Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: Amizade - Vista da Janela

SEM CHÃO

Sexta, 08 Maio 2015 09:45
Publicado em Blog
Duas mulheres andavam elegantes numa rua movimentada, em sentidos opostos, a passos rápidos e com seus mais diversos pensamentos em ebulição, fazendo com que suas cabeças estivessem no mundo da lua. Esta é uma fórmula quase perfeita para um pequeno desastre. Não deu outra... O encontrão foi inevitável. As duas perderam o equilíbrio. Com muito custo, afinal pareciam uma dupla de dançarinas bêbadas, conseguiram se aprumar nos respectivos saltos bem altos. No meio dessa cena, suas bolsas caíram e se abriram. Vários objetos que estavam dentro das bolsas, acomodados e quietos, subitamente pareceram ter ganhado vida e, sem cerimonia, se espalharam pela calçada. Ninguém pode afirmar, mas aquela bagunça na rua deve ter provocado algum grau de vergonha naquelas duas senhoras que nem se conheciam. Era como se cada uma estivesse expondo sua nudez de forma diferente e dramaticamente reveladora. Os olhares dos transeuntes, provavelmente, contribuíam para aumentar o desconforto nelas. Estava tudo misturado, até os risinhos sem graça que elas tentavam segurar. Teriam que separar o que era de uma e o que era da outra. Ambas se agacharam e iniciaram o trabalho que tinham pela frente. Sem introdução, deram início à tarefa. Essa chave deve ser sua... É, obrigada. Os absorventes? Eu também tinha alguns na minha bolsa. Lembra quantos? Não... Vamos dividir... Certo? Claro... Essa cartela de remédio é minha. Eu também já usei esse ai, mas não me dei bem com ele. Você sentia a boca seca? Demais! E engordei muito também. Ah! Essa merda faz engordar! Pois é... Converse com seu médico. Nesse instante, como notaram que a coisa não seria tão rápida, elas improvisaram um modo mais confortável, esticaram os lencinhos que identificaram como seus e se sentaram sobre eles no meio fio. Assim indicaram que estavam mais disponíveis e presentes. Um peito se abriu e uma conversa começou a fluir. Mês passado fui mandada embora do emprego. Fiquei sem chão. Ainda estou meio assim. Fui num psiquiatra e ele me receitou esse medicamento. Sei que vai passar. Sem saber como seguir com esse assunto complicado, a ouvinte do drama da outra catou a primeira coisa que encontrou no chão e assim mudou o tema da prosa. Essa lanterna é sua? A desempregada aceitou a mudança de tema. É. Com alívio, a outra seguiu nesse rumo. Nunca pensei em ter uma lanterna na bolsa. Essa é de um bom tamanho. Quer para você? Jura? Está me dando de presente? Claro, pode ficar. Enfiando o presente na bolsa, sentiu que um pensamento lhe martelava a cabeça: Como alguém pode estar mal e ser generosa ao mesmo tempo? Espanou essa dúvida e pegou um retrato do chão. Que lindas fotos! Obrigada... Eu carrego a família toda comigo. Posso ver? Claro! Esse é meu marido, aqui é meu filho e do lado é a minha filha. Nessa outra foto estão meus pais e meus irmãos comigo na praia. Que lindos! Você está casada há quanto tempo? Vinte anos. Que beleza! E você? Casei no ano passado. Ainda não tenho filhos e nem sei se vou ter. Tal revelação causou um silêncio com pitadas de assombro e estranhamento. Ficou no ar a diferença entre elas, como se tivessem descoberto que eram de times ou até de seitas diferentes. Ainda tinha muita coisa espalhada e não dava para ficar em transe para sempre. A casada a menos tempo esticou o braço para pegar cartões e carteiras. Notou que seus cartões de crédito estavam embaralhados com documentos que não lhe pertenciam. Passou tudo para a outra e pediu para que ela separasse o que era dela. Estou vendo que desse bolo todo só me pertencem meu RG e CPF. Já falta pouca coisa. É... Nem está sendo tão complicado... Tem um desodorante que deve ser seu, pois eu não levo isso comigo. É meu mesmo. Sem controlar uma curiosidade meio sem pé nem cabeça quis saber se o desodorante tinha bom cheiro. Posso ver? Que suave! Vou anotar a marca. Olhe ali uma caneta e um caderninho... Devem ser seus.  