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A MULHER DO PESCADOR DE PRIMEIRA VIAGEM

Quinta, 07 Novembro 2013 18:37
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O marido foi pescar. Quando era jovem havia tentado realizar essa façanha, mas era casado, tinha dois filhos e, como todo assalariado brasileiro, só tinha direito a trinta dias de férias.  Para conseguir sair de fininho e vazar para algum rio, precisaria ter muita lábia para convencer tanto a mulher como o chefe. Naquela época, como já foi mencionado, ele era jovem e não teve o traquejo necessário. O tempo passou, na verdade foram mais de três décadas que passaram. Como ele nunca mais falou no assunto, a mulher achou que o marido havia se esquecido do antigo desejo. Então, nesse ano surgiu a grande oportunidade de ir pescar pela primeira vez na vida e ele se agarrou a ela com unhas e dentes. Foi com um grupo, onde eram todos machos e pescadores de muitos rios, de muitas estórias e de muitos peixes. Fizeram algumas reuniões prévias. Eram encontros sempre à noite, em dias de semana e a mais de 100 km de sua casa. Para espanto da mulher, ele não faltou a nenhum e sempre levou junto uma boa dose de bom humor e entusiasmo. A partir desses encontros, ele pode se organizar e tomar suas providencias. Vacina, caixa de iscas, cremes, remédios, bermudas, meias, varas, sapatos, camisetas e chapéu. Ela notou que ele voltava das reuniões como um cachorro que tenta segurar o rabo para não mostrar toda a alegria... E aí? Foi legal? Ele lhe contava alguma coisinha, mas logo desviava o assunto. Ela sentia que estava sendo colocada fora das piadas, dos risos e de alguma parte nublada, mas muito boa. Foi longe. Foi até as revistas em quadrinhos da sua infância. Lembrou-se de uma tabuleta que havia na porta do clube de meninos que dizia, sem meias palavras, que menina não entra... Entendeu a situação e se resignou. Passou a se dedicar a procurar entender o que o motivou a ir pescar. Seu marido já lhe havia surpreendido com atividades bem incomuns como criar rãs, fazer curso de reflexoterapia e heiki, fazer aulas de cerâmica e mágica, aprender ski aquático e até criar escargots dentro do apartamento. Então, ela raciocinou que em se tratando de um homem com um grau de ansiedade como o dele, pescar pode ter sido uma escolha para buscar uma mudança de padrão. Pode ser que a paz, o cenário bucólico de um rio, um barco, a mata nas margens e o tempo passando sem nenhuma exigência tenham sido as grandes âncoras da sua viagem para pescar. Acrescentou ainda a troca enriquecedora que ele deve ter vislumbrado, através da vivência com pessoas com outras experiências de vida. Essas conclusões lhe deram muita esperança e ela se sentiu muito bem ao carrega-las consigo para todos os lados nesses dias sem ele. Algumas pessoas, no entanto, quiseram lhe cutucar. De um modo quase confidencial, lhe revelaram que a embarcação onde seu marido estava era um local de alta categoria, muita cerveja, caipirinha, boa comida e muita esbórnia. Não mordeu essa isca. Tinha mais o que fazer. Aliás, tinha um bocado de coisas para fazer. Depois que ele viajou, numa noite dessas, no meio da madrugada, hora em que as luzes da sua alma costumam se acender, o pensamento nele tomou conta dela. Desejou que ele estivesse bem e com saúde. Em seguida, se colocou a pensar que não combinaram se ele trará peixes, pois o freezer pifou e pode ser que ele tenha se esquecido disso. Depois lembrou que não sabia ao certo o horário da sua chegada, mas pensou em providenciar um bom almoço de qualquer modo. Constatou que estava ocupando e tentando distrair sua mente fazendo uma lista de questões práticas. Ela conhecia bem as artimanhas da sua cabecinha e entendeu que estava fugindo de encarar seus sentimentos. Esse entendimento levou-a adiante. Conseguiu questionar se ele estaria sentindo o tanto de saudades suas, quanto ela estava sentindo saudades dele. Uma lágrima lhe escapou. Sentiu o beijo dele no seu rosto e, prontamente entendeu que estava perambulando no terreno sagrado do amor. Sentiu-se pronta para recebê-lo de volta.

