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Pausa

Sábado, 30 Julho 2011 20:28
Publicado em Blog
Faz bastante tempo, no consultório, escutei um rapaz me dizer que torcia para ficar com gripe ou resfriado nos finais de semana. Achei estranho. Minha fisionomia mostrou-lhe que não alcancei onde ele queria chegar. Ele notou. Explicou que era pelo cansaço. Se estivesse doente poderia descansar, caso contrário a agenda familiar era sempre lotada. Fiquei com pena dele. O tempo passou. Num intervalo de um trabalho numa empresa, há alguns anos, um executivo me falou que, de tempos em tempos, se dava uma tarde ou um dia de "bem súbito". Era um tempo para curtir. Se tivesse um mal súbito teria que parar tudo e cuidar de si. Então, achou sensato se brindar dessa forma. Semana passada, lembrei-me desses dois fatos. Retornei gripada das férias. O corpo doía, estava toda congestionada e com um frio que cobertor e pijama não davam conta de resolver. Tomei remédio, chá e um banho quente. Fui dormir pensando que amanheceria curada. Besta ilusão dos que se acreditam tão importantes... Tive que ser sensata. Fiz ligações e desmarquei tudo. Comecei a sentir uma certa empolgação. Ajeitei um livro na cabeceira e me vi diante de vinte e quatro horas só para mim. Embora a gripe tirasse um pouco do encanto da situação, me dei conta de que saberia tirar proveito do meu dia. O livro que devorei era sobre Chico Buarque, escrito por Wagner Homem e me foi dado por uma grande amiga meses atrás. Ela me convidou para um café com bolo de fubá na sua casa. Só nós duas. Tínhamos não muito mais que uma hora. Como amantes apressadas, tiramos os sapatos e nos esparramamos à vontade no chão. Poderíamos usar aquele tempo falando de mil coisas. Não nos faltavam assuntos. Nunca faltou. Gracinhas dos netos, histórias envolvendo maridos e outros parentes, tudo foi falado rapidamente, como se fosse introdução. Para marcar bem a cena, minha amiga se levantou e por instantes sumiu. Quando retornou, tinha um livro para me dar. Fez questão de folheá-lo comigo. Sabia que eu iria gostar. Estava tudo lá: nossa época de juventude e as músicas que sabíamos de cor. A hora que tínhamos voou. Cantamos A Banda, Meu Refrão, Pedro Pedreiro, Folhetim e muitas outras. Cantamos emocionadas, como quem sabe um idioma incomum e acha um parceiro para conversar. Pensei que iria ler logo esse tal livro, mas as urgências e as obrigações não me davam nenhum espaço livre. Minha gripe deu. Entendi plenamente o rapaz que torcia pelo seu álibi de fim de semana. Sem nenhum desgaste, sem discussões, bastou mencionar a gripe e tudo pôde ser cancelado ou adiado. Na manhã seguinte, talvez levada pela gostosa sensação de não precisar fazer nada, tive vontade de viver um "bem súbito". Resolvi tirar mais um dia, acabar o livro, andar devagar pela minha casa, não atender celular, nem checar mensagens no computador. Tirei sonecas no meio da manhã, tomei banho fora de hora, almocei quando senti fome e chorei olhando as flores iluminadas pelo sol da tarde na minha varanda.

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