Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: Amor - Vista da Janela

ACONTECEU COM MINHA AMIGA

Sexta, 07 Outubro 2016 18:46
Publicado em Blog
Nem era tão tarde, mas eu já estava de pijama e pronta para me recolher. Gosto muito dessa hora. Deixo-me inundar de silencio e sento na beira da cama, perto da minha cabeceira, para realizar uma rotina que já faço quase sem pensar. Primeiro pego o copo de água para tomar meus remédios. São dois: um cuida da minha pressão arterial e o outro do meu colesterol. Depois, acerto o despertador para o horário que preciso acordar no dia seguinte. Já não me lembro da última vez que acordei com o som desse velho despertador. Faz tempo que descobri um prazer muito grande de competir com essa máquina e desliga-la todos os dias sem ouvir o som que deveria me tirar do meu sono. Por fim, pego o livro e os óculos, me enfio nas cobertas e ajeito o travesseiro para ter a posição mais adequada para leitura. Todas as noites, deixo meu celular, sem som, carregando numa tomada que fica no corredor, perto da entrada do meu quarto. Quando nessa noite passei por ele, notei que havia sinais de mensagens. Ler ou não ler... Sabia que se tentasse ignorar essas chamadas, eu poderia ficar remoendo fantasias na cama. Era preferível saber o que se tratava. Das quatro mensagens que eu tinha, uma me fisgou. Uma grande e querida amiga, (preciso confessar que mudei seu nome e algumas partes da trama), Adélia, usando o áudio me contou que havia sido furtada. O ocorrido tinha sido no domingo à noite, entre 19:00 e 22:00 horas, quatro dias atrás. Senti um monte de emoções. Não hesitei, liguei imediatamente para Adélia. Puxa! Como você está querida? Estou bem, mas foi uma loucura. É muito estranho lembrar a cena que vivi ao entrar em casa e me deparar com tudo de pernas para o ar. Minha amiga descreveu aos borbotões e com detalhes os armários e gavetas que foram revirados e esvaziados. Eu escutava e fui percebendo uma crescente indignação dentro de mim. Adélia seguia falando. Eu moro em Ipanema, num edifício, meu apartamento é pequeno, são dois quartos... Lembra? Sim, lembro. Parece que quem esteve aqui sabia bem o que queria levar. Estava procurando joias e os dólares. Tenho montes de bijuterias. Não levaram nenhuma. Eram competentes. Profissionais. Eu tenho uma tranca especial na porta de casa. Você tem? Tenho querida, tenho sim, mas confesso que não a uso. Pois é, eu também tinha e não a usava. Agora, por favor, passe a usá-la. Isso pode lhe salvar de um dissabor como esse que eu tive. Concordei e segui na escuta. Adélia contou que no domingo pela manhã tinha saído com a irmã para passear. Foram andar de VLT no centro do Rio de janeiro. Almoçaram junto com a mãe e depois acharam bom descansar um pouco, já que à noite teriam um jantar em família. Adélia foi para o seu apartamento. Teve tempo de colocar música, ficar bem à vontade, se espalhar no sofá e ler uma revista. Deu uma boa cochilada. Quando despertou, olhou pela janela e notou que a luz do dia já estava sumindo. Precisava tomar um banho rápido, se arrumar e sair. Como sempre, ao sair, bateu a porta e verificou se estava bem fechada. Adélia lembra que quando pegou o elevador, verificou a hora. Eram 18:55. O jantar foi na casa do primo Renato. Era o jantar de Rosh Hashaná, Ano Novo Judaico. Muita comida gostosa, bolo de mel, peixe, frango, massa, compota, frutas, nozes e muito mais. Muita gente alegre e muitas risadas. Foi uma noite muito gostosa. Adélia lembrou que no ano anterior seu marido ainda era vivo, mas não lhe acompanhou nesse jantar. Ele passou por alguns meses de doença antes do desfecho triste e esperado. Adélia emocionada me disse que exatamente naquele domingo fazia um ano que ela havia ficado viúva. Tentei esticar meu braço e alcança-la para um abraço. Tentei encontrar as palavras mais próprias. Só saiu de mim um murmúrio. Pigarreei para reencontrar minha voz. Eu sei. Foi só o que consegui dizer. Adélia, então, voltou a falar de como ela se despediu da família no jantar e foi para sua casa. Logo ao entrar, notou na sala alguns objetos em cima da mesa. Achou estranho. Adélia é organizada e não costuma sair de casa deixando nada fora do lugar. Olhou para dentro de seu quarto e custou a entender o que estava vendo. As suas roupas estavam emboladas pelo chão. As gavetas esvaziadas. Sapatos, bolsas, papéis, fotos, remédios, etc. Tudo espalhado pelo quarto. O fundo falso do armário, onde guardava as joias, que o marido havia lhe dado, e os dólares que sobraram da última viagem, estava escancarado. Nem sombra do que antes estava lá dentro! Que desgraçados! Quebraram ou sujaram alguma coisa? Não, não fizeram nada disso. Apenas pegaram o que se propuseram a pegar. Que violência! Como você está querida? Não vou me deixar abater por isso. Foram-se os anéis e ficaram os dedos! Adélia, você tem direito a estar bem chateada... Não adianta! De que me adianta ficar com raiva? Você deu queixa na polícia? Dei. Você sentiu que eles vão procurar descobrir quem foi o ladrão? De jeito nenhum! Eles me aconselharam a passar a sempre usar a tranca, mas foram taxativos em afirmar que esse furto foi feito por pessoa que me conhece, que conhece meu apartamento e onde guardo meus valores. Começaram a levantar suspeitas. Segundo eles, nesse tipo de ação, o meliante pode ser a faxineira, ou alguém que tivesse feito algum serviço para mim ou até um de meus amigos e parentes. Como cereja do bolo, o delegado, sabendo do meu estado civil, me perguntou se eu trazia muitos homens para casa...Nunca se sabe quem se conhece num bar ou numa balada, não é mesmo mocinha? Canalha! O que você respondeu para ele, querida? Nada. Olhei para ele com indiferença, perguntei se faltava fazer alguma coisa, me levantei e fui embora. Você é mesmo incrível! Conseguiu trabalhar no dia seguinte? Calma! O dia seguinte ainda estava longe. Quando voltei da Delegacia, percebi que havia batido a porta e deixado a chave dentro do apartamento. Era mais de meia noite e eu estava sem ter para onde ir. Não poderia ir para casa de minha mãe, pois era muito tarde e ela poderia se assustar. Depois de ter sido roubada, não tinha a mínima vontade de ir para um hotel. Sentei nas escadas e comecei a rir. Afinal, o que eu estava vivendo parecia tão absurdo que se fosse um filme, ninguém iria engolir essa história. Deitar no corredor foi minha primeira opção, mas em seguida, num lampejo de coragem, veio o pensamento de tocar a campainha do vizinho e pedir acolhida. Você o conhece? Um pouco. É um moço de uns quarenta e muitos anos ou cinquenta e poucos. Depois que meu marido morreu, ele ocupou o cargo de síndico. Isso me fez considera-lo alguém de confiança. Você teve mesmo coragem? Tive sim. Toquei e ele apareceu de pijama e cara de quem estava dormindo. Custou para ele entender o que estava acontecendo. O cara é meio lerdo... Mas ele, por fim, me disse para entrar e dormir no sofá da sala. Puxa! Que sorte! Calma... Ainda falta alguma coisa? Quando eu deitei no sofá, logo sabia que não iria conseguir dormir. Fiquei sem jeito de perguntar se ele teria, por acaso, um rivotril... Cara! Não... Isso você não fez! Não fiz mesmo, mas tentei entender o que estava me incomodando, o que eu precisava fazer para melhorar um pouco a minha situação. Eu estava de calça jeans justa e uma camisa. Eu não consigo dormir assim. Ia ser uma noite dos infernos se eu não tomasse a atitude que tomei. Chega de suspense Adélia, fale! Eu encostei o ouvido na porta do quarto do vizinho. Escutei o ronco dele. Quase voltei para o sofá e abafei o caso, mas senti que eu não merecia sofrer nem um minutinho a mais naquela noite e bati na porta do quarto do meu protetor. Ele só abriu a porta na terceira batida. Dessa vez, a expressão dele quase me assustou. Ele questionou o que eu queria. Fui bem objetiva: Você pode me emprestar uma camiseta sua para eu dormir? Ele não esperava por mais esse pedido e talvez, por ter sido pego de surpresa, não teve outra reação que ir ao seu armário e providenciar o que eu precisava. Agradeci e voltamos a nos separar. Deitei no sofá e minha mente se pôs a rever as cenas do dia. Fui afastando uma a uma para poder tentar descansar. Quando o cansaço estava quase me vencendo, um diabinho me trouxe um pensamento torturante: você faz cocô, pela manhã, todos os dias quando acorda. Com essa maré de azar que você está vivendo, há grandes chances de você usar o banheiro do vizinho e não conseguir dar a descarga. Já pensou? Adélia, você jura que ficou pensando nisso? Fiquei. A noite toda? Uma boa parte.  Como termina esse horror? Eu usei o banheiro do vizinho. E? Deu tudo certo. Quando fui embora do apartamento do vizinho, agradeci a gentileza dele. Ele me respondeu que não foi nada e que estava reparando que para quem havia passado tamanha tensão, até que eu estava bem, parecia que eu tinha até um sorriso no rosto. Eu lhe respondi que me considerava uma pessoa de sorte, pois eu tinha certeza que as coisas poderiam ser bem piores... Pronto! Contei tudo que eu tinha para lhe contar! Só falta lhe mostrar as fotos que tirei do estado que encontrei meu apartamento. Vou lhe enviar. Certo, mas só as verei amanhã. Boa noite! Já está tarde. Vamos dormir. Como admiro você minha amiga querida! Você é inspiradora. Vai escrever essa história? Se eu escrever, muita gente vai achar que você não existe. Posso? Claro...

IRMÃOS PARA SEMPRE

Terça, 06 Dezembro 2016 16:36
Publicado em Blog
É incrível! Como é maravilhoso voltar a sentir emoções de fatos que aconteceram há mais de vinte anos... Tenho a sensação de estar longe do aqui e agora. Sinto-me observadora e participante. Adoro essa sensação! Com os dedos sou também uma narradora. O lugar onde me vejo é ao lado de meu pai, quando ele passou cerca de um mês hospitalizado, se recuperando da cirurgia de retirada de um terço do pulmão direito, por conta de um câncer.      Mamãe e eu estávamos sempre com ele, embora papai tivesse uma capacidade ilimitada de conversar, fazer amigos e, portanto, seus dias eram cheios. Para as crianças que apareciam na sua frente, enquanto se exercitava andando pelo corredor, papai oferecia números de mágica. Para os jovens internados como ele, papai tinha palavras e histórias que faziam sentido e melhoravam o ânimo de todos. Os médicos e enfermeiros aprenderam a não ter pressa quando faziam visita a meu pai ou tinham que fazer algum procedimento nele. Sempre fluía uma conversa bem gostosa e o quarto do papai se tornou uma espécie de oásis no hospital. Dr Sergio, chefe da equipe de oncologia, visitava papai quase todos os dias, sentava, conversava, ria e algumas vezes notei que ele saía balançando a cabeça. Imagino, não posso ter certeza, que podia estar pensando em como o bom humor e o otimismo ajudam uma pessoa a enfrentar os grandes desafios que a vida impõe. Até para casais com problemas papai chegou a oferecer seu ombro amigo, sua boa escuta e filosofias de vida. Eu brincava com ele dizendo que ele mantinha um consultório irregular no hospital sem ter o diploma apropriado. Numa das manhãs, depois das rotinas habituais, meu pai escutou batidas na porta. Em alto e bom som, fez saber a quem vinha lhe ver que podia entrar. A porta foi sendo aberta bem lentamente, como se a pessoa que a empurrasse estivesse hesitante. Pode até ser que ao empurrar a porta, a pessoa precisasse se empurrar também. Era preciso se endireitar, reequilibrar-se. Era importante sorrir e não demonstrar pena ou tristeza ao ver meu pai mais fraco, mais magro, mais envelhecido. Creio que papai intuía essas coisas e, em geral, ajudava quem vinha ao seu encontro. Quando a porta ficou bem aberta, deu para ver que a pessoa que estava ali era minha tia, irmã caçula do papai. Terezinha veio carregada de sacolas e pacotes. Lembro que ela estava de saia preta, sapato baixo, meia calça de seda, cabelo arrumado para trás e para o alto, olhar meio esbugalhado e uma respiração um pouco ofegante. Ela havia preparado de véspera patê de fígado de galinha e trouxe uma panela cheia. Verdade! Trouxe uma panela! No caminho para o hospital, comprou salame kosher, pepino azedo e pão preto. Trouxe ainda uma torta de queijo, burekas e um rocambole de chocolate. Minha tia sempre foi exagerada e meu pai sempre foi guloso. Que dupla! Entra minha irmã! O quarto do hospital ficou uma bagunça. Papai queria provar cada coisa que sua irmã lhe trouxe. Minha mãe, sabiamente, não se metia nesse assunto. Eu lembro que provei a torta de queijo e até hoje associo essa doçura ao cenário do quarto do papai no hospital. Depois que a etapa de regalos foi cumprida, minha tia se sentou numa cadeira ao lado de meu pai e começou a puxar conversa. Estavam animados lembrando histórias, falando dos meus avós, dos dois outros irmãos, de Ibirarema e dos cachorros Duque e