DA SURPRESA AO ABRAÇO

Quarta, 05 Novembro 2014 16:03
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Ela chegou de surpresa. Era uma amiga antiga, que morava pertinho e, por circunstâncias da vida, foi para longe. É daquelas que nem podemos pensar muito na falta que fazem, para não ficarmos pensando só no tempo que já passou. Ela tinha menos de uma hora e queria colocar tudo em dia: maridos, namorados, filhos, netos, trabalhos e mais mil casos antigos e novos. Gostei de perceber que seus quase sessenta anos não atrapalham em nada seu animo e bom humor. Parecíamos duas adolescentes sentadas de lado, com as pernas encolhidas e uma de frente para a outra no mesmo sofá da sala. Contou que depois de quarenta anos, reencontrou um colega de escola que lhe ajudou a levantar o astral depois da última separação no ano passado. O colega era bonito, bem apessoado e chegado a um chamego como ele só! Era um homem equipado e atento para a arte do amor. Pelo tempo que nada acontecia nos últimos anos de casada, ela estava certa que sexo era coisa do passado e que suas chuteiras já podiam ser penduradas. Em seis meses dessa aventura, o galã lhe mostrou como estava errada. Foi um deleite. Reativou motores enferrujados e partes da máquina que estavam totalmente sem uso. Se não fosse a gula por sabores e cores de fêmeas diferentes, até que poderiam ser um belo casal. Foi uma pena... Com os olhos mareados, mas ao mesmo tempo ostentando um sorriso, contou-me que não fez dessa separação nenhuma tragédia, afinal já havia passado situações bem piores. Levantando-se como quem já estava começando a se despedir, me garantiu que estava livre e pronta para voltar a ser quem sempre foi e voar para onde tivesse vontade. Essa era a amiga que eu conheci! Nem eu, nem ela queríamos nos separar, então lhe sugeri que ficasse mais um pouco para comermos juntas uma pizza. Parece que acertei a deixa. Ela soltou a bolsa no chão e disse que não poderia ir embora, sem me contar uma passagem que ocorreu enquanto esteve casada com um homem ciumento e mal humorado. Voltamos para o sofá da sala e ela foi iniciando o relato como quem tinha um carretel para desenrolar. Era um fim de tarde de domingo. Só os dois e a TV ligada no programa para ajudar o fim do domingo acontecer. Nada na geladeira e pizza na certa. Deixei escapar um suspiro. Ela foi adiante. Disse que não aguentava mais esse tipo de refeição calórica, mas estava sem energia para discutir por tão pouco. Ele perguntou se podia ser quatro queijos, ela preferiria um queijo só, mas sabia que era mais fácil deixar pra lá. Quando avisaram que a pizza chegou, ela quase se levantou, mas lembrou que ele cismava com as conversas dela com estranhos. Na cabeça dele, provavelmente, o entregador não seria capaz de resistir aos encantos dela e nem ela aos apelos do moço. Sendo assim, ela ficou sentada e ele foi buscar a comida. Ela estranhou a demora dele, mas não se mexeu. Quando enfim ele apareceu, ela estranhou o aspecto da caixa da pizza. Estava suja e meio desconjuntada. Ela quase comentou alguma coisa, mas lembrou-se que poderia chatear seu marido. Nessas horas, ela sentia-se como uma prisioneira dentro dela mesma, mas tratava de pensar que não era tão ruim assim e que ele tinha mil outras qualidades. O marido colocou a caixa esquisita na mesa e os dois se sentaram para comer a pizza. Quando ele abriu a tampa da caixa, ela notou que havia sujeira em cima dos tomates e dos queijos. Um pouco de grama e até lama atestavam que o conteúdo da caixa havia caído no chão. Ela olhou para ele como pedindo uma explicação. Ele pegou seu prato e deu a entender que queria ser servido. Ela ensaiou um início de conversa. Você demorou... Ele abreviou um fim. O cara estava sem troco. Ela tentou de outro jeito. A caixa... Ele esmurrou a mesa e perguntou se dava para mudar de assunto.  