Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: avós - Vista da Janela

CONTA VÓ!

Quinta, 05 Fevereiro 2015 09:15
Publicado em Blog
Na hora em que a TV é desligada, que o banho e a comida já foram dados, que os pijaminhas foram colocados e os dentes escovados, as crianças ficam deitadas, relaxadas e podendo voar com gosto e prazer na imaginação. É a hora ideal para contar histórias, ainda mais se vier, como na noite passada, com o pedido irrecusável: Conta uma história, vó? Embarquei sem pestanejar. Pode ser uma que vocês já conhecem ou preferem uma nova? Escutei um pedido para contar a que aconteceu quando o papai deles era criança. Qual? Aquela que ele estava na creche e não pode entrar... Ah! Já sei! Estão prontos? Sim! Começa vovó! Vou começar com “Era uma vez”, pode ser? Pode! Então, lá vai: Era uma vez um menino muito querido que se chamava Marcelo... Fiz de propósito uma pausa, pois assim pude perceber o pequeno Leo, de três anos, e sua irmã Luna, de quase seis, sorrindo contentes ao ouvirem o nome do pai. Prossegui. Ele nasceu numa grande cidade, no Rio de Janeiro. Era um bebê bonito, esperto, comia e dormia muito bem. Quando ele completou dois anos e dois meses ele ganhou um irmão, Renato. O titio... Ah! O tio Renato! Isso mesmo, mas a história de hoje se passa antes do titio nascer. Desde uns dois meses e até completar um ano, Marcelo tinha uma rotina... O que é rotina vovó? Luna me fez saber que estava atenta. Rotina é o que a pessoa faz sempre igual. Por exemplo, a rotina que vocês têm pela manhã é acordar, escovar os dentes e tomar o café da manhã. Entendeu? Posso seguir? Pode. Você também entendeu Leo? Sim. Todos os dias, Marcelo acordava bem cedo. Bem cedo de verdade, antes das seis da manhã. No RJ, em geral, faz muito calor e os raios de sol nas primeiras horas da manhã eram como trombetas que acordavam Marcelo para aproveitar seu passeio matinal. Eu trocava sua fralda, alimentava-o e colocava-o no carrinho muitas vezes só com uma fraldinha. Como morávamos perto da praia, curtíamos um belo espetáculo todos os dias. O movimento das ondas da praia, as cores do céu, da areia, as pessoas fazendo exercícios, enfim, era tão maravilhoso de ver, que eu sempre me admirava com a beleza de cada novo dia. Como eu voltei a trabalhar quando Marcelinho tinha uns cinco meses, quando chegava perto das 8:00 horas, a vovó ou o vovô apareciam para ficar com o Marcelo. Eu tinha que ir trabalhar. Tinha? Luna não deixou escapar e continuou a questionar: Quem mandava? Não, não tinha ninguém que mandava. Sempre gostei de trabalhar fora de casa. E o Marcelo? Luna quis saber. Ele ficava muito bem. Como você sabe? Ele sabia falar? Não. Mas dava para notar que era um bebe alegre. Você tem para mostrar um vídeo dele no seu i phone? Não. Não havia i phone quando seu pai era neném. Puxa... Mas temos fotos, vocês já viram. Posso seguir a história? Só mais uma coisinha vovó... Ele ficava o dia inteiro com os avós dele? Ele ficava muito com os avós sim, até que com um ano, Marcelinho foi para creche. Ele ficava no período da manhã. O vovô levava e buscava de carro.  Eu ia e voltava com eles, já que trabalhava perto dessa creche. Como ele já falava algumas palavras, todos os dias contava para o vovô o que havia almoçado junto das outras crianças. Era engraçado escutar aquele menininho tão pequeno dizendo que comeu batata, arroz e figadô...  O vovô dele adorava contar para todo mundo como seu neto era inteligente, pois falava direitinho muitas palavras e, além disso, falava até em francês... Figadô. Bem, voltando à história... Eu dava aulas na faculdade perto da creche. Na hora do meu almoço, aproveitava a carona do meu pai para levar Marcelo para dormir algumas horas no seu bercinho em casa. Eu comia alguma coisa e depois voltava correndo para trabalhar. No fim da tarde, eu me encontrava com meu filhinho e com minha mãe no calçadão. Era a bisa Esther? Era sim. Era um tempo de muita correria, pois havia hora para entrar na creche e no trabalho, mas é também um tempo que me deixou muitas saudades... Como meus pensamentos me emocionaram, fiquei embotada e sem conseguir prosseguir até que a voz do Leo me chamou de volta para o agora: Vai vó... Continua! Respirei fundo como tentando inalar alguma coisa que me restituísse o equilíbrio. Muito bem! Um dia, o carro do vovô quebrou e ele avisou que não poderia nos levar. O jeito foi pegar um taxi para a creche. Quando lá chegamos, uma professora ou babá, não me lembro bem, inspecionou a cabeça do Marcelo e com um tom grave e sério decretou: Essa criança tem piolho, não pode entrar! Tome esse remédio e passe na cabeça dele por três dias seguidos. Fiquei lívida. Luna quis saber o que é lívida. Gostei de perceber que ela estava atenta. Branca, como quem vai desmaiar. E prossegui. Eu tinha que ir para o trabalho. Tinha que dar aula. Não teve jeito e levei-o junto comigo. Ah! Esqueci um detalhe... Eu estava grávida e, por conta de enjoar algumas vezes, tomava um remédio para diminuir esses enjoos. Bem, cheguei à faculdade e tive que me explicar para meu chefe. Ele não gostou nada de ver uma criança na sala de aula. Chegou a dizer que eu parecia uma lavadeira de roupas que vem do subúrbio carregando filho nas casas das madames... Você parecia mesmo lavadeira vó? Não. Não parecia, Luna, e engoli minha raiva sem responder. Papai fala que Isso não faz bem vovó. Eu sei e até hoje penso que deveria ter dito ao meu chefe como admiro essas mulheres trabalhadoras, que ele se referiu com tanto desprezo. Dei todas as aulas com o pequeno Marcelinho rabiscando com giz no chão, correndo, caindo, chorando, fazendo cocô, tomando mamadeira ou sendo distraído por algum aluno. Definitivamente uma sala de aula numa faculdade não é um lugar apropriado para um menino de um ano. Quando acabei de dar a última aula da manhã, em vez de ir para casa, resolvi me consultar com Alzira, a empregada da minha sogra, a vovó Edith, sobre esse tal de piolho, que não saia da minha cabeça desde a hora que Marcelo não pode entrar na creche. Alzira sentou Marcelinho no seu colo e o examinou com muita atenção. Fio por fio. Ele não era muito cabeludo. O veredito não demorou. O que é... Para Luna! Deixa a vovó contar... Calma, Leo! Veredito é o que se fala com certeza depois de muito pensar ou discutir sobre um assunto. Então, Alzira disse que não havia nem um piolho na cabeça do Marcelo. Esse menino está com sopa grudada no cabelo! É isso que confundiu alguém lá na creche. Sopa grudada no cabelo! Tornei a ficar lívida. (Olhei para ver se Luna sacou a palavra e ela tinha um sorriso nos lábios). Que loucura! Um engano que me fez passar uma manhã bem complicada! Fomos para casa. Marcelo almoçou e logo adormeceu. Eu quase nem comi nada, mas estava enjoada. Antes de voltar para o trabalho, achei que seria bom tomar meu remédio contra enjoo. Peguei-o e tomei uma colherada correndo, pois estava bem atrasada. Logo que senti o gosto do remédio comecei a gritar. Ai! Ai! Troquei o remédio! Não reparei e peguei o remédio errado! Engoli o remédio do piolho! Liguei correndo para meu médico. Alô! Dr Castilho? Sou eu, Rosali... Você está bem? Estou sim, quer dizer, estava, mas acabei de engolir um remédio para piolho... É mesmo Rosali, disse ele com espanto e me perguntou a razão de eu ter feito isso. Foi um engano... uma longa história... Tive vontade de chorar, mas não quis parecer mais maluca do que já estava parecendo, pois estava muito aflita. Perguntei-lhe o que iria acontecer com meu neném na barriga? O que devo fazer? Preciso vomitar? Dr. Castilho, numa voz suave, mas firme, disse para eu me acalmar. Tome um pouco de leite morno e nada vai acontecer. Você está estressada. Precisa relaxar. Ah! Guarde o remédio de piolho bem longe dos seus outros remédios. E se precisar de mim, pode ligar a qualquer hora. Desliguei já bem mais calma. Tomei o leite morno e voltei para o trabalho. Tudo acabou bem. E assim termina essa história. Léo estava ressonando a sono solto e Luna se ajeitou na cama, puxou seu lençol e procurou a posição para dormir. Momento precioso.                  

AULAS DE PIANO

Quinta, 20 Abril 2017 16:16
Publicado em Blog
Era uma vez, há muito tempo, uma menininha alegre e esperta, chamada Rosali. Era você vovó? Era. Bem, Rosali ia à escola e tinha muitos amigos lá. Um dia, sua amiga Sara lhe contou que havia começado a aprender a tocar piano. Falou maravilhas da professora, das músicas e de como era fácil ser uma pianista. Iria viajar pelo mundo todo tocando piano para grandes plateias... Rosali ficou impressionada e com a certeza que essa era uma atividade bem legal. Todos os dias, Sara contava os progressos que fazia e assim, Rosali foi ficando cada vez com mais vontade de também fazer essa aula. Antes de falar com a mamãe, Rosali conversou com seu irmão, Julio. Ele era só um ano e vinte dias mais velho que ela. Eram muito bons amigos. Julio adorava música e facilmente se entusiasmou pela ideia de também aprender a tocar piano. Numa noite depois do jantar, quando papai e mamãe estavam silenciosos lendo, Julio e Rosali pediram licença por interrompê-los e se puseram a falar sobre aulas de piano. Os olhos azuis de mamãe brilharam. Ela logo gostou da ideia. Mamãe disse para o papai que tocar um instrumento é muito bom para o desenvolvimento das crianças. Papai explicou que concordava que era uma ótima ideia, mas precisava saber se ele conseguiria pagar pelas aulas. Vovó, seu pai, nosso bisavô, trabalhava em que? Ele sempre foi comerciante. Assim que casou vendia joias, passados uns anos, teve loja de brinquedos, depois loja de carros e mais tarde se tornou um corretor de imóveis. O que é isso? É a pessoa que vende casas, terrenos e apartamentos. Seu bisavô tinha um jeito especial para fazer negócios. Sua conversa era agradável e interessante. As pessoas gostavam de lhe escutar. Ele me ensinou o valor da palavra. Tudo o que dizemos é importante. Não podemos falar bobagens nem mentiras para não perdermos nunca a credibilidade. Vó... Calma, eu explico. Quando a pessoa perde a credibilidade é quando não se acredita mais nessa pessoa. Puxa! Isso não é nada bom mesmo! Bem, Rosali sabia dizer o preço das aulas e papai disse que daria para pagar uma aula por semana para cada um. Julio e Rosali deram gritos de alegria! Mamãe começou a falar que ia procurar uma professora, quando Rosali a interrompeu e lhe entregou um papel com o nome, endereço e telefone da professora da Sara. Papai exclamou: Que menina eficiente! Mamãe ligou logo para a professora e combinou que no dia seguinte, às dez horas levaria seus filhos para conhecê-la. Rosali e Julio dormiam no mesmo quarto e naquela noite ficaram de conversa até tarde. Eles estavam muito animados. Foi difícil sossegar, mas acabaram adormecendo. No dia seguinte, acordaram mais cedo do que o normal, escovaram os dentes, foram para a cozinha e como mamãe não estava lá, prepararam tudo que iam precisar para o café da manhã, comeram, beberam e foram se arrumar. Quando mamãe levantou da cama e foi para o banheiro, até levou um susto quando viu as duas crianças prontas na porta de casa. Eu já me senti assim vovó. Quando foi? Foi quando fui pela primeira vez na aula de equitação. Papai disse que eu não cabia dentro de mim! Era assim mesmo que eu estava! E você? Já ficou assim? Sim! Quando fui viajar de avião pela primeira vez. Era uma viagem para a casa da Bisa Edith no RJ. Foi muito legal! Bem, Mamãe não demorou a ficar pronta e os três saíram de casa em direção à casa da professora de piano, que por sinal, chamava-se Dona Irene. Vovó, qual o carro que sua mamãe tinha? Nenhum. Minha mamãe não dirigia. Ela chegou a tirar a carteira de motorista, mas isso já é outra história... Bem, Mamãe deu uma mão para o Julio e a outra para Rosali. Depois que caminharam uma meia hora, chegaram numa rua calma e bonita. Logo escutaram o som de um piano. Os três ficaram parados como encantados por uma magia. Era lá! Era aquela a casa da professora Irene! Mamãe tocou a campainha. O piano se calou. Em poucos segundos, uma senhora de cabelos pretos, arrumados como se fosse um capacete e vestida com uma linda saia estampada de flores apareceu. Era a professora vovó? Sim! E ela usava brincos de pérola que combinavam com um colar também de pérolas. Bem, Quem quer ser o primeiro? Foram essas as palavras iniciais da professora. Julio apontou para Rosali ao mesmo tempo em que Rosali apontou para Julio. Que engraçado vovó! Pois é, mamãe não achou muita graça e disse para Rosali ser logo a primeira. Julio e mamãe ficaram num sofá perto do piano. Os dois sabiam que não podiam conversar e nem fazer barulho. Eles não podiam atrapalhar a aula da Rosali. Não é fácil ficar assim! Que situação! De repente, apareceu um menino. Ele devia ter uns sete ou oito anos. Uma idade como a do Julio ou como da Rosali. O menino estava descalço, de shorts, sem camisa e bem suado. Ele chegou bem perto do Julio e quase sussurrando, convidou-o para brincar no quintal atrás da casa. O Julio foi? Claro! Ele foi correndo, nem virou para trás. Mamãe, num ímpeto, se levantou como se fosse fazer Julio voltar para o sofá. Pensou melhor, fez um gesto, que fazia muito sem perceber, de erguer ligeiramente o braço e abaixar a mão, meio que dizendo para si mesma para deixar o menino aproveitar. O quintal não era grande, mas Julio admirou o espaço como um pássaro que sai da gaiola. Um sorriso largo encheu seu rosto. Vó, eu vou fazer um desenho do Julio com essa boca bem grande ocupando todo o seu rosto. Ótima ideia! Bem, Julio notou que havia uma marcação de gol feita com um par de chinelos. Era mais que um convite para jogar bola. Os meninos não perderam tempo. Aquele espaço se tornou para eles um estádio e o jogo era a decisão de um campeonato mundial. Os dois meninos gritaram, chutaram e fizeram montes de gols. Essa alegria toda durou mais ou mesmo uma meia hora, que foi quando a professora deu por terminada a aula da Rosali e sem fazer nenhum intervalo, num tom de voz seco e forte, disparou uma pergunta para mamãe: Onde está o seu filho? Puxa vovó, a professora era meio brava, não era? Ela era de poucas palavras, poucos sorrisos e acabava parecendo brava. Bem, Mamãe devia estar entretida com seus pensamentos e até se sobressaltou com o questionamento repentino. Meu filho deve estar com o seu. Em silêncio, a professora deu as costas para mamãe e foi para o quintal. Mateus! E agora? Como esse menino suado e imundo vai se sentar para uma aula de piano? Julio era esperto e logo entendeu duas coisas: primeiro que o novo amigo se chamava Mateus e segundo que ele estava levando uma bronca da mãe dele. Dona Irene estava chateada e colocou as mãos na cintura como esperando uma resposta do seu filho. Mateus pediu calma para a mãe e saiu de cena. Logo voltou com uma toalha e uma camiseta limpa para emprestar para Julio. Deu certo. O problema foi solucionado e em poucos minutos Julio estava à frente do piano, ao lado da professora Irene. Mamãe nem podia perguntar para Rosali se ela gostou da aula, não queria fazer barulho e levar bronca daquela mulher braba. Mateus ficou com pena de perder o parceiro do futebol, mas rapidamente deve ter lembrado a expressão que diz que quem não tem cão, caça com gato e foi cochichar no ouvido da Rosali algumas palavras que fizeram a pequena menina balançar a cabecinha e segui-lo em direção ao quintal. Vó, Mateus chamou a Rosali para jogar bola? Exatamente! O futebol, como se dizia na gíria daquela época, voltou a comer solto! Rosali sabia chutar direitinho, gritava e se esbaldava com cada gol que ela ou Mateus fazia. Que pena que deu quando a aula do Julio acabou e Mamãe foi até o quintal para chamar Rosali para ir embora para casa. Mateus choramingou que a partida ainda não tinha terminado e sugeriu que os três poderiam ficar brincando. Dona Irene nem deixou Mateus terminar suas argumentações e lembrou que todos precisariam se aprontar para escola. Semana que vem eles voltarão e então vocês vão brincar novamente. Com essas palavras, Dona Irene abriu a porta e estendeu a mão para se despedir da mamãe e dos novos alunos. Mamãe, Julio e Rosali caminharam meia hora de volta para casa. Foram conversando. Mamãe queria saber se eles gostaram. Sim! Eu gostei, disse o Julio. E eu também, disse a Rosali. A professora disse que vocês vão precisar estudar em casa. É... Ela falou sim. Todos os dias! Pode deixar mamãe. Naquela semana, entre a primeira e a segunda aula, Julio e Rosali  fizeram algumas vezes um exercício de escala. Vó, como é esse exercício? Eles tinham que tocar dó, ré mi, fá, sol, lá, si, dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó com as duas mãos muitas vezes. Bem, A semana passou e quando Julio e Rosali chegaram à casa da professora para a segunda aula, Dona Irene perguntou imediatamente se mamãe havia trazido a camiseta do Mateus. Mamãe lhe entregou um embrulho, onde a camiseta estava lavada e passada. Então, a professora se dirigiu para as crianças e indagou quem iria ser o primeiro a ter aula. Os dois repetiram o mesmo gesto de um apontar o outro. Vó, dessa vez a mamãe achou graça? Não achou nenhuma graça. Mamãe ficou surpresa, mas rapidamente deu a ordem para que Rosali fosse a primeira. Não é justo, mamãe. Fui a primeira da outra vez, agora e a vez do Julio ser o primeiro! Não, mãe! Eu quero ser o segundo! Eu é que quero! Dona Irene já estava colocando as mãos na cintura, quando mamãe se abaixou e ficando mais perto dos seus filhos perguntou: Quando eu quis saber na semana passada se vocês gostaram, vocês me disseram que gostaram. Acho que eu não fiz a pergunta direito. Vocês gostaram da aula de piano? Querem estudar esse instrumento? Ou vocês gostaram de brincar com Mateus de jogar bola no quintal? Julio foi o primeiro a responder. Eu gostei de jogar futebol com Mateus e prefiro jogar a tocar piano. Mamãe não conseguiu segurar seu desapontamento, mas a sinceridade do filho era muito mais importante. E você, Rosali. Rosali queria dizer que também preferiria brincar, mas achou que sua mãe iria ficar muito decepcionada com ela. Rosali sentia que precisava dar uma resposta. Parecia que um relógio fazia tic, tac na sua cabeça. Bem, eu gostei das duas coisas. Com essa resposta, Rosali imaginou que mamãe ficaria mais feliz. Vó, então ela teve que ter a aula? Mas ela não queria... De fato, mamãe deu por encerrada a conversa, apontando a banqueta ao lado da cadeira da professora para Rosali se sentar. A aula teve inicio. O futebol e a algazarra no quintal também. Rosali se esforçou para não imaginar Julio e Mateus brincando e se divertindo, mas cada vez que Rosali pensava em não pensar, mais ela pensava neles. Foi ficando triste e se afastando da aula. Lágrimas começaram a correr pelo seu rostinho. O que está acontecendo menina? Nada... Minha mão está doendo um pouco. Era verdade, mas não era a razão das lágrimas. Dona Irene tentou seguir com escalas, bemóis e sustenidos, mas o interesse da Rosali já havia evaporado. Vó, eu já tentei não pensar numa coisa e essa coisa ficou o tempo todo na minha cabeça. O que era? Era na época que eu queria ter um cachorro. Bem, Para Rosali, aquela aula durou um tempo sem fim. Pode levantar menina, a aula acabou. Mamãe, que ficou acompanhando a aula, dessa vez sem se distrair nos seus pensamentos, percebeu que Rosali não estava nada bem. Mamãe se abaixou para conversar com sua filha. Fale comigo... O que está acontecendo? Mamãe, eu também queria brincar, mas não consegui falar isso quando você perguntou. E as aulas de piano? Não lhe interessam mais? Acho que não. Você vai ficar triste mamãe? Eu ficaria muito triste se minha filha não conseguisse falar comigo o que pensa e o que sente. Venha mais pertinho, me dá um abraço bem apertado e gostoso Rosali! Quer dizer que eu posso parar com essas aulas? Pode. Posso vir aqui só para jogar bola no quintal com Mateus e Julio? Mamãe foi se erguendo e já ia responder, quando a professora se adiantou: Nem pensar! Aqui não é parque público. Puxa! Essa professora não era nada gentil, não é vovó? Não mesmo! Ela sabia muito bem dar ordens e falar palavras ásperas. Engraçado você dizer palavras ásperas vovó, mas dá para entender que são palavras que machucam, não é isso? Exatamente isso! Bem, Rosali e mamãe foram chamar o Julio para ir embora. Ele ainda queria brincar. Não dá... Precisamos ir. Julio obedeceu. A despedida da professora foi mais fria do que a da primeira vez. No caminho, os três tiveram tempo suficiente para conversar e acertar muito bem todo o assunto das aulas de piano. Depois, começaram a cantar. Estavam felizes. Estavam bem. Estavam leves e em paz. É bom demais se sentir assim!    

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook