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ALMAS DISTANTES

Terça, 05 Fevereiro 2013 08:28
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Era tarde da noite e ela rolava na cama sem conseguir dormir. Seus pensamentos teimavam em ficar lembrando o domingo chuvoso que estava acabando. A família viajou e ela estava só. Assim que acordou, ainda de pijama, ficou horas na internet. Quando sentiu fome, esquentou alguma coisa e almoçou. Sem nada melhor para fazer, resolveu aceitar o convite do seu avô e foi lhe visitar. O velho recebeu a neta adolescente com um abraço demorado. Ela não era acostumada com aquele abraço. Teve a impressão de que o avô estava mais envelhecido. Preferiu achar que era culpa da bengala. Notou que ele arrumou uma bandeja com chá e bolo para os dois. Achou singelo, mas não mencionou seu parecer. Então, vamos jogar? Ele mostrou o tabuleiro de palavras cruzadas. Ela deu um sorriso murcho, levantou o polegar e pensou que tanto fazia. Ele captou sua indiferença, mas não deu bola. Sentaram-se um de frente para o outro.  Decidiram na sorte quem iria iniciar. O avô colocou a primeira palavra e puxou conversa perguntando como andava a vida da neta. Ela teve que pensar bastante para fazer poucos pontos e foi monossilábica na resposta para ele. De fato, não disse nada de relevância. Poderia falar da balada no clube ou do seu plano de morar na Austrália... Preferiu ligar o som e deixar uma música dominar o ambiente. Foram jogando. Ele foi colocando peças e quis saber se ela queria ouvir como andava a vida dele. Meio distraída, a jovem disse que sim. Tudo bem. Ele começou a falar da falta que sentia da avó dela. Ela o interrompeu. Vô, vamos falar de outras coisas? Falar da vovó é muito triste. O velho perguntou a neta se ela sabia que ele teria que fazer uma cirurgia. Ela disse que falar de doença também era muito chato. Continuaram jogando. O avô perguntou para a jovem o que achava das últimas eleições. Política, vovô! Faça-me um favor... Num dado momento, o avô fez uma palavra com todas as peças. Ganhou pontos extras e comemorou como se tivesse ganhado um campeonato. Sem achar graça nenhuma, ela pediu para parar o jogo. O avô se serviu do bolo e do chá. Ela pegou seu i-phone e começou a dedilhar. Passaram-se alguns minutos. E agora, vô? O que vamos fazer? Ele propôs olhar a chuva em silêncio. Ela achou que não havia entendido bem. Ele se sentou diante da janela e se calou. Ela não sabia fazer coisas assim... Quando ela começou a falar, ele lhe interrompeu fazendo suavemente o gesto do dedo indicador encostado nos lábios. Ela ficou perplexa. Não sabia se estava ofendida, irada ou simplesmente chateada. Levantou-se para ir embora. Procurou sua bolsa e também um gesto ou uma palavra do avô que lhe impedisse a partida. O avô nada fez, nem falou. A chuva seguia forte. Assim mesmo, ela foi.    

VAIBES DIFERENTES

Quarta, 11 Setembro 2013 13:23
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Quando o telefone tocou, o rumo de sua vida poderia ser outro. Mas, ela não atendeu. Não escutou o som abafado que vinha de dentro da sua bolsa. Para piorar a situação, havia o barulho do chuveiro. Não escutou mesmo. Era ele querendo se desculpar, querendo outra chance, querendo lhe mostrar que ainda lhe queria tanto. Mas, ela não escutou e não atendeu. Ela nem ao menos se remoeu por ter perdido essa oportunidade. Quanto a ele... Ele ficou ruminando ideias. Achou que ela olhou para o celular e vendo que era ele quem a chamava, solenemente o ignorou. Num primeiro instante nem acreditou que ela seria capaz de uma atitude dessas. Justo ela que era tão educada... Logo passou a ter certeza que ela estaria lhe revidando por atrasos, descuidos e um monte de bolas que ele andou pisando nos últimos tempos. E se fosse uma urgência? Como ela poderia ser tão fria assim? Que vaca! Chegou a pensar que ela até estaria sentindo prazer em não lhe atender. Chegou a vê-la sorrindo... Chegou a imaginá-la chamando uma amiga e gargalhando com ela. Que safada e metida a besta! Imediatamente ele se arrependeu de ter ligado. Pegou um atalho mental e saiu cantando pneus com raiva. Descobriu-se raivoso. E gostou da sensação. Aquela puta! Quanto tempo perdido! E pensar que ele queria se desculpar... Desculpar de quê? Só se for de ser um idiota. Enquanto isso, ela saiu do banho e reparou que tinha uma ligação perdida. Teve vontade de não responder o chamado. Ficou curiosa e sentiu-se fisgada como quem morde uma isca. O que será que ele poderia querer? Até para pedir desculpas ele era sem jeito. Ela sabia que ele nunca iria ser muito diferente. A última briga foi feia e definitiva. E se lhe desse mais uma oportunidade? Ela não queria mais ficar nesse vai e vem, mas, ele mexia com ela de um jeito quase obsceno... O que ela sentia com ele não estava escrito em lugar nenhum. Viria outro? A fila iria andar? Um melhor? E se não viesse? Melhor garantir esse... Melhor ligar e saber o que ele queria. Ligou. A surpresa dele foi proporcional à raiva que ele estava dela. Não era macho de se encolher. Atendeu. Foi seco e bruto. Fala! Ela não entendeu o tom e tentou iniciar um diálogo. Foi você quem me ligou... Ele cortou a fala dela e disparou frases como se estivesse picando uma carta de amor em pedacinhos. Ah! Resolveu parar de gracinha? Quer conversar? Agora não quero mais falar nada. Agora tudo mudou. Vê se vaza. Sai da minha vaibe. E desligou. Ela não entendeu nada.

INDECISA

Quinta, 08 Outubro 2015 09:51
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Ela torce para que seja um bom momento, mas não tem certeza. Quer se despedir, mas tem a sensação de que pode incomodar e isso não é o que pretende. É estranho pensar que as crianças    estarão brincando e não vão interromper o que fazem para falar com ela. Só para falar com ela... Os adultos podem estar lendo, cozinhando, arrumando alguma coisa ou descansando e também podem preferir não ouvir suas despedidas. Essa hesitação nunca fez parte do modo dela se comportar. Em geral, sempre foi decidida e confiante. Estará ficando uma velha frouxa? Era tão firme... Por outro lado, pode estar aprendo a ser mais respeitosa. Suas urgências e necessidades podem esperar e assim têm a probabilidade de se revelar como desimportâncias. Qual o problema de viajar sem dizer tchau? Certamente nada muda no universo. O mundo vai continuar a girar igual. Ela sabe disso, mas é como se estivesse partindo levando uma bagagem incompleta. Fica lhe faltando falar as falas que traduzem seu carinho e amor e escutar desejos de boa viagem. Ora, pensa ela, certamente foi condicionada a esse tipo de comportamento. Era assim que seus pais e avós faziam. Mas quem sabe pode ser bom experimentar fazer diferente? Talvez nas primeiras vezes, como essa, sinta um nó, um aperto e até uma dor. Talvez com o tempo não sinta mais nada. Da sua garganta escapa um som. Parece que disse basta. Ao notar que estava falando sozinha fica encabulada. Frouxa e maluca... Ela pega o celular e procura alguma mensagem ou ligação que possa ter perdido. Não tem nada. Olha pela janela tentando fazer seu olhar chegar ao impossível. Num ímpeto resolve arriscar. Liga. Toca, toca e ninguém atende. Liga novamente. Nada. Deixa um recado. Desliga achando que não disse exatamente o que pretendia. Balança a cabeça. Agora é tarde. Pega sua mala, abre a porta e vai.

TENTE NÃO ADIVINHAR

Segunda, 15 Agosto 2016 11:04
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Com a cabeça totalmente dominada por pensamentos rodopiantes, quase foi um milagre ter percebido que o elevador havia chegado e estava vazio. Entrou. Apertou no andar dela. Olhou-se no espelho. Deu um jeito no cabelo. Notou algumas rugas. O elevador parou. Fez menção de sair e esbarrou num homem que entrava. Notou que não era o andar dela. Muito sem graça, voltou para o seu lugar, mas dessa vez ficou de costas para o espelho. O elevador voltou a parar. A porta não abriu. O homem que o acompanhava no elevador disse um palavrão. Deu para entender que o elevador estava com algum problema. Pegou o fone para pedir ajuda à portaria. Não funcionava. Nem um som. O homem que o acompanhava no elevador se mostrou mais nervoso e puxou o fone de sua mão dizendo “me dá essa merda aqui”. Quando ele percebeu que o fone estava quebrado repetiu o palavrão anterior e começou a suar na testa. E agora? Essa foi a frase que repetiu três vezes aos berros. Calma... Essa foi a única palavra que, mesmo pronunciada de forma calma e serena, detonou a avalanche que estava contida naquele homem que o acompanhava no elevador. Socos, berros e muitos palavrões transbordaram por cada metro cúbico do elevador. Foi incrível perceber como os pensamentos que poucos instantes teimavam em não lhe abandonar, se escafederam. Pode notar que havia uma placa que dizia que cabiam 12 pessoas naquele espaço. Que sorte que só eram duas! Que azar que eram dois, sendo que um se transtornou, se agigantou e fez daquele espaço um cubículo quase irrespirável. O cara estava mal. O cara estava surtado. Tentou o celular, mas não pegava. Controlou-se para não esboçar nenhum sorriso, mas estava convicto de que teria um tempo a passar com aquele homem naquele lugar. O homem era forte e parecia que tinha um grande estoque de socos, berros e palavrões. Seguia desvairado. Subitamente o elevador se mexeu. Desnecessário mencionar o grande espanto e alívio. Quando a máquina parou era no andar dela. Saiu apressado e em frações de segundo se viu completamente atônito ao perceber que o homem que estava ao seu lado no elevador também saiu e também se dirigiu para a porta dela. Agora já se olhavam com ares de interrogação. Deve ter sido muito difícil conter as perguntas esclarecedoras, mas nada foi falado depois que o mais afoito tocou a campainha e ambos esperaram a porta se abrir. Sem dúvida alguma escutaram passos e a voz dela cantando, muito mal, um samba antigo. Ela encostou-se à porta, deve ter ficado na ponta dos pés e olhado pelo visor. Depois disso, fez-se de morta e não se escutou mais nenhum som que viesse de dentro do apartamento. Obviamente ali estava acontecendo uma situação. Tem tempo para um café? A resposta veio pelos ombros e pela cabeça. Andaram em direção ao elevador e com o olhar mostraram-se sem vontade de reviver a experiência recente no elevador parado. Desceram pelas escadas. Parecia um exercício para deixa-los tontos. Chegaram ao térreo. Havia uma padaria na esquina. Dois cafés. Puros, sem açúcar, sem adoçante. O tema foi introduzido de forma chula: Afinal, que porra é essa? Ela marcou com você? Sim, mas não para hoje. Eu já estava no prédio e resolvi dar um pulo para tirar umas dúvidas antes de lhe entregar o orçamento da reforma da cozinha. Está na cara que entrou em contato com dois profissionais para poder escolher. Ficou sem graça ao nos ver juntos. Risos e gargalhadas desenfreadas. Como é seu nome? Trocaram os cartões profissionais. Numa conversa franca e animada, combinaram um jeito de não perder a cliente. Quem sabe até conseguiriam fazer esse projeto juntos? Os tempos não estão para abrir mão de nada. Falando em tempo, parece que os dois se esqueceram dele. De totais estranhos, eles já pareciam amigos com certa intimidade. Mais um café? Não, obrigado... Tenho que ir. Só uma coisinha... Fale! Quer uma indicação de um bom psiquiatra?  Um sorriso foi a resposta e a introdução do convite: já que você quer cuidar de mim, vem em casa hoje à noite para jantarmos juntos...        

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