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BRUNA

Sexta, 22 Fevereiro 2013 17:21
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Dormi bem, mas acordei estranha. Consigo notar que o sol brilha. Noto, contudo, um desassossego dentro de mim. Quero entender e frear essa onda. Preparo meu café com leite e, como tenho um tempinho, pego uma revista que assino e nunca leio. Folheio-a e deixo-a para lá. Olho a hora e constato que a minha ajudante está atrasada. Escuto a voz do vizinho e me incomoda a sua ladainha pelo telefone. Ele parece gostar de fazer reclamações. Tenho e-mails para organizar, mas não sinto nenhum tesão para fazer isso. Já são mais de quinhentos. Que explodam! Procuro uma receita na internet e acabo resolvendo que vou fazer do meu jeito. O noticiário estampa que o Papa vai cair fora. Por mim, pode ir. Minha cabeça me lembra que a menina Bruna vai iniciar sua quimio na semana que vem. Resolvo abrir esse arquivo. As recordações de outras quimios me invadem. Sinto a excitação de revisitar um lugar querido. Lembro de chegar bem cedo no Hospital com minha mãe e receber o carinho de cada pessoa que formava a equipe de oncologia. Lembro de ver as crianças que faziam a quimio. Lembro dos sorrisos daquelas crianças, que serviam como avisos para que as pessoas não levassem tristeza e angustia para perto delas. Quem faz quimio acaba entendendo o ritmo lento das gotas da medicação. Só entra uma gota de cada vez. É assim que funciona e que dá certo. Não precisa, nem pode ser nada veloz. É o maior aprendizado de paciência. Bruna vai aprender. Bruna vai ser cercada de médicos, enfermeiras, nutricionistas e muitos outros profissionais que estarão trabalhando para lhe ajudar. Bruna tem sorte. Tem uma família para lhe dar todo o suporte, para lhe dar amor. Pode ser que, no futuro, decida ser médica ou enfermeira para poder dar vazão a sua gratidão. Pode ser que prefira deixar essa decisão para mais tarde e queira antes conhecer o mundo. Quem há de saber isso agora? Bruna hoje tem onze anos e olhos no futuro. Bruna hoje deve estar se preparando para sua quimio. É com ela que estou agora e com quem quero estar. É para ela que meu coração se dirige. Há muita gente que está torcendo por Bruna e que vai vibrar a cada etapa que ela ultrapassar. Um brinde à vida, à vida de Bruna. Le Chaim!

O BILHETE

Quinta, 28 Março 2013 17:28
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  Fui à ótica para dar um jeitinho nos meus óculos escuros. Era a terceira ou quarta vez que eu os levava para algum remendo. Não dava mais! Tive que aceitar a realidade. Pode jogá-los fora... Pedi apenas o estojo. Como se eu estivesse com um pássaro ferido nas mãos, delicadamente, tirei de dentro dele um bilhete e mostrei o papel já bem surrado para o homem que estava me atendendo. O olhar que recebi demonstrava mais que interesse. Era um olhar que me abraçou e me convidou a ler aquela mensagem: “À minha queridinha Rosali, Se eu pudesse lhe dar todas as felicidades possíveis e imagináveis... Se eu pudesse fazer com que você ficasse sempre saudável de corpo e alma... Se eu pudesse dar-lhe muitas alegrias e “naches”... Então eu não seria Mãe, mas uma pessoa com poderes mágicos. O meu turbante não me dá esses poderes... Mas os meus desejos são tão fortes, e pelo AMOR de filha e pessoa que você é, tenho certeza, D’us vai me escutar! Parabéns pelo aniversário! (51). Beijos, Beijos com muito carinho, Mamãe! 20/07/2004.” Eu não me contive e terminei de ler chorando. Um copo de água apareceu na minha frente. Agradeci o gesto. Bebi um gole. O homem me deu a certeza de ter disponibilidade para saber mais sobre minha história e senti vontade de lhe contar sobre como de repente, num dia como outro qualquer, o câncer de minha mãe apareceu. Foi apenas dois ou três meses antes dela escrever esse bilhete. Surgiu tão esquisito. Mamãe me ligou para dizer que sua calça nova não fechava na cintura. Não achei importante. Minha cabeça estava ocupada com outros assuntos. Corta os doces, mãe, e capricha na hidro. Isso não vai ser nada. Dias depois, ela insistiu e marquei um médico. Havia razão de sobra para sua preocupação. Ela foi internada e depois dos exames fez uma cirurgia exploratória. O médico apareceu no quarto do hospital já tarde da noite. Veio a temida notícia. Estávamos já deitadas e ouvimos a sentença caladas. Quando o médico saiu, mamãe pediu para apagar a luz e disse que era hora de dormir. Vamos conversar melhor sobre isso amanhã. Boa noite, minha filha. Não acreditei que ela conseguisse conciliar o sono! Em poucos segundos, escutei seu ressonar. Ela adormeceu em paz. Creio que naquela noite, ela resolveu que ia se agarrar no seu bom humor e na sua forma leve de encarar as situações que a vida lhe apresentava. Quis ainda compartilhar com aquele homem uma lembrança que me ocorreu. Perguntei se ele queria escutar. Por favor, conte... Então, disse a ele, que uma vez, numa fila de cinema, mamãe se fez passar por uma pessoa que adivinhava o futuro, pois seu turbante, o mesmo que ela cita no bilhete, lhe fazia incorporar essa personagem. Uma moça acreditou e queria marcar hora... Eu e o homem da ótica trocamos sorrisos. Como você voltou a falar no bilhete, me disse o homem, fiquei com uma curiosidade sobre uma palavra que sua mãe usou. O que é “naches” (lê-se narres)? É uma palavra em idish. Tenta traduzir uma mistura de orgulho com felicidade, um sentimento quase que indescritível. Aquela coisa que acontece com muita frequência no peito de um pai ou de uma mãe, quando um filho ou filha se forma, se casa, ganha um neném, recebe alguma promoção na vida ou até, simplesmente, demonstra estar de bem com a vida. Ele disse que entendeu. Achava até que já havia sentido “naches” dos seus filhos. Sorri. Ele passou a me mostrar armações. Meia hora depois, saí da loja com óculos novos e com a sensação de ter feito uma longa viagem.    

DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34
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(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

JULIO

Segunda, 22 Maio 2017 16:13
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Foi como se uma porta se abrisse súbita e inesperadamente pela força de um vento forte. Foi assim que me encontrei nesta madrugada diante de fatos que estavam empoeirados, embrulhados e guardados no sótão da minha alma. Tive o ímpeto de fugir, mas sabia que não tinha escolha. Muitas cenas estavam borradas. Meu irmão de quase 26 anos estava doente. Melanoma. Julio sempre teve muitas pintas. Era um charme que virou uma tragédia. Ele havia passado um tempo nos Estados Unidos, onde operou. O que exatamente será que ele operou? Lembro que seu médico oncologista americano se chamava Dr. Roland. Lembro que conversei com ele pelo telefone. Seu irmão vai voltar para o Brasil. Ele está curado? Ficou bom? Ele precisa voltar... Precisa ficar perto da família. Doutor, o senhor não está me respondendo... Preciso que o senhor cure meu irmão. É meu único irmão! Sei... Mas ele precisa ficar perto de vocês agora. Eu não fui capaz de interpretar essas falas. Julio voltou. Fui buscá-lo no aeroporto. Eu estava grávida. Naquele tempo, podíamos ver as pessoas assim que entravam no grande salão do desembarque. Papai devia estar ao meu lado, mas papai andava mudo e quase invisível naquela época. Vi meu marido e minha mãe. Acenei para eles. Onde estava meu irmão? Não o achei e cheguei a pensar que alguma mudança de última hora havia acontecido. Minha mãe e meu marido me abraçaram e com um susto entranhando no meu corpo, reconheci a voz do meu irmão naquele homem sem cabelo, envelhecido e sem brilho que vinha junto com eles. Julio ainda teria alguns meses de vida. Eu não tinha a mínima ideia de que o fim estava tão perto. Eu tinha um filho de dois anos e um para chegar em breve. O neném chegou um mês antes do tempo e o tio lhe conheceu. Julio me pediu que não o deixasse chorar. Estranho pedido. Não tive a oportunidade de saber o seu motivo. Cumpri o possível, me esforcei. Meus avós maternos fizeram uma festa de suas bodas de ouro. Julio foi. Não sei como ele estava se sentindo. Não sei se tinha dores. Ele foi. Foram meus sogros, primos, tios e alguns parentes que não víamos com frequência. Temos fotos para garantir isso. Que esforço Julio deve ter feito para comparecer nessa festa! Não sei ao certo se foi logo depois dessa festa ou pouco antes dela, mas o fato é que Julio anunciou que queria se casar. Que reboliço! Que confusão! Julio tinha uma namorada. Não era um namoro de muito tempo, ou pelo menos é assim que o fato está registrado na minha memória. Era uma moça não judia. Não lembro seu nome. Lembro que ela não tinha a aprovação da minha mãe, nem dos meus avós maternos. Eles queriam que Julio se casasse com uma moça judia. Não lembro o que papai achava. Posso imaginar que para ele a religião da moça e o impasse resultante não eram tão importantes, mas não posso garantir nada. Lembro escutar que a moça poderia estar se aproveitando de uma triste situação. Pensando nisso agora, me parece um absurdo sem pé nem cabeça. Eu, com menos um ano que meu irmão e ocupada com os filhos pequenos, não enxergava as garras da morte se aproximando dele. Os amigos do meu irmão conseguiam conversar, rir e, provavelmente, até chorar com ele. Um deles arrumou um apartamento e concedeu a realização do seu último desejo. Julio não casou, mas foi morar com a namorada. Meus pais o queriam perto de si, mas acabaram cedendo. Eles o ajudaram a montar o seu apartamento. Capaz que até minha avó tenha ajudado. Não sei, não lembro. Geladeira, fogão, televisão, batedeira, etc.. Eu estive lá. Não sei quantas vezes fui ao apartamento do meu irmão. Não imagino que foram muitas vezes. Guardo uma imagem do Julio deitado, descansando no seu quarto naquele apartamento. Lembro que havia um som forte vindo da sua respiração. Não era um ronco. Um som que traduzia um esforço. Não lembro o nome dela, da namorada. Ela estava lá e está esfumaçada na minha memória junto dessa respiração tão difícil e ruidosa. Não estou certa se falei com ela. Acho que nunca falei com ela. Eu adorava meu irmão. Tive sempre muitos ciúmes dele. Eu não sabia discriminar meu papel de irmã do papel de uma namorada. No meu aniversário de 25 anos, meu irmão não apareceu. Era uma pequena reunião no meu apartamento com meus filhos, marido e alguns amigos. Eu reclamei. Uma reclamação estúpida e fora de qualquer nexo. Julio estava mal. Eu não escutava, nem compreendia essa informação. Julio foi hospitalizado no dia seguinte ao meu aniversário ou talvez até já estivesse internado. Lembro que encontrei seu amigo médico no quarto do hospital. Dr. Silvio deve ter me dito coisas bem diferentes das que eu captei e levei comigo naquela ultima vez que vi meu irmão vivo. Ele vai ficar bem. Ele está até mais forte... E a namorada? Não a vejo nas minhas lembranças no dia do enterro, nem na casa de meus pais, nas rezas que foram feitas durante a semana de luto. A namorada evaporou. Foi a ultima mulher que meu irmão amou. Não sei o seu nome. Lembro escutar conversas do desmanche do apartamento do meu irmão. Ela ficou com tudo. Tudo? Quem sabe o que ela queria era apenas ele? Ela possivelmente deve ter esquecido o meu nome também. Precisei quase quarenta anos para revisitar essa moça. Eu não tinha olhos, nem ouvidos para a realidade tenebrosa. Não estava capacitada a entender, quanto mais analisar e emitir alguma conclusão. Foi assim que perdi uma pessoa que pode ter sido alguém muito especial, afinal meu irmão escolheu compartilhar seus últimos dias com ela. Olhei o despertador. Eram quase cinco horas. Olhei meu marido adormecido. Ele já estava comigo quando eu tive que conhecer essa dor.  Ajeitei-me nos seus braços. Estava sentindo uma emoção muito especial, como se tivesse entrado uma nesga de luz no sótão da minha alma.   

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