Exatamente! Tenho milhões de dicas colecionadas nesse caderninho. Bacana... Eu anoto coisas no meu i phone. Acaba dando no mesmo. É... Claro. Essa maçã é sua. Eu sempre trago comigo uma fruta ou uma barrinha por recomendação da nutricionista. É mesmo? Eu procuro comer de três em três horas. E é magra desse jeito! É uma questão de hábito alimentar e faz bem para saúde. Você deveria fazer o mesmo. Quase dava para ver como o conselho saiu da boca de uma e bateu de frente com a surpresa da outra. Uma nota de vinte quis fugir da cena pegando carona numa lufada de vento.  A que tinha acabado de guardar a maçã fez uma defesa espetacular e agarrou a nota fujona. Peguei! Você lembra quanto tinha na carteira? Mais ou menos... E você? Não lembro. E agora? Como vamos fazer a divisão? Vou contar todo o dinheiro espalhado, inclusive as moedas. Aqui tem R$ 237,75. Sei que eu não tinha muito dinheiro. Você acha que tinha menos de cinquenta? Acho. Fique com cinquenta e eu fico com o resto, assim não vamos errar muito. Que incrível! Nunca pensou que existisse gente assim... Ainda estava guardando o dinheiro, quando percebeu a aflição na fala da sua nova conhecida. Não estou achando meu i phone! Ele vai aparecer... Calma! Veja, o danadinho está quase no bueiro. Ainda bem, obrigada, sem ele fico perdida. Eu sei, comigo é igual. Agora nossos batons... Temos que admitir que nossos gostos são bem parecidos. Incrível! Tem até dois de cores e marcas iguais. Só que um já está mais gasto. Qual será o seu e qual será o meu? Ah! Tenho certeza que esse mais novo é meu. Posso guarda-lo? Bem, se você tem tanta certeza... Tenho! Não pode ser esse outro aqui? Não! Esse está usado de uma forma que não é minha. Nem minha! Um silêncio breve e grave deu um tom azedo àquele diálogo. Você acha que estou mentindo? Não, acho que você pode estar enganada. Mas não estou... Devolve o meu batom! É meu! Já guardei e não vou devolver nada. Aliás, já estou muito atrasada. Essas porcarias que ainda estão pelo chão devem ser suas. Já ficamos tempo demais nessa cena esdrúxula! Sem cerimônia e se apoiando nas costas da outra, levantou-se, fez alguns movimentos para desamassar sua roupa e tentou ficar recomposta. A que serviu de apoio, admirada, ainda no chão, parecendo anestesiada diante das mudanças de humor e do modo de se comportar da outra mulher, apenas se restringiu a olhar. Virou espectadora. A que estava levantada deu uns passos como indo embora, mas voltou, se abaixou e pegou seu lencinho. Depois disso, muito solene e sem se despedir, girou seus calcanhares e tomou seu rumo.  De quem seria aquele batom? Como foi possível degringolar uma conversa que estava se encaminhando tão bem só por causa de um batom? A mulher sentada no meio fio ergueu o braço como querendo chamar a mulher que minutos atrás estava lhe confidenciando intimidades, mas se deu conta que nem sabia seu nome. Baixou o braço e abortou a ideia. Não achou sensato emitir um grito na direção de alguém que se mostrou tão perturbada e sem equilíbrio. Queria entender... Talvez não tenha percebido alguns sinais, talvez tenha perdido a oportunidade de conversar e ajeitar aquela confusão. Sem ter em quem se apoiar, pegou seu lencinho e foi se erguendo bem devagar, parecia que erguia uma carga muito pesada. Ficou de pé e sem chão, mesmo assim tomou também seu rumo.

UM PEDIDO BIZARRO

Terça, 15 Setembro 2015 14:20
Publicado em Blog
  Estávamos na piscina, duas fotógrafas e eu. Só nós três em toda aquela grande piscina ao ar livre, em pleno inverno, num fim de tarde de domingo. A água estava tépida e as árvores em volta balançavam devagar evidenciando que havia um vento suave. Quando as duas chegaram, eu já estava na água. Gostei de vê-las. Senti que elas também gostaram de me ver. Entraram na piscina sem se incomodar com a temperatura da água. Nadaram cinquenta metros e pararam perto de mim. Não demorou muito, começamos a papear. Com a ajuda de flutuadores, ficamos nos mexendo fazendo discretas alegorias com as pernas e com os braços. Não somos íntimas, nem nos conhecemos há muito tempo. Ainda assim as palavras saíam fáceis. Falamos de casos que aconteceram conosco, coisas que pareciam que tinham que vir à tona. Junto com a conversa me veio a sensação de termos colocado cadeiras na frente de nossas casas, numa rua de um bairro, num interior qualquer, bonito, calmo e muito gostoso. E eu que nunca morei em casa, nem no interior, muito menos levei cadeira para parte alguma para conversar com vizinhas! Será que estaria eu sob o efeito de alguma magia produzida pelas cores do fim de tarde ou pelas fotógrafas falantes? Não sei. A prosa seguiu e eu contei para elas que iria fazer uma viagem em breve. Fazendo um pequeno mistério, disse que era um lugar diferente e que elas não iriam adivinhar. Depois que elas falaram algumas possibilidades exóticas, fui benevolente e contei: Alaska. Notei que ficaram pasmas. Ambas deram gritinhos de euforia e foram alternando observações sobre meu destino: Um cruzeiro perto do Polo Norte. Um encontro com ursos polares! As cores desse lugar, as fotos maravilhosas... De repente pararam. Durante a pausa uma olhou para outra. Um olhar sapeca, levado e divertido ao mesmo tempo. Então, a mais velha, não se conteve e pediu para irmã falar. Vai, fala... Pode pedir... Não tem nada de mais... Ela não vai pensar que você é louca... Ela sabe que você é artista e artistas têm dessas coisas... Fiquei curiosa. Sabia que estava para escutar algo incomum. Ela começou como quem tateia no escuro. Bem, eu tenho uma coleção... Com mais confiança seguiu. Uma coleção vinda de várias partes do mundo. Fique à vontade se não quiser trazer. Não preciso lhe dar dinheiro, pois não custa nada. Nem vai pesar muito ou ocupar espaço demais na sua bagagem. Queria que você me trouxesse uma coisa do Alaska. Do que se trata?  Tenho quase certeza de que nessa hora elas se olharam e piscaram. Pode ser que até riram. Foi tudo muito rápido. Ar. Essa foi a resposta. Escutei perfeitamente e nem duvidei de ter confundido o som e ter chegado à palavra errada. De qualquer forma, achei melhor me certificar. Você quer que eu lhe traga o ar do Alaska? Sabia que você iria entender logo! Escolha um lugar especial e coloque no vidrinho que vou lhe dar. Você pode fazer isso? Respondi sem hesitar, talvez estivesse abduzida. Posso. De verdade? Sim. Não acha que é loucura? Bem... É, no mínimo, um pedido inusitado... O vento, que até então estava agradável, foi sendo substituído por uma brisa gelada. Notei que havia escurecido. Era hora de ir embora. Saímos da água e rapidamente nos enrolamos em nossas toalhas. Estava muito frio. Uma pressa necessária e esquisita fez com que nos despedíssemos de forma súbita. Elas correram para o vestiário e eu fui embora pela rua escura com o meu roupão em cima do maillot molhado. Os dias foram passando sem muito tempo para nada além dos afazeres de rotina. Na véspera do dia da viagem, enquanto fazia a lista do que pretendia levar, tocou o interfone. Era para avisar que uma senhora havia deixado um pequeno embrulho para mim. Fui até a portaria. O porteiro me entregou um pequeno vidro dentro de um saquinho de pano. Coloquei-o na palma da minha mão. Um vidrinho de geleia protegido por um pano. Quando entrei no meu apartamento, meu marido quis saber se fui buscar alguma coisa que ele havia comprado pela internet. Murmurei que não e já ia começar a contar o que fazia com aquele vidrinho na mão, quando ele me interrompeu dizendo que estava apurado e sem tempo para conversarmos. Completou dizendo que teríamos tempo de sobra durante a viagem. Apertei o vidrinho na minha mão e senti que alguma coisa diferente estava começando e mexendo comigo. Escolhi uma mala pequena e conveniente. Com cuidado, acomodei o vidrinho e depois todo o resto. A longa viagem transcorreu bem, sem surpresas. Quando finalmente entrei no navio onde faria o cruzeiro pelo Alaska, a primeira coisa que fiz foi me sentar e me certificar de que estava acordada. Era tudo tão bonito! Bonito demais! Como cheguei ali? Será que estava tudo certo mesmo? Alguns pensamentos começaram a rodopiar na minha cabeça. Viajei... Os outros passageiros deviam ser da realeza de algum lugar e eu teria entrado escondida... Era um engano! Meu navio deveria ser outro e como ninguém notou o erro, o embarque aconteceu. A qualquer momento, a polícia poderia chegar e me fazer descer daquele navio tão lindo... Meu marido, sem perceber, acabou com meu devaneio, convidando-me para almoçar. De braços dados com ele, fui me deixando inundar por um sentimento profundo de gratidão pelo privilégio de estar vivendo tamanha felicidade. Esse sentimento me acompanhou por toda a viagem.   Depois de um dia e meio de navegação, chegamos à primeira cidade do Alaska, Wrangel. Coloquei uma pochete que se mostrou perfeita para carregar documentos, cartão da cabine do navio, algum dinheiro e ainda o vidrinho. Andei de caiaque e me deslumbrei com cenários belíssimos. Fiquei uma hora e meia envolta pela natureza. Como uma música de fundo, podia escutar o som dos remos entrando e saindo da água. Precisei parar alguns minutos a fim de usufruir do silêncio daquele lugar. Toquei no vidrinho. Não. Não senti que era ali. Como é possível ter certeza? Eu tinha. Nas horas em que fiquei em Wrangel andei bastante e olhei para tudo como querendo absorver o cenário. Voltei inebriada e exausta para o navio. Mas não era dali o ar que iria para o vidrinho. O cruzeiro passou por várias cidades. Em cada uma delas, parei para sentir se era ou não o local para abrir o vidrinho e capturar o ar do local. Que poder estranho estava eu imbuída! Foi em Ketchikan, na última cidade que conheci do Alaska, que senti a certeza que estava aguardando. Essa foi a primeira cidade do Alaska e, atualmente, é a quinta cidade mais populosa deste estado americano com cerca de 8.000 habitantes. Quando escutei que Ketchikan é uma cidade com um clima muito chuvoso e frio na maior parte do tempo, fiquei buscando entender como as pessoas poderiam viver num lugar assim. Fui num museu. Assisti um filme (Ketchikan: The Artists ) que me deu a resposta que procurava. Ketchikan se transforma numa usina de artes e muita criatividade durante os longos meses de clima inóspito. Eles dançam, fazem teatro e apresentações musicais; fazem trabalhos com retalhos, fazem pinturas usando várias técnicas, fotografam, bordam e fazem esculturas. Todas essas atividades se tornam meios para que a vida aconteça de uma forma mais suave, mais feliz, mais sensível, bela e em grupo. Enquanto o filme passava pelos meus olhos, minha intuição foi se tornando certeza. Definitivamente, era de Ketchikan o ar que tinha que levar no vidrinho para minhas amigas fotógrafas. Ao sair do museu, numa cerimônia simples, mas significativa, abri a tampinha do vidrinho de geleia, pensei nas minhas amigas, na nossa conversa na piscina, pensei na felicidade que desejo para elas e capturei o ar daquela cidade. Cheguei do Alaska já faz uns dias. Precisava entregar o vidrinho, mas queria entregar junto com algumas palavras. Agora sinto que está tudo certo. Já posso deixar o vidrinho na porta delas. Começo a pensar que alguém, algum dia irá ter essa mesma incumbência que eu tive. E assim a coleção de ar de lugares especiais do mundo vai crescendo... Lindo! Definitiva e delicadamente lindo!  

QUEM ME ENVIOU UM QUEIJO?

Sexta, 22 Janeiro 2016 17:04
Publicado em Blog
Quando cheguei à garagem do meu prédio, ainda não estava escuro, mas era o fim do meu dia de trabalho. Eu estava feliz tanto pelo que realizei, quanto pela programação que eu iria me brindar para ter uma noite de paz e prazer. Já podia me ver sentada no sofá da sala com um lanche gostoso, escolhendo um bom filme para assistir. Lá pelas dez da noite, iria para cama ler um livro que, como um animal fiel, já estaria à minha espera na cabeceira. Deixei meus pensamentos rolarem, fiz as manobras para entrar na minha vaga e quando estava quase desligando o carro, percebi que um jovem vizinho me aguardava segurando gentilmente a porta do elevador. Apressei o passo, agradeci e entrei. Apertamos os botões de nossos andares. Trocamos algumas palavras. O elevador logo parou. Era o zelador que tinha correspondências e uma sacola para mim. Notei que se tratava de uma sacola térmica. Perguntei quem a havia deixado. Ele me respondeu sem pestanejar: Rita! Devo ter feito uma cara muito estranha. O zelador emendou: Regina! Meu semblante deve ter revelado a continuação do meu questionamento. Não lembro! Desculpe-me, mas ela falou e eu não estou conseguindo lembrar... Agora o nome que parece que foi dito é Cristina. Isso! Foi Cristina. Olhei para o meu jovem e gentil vizinho e percebi sua impaciência. Com razão. Obrigada, Sr. Mario, acho que pode ser Cristina... Vou averiguar e qualquer coisa, eu lhe avisarei. Assim que cheguei no meu apartamento, larguei minha bolsa, correspondências e a sacola térmica no balcão da cozinha. Estava curiosa. Abri a sacola térmica em busca de algum envelope, alguma mensagem. Nada. Havia apenas um saco plástico transparente e dentro dele um queijo minas com um jeito apetitoso.  Mais que depressa fui lavar as mãos e voltei para experimentar um pedacinho. Hummmm. Que delícia! Rita... Regina... Cristina... Eu havia estado com uma pessoa com um desses nomes. Ela me contou sobre sua decisão de se cuidar e se alimentar melhor. Claro! Devia ser ela. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que havia recebido o queijo, por sinal delicioso, e que queria me certificar se foi ela quem me presenteou com essa gostosura saudável. A resposta não demorou. Poderia ter sido ela, mas não foi. Ela me sugeriu vasculhar entre outras pessoas que gostam de mim tanto quanto ela. Liguei para o zelador. Sabia que não iria adiantar para muita coisa, mas talvez estivesse com necessidade de compartilhar o andamento dessa estranha situação. Sr. Mario, não era quem eu pensei que poderia ter sido... O senhor não lembra de mais nada? Deixe-me ver... Ah! A pessoa disse que era irmã do Marquinhos. Isso! Foi ele quem, na verdade, lhe mandou o queijo de presente. Marquinhos? É. Desse nome tenho certeza. Por que a senhora não olha no seu facebook? Fechei os olhos, balancei a cabeça e tive vontade de rir. Sr. Mario, se alguém aparecer falando do queijo ou da sacola, pode me ligar, estarei acordada. Olhei para o queijo e para a faca suja. Cortei mais um pedaço. Muito bom! Recordei que Marquinhos era o nome de um antigo cabelereiro. Durante um bom tempo cortei cabelo com ele. Conversávamos bastante, mas... Não. Não imaginava que ele iria surgir do nada usando um queijo como pretexto. Como se estivesse conduzindo uma charrete, eu segurei firme as rédeas e meus pensamentos me levaram para outro lugar. Há uns cinquenta e poucos anos convivi com outro Marquinhos. Foi no período do primário na escola. Será que aquele Marquinhos virou um fazendeiro que me descobriu e cheio de saudades apareceu, meio tímido, diga-se de passagem, deixando uma sacola térmica com um queijo de sua produção? Não consegui embarcar nessa fantasia. Na verdade, eu não podia ter certeza de nome algum. Comecei a pensar que talvez o queijo não era para mim. Algum outro morador era o destinatário daquela delícia. Experimentei pela primeira vez a sensação desconfortável de estar fazendo algo errado. Havia grandes chances de estar comendo um queijo que não era meu. Coloquei o queijo na geladeira e resolvi adiar a continuação desse episódio para o dia seguinte. Ao acordar, logo percebi que estava com o queijo na cabeça. Ou talvez com Marquinhos... Mas, que bobagem! Eu estava ficando atrasada para trabalhar. Minha mente ficou ocupada o dia inteiro o suficiente para não haver a mínima brecha para o queijo. Quando cheguei do trabalho à noitinha, não tive coragem de cortar outro pedaço. Confesso que, fora a quase certeza de que estaria comendo algo que não me pertencia, me veio um pensamento maluco de que alguém poderia querer se passar por uma bruxa igual a que deu a maçã envenenada para a Branca de Neve. Parei na portaria para falar com o Sr. Mario. Era folga dele. Perguntei ao outro funcionário se havia algum recado para mim. Nada. Deixei para fazer as devidas investigações no dia seguinte. Fui dormir certa de que havia alguma coisa bem errada. Quando amanheceu, corri para revirar novamente a sacola térmica em busca de um bilhete bem escondido nela. Inútil. Fui fazer compras. Será que devia ou não comprar queijo para o fim de semana? Afinal, Marquinhos me mandou um queijo lindo... Tive que rir e estava tão distraída que quase bati no carrinho de uma senhora. Ela percebeu que eu estava no mundo da lua e me disse que paixão de outono é mesmo uma maravilha. Eu sorri e deixei-a acreditar no que tivesse vontade. Voltei para casa, arrumei tudo e desci na portaria. Perguntei pelo Sr. Mario e fiquei sabendo que ele só viria de tarde. Puxa! A zeladora quis saber o que estava me afligindo. Comecei a falar da sacola térmica e do queijo e logo ela me interrompeu exclamando: Então foi a senhora? Fui... Pouco tempo depois, eu estava batendo na porta da legítima dona do queijo e da sacola. Levei meu livro de crônicas com uma dedicatória me desculpando pela deliciosa fatia que eu comi. Minha vizinha me ofereceu outra fatia. Demos algumas risadas. Saí daquele apartamento sem a sacola e sem o queijo, mas em troca estava com a crônica todinha na cabeça... 

AS LÉAS

Terça, 28 Junho 2016 11:01
Publicado em Blog
Nem quando apertou os olhos para ajudar a melhorar o foco da visão, conseguiu ter certeza. Estaria vendo um fantasma? Pensava que ela havia morrido... Será que escutou a notícia errada? De fato, fazia uma longa data que não se viam. Talvez nem fosse aquela pessoa que pensava estar vendo. Ah! Como ela queria que fosse! Com seus noventa anos, chegou a pensar que poderia facilmente estar caducando. Ao mesmo tempo, seria bom se fosse a amiga do tempo das crianças pequenas. Naquela época, tinham conversas sem fim no banco da pracinha, enquanto olhavam os filhos brincando nos balanços e correndo um atrás do outro. As crianças também se divertiam muito pegando peixinhos no lago com potinhos de sorvete e bolinhas bem miúdas de pão. Uma vez, um dos meninos caiu naquele lago, mas nada grave aconteceu, além de se molhar e ter que ir embora correndo para casa. A amiga e ela trocavam muitas receitas. Trocavam também confidências... Quando algum motivo apertava seu coração, a amiga tinha o dom de escutar sem pressa de dizer coisa alguma, como quem escuta uma música clássica pela primeira vez e ainda precisa acolhê-la em alguma parte da alma para alcançar compreensão. Ah! Se fosse aquela amiga... Agora já havia deixado seu coração começar a se entusiasmar com a possibilidade de estar prestes a viver um reencontro e ele reagiu como um louco em disparada. Que coração mais doido! E assim, em meio a uma taquicardia e pensamentos de dúvida e esperança, levantou-se e foi se aproximando daquela mulher que havia acabado de entrar no refeitório do asilo, que para agradar os ouvidos da grande maioria era chamado de lar. Como alguém que se sente perdida, a velha ainda não identificada ficou parada atrapalhando a passagem. Parecia buscar com o olhar alguma referência para entender o funcionamento daquele salão. Um homem em cadeira de rodas tentou passar por ela. Como não conseguiu, usou um tom excessivamente alto de voz para pedir que livrasse seu caminho. A idosa, além de perdida, se encolheu. Só não ficou muito tempo encolhida, pois recebeu um toque no ombro como se estivessem testando se ela era alguém de verdade. A mulher desencolheu e ergueu a cabeça. Os dois pares de olhos azuis não demoraram a se encontrar e imediatamente se reconhecer. Uma emoção indescritível tomou conta daquelas duas mulheres. Murmuravam coisas incompreensíveis. Quem sabe estavam falando em idish? Quem sabe falavam um idioma secreto que só se alcança usar em momentos de extrema emoção? Subitamente uma palavra ganhou um som bem audível. Ambas as mulheres gritaram a mesma pequena palavra: Léa! Léa... Repetiram e repetiram seus próprios nomes várias vezes. Como recitando um mantra em diversos modos, elas pareciam que estavam em transe. Grudaram-se num abraço. O tempo parou para elas e assim puderam ficar abraçadas sentindo cada pedaço dos seus corpos que estavam comprimidos e acariciados. Então, entraram na fase dos beijos. Tentavam apenas com os lábios dizer mil coisas que não se disseram, pelo menos, nas últimas seis décadas. Não foi surpresa quando começaram a chorar. Choraram como crianças, diriam aqueles que nunca presenciaram gente de idade chorando assim. Choraram de uma forma intensa e singela, como só um violino nas mãos de um mestre pode ousar chegar perto de reproduzir. A emoção das duas se espalhou pelas pessoas que estavam no refeitório, mas ninguém ousou se aproximar, provavelmente temendo quebrar o encanto daquela situação. Existem momentos que dão a impressão de durar séculos. Esse foi um deles. Quando o século acabou, a Léa, que já era residente no Lar, fez o convite: Venha sentar perto de mim para almoçarmos juntas. Claro! E as primeiras perguntas, como pingos que antecedem a chuva, começaram a pipocar de uma para outra. Você está aqui há muito tempo? Não. Cheguei aqui nesse ano. Minhas filhas acharam melhor eu vir para cá. Você sabe como é... Cada um tem a sua vida... Elas nem moram no Brasil. E você? Bem, na verdade, eu andava meio desanimada e muito sozinha. Gostava muito de ficar na cama, sem fazer nada ou, no máximo, via alguma coisa na televisão. O tempo passava. Escurecia e clareava. Nos intervalos alguém me chamava e me alimentava. Não sinto dor, nem passo nenhuma necessidade. Meus filhos acharam que numa instituição eu teria gente em volta o tempo todo e assim iria me distrair e viver melhor. Entendo... Você quer sopa? Sempre tem uma sopinha de entrada e são bem gostosas. Quero. Vamos buscar? A Léa que estava chegando se ergueu e notou que sua xará andava com dificuldade. De braços dados foram buscar a sopa. Como crianças, elas deixaram rastros pelo salão. Não se incomode, pois eles vão limpar. Estão acostumados com esse e outros tipos de gracinha que aprontamos. Sentaram de volta e concordaram que a sopa estava realmente deliciosa. Uma ajudante trouxe salada e levou os pratos usados. O almoço correu sem pressa. Com uma animação súbita e nada usual, a Léa que estava chegando considerou que seria muito bom poder lembrar as coisas que viveram juntas.  Claro que sim! Somos como aquelas pessoas que se conheceram nos navios que trouxeram os emigrantes fugitivos da Europa antes do Holocausto, os irmãos de navio. Fomos unidas pelas nossas experiências de juventude e agora ficaremos unidas nessa etapa também. Vamos ter que encontrar um nome para nossa situação... Irmãs de pracinha e asilo... Irmãs de início e fim de vida... Como uma nuvem que se coloca na frente do sol, parece que o enveredar da conversa escureceu um pouco o brilho do olhar das duas senhoras. Foi então que se deram conta da presença de um jovem. Ele não estava nem tão perto, mas como ele se movia e tinha uma máquina fotográfica nas mãos foi o suficiente para que o notassem. De onde ele saiu? Era como um paraquedista que havia acabado de pousar de um salto. A Léa novata questionou o rapaz. Ele não teve nenhum problema em se explicar. Estava no asilo fazendo um trabalho para seu curso de fotografia. Pediu autorização à direção do Lar e quando teve que justificar seu motivo, disse que idosos são bons modelos para fotos, principalmente por conta das rugas. Acrescentou que rugas são traços cheios de histórias e mistérios. O garoto já sabia dessas coisas. Foi fácil para ele obter a permissão. A maioria dos residentes o ignorou. Parece que esse fato impulsionou seu trabalho. Em nenhum momento ele pediu para olharem para a sua câmera. Em nenhum momento ele tentou juntar mais essa ou aquela pessoa para conseguir uma foto melhor. Ele foi registrando o que estava acontecendo sem interferir. Por sorte dele, ele estava no refeitório do asilo quando estava acontecendo um fato notável.  Com um olhar treinado para enxergar as sutilezas e emoções, ele percebeu tudo e tirou um monte de fotos das Léas. Capturou desde a incredulidade até o êxtase do reconhecimento e encontro das duas. A vida tem dessas coisas... Ele teve sorte. Foi uma sorte tão grande que deu uma guinada na vida dele e até das Léas. As fotos do rapaz viraram exposição e até ganharam prêmios. Quando ele recebeu um convite para expor em Nova York foi correndo contar para suas modelos. As Léas, que a cada dia estavam mais irmanadas, se animaram e resolveram que queriam ir junto com o jovem artista. Foi um fuzuê no asilo e também entre os familiares das idosas. Como? Tão longe? Quem iria se responsabilizar? Quem iria cuidar das duas? Como adolescentes teimosas, elas tinham respostas para tudo. O jovem fotógrafo achou que a presença das Léas seria o marketing que precisava para sua exposição internacional. Com tamanha excitação, dá para entender como ficou difícil dormir para uma daquelas senhoras chamadas Léas, aquela da taquicardia. Passou a sonhar acordada e elaborar planos e maneiras de alcançar o que tanto queriam.  E assim foram. A viagem de avião foi um sonho. Viram as nuvens e se divertiram com seus formatos. Com taças de vinho brindaram a proximidade que estavam do céu e desejaram, sem melancolia alguma, que quando morressem pudessem fazer uma passagem bonita assim. Ficaram num hotel confortável e tiveram um dia para descansar. O evento foi marcado para as cinco p.m. do outro dia. Os três estavam excitados e foram pontuais. Cada uma das Léas estava mais elegante e bonita que a outra. Foram maquiadas e penteadas. Souberam aproveitar o enigma daquele azul celeste no rosto de cada uma. Vestidos longos, como há muito não usavam lhes destacaram na pequena multidão presente ao evento de inauguração daquela mostra fotográfica. O artista e as duas idosas estavam se tornando celebridades, mas depois de um tempo de badalações, as duas Léas se cansaram. Deixaram os holofotes para o dono da festa, foram para um canto e se sentaram. Murmuraram coisas baixinho uma para outra. Talvez falassem em idish... Talvez naquele idioma secreto... Elas já queriam tirar os sapatos, as meias, os vestidos, os soutiens... Queriam ficar à vontade. Ninguém percebeu quando foram para o banheiro. Eram duas molecas com um indisfarçável sorriso maroto naqueles rostinhos angelicais. Gostaram de ficar descalças. Livraram-se dos vestidos, como se estivessem tirando fantasias depois do desfile de carnaval. Ficaram apenas de combinação. A Léa mais assanhada resolveu que podiam ficar assim e que as pessoas iriam achar que elas estavam com um vestidinho mais casual. Deixaram uma bagunça no banheiro e escapuliram pelo elevador. Ganharam a rua. Riam tanto e estavam tão ofegantes que em muitos momentos quase caíram. Foram andando abraçadas e com uma tremenda alegria que lhes dava combustível para seguir para qualquer lado. Por casualidade, chegaram ao famoso parque de NY. Conseguiram achar um banco livre e se instalaram.  O sol parecia estar com pena de ir embora, mas não houve jeito, logo ele se foi.  O escuro não trouxe medo, nem forma alguma de apreensão. O jovem fotógrafo dessa vez não teve a sorte de estar lá naquele momento. Ele teria percebido que os sorrisos das duas idosas estavam mais evidentes que todas as rugas. Teria feito um monte de outras fotos das Léas, que poderiam seguramente lhe render outras exposições espetaculares. Pena... Não houve tampouco registro da cena quando as Léas se abraçaram e adormeceram no banco do Central Park.

TENTE NÃO ADIVINHAR

Segunda, 15 Agosto 2016 11:04
Publicado em Blog
Com a cabeça totalmente dominada por pensamentos rodopiantes, quase foi um milagre ter percebido que o elevador havia chegado e estava vazio. Entrou. Apertou no andar dela. Olhou-se no espelho. Deu um jeito no cabelo. Notou algumas rugas. O elevador parou. Fez menção de sair e esbarrou num homem que entrava. Notou que não era o andar dela. Muito sem graça, voltou para o seu lugar, mas dessa vez ficou de costas para o espelho. O elevador voltou a parar. A porta não abriu. O homem que o acompanhava no elevador disse um palavrão. Deu para entender que o elevador estava com algum problema. Pegou o fone para pedir ajuda à portaria. Não funcionava. Nem um som. O homem que o acompanhava no elevador se mostrou mais nervoso e puxou o fone de sua mão dizendo “me dá essa merda aqui”. Quando ele percebeu que o fone estava quebrado repetiu o palavrão anterior e começou a suar na testa. E agora? Essa foi a frase que repetiu três vezes aos berros. Calma... Essa foi a única palavra que, mesmo pronunciada de forma calma e serena, detonou a avalanche que estava contida naquele homem que o acompanhava no elevador. Socos, berros e muitos palavrões transbordaram por cada metro cúbico do elevador. Foi incrível perceber como os pensamentos que poucos instantes teimavam em não lhe abandonar, se escafederam. Pode notar que havia uma placa que dizia que cabiam 12 pessoas naquele espaço. Que sorte que só eram duas! Que azar que eram dois, sendo que um se transtornou, se agigantou e fez daquele espaço um cubículo quase irrespirável. O cara estava mal. O cara estava surtado. Tentou o celular, mas não pegava. Controlou-se para não esboçar nenhum sorriso, mas estava convicto de que teria um tempo a passar com aquele homem naquele lugar. O homem era forte e parecia que tinha um grande estoque de socos, berros e palavrões. Seguia desvairado. Subitamente o elevador se mexeu. Desnecessário mencionar o grande espanto e alívio. Quando a máquina parou era no andar dela. Saiu apressado e em frações de segundo se viu completamente atônito ao perceber que o homem que estava ao seu lado no elevador também saiu e também se dirigiu para a porta dela. Agora já se olhavam com ares de interrogação. Deve ter sido muito difícil conter as perguntas esclarecedoras, mas nada foi falado depois que o mais afoito tocou a campainha e ambos esperaram a porta se abrir. Sem dúvida alguma escutaram passos e a voz dela cantando, muito mal, um samba antigo. Ela encostou-se à porta, deve ter ficado na ponta dos pés e olhado pelo visor. Depois disso, fez-se de morta e não se escutou mais nenhum som que viesse de dentro do apartamento. Obviamente ali estava acontecendo uma situação. Tem tempo para um café? A resposta veio pelos ombros e pela cabeça. Andaram em direção ao elevador e com o olhar mostraram-se sem vontade de reviver a experiência recente no elevador parado. Desceram pelas escadas. Parecia um exercício para deixa-los tontos. Chegaram ao térreo. Havia uma padaria na esquina. Dois cafés. Puros, sem açúcar, sem adoçante. O tema foi introduzido de forma chula: Afinal, que porra é essa? Ela marcou com você? Sim, mas não para hoje. Eu já estava no prédio e resolvi dar um pulo para tirar umas dúvidas antes de lhe entregar o orçamento da reforma da cozinha. Está na cara que entrou em contato com dois profissionais para poder escolher. Ficou sem graça ao nos ver juntos. Risos e gargalhadas desenfreadas. Como é seu nome? Trocaram os cartões profissionais. Numa conversa franca e animada, combinaram um jeito de não perder a cliente. Quem sabe até conseguiriam fazer esse projeto juntos? Os tempos não estão para abrir mão de nada. Falando em tempo, parece que os dois se esqueceram dele. De totais estranhos, eles já pareciam amigos com certa intimidade. Mais um café? Não, obrigado... Tenho que ir. Só uma coisinha... Fale! Quer uma indicação de um bom psiquiatra?  Um sorriso foi a resposta e a introdução do convite: já que você quer cuidar de mim, vem em casa hoje à noite para jantarmos juntos...        

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook