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Aniversário de Casamento

Sábado, 01 Agosto 2009 17:14
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Era um casal bonito. Estavam juntos há décadas. Todos os anos, na data do casamento, alguma comemoração acontecia. Ela adorava festa em casa. Dava uma trabalheira, mas ela nem tinha dúvida que valia a pena. Ele relutava, vinha com ponderações e sugestões de outras formas de comemorar, mas devia ser para fazer charme, pois quando a festa acontecia, ele se colocava no centro, dava as cartas, era o rei e não tinha para mais ninguém. Uma das comemorações ficou memorável. Foi um jantar para toda a família e amigos próximos. O estoque de piadas do anfitrião era enorme e os risos transbordaram noite adentro. Antes de servirem a sobremesa, ouviu-se aquele som de talher no copo pedindo atenção. O dono da festa iniciou um discurso para sua esposa. Eram palavras que lembravam os tantos momentos de amor, saudades, alegrias e enormes desafios que passaram juntos. Algumas lágrimas escaparam dos olhos azuis daquela senhora. Num dado momento, ele colocou em suas mãos um presente. Ela foi desembrulhando devagar. Qualquer lembrança seria muito bem recebida, mas quase perdeu a fala quando abriu a caixa aveludada azul.  Era uma gargantilha de ouro espetacular. Todos aplaudiram. A dona do presente nem podia acreditar, dizia baixinho que ele devia estar maluco, que não tinham dinheiro para essas extravagâncias e ao mesmo tempo demonstrava o quanto estava achando lindo. Foi bonito ver aquele homem colocando a jóia na sua mulher. Os convidados foram conferir de perto o presente. Cada um deixava um comentário. A festa seguiu até tarde. O último convidado saiu junto com o sol. Foi um sucesso. Tudo. Ela tentou dar um jeitinho na desordem, mas resolveu deixar para depois. Ao se preparar para dormir, pediu ajuda para tirar a jóia. Ele lhe perguntou se ela havia gostado. Ela disse que era evidente, mas que ainda achava loucura... Ele foi delicado, mas a interrompeu. Pois é querida, amanhã vou devolver essa jóia para a loja. Peguei emprestado para você usar hoje. Só hoje.  Ela entendeu tudo. E adorou. Trocou aliviada uma enorme dívida pela idéia bem humorada do marido. Custou a fazer silêncio naquele quarto naquela noite. Certamente não foi por conta da gargantilha...   

Joelhos

Sábado, 24 Julho 2010 17:33
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Cá estou eu na sala de espera. Trouxe meus joelhos para uma ressonância magnética. Não os acho bonitos. Nunca foram meu ponto forte. Já corri, joguei tênis e até esquiei. Um leve excesso de peso sobrecarregou constantemente os coitados. Faz um bom tempo que me exercito na água. O impacto é menor e os joelhos agradecem. Quando tenho oportunidade, adoro andar pela praia me molhando e sentindo o mar entre os dedos dos meus pés. Gosto de caminhar. Com boas companhias sempre fui longe e feliz. Recentemente, através de sinais dolorosos, os joelhos começaram a me avisar para pegar mais leve, mais devagar. Levei-os num ortopedista que me pediu para trazê-los aqui. Terei, daqui a pouco, 30 minutos numa máquina que vai inspecionar meus meniscos, patelas e cada pedacinho desta alavanca fundamental para minha locomoção. Já respondi num questionário que não vou dar problemas, não tenho fobia, nem asma. Estou sozinha e acho que posso ficar bem assim. Estarei com medo? Não vem com firmeza, mas a resposta é não. Os joelhos me perguntam se vou operar se houver indicação. Eu lhes digo que é cedo para falar disso. Eles insistem procurando me olhar nos olhos. Acho graça. São petulantes esses joelhos, mas me fazem rir. Como não vou escapar de dar uma resposta, declaro com solenidade que vou tomar remédios, fazer fisioterapia e até cirurgia. Vocês serão cuidados com atenção e carinho! Quero-os bem comigo até o fim da minha vida. Percebo que estou saboreando esse diálogo tão incomum. Resolvo contar para eles que tenho muitos planos de voar e sugiro com ironia que talvez, por isso, passem a ter cada vez menos trabalho. Eles se mostram surpresos. Parece que não se deram conta que já vôo há muito tempo. Não me incomodo de lhes explicar que voar é um prazer da minha alma. Na verdade, ninguém precisa dos joelhos para isso. Vôo para perto de quem me ama, quando estou longe de fontes de amor. Vôo para lugares lindos, quando os cenários são sombrios. É a esse voar que me refiro. Constato a cara de espanto de cada um deles. Sei que não temos muita sintonia e acho que eles nunca lograrão me entender. Se fosse meu coração... Ah! Seria outra estória. Como que me sacudindo para acordar, ouço uma mocinha repetindo meu nome alto e de uma forma meio impaciente. Levanto e respondo: já vamos. A mocinha me olha, constata que não há ninguém comigo e faz cara de pensar que não regulo bem. Meus joelhos acham graça. Gostam da piadinha. Chego rindo na sala de exame. Vai dar tudo certo.

O BILHETE

Quinta, 28 Março 2013 17:28
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  Fui à ótica para dar um jeitinho nos meus óculos escuros. Era a terceira ou quarta vez que eu os levava para algum remendo. Não dava mais! Tive que aceitar a realidade. Pode jogá-los fora... Pedi apenas o estojo. Como se eu estivesse com um pássaro ferido nas mãos, delicadamente, tirei de dentro dele um bilhete e mostrei o papel já bem surrado para o homem que estava me atendendo. O olhar que recebi demonstrava mais que interesse. Era um olhar que me abraçou e me convidou a ler aquela mensagem: “À minha queridinha Rosali, Se eu pudesse lhe dar todas as felicidades possíveis e imagináveis... Se eu pudesse fazer com que você ficasse sempre saudável de corpo e alma... Se eu pudesse dar-lhe muitas alegrias e “naches”... Então eu não seria Mãe, mas uma pessoa com poderes mágicos. O meu turbante não me dá esses poderes... Mas os meus desejos são tão fortes, e pelo AMOR de filha e pessoa que você é, tenho certeza, D’us vai me escutar! Parabéns pelo aniversário! (51). Beijos, Beijos com muito carinho, Mamãe! 20/07/2004.” Eu não me contive e terminei de ler chorando. Um copo de água apareceu na minha frente. Agradeci o gesto. Bebi um gole. O homem me deu a certeza de ter disponibilidade para saber mais sobre minha história e senti vontade de lhe contar sobre como de repente, num dia como outro qualquer, o câncer de minha mãe apareceu. Foi apenas dois ou três meses antes dela escrever esse bilhete. Surgiu tão esquisito. Mamãe me ligou para dizer que sua calça nova não fechava na cintura. Não achei importante. Minha cabeça estava ocupada com outros assuntos. Corta os doces, mãe, e capricha na hidro. Isso não vai ser nada. Dias depois, ela insistiu e marquei um médico. Havia razão de sobra para sua preocupação. Ela foi internada e depois dos exames fez uma cirurgia exploratória. O médico apareceu no quarto do hospital já tarde da noite. Veio a temida notícia. Estávamos já deitadas e ouvimos a sentença caladas. Quando o médico saiu, mamãe pediu para apagar a luz e disse que era hora de dormir. Vamos conversar melhor sobre isso amanhã. Boa noite, minha filha. Não acreditei que ela conseguisse conciliar o sono! Em poucos segundos, escutei seu ressonar. Ela adormeceu em paz. Creio que naquela noite, ela resolveu que ia se agarrar no seu bom humor e na sua forma leve de encarar as situações que a vida lhe apresentava. Quis ainda compartilhar com aquele homem uma lembrança que me ocorreu. Perguntei se ele queria escutar. Por favor, conte... Então, disse a ele, que uma vez, numa fila de cinema, mamãe se fez passar por uma pessoa que adivinhava o futuro, pois seu turbante, o mesmo que ela cita no bilhete, lhe fazia incorporar essa personagem. Uma moça acreditou e queria marcar hora... Eu e o homem da ótica trocamos sorrisos. Como você voltou a falar no bilhete, me disse o homem, fiquei com uma curiosidade sobre uma palavra que sua mãe usou. O que é “naches” (lê-se narres)? É uma palavra em idish. Tenta traduzir uma mistura de orgulho com felicidade, um sentimento quase que indescritível. Aquela coisa que acontece com muita frequência no peito de um pai ou de uma mãe, quando um filho ou filha se forma, se casa, ganha um neném, recebe alguma promoção na vida ou até, simplesmente, demonstra estar de bem com a vida. Ele disse que entendeu. Achava até que já havia sentido “naches” dos seus filhos. Sorri. Ele passou a me mostrar armações. Meia hora depois, saí da loja com óculos novos e com a sensação de ter feito uma longa viagem.    

DA SURPRESA AO ABRAÇO

Quarta, 05 Novembro 2014 16:03
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Ela chegou de surpresa. Era uma amiga antiga, que morava pertinho e, por circunstâncias da vida, foi para longe. É daquelas que nem podemos pensar muito na falta que fazem, para não ficarmos pensando só no tempo que já passou. Ela tinha menos de uma hora e queria colocar tudo em dia: maridos, namorados, filhos, netos, trabalhos e mais mil casos antigos e novos. Gostei de perceber que seus quase sessenta anos não atrapalham em nada seu animo e bom humor. Parecíamos duas adolescentes sentadas de lado, com as pernas encolhidas e uma de frente para a outra no mesmo sofá da sala. Contou que depois de quarenta anos, reencontrou um colega de escola que lhe ajudou a levantar o astral depois da última separação no ano passado. O colega era bonito, bem apessoado e chegado a um chamego como ele só! Era um homem equipado e atento para a arte do amor. Pelo tempo que nada acontecia nos últimos anos de casada, ela estava certa que sexo era coisa do passado e que suas chuteiras já podiam ser penduradas. Em seis meses dessa aventura, o galã lhe mostrou como estava errada. Foi um deleite. Reativou motores enferrujados e partes da máquina que estavam totalmente sem uso. Se não fosse a gula por sabores e cores de fêmeas diferentes, até que poderiam ser um belo casal. Foi uma pena... Com os olhos mareados, mas ao mesmo tempo ostentando um sorriso, contou-me que não fez dessa separação nenhuma tragédia, afinal já havia passado situações bem piores. Levantando-se como quem já estava começando a se despedir, me garantiu que estava livre e pronta para voltar a ser quem sempre foi e voar para onde tivesse vontade. Essa era a amiga que eu conheci! Nem eu, nem ela queríamos nos separar, então lhe sugeri que ficasse mais um pouco para comermos juntas uma pizza. Parece que acertei a deixa. Ela soltou a bolsa no chão e disse que não poderia ir embora, sem me contar uma passagem que ocorreu enquanto esteve casada com um homem ciumento e mal humorado. Voltamos para o sofá da sala e ela foi iniciando o relato como quem tinha um carretel para desenrolar. Era um fim de tarde de domingo. Só os dois e a TV ligada no programa para ajudar o fim do domingo acontecer. Nada na geladeira e pizza na certa. Deixei escapar um suspiro. Ela foi adiante. Disse que não aguentava mais esse tipo de refeição calórica, mas estava sem energia para discutir por tão pouco. Ele perguntou se podia ser quatro queijos, ela preferiria um queijo só, mas sabia que era mais fácil deixar pra lá. Quando avisaram que a pizza chegou, ela quase se levantou, mas lembrou que ele cismava com as conversas dela com estranhos. Na cabeça dele, provavelmente, o entregador não seria capaz de resistir aos encantos dela e nem ela aos apelos do moço. Sendo assim, ela ficou sentada e ele foi buscar a comida. Ela estranhou a demora dele, mas não se mexeu. Quando enfim ele apareceu, ela estranhou o aspecto da caixa da pizza. Estava suja e meio desconjuntada. Ela quase comentou alguma coisa, mas lembrou-se que poderia chatear seu marido. Nessas horas, ela sentia-se como uma prisioneira dentro dela mesma, mas tratava de pensar que não era tão ruim assim e que ele tinha mil outras qualidades. O marido colocou a caixa esquisita na mesa e os dois se sentaram para comer a pizza. Quando ele abriu a tampa da caixa, ela notou que havia sujeira em cima dos tomates e dos queijos. Um pouco de grama e até lama atestavam que o conteúdo da caixa havia caído no chão. Ela olhou para ele como pedindo uma explicação. Ele pegou seu prato e deu a entender que queria ser servido. Ela ensaiou um início de conversa. Você demorou... Ele abreviou um fim. O cara estava sem troco. Ela tentou de outro jeito. A caixa... Ele esmurrou a mesa e perguntou se dava para mudar de assunto.  Ela sentiu que não ia conseguir ficar sem falar alguma coisa, mas queria fazer força para evitar discussões desnecessárias. Quando tinha sentimentos fortes, era comum que ela sentisse vontade de rir. Era uma reação nervosa. Foi o que aconteceu. A vontade de rir foi ficando avassaladora. Ela tinha que fazer alguma coisa urgente. Lembrou que só havia uma saída. Uma vez, uma amiga lhe deu um conselho para resolver situações assim. Fixou o seu pensamento num ponto triste da sua vida e apertou a boca para engolir o riso e junto conseguiu até engolir a indignação. Olhou diretamente para a pizza repetindo sem som e sem parar apenas uma frase: “Meu pai morreu! Meu pai morreu”. Foi difícil, mas deu certo! Conseguiu não rir, nem falar nada sobre a grama e a lama. Enquanto contou para mim esse caso, chorava de tantas risadas. Eu também ri, apesar de perceber que o que aconteceu não era só uma comédia. Ela confessou que comeu um pedaço. Comeu por que quis. Sentiu vontade de misturar na boca as coisas que sentia com aquela última pizza que iria comer com aquele cara. Quis ter certeza de que nunca mais se submeteria daquele jeito. Comeu como quem tomou uma vacina. Já sem rir, nem chorar, ela me olhou nos olhos e me perguntou se eu concordava que era uma passagem importante da vida dela. Amigas se abraçam. Foi o que fizemos.  

QUEM ME ENVIOU UM QUEIJO?

Sexta, 22 Janeiro 2016 17:04
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Quando cheguei à garagem do meu prédio, ainda não estava escuro, mas era o fim do meu dia de trabalho. Eu estava feliz tanto pelo que realizei, quanto pela programação que eu iria me brindar para ter uma noite de paz e prazer. Já podia me ver sentada no sofá da sala com um lanche gostoso, escolhendo um bom filme para assistir. Lá pelas dez da noite, iria para cama ler um livro que, como um animal fiel, já estaria à minha espera na cabeceira. Deixei meus pensamentos rolarem, fiz as manobras para entrar na minha vaga e quando estava quase desligando o carro, percebi que um jovem vizinho me aguardava segurando gentilmente a porta do elevador. Apressei o passo, agradeci e entrei. Apertamos os botões de nossos andares. Trocamos algumas palavras. O elevador logo parou. Era o zelador que tinha correspondências e uma sacola para mim. Notei que se tratava de uma sacola térmica. Perguntei quem a havia deixado. Ele me respondeu sem pestanejar: Rita! Devo ter feito uma cara muito estranha. O zelador emendou: Regina! Meu semblante deve ter revelado a continuação do meu questionamento. Não lembro! Desculpe-me, mas ela falou e eu não estou conseguindo lembrar... Agora o nome que parece que foi dito é Cristina. Isso! Foi Cristina. Olhei para o meu jovem e gentil vizinho e percebi sua impaciência. Com razão. Obrigada, Sr. Mario, acho que pode ser Cristina... Vou averiguar e qualquer coisa, eu lhe avisarei. Assim que cheguei no meu apartamento, larguei minha bolsa, correspondências e a sacola térmica no balcão da cozinha. Estava curiosa. Abri a sacola térmica em busca de algum envelope, alguma mensagem. Nada. Havia apenas um saco plástico transparente e dentro dele um queijo minas com um jeito apetitoso.  Mais que depressa fui lavar as mãos e voltei para experimentar um pedacinho. Hummmm. Que delícia! Rita... Regina... Cristina... Eu havia estado com uma pessoa com um desses nomes. Ela me contou sobre sua decisão de se cuidar e se alimentar melhor. Claro! Devia ser ela. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que havia recebido o queijo, por sinal delicioso, e que queria me certificar se foi ela quem me presenteou com essa gostosura saudável. A resposta não demorou. Poderia ter sido ela, mas não foi. Ela me sugeriu vasculhar entre outras pessoas que gostam de mim tanto quanto ela. Liguei para o zelador. Sabia que não iria adiantar para muita coisa, mas talvez estivesse com necessidade de compartilhar o andamento dessa estranha situação. Sr. Mario, não era quem eu pensei que poderia ter sido... O senhor não lembra de mais nada? Deixe-me ver... Ah! A pessoa disse que era irmã do Marquinhos. Isso! Foi ele quem, na verdade, lhe mandou o queijo de presente. Marquinhos? É. Desse nome tenho certeza. Por que a senhora não olha no seu facebook? Fechei os olhos, balancei a cabeça e tive vontade de rir. Sr. Mario, se alguém aparecer falando do queijo ou da sacola, pode me ligar, estarei acordada. Olhei para o queijo e para a faca suja. Cortei mais um pedaço. Muito bom! Recordei que Marquinhos era o nome de um antigo cabelereiro. Durante um bom tempo cortei cabelo com ele. Conversávamos bastante, mas... Não. Não imaginava que ele iria surgir do nada usando um queijo como pretexto. Como se estivesse conduzindo uma charrete, eu segurei firme as rédeas e meus pensamentos me levaram para outro lugar. Há uns cinquenta e poucos anos convivi com outro Marquinhos. Foi no período do primário na escola. Será que aquele Marquinhos virou um fazendeiro que me descobriu e cheio de saudades apareceu, meio tímido, diga-se de passagem, deixando uma sacola térmica com um queijo de sua produção? Não consegui embarcar nessa fantasia. Na verdade, eu não podia ter certeza de nome algum. Comecei a pensar que talvez o queijo não era para mim. Algum outro morador era o destinatário daquela delícia. Experimentei pela primeira vez a sensação desconfortável de estar fazendo algo errado. Havia grandes chances de estar comendo um queijo que não era meu. Coloquei o queijo na geladeira e resolvi adiar a continuação desse episódio para o dia seguinte. Ao acordar, logo percebi que estava com o queijo na cabeça. Ou talvez com Marquinhos... Mas, que bobagem! Eu estava ficando atrasada para trabalhar. Minha mente ficou ocupada o dia inteiro o suficiente para não haver a mínima brecha para o queijo. Quando cheguei do trabalho à noitinha, não tive coragem de cortar outro pedaço. Confesso que, fora a quase certeza de que estaria comendo algo que não me pertencia, me veio um pensamento maluco de que alguém poderia querer se passar por uma bruxa igual a que deu a maçã envenenada para a Branca de Neve. Parei na portaria para falar com o Sr. Mario. Era folga dele. Perguntei ao outro funcionário se havia algum recado para mim. Nada. Deixei para fazer as devidas investigações no dia seguinte. Fui dormir certa de que havia alguma coisa bem errada. Quando amanheceu, corri para revirar novamente a sacola térmica em busca de um bilhete bem escondido nela. Inútil. Fui fazer compras. Será que devia ou não comprar queijo para o fim de semana? Afinal, Marquinhos me mandou um queijo lindo... Tive que rir e estava tão distraída que quase bati no carrinho de uma senhora. Ela percebeu que eu estava no mundo da lua e me disse que paixão de outono é mesmo uma maravilha. Eu sorri e deixei-a acreditar no que tivesse vontade. Voltei para casa, arrumei tudo e desci na portaria. Perguntei pelo Sr. Mario e fiquei sabendo que ele só viria de tarde. Puxa! A zeladora quis saber o que estava me afligindo. Comecei a falar da sacola térmica e do queijo e logo ela me interrompeu exclamando: Então foi a senhora? Fui... Pouco tempo depois, eu estava batendo na porta da legítima dona do queijo e da sacola. Levei meu livro de crônicas com uma dedicatória me desculpando pela deliciosa fatia que eu comi. Minha vizinha me ofereceu outra fatia. Demos algumas risadas. Saí daquele apartamento sem a sacola e sem o queijo, mas em troca estava com a crônica todinha na cabeça... 

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