Você está aqui:Home»Blog»Mostrando itens por tag: Amigos - Vista da Janela

Cidadão

Terça, 13 Novembro 2012 11:31
Publicado em Blog
Apareceu um programa singular para um final de tarde de domingo. Um casal de amigos fez o convite. Foi o bastante para que ele entendesse que estava diante de algo imperdível: estar com amigos e assistir a um super espetáculo. O GPS soube levá-los até bem perto e, por sorte, havia uma vaga para estacionar o carro. Estavam meia hora adiantados e foram alegres marchando para o local do evento gratuito anunciado na rádio e na internet. A alegria murchou quando se depararam com uma fila. Não dava para ver quantas pessoas estavam à frente deles. Quando já estavam acomodados atrás do último, uma senhora passou por eles e avisou que não iriam conseguir entrar. O casal de amigos já tinha até dado a meia volta, quando ele avisou que queria conferir com seus próprios olhos o que estava acontecendo. Não iria desistir assim tão fácil! A frustração tornou-o exaltado. A vontade de entrar no recinto tomou conta dele. Chegou a dizer que ficar de fora era algo para os perdedores, os bestas. De forma automática, ficou repetindo que haveria um jeito e que iria conseguir entrar! Seus passos firmes o levaram ao primeiro da fila e ao encontro de um enorme aviso pregado no portão: lotação esgotada. Tinha certeza que escutou uma provocação zombando dele: Você é tão inteligente para tantas coisas e mesmo assim não consegue entrar nessa droga de estádio! Enquanto perscrutava um rombo na segurança ou um muro mais baixo para pular, dirigiu-se ao guarda que estava tomando conta do portão e perguntou-lhe se as pessoas que estavam na fila iriam entrar. Impossível, meu senhor, não cabe realmente mais ninguém lá dentro! É sinal que o povo gosta do que é bom e quer mais eventos culturais. Isso é ótimo, não é mesmo? A fala daquele homem abalou a coisa ruim que havia se instalado nele. Baixou suas armas e desligou seus motores. Leu o cartaz novamente. Voltou à razão. Não ficou mal, não se sentiu um perdedor, nem um besta. Aceitou ser um dos cidadãos que não iria entrar.

PARA VIVIAN

Sexta, 24 Maio 2013 09:07
Publicado em Blog
A notícia veio seca: morreu. Não deixou margem para choro de desespero, nem coro de lamúrias. Morreu depois de dez anos doente. No entanto, a notícia incomodou como uma bofetada inesperada. O que pode explicar ou confortar? Não sei. Sou pequena demais ou inculta demais para atinar com tamanha provação que um ser humano pode ter que passar. O senhor que morreu,  Dr José, era médico. Tinha uma vida ativa. Lembro-me de escutar como ele corria e tinha compromissos. Sua esposa quase sempre o acompanhava, já que ambos eram ginecologistas. Usavam bips que os tiravam no meio de festas e reuniões com amigos e familiares para centros cirúrgicos. Na primeira vez que presenciei isso ocorrer, Vivian, sua filha e anfitriã, me segredou que não era motivo de consternação, pois foi assim a vida inteira. Ela me garantiu que estava acostumada e que nada disso abalava o grande amor que tinha por aquele homem. Como meu pai era comerciante e minha mãe dona de casa, nas nossas festas ninguém os chamavam para lugar nenhum e, certamente, eles não iriam sair da festa por nada. Dr. José, por sua vez, não se chateava por conta de ter que mudar de programa e deixava até transparecer o orgulho por ter sido chamado para algum parto ou alguma emergência. Não guardo lembranças dele fazendo discursos ou rindo desbragadamente, mas quando o assunto era medicina, o tom de sua voz tinha um enorme entusiasmo. Somando umas poucas situações, assumi, e posso estar redondamente enganada, que Dr. José confundia a própria vida com sua carreira. Sua energia de trabalho parecia inesgotável. Quando o diagnóstico de Alzheimer lhe foi dado, foi difícil acreditar. As desculpas para os primeiros esquecimentos, que já eram os sintomas, vieram como escudos contra uma provável calúnia. A doença foi implacável. Encontrei Dr. José sendo carregado para assistir a formatura de medicina do neto. Carregaram também todas as dificuldades da doença que já estavam grudadas nele, mas ele foi. O que será que ele entendeu que estava acontecendo? O que teria tido vontade de falar ou fazer? Maldita doença! Lembro que muita gente se comportou com ele, como se tudo estivesse absolutamente normal. Eu não consegui. Fui até ele e lhe disse boa noite. Não houve resposta. O seu silêncio não calou seu olhar, que me fez saber de sua raiva e impotência por estar preso numa jaula invisível, mas intransponível. Não posso garantir se foi isso realmente que ele sentiu, mas de minha parte, era o que eu percebi fervendo dentro de mim. Vivian notou minha emoção e veio novamente me tranquilizar. Não havia mais nada a fazer ou sugerir, pois seu pai estava nas mãos dos melhores médicos e enfermeiros. Depois desse evento, nem estou certa se o encontrei novamente. Tudo que soube dele, foi através da Vivian. Os anos foram passando e Vivian corria. Gostava muito de correr. Os anos passaram, Vivian parou de correr e virou poeta e avó. Talvez avó e poeta.  A poesia se tornou seu trabalho, seu vício e seu remédio. Os netos, que bênção, lhe apontam todos os dias para a continuidade e alegria da vida. Vidas que seguem... Shalom!

Tony e EU

Quinta, 04 Julho 2013 11:40
Publicado em Blog
Pois é... Já estava quase indo para casa num fim de dia de trabalho. Ia comer sopinha, colocar o pijama e me esticar na frente da TV. O anuncio da presença do músico e escritor para um bate papo numa livraria me chamou a atenção. Fiquei curiosa para conhecer o cara. Fui conferir. Antes de começar o evento consegui falar com ele. Foi simpático. Espero que ele tenha achado o mesmo de mim. Dei o meu livro para ele. Ele se apressou a me dar o dele. Tiramos fotos. Beijinhos. Perguntei-lhe sobre seus escritores favoritos. Temos alguns em comum. Senti que ficamos mais próximos. Outras pessoas queriam falar com ele também. Tive que deixar. Fiquei para ouvir o bate papo. Falou de como escreve, dos autores que gosta de ler. Falou dos Titãs, da Malu. Respondeu perguntas e chegou até a falar de angustia e sofrimentos da alma. Falou como quem estava à vontade, sem tentar parecer outra pessoa que não fosse ele mesmo. Foi gostoso. Fui dormir pensando que é muito legal fazer coisas diferentes, ver gente nova e escutar sobre as experiências de outras pessoas. Acordei contente.

JULIO

Segunda, 22 Maio 2017 16:13
Publicado em Blog
Foi como se uma porta se abrisse súbita e inesperadamente pela força de um vento forte. Foi assim que me encontrei nesta madrugada diante de fatos que estavam empoeirados, embrulhados e guardados no sótão da minha alma. Tive o ímpeto de fugir, mas sabia que não tinha escolha. Muitas cenas estavam borradas. Meu irmão de quase 26 anos estava doente. Melanoma. Julio sempre teve muitas pintas. Era um charme que virou uma tragédia. Ele havia passado um tempo nos Estados Unidos, onde operou. O que exatamente será que ele operou? Lembro que seu médico oncologista americano se chamava Dr. Roland. Lembro que conversei com ele pelo telefone. Seu irmão vai voltar para o Brasil. Ele está curado? Ficou bom? Ele precisa voltar... Precisa ficar perto da família. Doutor, o senhor não está me respondendo... Preciso que o senhor cure meu irmão. É meu único irmão! Sei... Mas ele precisa ficar perto de vocês agora. Eu não fui capaz de interpretar essas falas. Julio voltou. Fui buscá-lo no aeroporto. Eu estava grávida. Naquele tempo, podíamos ver as pessoas assim que entravam no grande salão do desembarque. Papai devia estar ao meu lado, mas papai andava mudo e quase invisível naquela época. Vi meu marido e minha mãe. Acenei para eles. Onde estava meu irmão? Não o achei e cheguei a pensar que alguma mudança de última hora havia acontecido. Minha mãe e meu marido me abraçaram e com um susto entranhando no meu corpo, reconheci a voz do meu irmão naquele homem sem cabelo, envelhecido e sem brilho que vinha junto com eles. Julio ainda teria alguns meses de vida. Eu não tinha a mínima ideia de que o fim estava tão perto. Eu tinha um filho de dois anos e um para chegar em breve. O neném chegou um mês antes do tempo e o tio lhe conheceu. Julio me pediu que não o deixasse chorar. Estranho pedido. Não tive a oportunidade de saber o seu motivo. Cumpri o possível, me esforcei. Meus avós maternos fizeram uma festa de suas bodas de ouro. Julio foi. Não sei como ele estava se sentindo. Não sei se tinha dores. Ele foi. Foram meus sogros, primos, tios e alguns parentes que não víamos com frequência. Temos fotos para garantir isso. Que esforço Julio deve ter feito para comparecer nessa festa! Não sei ao certo se foi logo depois dessa festa ou pouco antes dela, mas o fato é que Julio anunciou que queria se casar. Que reboliço! Que confusão! Julio tinha uma namorada. Não era um namoro de muito tempo, ou pelo menos é assim que o fato está registrado na minha memória. Era uma moça não judia. Não lembro seu nome. Lembro que ela não tinha a aprovação da minha mãe, nem dos meus avós maternos. Eles queriam que Julio se casasse com uma moça judia. Não lembro o que papai achava. Posso imaginar que para ele a religião da moça e o impasse resultante não eram tão importantes, mas não posso garantir nada. Lembro escutar que a moça poderia estar se aproveitando de uma triste situação. Pensando nisso agora, me parece um absurdo sem pé nem cabeça. Eu, com menos um ano que meu irmão e ocupada com os filhos pequenos, não enxergava as garras da morte se aproximando dele. Os amigos do meu irmão conseguiam conversar, rir e, provavelmente, até chorar com ele. Um deles arrumou um apartamento e concedeu a realização do seu último desejo. Julio não casou, mas foi morar com a namorada. Meus pais o queriam perto de si, mas acabaram cedendo. Eles o ajudaram a montar o seu apartamento. Capaz que até minha avó tenha ajudado. Não sei, não lembro. Geladeira, fogão, televisão, batedeira, etc.. Eu estive lá. Não sei quantas vezes fui ao apartamento do meu irmão. Não imagino que foram muitas vezes. Guardo uma imagem do Julio deitado, descansando no seu quarto naquele apartamento. Lembro que havia um som forte vindo da sua respiração. Não era um ronco. Um som que traduzia um esforço. Não lembro o nome dela, da namorada. Ela estava lá e está esfumaçada na minha memória junto dessa respiração tão difícil e ruidosa. Não estou certa se falei com ela. Acho que nunca falei com ela. Eu adorava meu irmão. Tive sempre muitos ciúmes dele. Eu não sabia discriminar meu papel de irmã do papel de uma namorada. No meu aniversário de 25 anos, meu irmão não apareceu. Era uma pequena reunião no meu apartamento com meus filhos, marido e alguns amigos. Eu reclamei. Uma reclamação estúpida e fora de qualquer nexo. Julio estava mal. Eu não escutava, nem compreendia essa informação. Julio foi hospitalizado no dia seguinte ao meu aniversário ou talvez até já estivesse internado. Lembro que encontrei seu amigo médico no quarto do hospital. Dr. Silvio deve ter me dito coisas bem diferentes das que eu captei e levei comigo naquela ultima vez que vi meu irmão vivo. Ele vai ficar bem. Ele está até mais forte... E a namorada? Não a vejo nas minhas lembranças no dia do enterro, nem na casa de meus pais, nas rezas que foram feitas durante a semana de luto. A namorada evaporou. Foi a ultima mulher que meu irmão amou. Não sei o seu nome. Lembro escutar conversas do desmanche do apartamento do meu irmão. Ela ficou com tudo. Tudo? Quem sabe o que ela queria era apenas ele? Ela possivelmente deve ter esquecido o meu nome também. Precisei quase quarenta anos para revisitar essa moça. Eu não tinha olhos, nem ouvidos para a realidade tenebrosa. Não estava capacitada a entender, quanto mais analisar e emitir alguma conclusão. Foi assim que perdi uma pessoa que pode ter sido alguém muito especial, afinal meu irmão escolheu compartilhar seus últimos dias com ela. Olhei o despertador. Eram quase cinco horas. Olhei meu marido adormecido. Ele já estava comigo quando eu tive que conhecer essa dor.  Ajeitei-me nos seus braços. Estava sentindo uma emoção muito especial, como se tivesse entrado uma nesga de luz no sótão da minha alma.   

VÁ VOCÊ TAMBÉM!

Quinta, 07 Dezembro 2017 16:51
Publicado em Blog
No primeiro domingo de dezembro, um grupo de trinta pessoas fez acontecer o último evento do ano de 2017 da Biblioteca Regina Bin da Sociedade Israelita Beth Jacob de Campinas. Visitamos o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em SP. Tivemos a honra de sermos guiados pelo Professor Reuven Faingold e também pela Orientadora Educacional Ilana R. Iglicky durante três horas dentro do Memorial. Todos do grupo foram unânimes em salientar o conhecimento do Professor Reuven e sua capacidade de transmitir e contextualizar os fatos e dados históricos. Ilana explicou e apresentou a parte referente à cultura dos imigrantes judeus com muita propriedade. Somos gratos por tanta generosidade de ambos. Visitar um Memorial do Holocausto é dispor-se a reverenciar os Seis Milhões de Judeus inocentes assassinados e fazer reflexões sobre a capacidade de intolerância, brutalidade e ódio que proliferaram nas mentes nazistas. Há quem diga que não quer mais saber desse tema, já se abalou demais com fotos, livros e filmes. São pessoas que acreditam que precisamos de alegria e que não devemos remoer eternamente as vozes que nos chegam dos escombros. Sem querer escutar tais vozes, ou sussurros desesperados, essas pessoas evitam se conectar com a responsabilidade de passar adiante tudo o que aconteceu. Parece não se interessar pela onda de negação do holocausto. Também não lhes interessa se os jovens, estudantes de escolas públicas ou particulares, sabem mais ou menos sobre os fatos relacionados ao nazismo, holocausto e II Guerra Mundial. Esquecer é o caminho para alguma forma de repetição e é um insulto à memória de todos que foram executados no holocausto. Definitivamente esquecer não beneficia a nós, judeus, nem a nenhuma pessoa interessada na paz e na justiça social. No mesmo prédio e não por acaso, também funciona o Memorial da Imigração Judaica. A ligação entre os sobreviventes, os que escaparam antes do holocausto e toda a riqueza cultural que veio para o Brasil é feita com arte e delicadeza. A arquitetura e a decoração de todo o prédio nos fazem esquecer que estamos no Bom Retiro e nos convidam a viajar para algum lugar que não existe. Dias depois dessa visita, meus pensamentos apontam para muitos questionamentos, que ainda precisam ser digeridos, e uma certeza: Cada pessoa que passa pelo Memorial, acaba aceitando, sem fazer nenhum contrato, a obrigação moral de fazer outras pessoas irem lá. Esse é um Memorial que precisa ser conhecido por toda a comunidade judaica, para que todos os judeus saibam que há quem esteja preocupado com assuntos relevantes como esse. E, é um Memorial para ser visitado por escolas, faculdades e grupos das mais diversas origens para que a história não se deturpe jamais! Kol ha Kavod para todos que de alguma forma estão ligados a idealização, construção e manutenção do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto!  

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook