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O Pedinte

Segunda, 15 Outubro 2012 15:08
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Ser solteira com mais de sessenta anos traduz um pouco, bem pouco, da vida daquela mulher. Quando jovem teve uns tantos amores, alguns episódios picantes e montanhas de sonhos. Teve também obrigações de filha que não lhe deram trégua. Com o único irmão morando longe, cuidou da mãe e depois do pai enquanto doentes. Atualmente, até o irmão já faleceu e faz muito tempo que vive sozinha.  Não sabe explicar o motivo, mas sente-se alegre na maioria das vezes. Como ela diz, vive ela e sua privacidade em paz. Goza da amizade de pessoas que apareceram há muito tempo em sua vida. Cultiva flores no seu quintal e vibra quando elas desabrocham. Fuma muito e não gosta quando lhe chamam a atenção por causa disso. Já teve doenças sérias e dores terríveis. Sempre deu jeito e de alguma maneira o socorro chegou quando ela precisou. Mora em frente à uma pequena praça. Diz não gostar de andar à toa, portanto aprecia as árvores e o canto dos pássaros, mas não se exercita, como tantos outros, naquele lugar tão convidativo. Recentemente, um acaso lhe reaproximou de um amigo de infância que não via há décadas. Ele ficou viúvo. Depois que chorou por uns tempos, quis ajeitar sua vida. Lembrou-se dela e descobriu o número do seu telefone. Foi direto. Quis saber se ela estava disponível. Ligou como quem tinha uma oferta irrecusável, um prêmio da Loteria. Ela não entendeu assim. Foi explicando que como nunca casou, tinha suas manias. Ele não parecia querer escutar ou se importar com nada. Disse a ela que tinha empregada todos os dias e até uma casa na praia para passear. Disse que ela ia parar de trabalhar e ser madame ao lado dele. Uma vontade de ficar longe dessa história, levou-a a dizer que precisava desligar. Ele não esperava uma dona tão arredia. De alguma forma, essa maneira de ser dela valorizou a conquista que ele tinha em mente fazer. Ele se mostrou insistente, pois tornou a ligar mais algumas vezes. Ela sempre lhe atendeu educada, mas começou a sentir faniquitos com a forma pegajosa dele. Da última vez, chegou a lhe dar conselhos sobre como é bom aprender a viver só. Não sabe se ele ouviu ou se entendeu. Cheia de suspense, contou essa novidade para alguns amigos íntimos, que preocupados com seu futuro, tentaram lhe pedir calma e boa vontade com o pretendente. Cheia de graça, gargalhada na ponta da língua e bastante faceira, ela deixa claro que tem muito pouca chance dela entrar nessa roubada. Para não dizer que o assunto está encerrado, afinal não é todo dia que aparece um galã assim, deixou uma frestinha aberta permitindo que ele ligue quando tiver vontade.

Leo

Quarta, 04 Maio 2011 16:38
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Leo está prestes a completar um mês. Fecho os olhos para relembrar os momentos mágicos, a poesia e as pitadas surreais do seu nascimento. Foi do jeito que minha nora e meu filho desejaram e se preparam. Foi na casa deles, com uma parteira, uma doula e uma pediatra. Enquanto ele nascia no banheiro de seus pais, havia um homem montando um armário, num dos quartos da casa, que não percebeu nada de extraordinário acontecendo. Isso parece piada, mas é a prova de que tudo transcorreu no maior sossego. Faço minha memória voltar para o dia 15 de abril, uma sexta feira, quando meu filho me ligou e me perguntou se eu gostaria de conhecer Leo, meu neto. Depois que consegui entender a mensagem, fiquei atordoada. Ou vice e versa... Peguei minha bolsa e com as chaves do carro na mão, fui para o elevador. Mudei de idéia e voltei para buscar uma torta que eu havia acabado de assar. Dando a partida no carro, liguei para o meu marido. Ele já sabia e estava a caminho também. Cheguei e entrei direto no quarto do casal. Leo estava nos braços de sua mãe com seu pai ao lado. Meu filho e minha nora tinham no olhar um brilho de muita emoção. Reparei então nas mulheres que estavam lá trabalhando. Pareciam ter estendido uma tenda de proteção e amor naquele quarto. Tive, então, a nítida impressão de sentir a presença de meus pais, sogro, irmão, meus avós e até da minha Tia Pola. Dei um jeito de cumprimentá-los. Acho que só Leo notou. Peguei-o nos meus braços e revivi pela terceira vez a sensação abençoada de entrar em contato com uma vida que havia acabado de começar. Coloquei Leo no colo do meu marido e ele também se embriagou de emoção. Passamos a ouvir os relatos de como as coisas aconteceram. A parteira e a doula acompanharam com calma a evolução das contrações. Minha nora se comportou o tempo todo corajosa e tranquila. A banheira com água quente, segundo ela, aliviou bastante as dores. Meu filho foi um companheiro maduro e amoroso. Ninguém interferiu com manobras, muito menos com instrumentos. Às 09h58min Leo nasceu e logo chorou, ao respirar pela primeira vez, sem que ninguém lhe batesse para isso. Quando a pulsação do cordão umbilical cessou, meu filho cortou-o. O relato nesse instante foi interrompido, pois a pediatra foi examinar Leo. Ele estava bem. A doula tratava de deixar tudo em ordem. A parteira certificava-se das boas condições da sua parturiente. Parecia que estavam todas para ir embora. Senti que era uma hora propícia para um café com torta de ricota embora fosse quase meio dia. Minha nora adorou a idéia. Cada um comeu um pedaço da torta e com o café fizemos o primeiro brinde à saúde do Leo. Foi uma festa! Quanta alegria naquele quarto! Posso jurar que vi meu avô dançando, minha avó pedindo para ele se comportar, meu sogro e mamãe com lágrimas nos olhos, Tia Pola e Julio sorrindo e meu pai piscando para mim, como me dizendo que a vida vale muito a pena, exatamente por momentos como esse.

Aniversário de Casamento

Sábado, 01 Agosto 2009 17:14
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Era um casal bonito. Estavam juntos há décadas. Todos os anos, na data do casamento, alguma comemoração acontecia. Ela adorava festa em casa. Dava uma trabalheira, mas ela nem tinha dúvida que valia a pena. Ele relutava, vinha com ponderações e sugestões de outras formas de comemorar, mas devia ser para fazer charme, pois quando a festa acontecia, ele se colocava no centro, dava as cartas, era o rei e não tinha para mais ninguém. Uma das comemorações ficou memorável. Foi um jantar para toda a família e amigos próximos. O estoque de piadas do anfitrião era enorme e os risos transbordaram noite adentro. Antes de servirem a sobremesa, ouviu-se aquele som de talher no copo pedindo atenção. O dono da festa iniciou um discurso para sua esposa. Eram palavras que lembravam os tantos momentos de amor, saudades, alegrias e enormes desafios que passaram juntos. Algumas lágrimas escaparam dos olhos azuis daquela senhora. Num dado momento, ele colocou em suas mãos um presente. Ela foi desembrulhando devagar. Qualquer lembrança seria muito bem recebida, mas quase perdeu a fala quando abriu a caixa aveludada azul.  Era uma gargantilha de ouro espetacular. Todos aplaudiram. A dona do presente nem podia acreditar, dizia baixinho que ele devia estar maluco, que não tinham dinheiro para essas extravagâncias e ao mesmo tempo demonstrava o quanto estava achando lindo. Foi bonito ver aquele homem colocando a jóia na sua mulher. Os convidados foram conferir de perto o presente. Cada um deixava um comentário. A festa seguiu até tarde. O último convidado saiu junto com o sol. Foi um sucesso. Tudo. Ela tentou dar um jeitinho na desordem, mas resolveu deixar para depois. Ao se preparar para dormir, pediu ajuda para tirar a jóia. Ele lhe perguntou se ela havia gostado. Ela disse que era evidente, mas que ainda achava loucura... Ele foi delicado, mas a interrompeu. Pois é querida, amanhã vou devolver essa jóia para a loja. Peguei emprestado para você usar hoje. Só hoje.  Ela entendeu tudo. E adorou. Trocou aliviada uma enorme dívida pela idéia bem humorada do marido. Custou a fazer silêncio naquele quarto naquela noite. Certamente não foi por conta da gargantilha...   

Mudança Necessária

Quinta, 01 Novembro 2012 14:57
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Mudança necessária Viviam juntas há mais de uma década. Viviam na delas e quem as conhecia, dizia que eram gente boa e do bem. Precisaram mudar de endereço por conta da transferência do trabalho de uma delas. Depois de visitarem uns tantos apartamentos, gostaram de um que o próprio zelador do prédio lhes mostrou. Estava reformado e bem localizado. A rua não era das mais silenciosas, mas diante de tantos fatores a ponderar, elas entenderam que um ar condicionado evitaria os sons de fora e seria perfeito para o verão que já se anunciava escaldante. Ligaram para o corretor e marcaram um encontro. Todos chegaram pontualmente. As duas olharam tudo minuciosamente tendo o corretor passeando atrás delas. Faziam planos do que ficaria onde. Tudo que tinham iria se encaixar bem naquele espaço. Felizes da vida declararam-se decididas a alugar aquele apartamento. O corretor lhes apresentou uma ficha para que preenchessem. Nome, endereço, idade, estado civil, etc. Como não tinham nada a esconder, preencheram sua condição de companheiras e todas as demais informações em poucos minutos. O corretor recebeu a ficha cheio de sorrisos. Provavelmente, já devia estar fazendo planos a respeito da comissão que iria receber. Subitamente, uma ruga marcou sua testa emitindo um sinal inequívoco de que alguma coisa estava errada. Muito errada. Quer dizer que vocês não são irmãs, nem primas, nem amigas? É. Quer dizer que vocês são... São... São marido e mulher? E agora? Como que eu arrumo uma situação dessas? Só podia acontecer comigo mesmo! Calma, meu senhor! Não está acontecendo nada demais. A senhora acha mesmo? Claro! Estamos no século XXI. Há leis. Então a senhora acha que vou levar para o proprietário do imóvel, uma ficha de duas mulheres... Duas mulheres o quê? Bem, duas mulheres vocês sabem melhor que eu o quê! Qual o problema? Esse é um prédio de família. Tem crianças e não será um bom exemplo. A conversa pegou um rumo perigoso. O corretor ofendeu as duas mulheres. Elas sabiam se defender e exigiram que a ficha de locação que preencheram fosse encaminhada para o proprietário. O preconceito dele fez com que um risinho imoral aparecesse nos seus lábios. Para encurtar essa história, depois de uma semana, entre idas e vindas de papéis e documentos, as duas mulheres se mudaram para a nova residência. O corretor foi avisado que poderia ter que responder sobre seus atos e até ser julgado como criminoso. Só lhe restou enfiar seu sorriso besta junto com suas verdades e sua arrogância em algum buraco. O zelador fez questão de fofocar que viu o corretor com flores indo fazer uma visita para as novas inquilinas...

Conversar é uma delícia!

Terça, 06 Novembro 2012 07:47
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A cirurgia correu bem. A noite foi sem nenhum problema. Seu papel de acompanhante lhe exigia estar arrumada para a eventualidade de um médico entrar no quarto a qualquer momento. Tomou banho bem cedo. Desmontou a cama e se livrou dos lençóis e travesseiro. Ainda não eram sete da manhã. Tomar um café era a melhor pedida para aquele momento. Deu um beijinho no marido e disse que voltaria logo. Não tem pressa, foi a resposta automática e displicente de quem já estava plugado no lap top. Ela preferiu pedir sua média com um pão na chapa sentada no balcão. A mocinha lhe explicou que o pão Frances ainda não havia chegado. Um pouco a contra gosto, optou pelo pão integral. Ficou em companhia de suas ideias até que um homem grisalho chegou e ocupou um lugar perto dela. Não sentou ao lado, deixou um lugar vago. Pareceu a ela um gesto premeditado. Fingiu nem notar. Ele também escolheu uma média com pão Frances na chapa. Ao ouvir a mesma explicação que ela, o homem teve uma saída que lhe chamou sua atenção: Pode trazer um pão de ontem, na chapa fica tudo igual mesmo. Ela não resistiu e lhe confessou que havia sido boba ao optar pelo outro pão. Ora, integral também é uma boa pedida... E foi assim que o papo começou. Ele era falante. Ela escutante. Ela procurou nele um celular, um lap top ou algo do gênero. Não achou. Seria um extraterrestre? A família dele chegou ao Brasil antes do século XX. O bisavô dele já era comerciante e rico. Ele sabia contar casos com caras, bocas, com os olhos azuis e gestos largos. E ela estava escutando tudo muito admirada, pois pensou que essa era uma espécie extinta depois da morte de seu pai. No meio das peripécias que ele relatava tão bem, contou que a esposa estava internada fazendo uma quimio. Não era a primeira vez. Quase ela se atreveu a lhe interromper e contar o que estava fazendo no hospital. Desistiu. Conhecia o tipo. Ficou como escutante até que seu celular tocou. Era um dos filhos querendo saber como o pai havia passado a noite. Ela se sentiu pega num flagrante. Divertiu-se com a sensação. O homem lhe perguntou se aceitava outra média e dessa vez um pão frances. Ela agradeceu, mas recusou. Ele, num ímpeto de audácia, lhe sugeriu que poderiam rachar o pão. Ela enrubesceu e quase aceitou, mas o celular voltou a tocar. Como ela demorou a perceber o que estava acontecendo, ele avisou: É o seu... Não vai atender? Puxa! Ela parecia estar longe, mas alcançou atender a chamada. O marido queria lhe avisar que estava de alta. O médico já havia passado. Vamos embora? Claro... Ela experimentou uma sensação estranha. Ela queria ouvir mais histórias, enquanto sua razão lhe dizia que seu marido lhe chamava. Tenho que ir. Meu marido está de alta. Puseram-se de pé como se tivessem levado um choque inesperado. Minha mulher também vai ficar uma fera se ela receber alta e eu não estiver lá. Acharam graça de estarem em situações tão parecidas. Cada um pagou sua conta. A despedida começou na espera do elevador para subirem para os quartos. Disseram-se os nomes e apertaram-se as mãos. Quando o elevador parou no andar dela, sorriram um para o outro. Apressada, ela entrou no quarto e escreveu o nome do estranho grisalho num papel. Ainda com a caneta na mão, provavelmente cedendo a um gesto orquestrado pelo seu bom senso, amassou o papel e jogou-o no cesto de lixo. O marido percebeu a movimentação estranha, levantou a cabeça do seu computador e quis saber o que ela estava fazendo. Ela não sentiu vontade de contar toda a história daquele encontro. Limitou-se a dizer que depois falaria sobre isso. Em outra hora. Então, ela se aprumou e tomou todas as providencias para irem embora. Enquanto isso, ele, calado, se ocupava de responder e-mails e outras solicitações do mundo virtual. Quando ela avisou que estava tudo pronto, recebeu a indagação solene: Olhou bem se não deixou nada? Pode ser que deixei... Mas se deixei é por que não quis levar. Com carinho, ela lhe ajudou a se levantar e lhe convidou: Vamos querido? Temos uma linda estrada pela frente...

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