Ela sentiu que não ia conseguir ficar sem falar alguma coisa, mas queria fazer força para evitar discussões desnecessárias. Quando tinha sentimentos fortes, era comum que ela sentisse vontade de rir. Era uma reação nervosa. Foi o que aconteceu. A vontade de rir foi ficando avassaladora. Ela tinha que fazer alguma coisa urgente. Lembrou que só havia uma saída. Uma vez, uma amiga lhe deu um conselho para resolver situações assim. Fixou o seu pensamento num ponto triste da sua vida e apertou a boca para engolir o riso e junto conseguiu até engolir a indignação. Olhou diretamente para a pizza repetindo sem som e sem parar apenas uma frase: “Meu pai morreu! Meu pai morreu”. Foi difícil, mas deu certo! Conseguiu não rir, nem falar nada sobre a grama e a lama. Enquanto contou para mim esse caso, chorava de tantas risadas. Eu também ri, apesar de perceber que o que aconteceu não era só uma comédia. Ela confessou que comeu um pedaço. Comeu por que quis. Sentiu vontade de misturar na boca as coisas que sentia com aquela última pizza que iria comer com aquele cara. Quis ter certeza de que nunca mais se submeteria daquele jeito. Comeu como quem tomou uma vacina. Já sem rir, nem chorar, ela me olhou nos olhos e me perguntou se eu concordava que era uma passagem importante da vida dela. Amigas se abraçam. Foi o que fizemos.  

NA CORDA BAMBA

Terça, 18 Novembro 2014 17:08
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Ela é uma viúva que não sei precisar se tem oitenta anos ou quase isso. Até há pouco tempo ela trabalhava muito dentro e fora de casa. Saía cedo e voltava tarde. Seus olhos são brilhantes e atentos. Dentro de sua cabeça habitam mil histórias, frutos das suas vivências profissionais e familiares. Foi a filha que durante anos cuidou da mãe e do pai. Cuidou ainda de muita gente e nem sempre cuidou de si. Quando se aposentou, descobriu que seu bairro era muito bonito e tinha mil coisas que nunca havia reparado. Sou como uma prisioneira que acabou de ser libertada... Ando deslumbrada olhando as pessoas, o movimento, as flores, árvores e a arquitetura dos prédios. Para comemorar a aposentadoria, fez uma linda viagem com uma de suas filhas. Sentia falta do trabalho, mas estava gerenciando muito bem essa nova fase da vida. Então, apareceu um problema. Sem entender como acontecia, subitamente, em algumas ocasiões se desequilibrava e caia. E, foi assim que dentro de uma loja de objetos de cristais, ela funcionou como um elefante num bazar e derrubou toda uma prateleira antes de chegar ao chão. Que sufoco! Ela passou a reclamar com todo mundo que as ruas da cidade são um grande perigo, pois estão cheias de obstáculos que muitas vezes lhe provocavam quedas. Foi a vários médicos. Fez inúmeros exames. Constatou que tem mesmo um problema. Foi orientada a passar a andar acompanhada de gente ou bengala. Como fazer isso, sendo ela como um passarinho que andou solto a vida inteira? Quem sabe essa coisa ruim poderia passar? Ela sabia que estava sendo teimosa, mas afirmava que sua cabeça ainda não aceitava bengala. Faz pouco tempo, há umas semanas atrás, ela se arrumou e se enfeitou para ir ao casamento da neta do seu primo querido. Lamentou muito o fato de suas filhas não terem sido convidadas, mas sabia que hoje em dia, os convites para as festas não são mais privilégios de família. E assim, ela se dispôs a ir sozinha mesmo. Chamou um taxi e foi. Chegou a tempo de ver a cerimônia toda. O local estava lotado, mas ela não conhecia quase ninguém. Essa constatação lhe fez pensar que seus conhecidos que teriam sido convidados, andavam adoentados ou já tinham morrido. Como seria divertido estar com seus irmãos e seus pais! Sempre era uma farra! Tudo era motivo de risos... Balançou a cabeça. Esse tempo passou. Quando acabou a parte religiosa e todos se dirigiram para se acomodar nas mesas do salão de festas, ela fez o caminho inverso. Estava decidida a ir cumprimentar seu primo. Foi pedindo licença e, com jeito, foi usando seus cotovelos. Conseguiu chegar onde queria, num lugar bem visível, ao lado de um enorme jarro de vidro com belíssimas flores. Estava excitada. Logo o primo iria passar por ela e tudo o que ela queria era que ele a visse. Ele veio se aproximando duro e solene, como quem estava num outro mundo. Ela, com uma animação que sempre lhe foi muito peculiar, agitava os braços e soltava gritos de votos de saúde para os noivos e mazal tov (boa sorte em hebraico). Ele, meio atrapalhado, como quem tivesse sido despertado de um transe, ou talvez desejoso de dar um fim no alvoroço da prima, esticou sua mão para cumprimentá-la. Ela estranhou aquela mão estendida. Esperava um abraço forte, demorado e cheio de amor e carinho entre primos. Ainda assim, aceitou a mão dele. Naquele mesmo instante, o seu equilíbrio fugiu e ela tentou se apoiar em alguma coisa. Foi pior. Caiu derrubando o enorme jarro de flores, que se espatifou e molhou-a inteira. Como estava de mão dada com o primo, ele também foi parar no chão. Ela um pouco por cima dele, o que, por sorte, amorteceu bem a queda. Que cena! Então, ela fechou os olhos. Fechou bem os olhos para não ver mais nada. Teve vergonha. Pediu ajuda e foi para o banheiro. Foi examinar os estragos e se colocou de castigo por lá durante uma hora. Quando se sentiu melhor, foi procurar o primo para se desculpar. Ela imagina que ele pode ter tido vontade de fugir dela, mas não fez isso. Novamente ele lhe estendeu a mão. Dessa vez o aperto das mãos aconteceu. Frio e apressado. Então, sem dançar, sem jantar e sem abraçar, ela achou que já era hora de ir embora para casa. Chamou outro taxi. Não demorou muito e um carro chegou. O motorista devia ter a idade dela. Entrou, disse seu endereço e deixou escapar sua admiração: O senhor ainda trabalha... Pois é, enquanto der, vou levando. E a senhora? Ela lhe disse que se aposentou e agora estava se treinando para ser uma equilibrista que anda em cordas bambas. Ele mordeu a isca... Ela contou o que lhe aconteceu na festa. Ele riu. Não falou em bengala, não a recriminou, não quis saber de doenças, muito menos mencionou mil perigos. Apenas riu. Ela ficou grata e conseguiu rir junto com ele.

BENTO QUERIA SER VENTO - Infantil

Segunda, 16 Março 2015 14:46
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Era uma vez um menino chamado Bento. Era pequeno e cheio de energia. Tinha seis anos, olhos espertos e uma cabeça que pensava sem parar. Numa tarde de domingo, Bento parecia distraído, sentadinho no chão, não muito longe de sua casa, brincando com uma varetinha, olhando o que acontecia ao seu redor. Olhava e pensava. E pensava e pensava... O vento parecia fora de si. Estranho? Pode ser, mas era essa a impressão que Bento tinha, pois enxergava que o vento estava totalmente louco, fazendo portas baterem, vestidos e saias serem levantados e fazendo também papéis e miudezas voarem. Fora toda essa bagunça ainda havia gente correndo para todos os lados. Que força o vento tem! Enquanto Bento refletia sobre o poder do vento, escutava a voz de sua mãe que lhe chamava: Bento! Vem para casa! Beeeento! Onde você está? Vai cair uma tempestade. Ô menino... Precisamos fechar a casa! Como, às vezes, acontece com as crianças, Bento estava sem vontade de obedecer. Seguindo a desobediência, Bento saiu em disparada gritando. Gritava como se vento fosse. Sou o Veeeeeento! Beeento Veeeento! Sem nenhuma preocupação com a chuva forte que estava sendo anunciada, Bento foi se distanciando de sua moradia. Sou Veeeento! Veeento! Dois dentes de leite da frente já haviam caído e Bento estava achando graça falar que era vento, pois a falta dos dentes fazia a palavra vento sair de forma engraçada. Ventava na sua boca... Veeeento! Seguiu correndo, imaginando que estava voando. Não demorou muito, foi parar na beira do lago. Notou que a água estava descolorida de negro. O céu escuro refletido no lago dava um aspecto bem diferente de quando os dias são claros e o céu é azul. Não havia ninguém na beira do lago. Nem patos, nem sapos, nem passarinhos. Só a ventania cada vez mais forte e ele, Bento, o menino que parecia que engoliu o desassossego. Com os braços bem esticados, Bento tentava ensaiar voos para todos os lados. Em alguns momentos o vento lhe dava a impressão de que iria lhe levantar, mas Bento não estava nem um pouquinho assustado. Pelo contrário, ele estava deslumbrado. Depois de ir para lá e para cá, Bento sentiu vontade de mudar de brincadeira. Atirou longe seus sapatos e correu para colocar os pés na água. Achou delicioso e refrescante!  Essa alegria não durou muito, pois trovões e relâmpagos passaram a se revezar fazendo com que o céu ficasse com uma aparência sinistra. Gotas de chuva começaram a cair. Gotas grossas. Bento lembrou que era perigoso ficar na água, mesmo só com os pés, pois algum raio poderia ser atraído e cair nele. Isso não é brincadeira! É coisa séria! Ainda bem! Bento saiu do lago. Levantou-se para ir pegar seus sapatos. Não reparou na raiz de uma árvore, tropeçou e caiu. Sentiu uma dor forte. Machucou seu pé. A tempestade seguia muito forte. Trovões e relâmpagos estavam mais ferozes e insistentes. Raios pareciam cair pertinho dele. Bento começou a sentir medo. Sabia que tinha que sair de onde estava. Ficar perto de árvores era muito perigoso, pois as árvores também atraem os raios. Bento sentiu que estava ficando mais e mais assustado.  Queria estar em casa com sua mamãe e papai. Queria estar na sua cama sequinha. Teve vontade de chorar e imaginou que seus pais deveriam estar preocupados com ele. Fez um esforço grande e se levantou com a ajuda de um pau que achou jogado na grama. Estava totalmente molhado por causa da chuva. Estava encharcado. Queria conseguir voltar rápido como o vento, mas a dor lhe fazia dar passos pequenos e bem devagar. A brincadeira que ele havia tanto gostado já não tinha graça nenhuma. Lembrou que deveria ter respondido, quando sua mãe lhe chamou. Ah! Como queria escutar sua mamãe lhe chamando novamente... Beeeeeeento! Era ela! Sua mamãe estava lhe procurando. Aqui mamãe! Beeeeento! Agora era a voz do seu papai. Ah! Que alegria! Estou aqui! Papai! Mamãe! Em poucos instantes, Bento e seus pais estavam abraçados. Papai lembrou que era melhor saírem logo dali. Colocou Bento no colo e acompanhado da mamãe não demoraram a chegar a casa deles. Onde você estava menino? Correndo... Achando que era o vento... Brincando... Ouvindo mamãe chamar e não respondendo... Fingi que não escutei. Isso não foi nada bonito, disse a mamãe. Não vou mais fazer isso não. Acho que não quero mais saber de ser vento, sou Bento. Isso já é muito bom! Papai e mamãe concordaram com ele, lhe abraçaram e lhe encheram de beijos. Os três estavam felizes e, de dentro de casa, sãos, salvos e juntos contemplaram a tempestade que ainda caiu um bom tempo.

UM PEDIDO BIZARRO

Terça, 15 Setembro 2015 14:20
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  Estávamos na piscina, duas fotógrafas e eu. Só nós três em toda aquela grande piscina ao ar livre, em pleno inverno, num fim de tarde de domingo. A água estava tépida e as árvores em volta balançavam devagar evidenciando que havia um vento suave. Quando as duas chegaram, eu já estava na água. Gostei de vê-las. Senti que elas também gostaram de me ver. Entraram na piscina sem se incomodar com a temperatura da água. Nadaram cinquenta metros e pararam perto de mim. Não demorou muito, começamos a papear. Com a ajuda de flutuadores, ficamos nos mexendo fazendo discretas alegorias com as pernas e com os braços. Não somos íntimas, nem nos conhecemos há muito tempo. Ainda assim as palavras saíam fáceis. Falamos de casos que aconteceram conosco, coisas que pareciam que tinham que vir à tona. Junto com a conversa me veio a sensação de termos colocado cadeiras na frente de nossas casas, numa rua de um bairro, num interior qualquer, bonito, calmo e muito gostoso. E eu que nunca morei em casa, nem no interior, muito menos levei cadeira para parte alguma para conversar com vizinhas! Será que estaria eu sob o efeito de alguma magia produzida pelas cores do fim de tarde ou pelas fotógrafas falantes? Não sei. A prosa seguiu e eu contei para elas que iria fazer uma viagem em breve. Fazendo um pequeno mistério, disse que era um lugar diferente e que elas não iriam adivinhar. Depois que elas falaram algumas possibilidades exóticas, fui benevolente e contei: Alaska. Notei que ficaram pasmas. Ambas deram gritinhos de euforia e foram alternando observações sobre meu destino: Um cruzeiro perto do Polo Norte. Um encontro com ursos polares! As cores desse lugar, as fotos maravilhosas... De repente pararam. Durante a pausa uma olhou para outra. Um olhar sapeca, levado e divertido ao mesmo tempo. Então, a mais velha, não se conteve e pediu para irmã falar. Vai, fala... Pode pedir... Não tem nada de mais... Ela não vai pensar que você é louca... Ela sabe que você é artista e artistas têm dessas coisas... Fiquei curiosa. Sabia que estava para escutar algo incomum. Ela começou como quem tateia no escuro. Bem, eu tenho uma coleção... Com mais confiança seguiu. Uma coleção vinda de várias partes do mundo. Fique à vontade se não quiser trazer. Não preciso lhe dar dinheiro, pois não custa nada. Nem vai pesar muito ou ocupar espaço demais na sua bagagem. Queria que você me trouxesse uma coisa do Alaska. Do que se trata?  Tenho quase certeza de que nessa hora elas se olharam e piscaram. Pode ser que até riram. Foi tudo muito rápido. Ar. Essa foi a resposta. Escutei perfeitamente e nem duvidei de ter confundido o som e ter chegado à palavra errada. De qualquer forma, achei melhor me certificar. Você quer que eu lhe traga o ar do Alaska? Sabia que você iria entender logo! Escolha um lugar especial e coloque no vidrinho que vou lhe dar. Você pode fazer isso? Respondi sem hesitar, talvez estivesse abduzida. Posso. De verdade? Sim. Não acha que é loucura? Bem... É, no mínimo, um pedido inusitado... O vento, que até então estava agradável, foi sendo substituído por uma brisa gelada. Notei que havia escurecido. Era hora de ir embora. Saímos da água e rapidamente nos enrolamos em nossas toalhas. Estava muito frio. Uma pressa necessária e esquisita fez com que nos despedíssemos de forma súbita. Elas correram para o vestiário e eu fui embora pela rua escura com o meu roupão em cima do maillot molhado. Os dias foram passando sem muito tempo para nada além dos afazeres de rotina. Na véspera do dia da viagem, enquanto fazia a lista do que pretendia levar, tocou o interfone. Era para avisar que uma senhora havia deixado um pequeno embrulho para mim. Fui até a portaria. O porteiro me entregou um pequeno vidro dentro de um saquinho de pano. Coloquei-o na palma da minha mão. Um vidrinho de geleia protegido por um pano. Quando entrei no meu apartamento, meu marido quis saber se fui buscar alguma coisa que ele havia comprado pela internet. Murmurei que não e já ia começar a contar o que fazia com aquele vidrinho na mão, quando ele me interrompeu dizendo que estava apurado e sem tempo para conversarmos. Completou dizendo que teríamos tempo de sobra durante a viagem. Apertei o vidrinho na minha mão e senti que alguma coisa diferente estava começando e mexendo comigo. Escolhi uma mala pequena e conveniente. Com cuidado, acomodei o vidrinho e depois todo o resto. A longa viagem transcorreu bem, sem surpresas. Quando finalmente entrei no navio onde faria o cruzeiro pelo Alaska, a primeira coisa que fiz foi me sentar e me certificar de que estava acordada. Era tudo tão bonito! Bonito demais! Como cheguei ali? Será que estava tudo certo mesmo? Alguns pensamentos começaram a rodopiar na minha cabeça. Viajei... Os outros passageiros deviam ser da realeza de algum lugar e eu teria entrado escondida... Era um engano! Meu navio deveria ser outro e como ninguém notou o erro, o embarque aconteceu. A qualquer momento, a polícia poderia chegar e me fazer descer daquele navio tão lindo... Meu marido, sem perceber, acabou com meu devaneio, convidando-me para almoçar. De braços dados com ele, fui me deixando inundar por um sentimento profundo de gratidão pelo privilégio de estar vivendo tamanha felicidade. Esse sentimento me acompanhou por toda a viagem.   Depois de um dia e meio de navegação, chegamos à primeira cidade do Alaska, Wrangel. Coloquei uma pochete que se mostrou perfeita para carregar documentos, cartão da cabine do navio, algum dinheiro e ainda o vidrinho. Andei de caiaque e me deslumbrei com cenários belíssimos. Fiquei uma hora e meia envolta pela natureza. Como uma música de fundo, podia escutar o som dos remos entrando e saindo da água. Precisei parar alguns minutos a fim de usufruir do silêncio daquele lugar. Toquei no vidrinho. Não. Não senti que era ali. Como é possível ter certeza? Eu tinha. Nas horas em que fiquei em Wrangel andei bastante e olhei para tudo como querendo absorver o cenário. Voltei inebriada e exausta para o navio. Mas não era dali o ar que iria para o vidrinho. O cruzeiro passou por várias cidades. Em cada uma delas, parei para sentir se era ou não o local para abrir o vidrinho e capturar o ar do local. Que poder estranho estava eu imbuída! Foi em Ketchikan, na última cidade que conheci do Alaska, que senti a certeza que estava aguardando. Essa foi a primeira cidade do Alaska e, atualmente, é a quinta cidade mais populosa deste estado americano com cerca de 8.000 habitantes. Quando escutei que Ketchikan é uma cidade com um clima muito chuvoso e frio na maior parte do tempo, fiquei buscando entender como as pessoas poderiam viver num lugar assim. Fui num museu. Assisti um filme (Ketchikan: The Artists ) que me deu a resposta que procurava. Ketchikan se transforma numa usina de artes e muita criatividade durante os longos meses de clima inóspito. Eles dançam, fazem teatro e apresentações musicais; fazem trabalhos com retalhos, fazem pinturas usando várias técnicas, fotografam, bordam e fazem esculturas. Todas essas atividades se tornam meios para que a vida aconteça de uma forma mais suave, mais feliz, mais sensível, bela e em grupo. Enquanto o filme passava pelos meus olhos, minha intuição foi se tornando certeza. Definitivamente, era de Ketchikan o ar que tinha que levar no vidrinho para minhas amigas fotógrafas. Ao sair do museu, numa cerimônia simples, mas significativa, abri a tampinha do vidrinho de geleia, pensei nas minhas amigas, na nossa conversa na piscina, pensei na felicidade que desejo para elas e capturei o ar daquela cidade. Cheguei do Alaska já faz uns dias. Precisava entregar o vidrinho, mas queria entregar junto com algumas palavras. Agora sinto que está tudo certo. Já posso deixar o vidrinho na porta delas. Começo a pensar que alguém, algum dia irá ter essa mesma incumbência que eu tive. E assim a coleção de ar de lugares especiais do mundo vai crescendo... Lindo! Definitiva e delicadamente lindo!  

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