Diana. Os dois conversavam tão animados como se tivessem voltado no tempo. Minha mãe e eu éramos meras espectadoras. Num dado momento, minha tia tirou um envelope da sua bolsa e fez solene um anúncio: Chaim Lejb, esse é o convite de casamento da minha filha mais velha! Papai convocou mamãe: Esther, pega meu óculos para eu poder ler. Tenho quase certeza que o convite estava escrito em hebraico, idish e português. A data do casamento seria em um mês. Titia dava explicações sobre a cerimonia, que seria realizada dentro do ritual judaico ortodoxo. Minha tia estava eufórica e falava demonstrando sua euforia e excitação. Papai escutava atento. Num dado momento, minha tia mudou sutilmente seu jeito de falar e, posso quase jurar que ela gaguejou. Começou a falar sobre chapéus. Perguntou se papai se lembrava de uns chapéus pretos, altos que se usava na Polônia. Papai lhe respondeu que saiu da Polônia ainda criança, mas tinha essa lembrança sim. Titia prosseguiu dizendo que o pai do noivo e os irmãos dele usavam esses chapéus. Papai olhou bem para sua irmã e disse: “Nu...”. Ele usou a pequena palavra em idish que posso tentar traduzir por “e daí?“ Titia pareceu recuar e mudou de assunto: Quer mais um pedacinho da torta? Impaciente papai respondeu: Não! Continua o que você estava falando. Titia balançou a cabeça e como se mirasse num alvo disparou: Andei falando com minha filha e pensamos que é muito desejável que os tios da noiva usem esse mesmo tipo de chapéu... Todos estariam elegantes e iguais... Papai continuou impávido. Ele devia estar pensando. Papai tinha o raciocínio rápido e logo veio com sua resposta: Minha irmã, acredito que para uma festa como esta, você vai ter que providenciar muitas coisas. Você vai providenciar flores, não vai? Vou... Você vai providenciar um carro para levar a noiva, comida, alguém para fotografar, alguém para filmar... Claro! Claro, mas... Então, minha irmã, já que vai providenciar tantas coisas, providencie um irmão, pois este aqui não é adequado para o que você precisa. Não posso me fantasiar do que não sou... Minha tia também raciocina rapidamente e interrompeu meu pai. Colocou as mãos na cabeça, levantou-se da cadeira e ficou repetindo diversas vezes uma única palavra: Esquece! Esquece! Esquece! Titia parecia atormentada. Papai deixou que ela se acalmasse por si. Aos poucos, minha tia se acalmou e conseguiu dizer para seu irmão que mais importante que qualquer coisa era tê-lo com ela no casamento da filha. Papai sabia que o caso estava encerrado e começou a brincar. Posso ir sem chapéu? Pode! Nem preto, nem branco? Sim! Nem alto, nem baixo? Claro Chaim Lejb, foi bobagem minha! Então quero lhe dizer minha irmã, que estou me recuperando e agora tenho uma motivação extra para querer ficar bem. Vou caprichar mais ainda nos exercícios de fisioterapia. Os dois se abraçaram. Eu vi minha tia e meu pai chorando.   Minha tia voltou muitas vezes para visitar meu pai antes do casamento. Nunca vi minha tia chegar sem um monte de pacotes. Era sua maneira de chegar. Ela gostava de falar dos doces, das guloseimas e assim, carinhosamente e sem pressa, ia colocando sua alma pertinho da do meu pai, seu irmão. Estava tudo certo entre eles dois. Eles podiam voltar a conversar sobre Ibirarema ou sobre o casamento que ia acontecer em breve. Podiam falar sobre qualquer coisa. Não ficou nada emperrado, não ficou nada sem ser dito ou como acontece entre tantas pessoas, nada ficou mal dito. Papai conseguiu com grande dificuldade ir a esse casamento. Ainda não estava totalmente recuperado. Quando viu sua sobrinha, aproximou-se dela e lhe disse algumas palavras sobre o tanto que ele desejava que ela fosse feliz. Ela lhe assegurou que estava exatamente onde queria e com quem queria. Depois da cerimônia, papai não conseguiu dançar, nem ficar muito tempo. Ele sentia um cansaço extremo. Não tenho certeza, minha memória está nublada, mas acho que voltamos para o hospital. Naquela época, nunca poderia imaginar o tanto que me tocou esse episódio. Cada vez que relembro essas cenas, agradeço meu pai e minha tia pelo amor e respeito que um teve pelo outro. Como se fosse semente, decido jogar esse texto ao vento, respiro fundo, coloco um ponto final e volto para onde sei que também é o meu lugar.

