos sorriram para mim. Passamos a brincar de fazer caretas. Estávamos num restaurante e era o último dia da visita dos vovôs a seus dois netos e aos pais deles. Luna não tinha fome ou tinha muito mais emoções que apetite. Não comeu nada. Leo, pelo contrário, estava faminto e ocupado em dar cabo da comida que estava no seu prato. Ficamos uma hora nesse lugar. O sol estava manso e gostoso. Era o início de uma tarde de inverno na beira de uma praia, em Florianópolis. Apesar de estar tudo muito bom e agradável, tínhamos que comer rápido e ir para o aeroporto. No carro, Leo se pôs a mamar e logo dormiu. Luna se sentou no meu colo e fomos lembrando quantas coisas aconteceram em quatro dias. Falamos das aulas de capoeira e natação, das brincadeiras em casa, na rua, do churrasco na casa dos Dindos, do passeios no parquinho e na Fortaleza São José. Na verdade, não conversamos como quem faz um relatório ou presta contas. Conversamos como quem joga um jogo e assim processamos nossos pensamentos. Estava sentindo uma ligeira dor nas costas e, sem me queixar, logo fui lembrando do tanto que carreguei os dois netos no colo... Confesso que sei que se trata de um gesto absolutamente sem necessidade, pois ambos já andam e correm muito bem. Carrego com vontade de que nossos corações fiquem bem pertinho e se digam tudo o que precisam. Também sem precisar, ajudei nas refeições dando colheradas nas boquinhas. Ajudei na hora do banho e nas horas do xixi e cocô. Expliquei para Luna não esfregar com força o papel higiênico ao se limpar e me senti como quem passou adiante uma fórmula mágica... Contei histórias quando ambos estavam vestidos com seus pijaminhas novos. Reconheço que quando mãe, essas atividades não me cansavam tanto, mas minha vontade não era de outra coisa que não fosse estar ali, fazendo o que estava fazendo. Quando chegamos ao aeroporto, meu marido e eu pulamos rapidamente do carro como milho que estoura em pipoca. Beijamos o filho, a nora e as crianças. Demos as costas e entramos por uma porta de vidro. Meu marido notou que eu demonstrava procurar alguma coisa. O que você quer? Perguntei se ele sabia onde ficava o banheiro. Precisa ir agora? Não...foi uma ideia absurda que me passou na cabeça... Ele pegou minha mão e fomos em frente.  

A MENINA NA VÉSPERA DO YOM KIPUR

Sexta, 03 Outubro 2014 11:50
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Havia uma pressa e uma agitação quase palpável no dia de véspera de Yom Kipur, o Dia do Perdão. Tínhamos que almoçar cedo ou pelo menos sem atrasos, para que o jantar pudesse acontecer num horário bem mais apropriado para um lanche de fim de tarde. Nunca faltava o caldo com a galinha cozida, macarrão, peixe, salada, compota, bolo e muito líquido. Meus pais jejuavam por um dia inteiro e tinham que se abastecer. Essa era a minha compreensão do motivo de tanta comida. Eu sabia que na casa de meus tios e avós, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, a agitação e a fartura eram iguais. Era dia de mais uma vez falarmos com todos os familiares por telefone e repetirmos os votos de um ano bom e doce e, principalmente, que todos tivéssemos saúde e fossemos inscritos no Livro da Vida. Era o dia final para arrependimentos e acertos de situações mal resolvidas. Ano após ano, eu gostava de reeditar a mesma imagem meio nebulosa de um homenzarrão descabelado, vestido com uma espécie de túnica e com as feições sérias diante de um enorme e pesado livro decidindo o destino, nome a nome, de todos os habitantes do planeta terra. Essa era a minha imagem do divino. Tenho que admitir semelhanças entre a figura que criei e meu pai, que certamente iria rir muito dessa constatação. Muitas crianças podem ter feito essa mesma heresia que eu fiz, afinal um pai forte, amoroso e também bravo como era o meu, se aproxima bem daquele pai maior que está descrito nos livros sagrados... Pelo menos no olhar e entendimento de uma criança. Ainda nessa cena, havia os portões celestes. Esses tinham uma importância fantástica, pois no final do dia seguinte, quando ficasse declarado quem estaria inscrito no Livro e quem não estaria, os portões se fechariam. Sempre me intrigou e ao mesmo tempo me fascinou pensar nesses portões se mexendo lentamente. Como sempre fui uma menina cheia de palavras, achava que algumas pessoas não ficariam tranquilas com uma decisão desfavorável e tentariam argumentar com o Todo Poderoso. Eu tentaria... Então, na minha imaginação havia sempre pessoas gritando e impedindo que os portões se fechassem. Essa parte me provocava um desassossego, algo bem perto de um mal estar. Anos depois, tive que trabalhar melhor essa questão de aceitar que é importante aprender a escolher, que nem sempre somos os escolhidos, que quando somos escolhidos, alguém que gostamos pode não ser, e outras do gênero. Hoje consegui escrever e driblar a pressa e agitação desse dia de véspera de Yom Kipur, mas agora preciso parar, pois não seria capaz de atrasar a hora do almoço...  

CONTA VÓ!

Quinta, 05 Fevereiro 2015 09:15
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Na hora em que a TV é desligada, que o banho e a comida já foram dados, que os pijaminhas foram colocados e os dentes escovados, as crianças ficam deitadas, relaxadas e podendo voar com gosto e prazer na imaginação. É a hora ideal para contar histórias, ainda mais se vier, como na noite passada, com o pedido irrecusável: Conta uma história, vó? Embarquei sem pestanejar. Pode ser uma que vocês já conhecem ou preferem uma nova? Escutei um pedido para contar a que aconteceu quando o papai deles era criança. Qual? Aquela que ele estava na creche e não pode entrar... Ah! Já sei! Estão prontos? Sim! Começa vovó! Vou começar com “Era uma vez”, pode ser? Pode! Então, lá vai: Era uma vez um menino muito querido que se chamava Marcelo... Fiz de propósito uma pausa, pois assim pude perceber o pequeno Leo, de três anos, e sua irmã Luna, de quase seis, sorrindo contentes ao ouvirem o nome do pai. Prossegui. Ele nasceu numa grande cidade, no Rio de Janeiro. Era um bebê bonito, esperto, comia e dormia muito bem. Quando ele completou dois anos e dois meses ele ganhou um irmão, Renato. O titio... Ah! O tio Renato! Isso mesmo, mas a história de hoje se passa antes do titio nascer. Desde uns dois meses e até completar um ano, Marcelo tinha uma rotina... O que é rotina vovó? Luna me fez saber que estava atenta. Rotina é o que a pessoa faz sempre igual. Por exemplo, a rotina que vocês têm pela manhã é acordar, escovar os dentes e tomar o café da manhã. Entendeu? Posso seguir? Pode. Você também entendeu Leo? Sim. Todos os dias, Marcelo acordava bem cedo. Bem cedo de verdade, antes das seis da manhã. No RJ, em geral, faz muito calor e os raios de sol nas primeiras horas da manhã eram como trombetas que acordavam Marcelo para aproveitar seu passeio matinal. Eu trocava sua fralda, alimentava-o e colocava-o no carrinho muitas vezes só com uma fraldinha. Como morávamos perto da praia, curtíamos um belo espetáculo todos os dias. O movimento das ondas da praia, as cores do céu, da areia, as pessoas fazendo exercícios, enfim, era tão maravilhoso de ver, que eu sempre me admirava com a beleza de cada novo dia. Como eu voltei a trabalhar quando Marcelinho tinha uns cinco meses, quando chegava perto das 8:00 horas, a vovó ou o vovô apareciam para ficar com o Marcelo. Eu tinha que ir trabalhar. Tinha? Luna não deixou escapar e continuou a questionar: Quem mandava? Não, não tinha ninguém que mandava. Sempre gostei de trabalhar fora de casa. E o Marcelo? Luna quis saber. Ele ficava muito bem. Como você sabe? Ele sabia falar? Não. Mas dava para notar que era um bebe alegre. Você tem para mostrar um vídeo dele no seu i phone? Não. Não havia i phone quando seu pai era neném. Puxa... Mas temos fotos, vocês já viram. Posso seguir a história? Só mais uma coisinha vovó... Ele ficava o dia inteiro com os avós dele? Ele ficava muito com os avós sim, até que com um ano, Marcelinho foi para creche. Ele ficava no período da manhã. O vovô levava e buscava de carro.  Eu ia e voltava com eles, já que trabalhava perto dessa creche. Como ele já falava algumas palavras, todos os dias contava para o vovô o que havia almoçado junto das outras crianças. Era engraçado escutar aquele menininho tão pequeno dizendo que comeu batata, arroz e figadô...  O vovô dele adorava contar para todo mundo como seu neto era inteligente, pois falava direitinho muitas palavras e, além disso, falava até em francês... Figadô. Bem, voltando à história... Eu dava aulas na faculdade perto da creche. Na hora do meu almoço, aproveitava a carona do meu pai para levar Marcelo para dormir algumas horas no seu bercinho em casa. Eu comia alguma coisa e depois voltava correndo para trabalhar. No fim da tarde, eu me encontrava com meu filhinho e com minha mãe no calçadão. Era a bisa Esther? Era sim. Era um tempo de muita correria, pois havia hora para entrar na creche e no trabalho, mas é também um tempo que me deixou muitas saudades... Como meus pensamentos me emocionaram, fiquei embotada e sem conseguir prosseguir até que a voz do Leo me chamou de volta para o agora: Vai vó... Continua! Respirei fundo como tentando inalar alguma coisa que me restituísse o equilíbrio. Muito bem! Um dia, o carro do vovô quebrou e ele avisou que não poderia nos levar. O jeito foi pegar um taxi para a creche. Quando lá chegamos, uma professora ou babá, não me lembro bem, inspecionou a cabeça do Marcelo e com um tom grave e sério decretou: Essa criança tem piolho, não pode entrar! Tome esse remédio e passe na cabeça dele por três dias seguidos. Fiquei lívida. Luna quis saber o que é lívida. Gostei de perceber que ela estava atenta. Branca, como quem vai desmaiar. E prossegui. Eu tinha que ir para o trabalho. Tinha que dar aula. Não teve jeito e levei-o junto comigo. Ah! Esqueci um detalhe... Eu estava grávida e, por conta de enjoar algumas vezes, tomava um remédio para diminuir esses enjoos. Bem, cheguei à faculdade e tive que me explicar para meu chefe. Ele não gostou nada de ver uma criança na sala de aula. Chegou a dizer que eu parecia uma lavadeira de roupas que vem do subúrbio carregando filho nas casas das madames... Você parecia mesmo lavadeira vó? Não. Não parecia, Luna, e engoli minha raiva sem responder. Papai fala que Isso não faz bem vovó. Eu sei e até hoje penso que deveria ter dito ao meu chefe como admiro essas mulheres trabalhadoras, que ele se referiu com tanto desprezo. Dei todas as aulas com o pequeno Marcelinho rabiscando com giz no chão, correndo, caindo, chorando, fazendo cocô, tomando mamadeira ou sendo distraído por algum aluno. Definitivamente uma sala de aula numa faculdade não é um lugar apropriado para um menino de um ano. Quando acabei de dar a última aula da manhã, em vez de ir para casa, resolvi me consultar com Alzira, a empregada da minha sogra, a vovó Edith, sobre esse tal de piolho, que não saia da minha cabeça desde a hora que Marcelo não pode entrar na creche. Alzira sentou Marcelinho no seu colo e o examinou com muita atenção. Fio por fio. Ele não era muito cabeludo. O veredito não demorou. O que é... Para Luna! Deixa a vovó contar... Calma, Leo! Veredito é o que se fala com certeza depois de muito pensar ou discutir sobre um assunto. Então, Alzira disse que não havia nem um piolho na cabeça do Marcelo. Esse menino está com sopa grudada no cabelo! É isso que confundiu alguém lá na creche. Sopa grudada no cabelo! Tornei a ficar lívida. (Olhei para ver se Luna sacou a palavra e ela tinha um sorriso nos lábios). Que loucura! Um engano que me fez passar uma manhã bem complicada! Fomos para casa. Marcelo almoçou e logo adormeceu. Eu quase nem comi nada, mas estava enjoada. Antes de voltar para o trabalho, achei que seria bom tomar meu remédio contra enjoo. Peguei-o e tomei uma colherada correndo, pois estava bem atrasada. Logo que senti o gosto do remédio comecei a gritar. Ai! Ai! Troquei o remédio! Não reparei e peguei o remédio errado! Engoli o remédio do piolho! Liguei correndo para meu médico. Alô! Dr Castilho? Sou eu, Rosali... Você está bem? Estou sim, quer dizer, estava, mas acabei de engolir um remédio para piolho... É mesmo Rosali, disse ele com espanto e me perguntou a razão de eu ter feito isso. Foi um engano... uma longa história... Tive vontade de chorar, mas não quis parecer mais maluca do que já estava parecendo, pois estava muito aflita. Perguntei-lhe o que iria acontecer com meu neném na barriga? O que devo fazer? Preciso vomitar? Dr. Castilho, numa voz suave, mas firme, disse para eu me acalmar. Tome um pouco de leite morno e nada vai acontecer. Você está estressada. Precisa relaxar. Ah! Guarde o remédio de piolho bem longe dos seus outros remédios. E se precisar de mim, pode ligar a qualquer hora. Desliguei já bem mais calma. Tomei o leite morno e voltei para o trabalho. Tudo acabou bem. E assim termina essa história. Léo estava ressonando a sono solto e Luna se ajeitou na cama, puxou seu lençol e procurou a posição para dormir. Momento precioso.                  

BENTO QUERIA SER VENTO - Infantil

Segunda, 16 Março 2015 14:46
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Era uma vez um menino chamado Bento. Era pequeno e cheio de energia. Tinha seis anos, olhos espertos e uma cabeça que pensava sem parar. Numa tarde de domingo, Bento parecia distraído, sentadinho no chão, não muito longe de sua casa, brincando com uma varetinha, olhando o que acontecia ao seu redor. Olhava e pensava. E pensava e pensava... O vento parecia fora de si. Estranho? Pode ser, mas era essa a impressão que Bento tinha, pois enxergava que o vento estava totalmente louco, fazendo portas baterem, vestidos e saias serem levantados e fazendo também papéis e miudezas voarem. Fora toda essa bagunça ainda havia gente correndo para todos os lados. Que força o vento tem! Enquanto Bento refletia sobre o poder do vento, escutava a voz de sua mãe que lhe chamava: Bento! Vem para casa! Beeeento! Onde você está? Vai cair uma tempestade. Ô menino... Precisamos fechar a casa! Como, às vezes, acontece com as crianças, Bento estava sem vontade de obedecer. Seguindo a desobediência, Bento saiu em disparada gritando. Gritava como se vento fosse. Sou o Veeeeeento! Beeento Veeeento! Sem nenhuma preocupação com a chuva forte que estava sendo anunciada, Bento foi se distanciando de sua moradia. Sou Veeeento! Veeento! Dois dentes de leite da frente já haviam caído e Bento estava achando graça falar que era vento, pois a falta dos dentes fazia a palavra vento sair de forma engraçada. Ventava na sua boca... Veeeento! Seguiu correndo, imaginando que estava voando. Não demorou muito, foi parar na beira do lago. Notou que a água estava descolorida de negro. O céu escuro refletido no lago dava um aspecto bem diferente de quando os dias são claros e o céu é azul. Não havia ninguém na beira do lago. Nem patos, nem sapos, nem passarinhos. Só a ventania cada vez mais forte e ele, Bento, o menino que parecia que engoliu o desassossego. Com os braços bem esticados, Bento tentava ensaiar voos para todos os lados. Em alguns momentos o vento lhe dava a impressão de que iria lhe levantar, mas Bento não estava nem um pouquinho assustado. Pelo contrário, ele estava deslumbrado. Depois de ir para lá e para cá, Bento sentiu vontade de mudar de brincadeira. Atirou longe seus sapatos e correu para colocar os pés na água. Achou delicioso e refrescante!  Essa alegria não durou muito, pois trovões e relâmpagos passaram a se revezar fazendo com que o céu ficasse com uma aparência sinistra. Gotas de chuva começaram a cair. Gotas grossas. Bento lembrou que era perigoso ficar na água, mesmo só com os pés, pois algum raio poderia ser atraído e cair nele. Isso não é brincadeira! É coisa séria! Ainda bem! Bento saiu do lago. Levantou-se para ir pegar seus sapatos. Não reparou na raiz de uma árvore, tropeçou e caiu. Sentiu uma dor forte. Machucou seu pé. A tempestade seguia muito forte. Trovões e relâmpagos estavam mais ferozes e insistentes. Raios pareciam cair pertinho dele. Bento começou a sentir medo. Sabia que tinha que sair de onde estava. Ficar perto de árvores era muito perigoso, pois as árvores também atraem os raios. Bento sentiu que estava ficando mais e mais assustado.  Queria estar em casa com sua mamãe e papai. Queria estar na sua cama sequinha. Teve vontade de chorar e imaginou que seus pais deveriam estar preocupados com ele. Fez um esforço grande e se levantou com a ajuda de um pau que achou jogado na grama. Estava totalmente molhado por causa da chuva. Estava encharcado. Queria conseguir voltar rápido como o vento, mas a dor lhe fazia dar passos pequenos e bem devagar. A brincadeira que ele havia tanto gostado já não tinha graça nenhuma. Lembrou que deveria ter respondido, quando sua mãe lhe chamou. Ah! Como queria escutar sua mamãe lhe chamando novamente... Beeeeeeento! Era ela! Sua mamãe estava lhe procurando. Aqui mamãe! Beeeeento! Agora era a voz do seu papai. Ah! Que alegria! Estou aqui! Papai! Mamãe! Em poucos instantes, Bento e seus pais estavam abraçados. Papai lembrou que era melhor saírem logo dali. Colocou Bento no colo e acompanhado da mamãe não demoraram a chegar a casa deles. Onde você estava menino? Correndo... Achando que era o vento... Brincando... Ouvindo mamãe chamar e não respondendo... Fingi que não escutei. Isso não foi nada bonito, disse a mamãe. Não vou mais fazer isso não. Acho que não quero mais saber de ser vento, sou Bento. Isso já é muito bom! Papai e mamãe concordaram com ele, lhe abraçaram e lhe encheram de beijos. Os três estavam felizes e, de dentro de casa, sãos, salvos e juntos contemplaram a tempestade que ainda caiu um bom tempo.

INDECISA

Quinta, 08 Outubro 2015 09:51
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Ela torce para que seja um bom momento, mas não tem certeza. Quer se despedir, mas tem a sensação de que pode incomodar e isso não é o que pretende. É estranho pensar que as crianças    estarão brincando e não vão interromper o que fazem para falar com ela. Só para falar com ela... Os adultos podem estar lendo, cozinhando, arrumando alguma coisa ou descansando e também podem preferir não ouvir suas despedidas. Essa hesitação nunca fez parte do modo dela se comportar. Em geral, sempre foi decidida e confiante. Estará ficando uma velha frouxa? Era tão firme... Por outro lado, pode estar aprendo a ser mais respeitosa. Suas urgências e necessidades podem esperar e assim têm a probabilidade de se revelar como desimportâncias. Qual o problema de viajar sem dizer tchau? Certamente nada muda no universo. O mundo vai continuar a girar igual. Ela sabe disso, mas é como se estivesse partindo levando uma bagagem incompleta. Fica lhe faltando falar as falas que traduzem seu carinho e amor e escutar desejos de boa viagem. Ora, pensa ela, certamente foi condicionada a esse tipo de comportamento. Era assim que seus pais e avós faziam. Mas quem sabe pode ser bom experimentar fazer diferente? Talvez nas primeiras vezes, como essa, sinta um nó, um aperto e até uma dor. Talvez com o tempo não sinta mais nada. Da sua garganta escapa um som. Parece que disse basta. Ao notar que estava falando sozinha fica encabulada. Frouxa e maluca... Ela pega o celular e procura alguma mensagem ou ligação que possa ter perdido. Não tem nada. Olha pela janela tentando fazer seu olhar chegar ao impossível. Num ímpeto resolve arriscar. Liga. Toca, toca e ninguém atende. Liga novamente. Nada. Deixa um recado. Desliga achando que não disse exatamente o que pretendia. Balança a cabeça. Agora é tarde. Pega sua mala, abre a porta e vai.

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