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Melissa

Quarta, 30 Dezembro 2009 17:38
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Muita gente sabia que ela estava para chegar. Laços, fitas, ursinhos, abelhas e mais um monte de fantasias foram colocadas como que de prontidão para recebê-la. O nome e o apelido já estavam certos. Com isso, criou-se uma intimidade. Não era um neném, era Melissa que estava na barriga. Era Mel que mexia ou dormia. Algumas vezes, testemunhei Mel reagir ao escutar a voz do pai. Um homem grande com o rosto em festa e os olhos azuis enfeitiçados de pura alegria repetindo cadenciado é o papai, é o papai. Acredito que há um lugar especial na memória da gente para cenas inesquecíveis e essa já foi para lá. Mel seguiu bem e em paz durante toda a gestação. E então, uma noite, dentro do que era previsto, Melissa resolveu dar sinais. A mãe sentiu contrações que lhe diziam que a hora estava próxima. Nada de pânico. Sabiam que havia tempo até para um banho e assim foi feito. Antes de sair de casa, a mãe checou se estava tudo certo e lembrou coisas de última hora. Levou o enfeite da porta? Pegou a carteirinha do convênio? Isso é sempre assim e ninguém sabe explicar o motivo. É a sensação que dá exatamente na hora de sair de casa para a maternidade. É uma última busca com os olhos e a mente tentando descobrir se há ainda algo importante a fazer ou acontecer antes da partida. Como se armas e bagagens fossem capazes de acomodar melhor tanta emoção... O futuro pai sabia que era inútil e até inapropriado discutir nessa hora. Com carinho e firmeza foi dando um jeitinho de fazer acontecer o que se fazia necessário para aquele momento. Conseguiram chegar em paz e a tempo na maternidade. E em paz Melissa nasceu. Bochechudinha, perfeita, abria e fechava os olhinhos, se mexia, chorava, se acalmava e parecia gostar de ver aqueles narizes achatados no vidro olhando para ela. Não sei quanto tempo passou até que cada um se desse por satisfeito e se desgrudasse daquele lugar. Sei que pode haver quem tenha dificuldades para acreditar, mas garanto que pude perceber muitos desejos e lindos sonhos no ar. Percebi também um manto de proteção e bênçãos vindo de longe, muito longe. Não faltou nada! Acreditem, Melissa chegou em boa hora!

Nem tão desimportante assim

Quarta, 21 Novembro 2012 18:51
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Finalmente eles chegaram. Fazia tempo que eu sabia que eles iriam aparecer. Já haviam dado as caras, ou melhor os capuchos, em muitos lugares da vizinhança. Claro que coisas assim acontecem por todos os lados da cidade, do estado e do país. Como no nosso prédio comercial nunca fomos importunados por eles, todos tínhamos a sensação de que estávamos muito bem protegidos. Como somos todos muito ocupados, nunca nos deixamos abalar com essas notícias horrorosas. Então eles chegaram. Foi no sábado. A ação começou só depois do vigia sair e durou umas duas ou três horas. Teve gente que deduziu que afinal os caras não eram maus, pois não vieram com intenção de machucar ninguém. As câmeras mostraram imagens nítidas de três moços armados com pés de cabras. Deixaram pistas. Foi fácil concluir que eles entraram pela garagem sem fazer disparar o alarme e que de lá foram para o segundo andar subindo pelas paredes externas. Teve gente que se admirou da perícia deles. Quebraram todas as portas sem ligar para trancas especiais. Entraram em todos os escritórios. Remexeram e vasculharam tudo. No conjunto de salas onde meu marido e eu trabalhamos não acharam nada que lhes interessasse. Na verdade, encontraram alguns pacotes de bolachas e se serviram. Fizeram uma pausa lá. Pode ser que se deitaram no sofá que uso para os meus pacientes. Pode ser que não, pois deviam estar apressados para ir embora. Conseguiram levar alguns computadores, dinheiro e talões de cheques que couberam em suas mochilas. Levaram junto a ingênua ou insana sensação de segurança que tínhamos até então. Em todas as partes do prédio reina um estranho e desconhecido mal estar. Não deixaram recados, mas todos ficaram com a certeza de que eles podem voltar e entrar onde e quando quiserem. Como ninguém se machucou, há quem insiste em dizer que não foi nada. Certamente poderia ser muito pior. As novas portas já estão sendo colocadas. Há quem comprou mais trancas e há quem jogou fora as que tinha. Há quem insultou a síndica e há quem a defendeu. Há quem está convicto que os moços pertencem a firma que instalou o nosso alarme. E há quem, como eu, insiste em ficar pensando o que pode gerar toda essa violência e por onde começar a acabar com ela. Quer se juntar a mim?

FÊMEA INSACIÁVEL

Terça, 30 Abril 2013 11:54
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Ela vive como um bicho que procura encrenca ao provocar outros maiores ou mais fortes. Tem recursos. Tem estudo. Já fez mais de uma pós. É trabalhadora. É vaidosa e cuida com esmero de sua beleza. Não há nunca, nem um único fio de seu cabelo fora do lugar. Sempre se apresenta com as vinte unhas esmaltadas e com brilho de quem acabou de sair da manicure. Seu corpo tem as medidas exatas. Nada falta, nem sobra. É mulher que chama a atenção em qualquer ambiente. É mestre na arte de conseguir passar recados ainda que calada. Seus quadris em movimentos quase imperceptíveis sabem emitir convites indecentes. Seu olhar faz coreografia com sua boca e assim, sutilmente, revela uma enorme aptidão para jogos deliciosamente obscenos. Sabe que existe uma fera astuciosa que habita sua alma deixando a mostra vestígios de uma fêmea sempre sedenta e faminta. Essa fera não lhe dá trégua. Acostumou-se a lançar olhares e fazer caras para atiçar os homens. Para alguns ela amedronta, mas para outros ela instiga. E nessa aventura de caçar e ser a caça, ela conheceu um complexo caminho do gozo. Após anos e homens que passaram, ela recolheu histórias que não pode contar em qualquer público. Ela explica que é movida por uma força incontrolável. É algo que vem de dentro dela, talvez da alma, do útero, dos instintos ou até dos quintos dos infernos. É algo extremamente forte, ao mesmo tempo perigoso, mas também desejável demais. Revela que costuma chorar. Chora muito. Chora como uma criança triste e gulosa que quer sempre mais.

JOGOS MODERNOS

Quarta, 28 Fevereiro 2018 16:52
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Eu ainda estava na cama tentando resolver o dilema de levantar ou me permitir um tempo de ócio a mais, quando o barulho do marido andando no corredor me fez decidir por colocar os pensamentos em ordem e ver o que tinha para fazer primeiro.  Decidi que o que queria fazer, antes de qualquer coisa, era lembrar o episódio que aconteceu no final da noite anterior. Chegamos de uma das nossas curtas viagens para o RJ. Quatro dias, muitos encontros e muitas emoções. Realmente muitas emoções! Emoções que ainda precisam ser mais bem digeridas, mas que, no momento, basta que se saiba que existiram. Comecei a lembrar de que quando saímos do aeroporto estava escuro e precisávamos achar um carro branco, de certa marca com um final de placa específico, acho que 73. A área de desembarque do aeroporto tem um espaço enorme, suficiente para uma caminhada saudável, mas eu não estava para isso àquela hora. Minha memória se juntou com a sensação de que estávamos num jogo que começou na escolha do aplicativo para encontrar o carro que nos levaria para casa. Não estou exagerando. Juro! Dá para ver pelo modo como meu marido se comporta cada vez que precisamos usar um veículo para nos transportar. Pegar um taxi virou a opção dos perdedores. Nós não! Meu marido tem três aplicativos, sendo que um ou dois deles se subdividem. Ele pode avisar que não tolera cigarro e vai gostar de ter balinhas e água para dizer que nem quer. Definitivamente nós conseguiríamos pegar um lindo carro, pelo menor preço e que fosse o mais rápido para chegar ao nosso destino. Assim que o avião pousou, meu marido pegou seu iphone e a busca começou. Seus dedos se moviam freneticamente e diante de uma e outra contrariedade um pequeno palavrão era cuspido de sua boca. Quando o carro era satisfatório, a distância que ele estava não era. Meu marido achou por bem me dizer que nossa cidade ainda não está entre as mais bem servidas deste tipo de serviço.  Eu já tinha conhecimento disso e devo ter respondido com um desses sons que não chegam a ser uma palavra. Da saída do avião até a saída do aeroporto há um percurso de cerca de quinze minutos. Durante os primeiros cinco minutos meu marido foi mexendo no seu aparelho e andando numa velocidade que me obrigou a ir bem mais depressa que meu corpo cansado estava querendo. A busca dele seguiu incessante. Ele passou a me mostrar quanto cada um cobrava. Meu marido estava com a faca e o queijo nas mãos para apertar um botão ou dar um comando e ganhar o tal jogo. Eu sabia que não era conveniente interrompê-lo e assim, após uns poucos minutos ele me anunciou triunfante que o nosso carro seria um HB, branco, com os números finais da placa, não tenho certeza, 73 e até disse o nome do motorista, que pode ter sido Rodrigo, ou outro qualquer. Como jogadores na última fase do jogo, passamos pelos portões do aeroporto em direção à área de desembarque. Agora só precisávamos achar o carro. Meu marido é mais alto que eu e com seu olhar consegue sempre varrer um campo bem grande. Andamos bastante de um lado para o outro. Fique perto de mim, ele me disse com uma voz firme, enquanto corria e buscava achar o carro que para nosso desgosto não estava facilmente à vista. No meu iphone diz que o carro está estacionado aqui. Experimentei dizer que o motorista poderia ter dado uma volta. Impossível! O aplicativo mostra que ele está aqui. Depois de um tempo, ousei dizer que não queria mais andar. Queria ir embora. Achei um lugar num banco e me sentei.  Empaquei. Meu marido começou a perceber que iria ser desclassificado do jogo. Ficou desacorçoado. Experimentei ajudar: Liga para o motorista. Já liguei! Ele não atende. Vou cancelar e buscar outro...  Nesse momento, enxerguei um taxi parado bem na nossa frente. O motorista do taxi saltou. Meu marido leu meus pensamentos e me disse que ele deveria estar aguardando alguém. O senhor está aguardando alguém? Não, estou livre. Quanto custa até o centro? O valor que ele deu era talvez 40% a mais que os carros que usam aplicativos. Rapidamente eu falei que o valor estava bom e que nós iríamos com ele. Meu marido entrou mudo no carro. Entre dentes me fez saber que ainda pagaríamos mais do que foi dito. Eu retruquei dizendo que pagaria quanto fosse. Ele foi eliminado do jogo. Estava amargando sua derrota, quando o motorista experimentou puxar conversa. Mudo ficou e eu troquei algumas falas com o motorista. Na porta de casa, meu marido me questionou se eu tinha dinheiro à mão. Achei minha carteira e tirei as notas para contar o dinheiro. Pronto! Por favor, confira se eu lhe dei o valor correto. O motorista contou e recontou. Não! A senhora me deu a mais. Ele me devolveu vinte e poucos reais. Boa noite e bom descanso! Vocês parecem cansados, mas já estão em casa e vão descansar. O senhor percebeu mesmo nosso cansaço. Boa noite para o senhor também. Meu marido se rendeu e desejou boa noite para o motorista. Game over.

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