SONHANDO ACORDADA

Segunda, 09 Janeiro 2017 15:02
Publicado em Blog
Inesperadamente uma mensagem dele apareceu para mim. Achei estranho, mas ao mesmo tempo, senti um sabor apimentado e forte. Ele queria me encontrar. Havia urgência nas palavras dele. Na verdade, não era nas palavras. A urgência eu percebi em alguma sutileza, possivelmente numa vírgula ou nas reticencias que ele usou. Fazia mais de um ano que eu não tinha nenhuma noticia dele. Era assim que funcionava nossa relação que tem o título de amigos de infância. Estudamos juntos desde o antigo ginásio e nos separamos quando cada um foi fazer sua faculdade. Eu o admirava muito e tenho uma nítida lembrança de, com cerca de onze anos, escrever uma redação citando-o como um futuro presidente do Brasil. Minha previsão não se cumpriu. Ele se tornou médico. Durante muitos anos morou fora do país. Casou, teve filhos, separou, casou novamente e no meio de tudo isso deve ter tido algumas paqueras. Quando eu era menina, tentei fisgá-lo. Além de ótimo aluno e garoto bonito, ele sempre foi muito educado, portanto soube se esquivar de minha investida com elegância: não podemos namorar, pois não quero perder nunca minha amiga. Levei um tempo para entender o fora que levei e até para me permitir sentir uma pitadinha de raiva dele. A raiva não durou e nossas vidas foram em frente. Quando voltamos a nos encontrar já éramos avós, ou quase, não lembro bem. Nossos encontros sempre se deram junto com outros amigos da época da escola e aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Assim como todos nós, ele estava envelhecendo. Seu cabelo ruivo tornou-se prateado e seu porte atlético havia se tornado apenas uma lembrança de décadas atrás. Dava para perceber que era guloso e que não conseguia abrir mão dos prazeres que uma boa mesa podia lhe proporcionar. Sua conversa era interessante e seu sorriso tinha ainda aquele antigo charme. Ele nunca foi como eu, alguém que ri à toa e escancarado. Ele sempre foi mais econômico nas suas demonstrações de sentimentos e emoções. Pode ser que essa era sua maneira de capturar a atenção e até o coração de desavisados. Com muito cuidado, como se estivesse andando em pedras lisas e escorregadias, durante nossos encontros, eu me dedicava a entender melhor os sinais que vinham dos seus olhos. Percebia com frequência uma tristeza fugaz e bem disfarçada. Como sempre estávamos com os outros amigos, nossos assuntos prediletos eram os livros e filmes. Se algumas vezes tentamos falar de assuntos íntimos, logo alguém transformava o tema em piada e rapidamente libertava-nos de uma possível cilada emocional. Agora ele quer me encontrar. Só nós dois. Sem nossos amigos, sem marido, nem esposa. Impetuosa como de costume, já lhe respondi que topo o encontro. Ele sugeriu um jantar. Eu cheguei a escrever, mas apaguei a pergunta audaciosa se era à luz de velas... Para não perder o costume, nessa última troca de mensagens, já nos atualizamos sobre os últimos livros lidos. Fiquei surpresa quando ele escreveu que quer comentar comigo sobre esses livros no nosso encontro. Já entendi que teremos um tempo de aquecimento antes de entrar no assunto principal. Ri sozinha da minha inibição de lhe dizer que minha digestão à noite é terrível e que se eu jantar, seguramente ficarei sem dormir. Tenho pensado, nos momentos em que a vida me dá trégua, no que vamos conversar no nosso jantar. Vamos falar sobre meu irmão, que era seu grande amigo e, como estaremos sozinhos, poderemos até chorar abraçados. Poderemos nos lembrar de nossos pais e das vezes que todos estivemos juntos e felizes.  Será que ele tem alguma ideia de organizar um lar de amigos para morarem juntos na velhice? Isso até que seria interessante... Será que falaremos dos planos que fizemos para os nossos filhos e avaliaremos o que de fato aconteceu? Será que vamos filosofar sobre a rapidez com que a vida passou? Falaremos sobre o amor? Um pensamento sombrio me assalta e me incomoda. Será que ele está doente e quer se despedir? Será que quer discutir sobre a eutanásia como fizemos na nossa colônia de férias quando tínhamos onze ou doze anos? Meu Deus! Ainda falta um mês para ficar imaginando e sonhando... Quem sabe ele está arrependido e quer aceitar o pedido de namoro que lhe fiz há mais de quarenta anos? Tenho que me preparar. Não posso me deixar pegar de surpresa. Aqueles olhos são ciladas. Talvez eu deva treinar soltar o não para qualquer pergunta. Tenho sempre o sim pronto na ponta da língua. Preciso inverter esses dois. Vou começar a treinar na frente do espelho! Estou gostando muito de imaginar e sonhar com nosso encontro. Contei para o meu marido e ele nem se incomodou. Ou ele é muito seguro de si, ou seguro de mim ou entende que dois velhos amigos podem ir jantar sem maiores problemas. Sorte a minha! Ainda não comecei a pensar na roupa que eu vou usar. Decidi que o perfume deverá ser bem discreto. Talvez use a velha e boa alfazema... Vou passar só um batom e nada de maquiagem. Aposto que ele nem pensou, nem vai pensar em nada disso. Falta um mês. Seria legal se ele mandasse uma mensagem querendo saber que tipo de comida eu prefiro para escolher o local do encontro. Será que eu diria: café com leite e torrada integral com queijo? Duvido...

JULIO

Segunda, 22 Maio 2017 16:13
Publicado em Blog
Foi como se uma porta se abrisse súbita e inesperadamente pela força de um vento forte. Foi assim que me encontrei nesta madrugada diante de fatos que estavam empoeirados, embrulhados e guardados no sótão da minha alma. Tive o ímpeto de fugir, mas sabia que não tinha escolha. Muitas cenas estavam borradas. Meu irmão de quase 26 anos estava doente. Melanoma. Julio sempre teve muitas pintas. Era um charme que virou uma tragédia. Ele havia passado um tempo nos Estados Unidos, onde operou. O que exatamente será que ele operou? Lembro que seu médico oncologista americano se chamava Dr. Roland. Lembro que conversei com ele pelo telefone. Seu irmão vai voltar para o Brasil. Ele está curado? Ficou bom? Ele precisa voltar... Precisa ficar perto da família. Doutor, o senhor não está me respondendo... Preciso que o senhor cure meu irmão. É meu único irmão! Sei... Mas ele precisa ficar perto de vocês agora. Eu não fui capaz de interpretar essas falas. Julio voltou. Fui buscá-lo no aeroporto. Eu estava grávida. Naquele tempo, podíamos ver as pessoas assim que entravam no grande salão do desembarque. Papai devia estar ao meu lado, mas papai andava mudo e quase invisível naquela época. Vi meu marido e minha mãe. Acenei para eles. Onde estava meu irmão? Não o achei e cheguei a pensar que alguma mudança de última hora havia acontecido. Minha mãe e meu marido me abraçaram e com um susto entranhando no meu corpo, reconheci a voz do meu irmão naquele homem sem cabelo, envelhecido e sem brilho que vinha junto com eles. Julio ainda teria alguns meses de vida. Eu não tinha a mínima ideia de que o fim estava tão perto. Eu tinha um filho de dois anos e um para chegar em breve. O neném chegou um mês antes do tempo e o tio lhe conheceu. Julio me pediu que não o deixasse chorar. Estranho pedido. Não tive a oportunidade de saber o seu motivo. Cumpri o possível, me esforcei. Meus avós maternos fizeram uma festa de suas bodas de ouro. Julio foi. Não sei como ele estava se sentindo. Não sei se tinha dores. Ele foi. Foram meus sogros, primos, tios e alguns parentes que não víamos com frequência. Temos fotos para garantir isso. Que esforço Julio deve ter feito para comparecer nessa festa! Não sei ao certo se foi logo depois dessa festa ou pouco antes dela, mas o fato é que Julio anunciou que queria se casar. Que reboliço! Que confusão! Julio tinha uma namorada. Não era um namoro de muito tempo, ou pelo menos é assim que o fato está registrado na minha memória. Era uma moça não judia. Não lembro seu nome. Lembro que ela não tinha a aprovação da minha mãe, nem dos meus avós maternos. Eles queriam que Julio se casasse com uma moça judia. Não lembro o que papai achava. Posso imaginar que para ele a religião da moça e o impasse resultante não eram tão importantes, mas não posso garantir nada. Lembro escutar que a moça poderia estar se aproveitando de uma triste situação. Pensando nisso agora, me parece um absurdo sem pé nem cabeça. Eu, com menos um ano que meu irmão e ocupada com os filhos pequenos, não enxergava as garras da morte se aproximando dele. Os amigos do meu irmão conseguiam conversar, rir e, provavelmente, até chorar com ele. Um deles arrumou um apartamento e concedeu a realização do seu último desejo. Julio não casou, mas foi morar com a namorada. Meus pais o queriam perto de si, mas acabaram cedendo. Eles o ajudaram a montar o seu apartamento. Capaz que até minha avó tenha ajudado. Não sei, não lembro. Geladeira, fogão, televisão, batedeira, etc.. Eu estive lá. Não sei quantas vezes fui ao apartamento do meu irmão. Não imagino que foram muitas vezes. Guardo uma imagem do Julio deitado, descansando no seu quarto naquele apartamento. Lembro que havia um som forte vindo da sua respiração. Não era um ronco. Um som que traduzia um esforço. Não lembro o nome dela, da namorada. Ela estava lá e está esfumaçada na minha memória junto dessa respiração tão difícil e ruidosa. Não estou certa se falei com ela. Acho que nunca falei com ela. Eu adorava meu irmão. Tive sempre muitos ciúmes dele. Eu não sabia discriminar meu papel de irmã do papel de uma namorada. No meu aniversário de 25 anos, meu irmão não apareceu. Era uma pequena reunião no meu apartamento com meus filhos, marido e alguns amigos. Eu reclamei. Uma reclamação estúpida e fora de qualquer nexo. Julio estava mal. Eu não escutava, nem compreendia essa informação. Julio foi hospitalizado no dia seguinte ao meu aniversário ou talvez até já estivesse internado. Lembro que encontrei seu amigo médico no quarto do hospital. Dr. Silvio deve ter me dito coisas bem diferentes das que eu captei e levei comigo naquela ultima vez que vi meu irmão vivo. Ele vai ficar bem. Ele está até mais forte... E a namorada? Não a vejo nas minhas lembranças no dia do enterro, nem na casa de meus pais, nas rezas que foram feitas durante a semana de luto. A namorada evaporou. Foi a ultima mulher que meu irmão amou. Não sei o seu nome. Lembro escutar conversas do desmanche do apartamento do meu irmão. Ela ficou com tudo. Tudo? Quem sabe o que ela queria era apenas ele? Ela possivelmente deve ter esquecido o meu nome também. Precisei quase quarenta anos para revisitar essa moça. Eu não tinha olhos, nem ouvidos para a realidade tenebrosa. Não estava capacitada a entender, quanto mais analisar e emitir alguma conclusão. Foi assim que perdi uma pessoa que pode ter sido alguém muito especial, afinal meu irmão escolheu compartilhar seus últimos dias com ela. Olhei o despertador. Eram quase cinco horas. Olhei meu marido adormecido. Ele já estava comigo quando eu tive que conhecer essa dor.  Ajeitei-me nos seus braços. Estava sentindo uma emoção muito especial, como se tivesse entrado uma nesga de luz no sótão da minha alma.   

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook