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PÉROLA INESPERADA

Segunda, 07 Janeiro 2013 10:52
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Fiz um intervalo. Fui tomar um café na padaria. Sentei-me de forma a apreciar o movimento da rua. Sempre faço isso. É como se entrasse num cinema, sem pagar ingresso e sem saber que filme vai passar. Foquei numa dupla de passantes. Os dois caminhavam lado a lado. Nada diziam. Pareciam ocupados com pensamentos sérios. O céu estava cinza e não demorou a despejar chuviscos. Os pingos da chuva logo engrossaram. Para evitar ficarem molhados, precisavam correr e buscar abrigo. Não foi o que fizeram. Deram a entender que queriam mesmo sentir a água fria e experimentar as sensações que viriam a seguir. Não demoraram a começar a rir. Do nada. Como se tivessem chapados. Não creio que estavam, mas quem há de saber? A chuva deve ter acordado algumas partes que andavam adormecidas neles. Era nítida a sensação de alegria que vinha de dentro deles. Deram-se as mãos. A rua passou a ser o palco deles. Ora corriam um pouco mais, ora davam passos mais lentos. Num dado momento, ergueram os braços numa demonstração nítida de que não tinham medo dos trovões, nem dos relâmpagos. Foi lindo de se ver! Dançaram ao som da tempestade. Não deixaram escapar nenhuma poça. Pularam em todas. Sempre rindo. Até as bengalas ajudavam na coreografia. Devia fazer muito tempo que não encaravam uma loucura dessas. Quando a chuva acalmou, eles estavam abraçados, encharcados e com jeito de sentirem falta de ar. Notei que havia acabado meu café. Levantei. Tive vontade de bater palmas, mas paguei minha conta e voltei para trabalhar.

Sessenta

Terça, 23 Julho 2013 11:20
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Entrei nos sessenta e minha primeira dúvida é se exclamo ou coloco reticências. Por ter alcançado seis décadas, recebi carinho de muita gente e de várias formas. Amigos e parentes quase me garantiram que há muita coisa boa pela frente com seus votos de felicidades. A sensação que paira em mim é de que fui pega pela mão e até no colo, fui embalada e acariciada, fui mimada. Tive festa e ganhei muitos presentes. Meu marido conseguiu traduzir seu amor através de um aniversário inesquecível. Fui surpreendida até quase perder o fôlego. Renato foi seu grande cúmplice e tudo foi mágico. Tudo foi perfeito. Foi uma reunião salpicada de amor para celebrar a alegria de viver. Uma sombra passa na minha cabeça e me faz lembrar que meu pai só viveu mais dez anos que o tanto que agora alcancei viver. E minha mãe dezesseis. O tique taque de um sinistro contador de tempo me arrepia. Tenho planos de estar com os netos por muitos anos ainda, pois preciso lhes contar muitas coisas, estar para eles quando precisarem de mim e quero também, ou principalmente, usufruir do farguinign (palavra em idish, praticamente intraduzível, que quer dizer satisfação em alto grau, um prazer inebriante) de ver as conquistas que farão através das suas jornadas de vida. Quero passear, rir, desfrutar da vida. Quero ter muitos outros encontros com pessoas que amo. Quero escrever e escrever para dar vazão às ideias que me inundam. Não posso assegurar quanto tempo mais vou seguir terapeuta. Talvez uns anos. Tenho que ter mais sabedoria para usar o tempo... Preciso de paz para buscar aprender tantas coisas... Quero ainda milhares de vezes, estar com meus filhos e suas lindas famílias. Quero esticar ao máximo meus momentos com meus tios, sogra e todos que me enxergam como uma menina. Eu busco neles meus pais e sei que eles sabem disso. Muitas vezes, no meio de um jogo de palavras cruzadas, por exemplo, chego a esperar ouvir mamãe ou papai dando algum palpite no jogo ou enganchando numa das conversas que rodeiam o tabuleiro. Ah! Eis que surgem as lágrimas que estavam emboladas dentro de mim! Choro. Desafogo. Incluo meu irmão nos meus pensamentos e desejos de aproximação. Deixo-me ficar um pouco com eles. Preciso e gosto de ficar assim. E me abro para receber meus avós, meu sogro, amigos e reverencio a todos com emoção. Parece que ajeito alguma coisa dentro de mim. Parece que faltava incluí-los oficialmente na ocasião festejada. Já se passaram três dias. Estou com sessenta. Já ficou na minha memória a linda festa e tudo que aconteceu até todos voltarem para suas casas. Ficou um livro com lembranças preciosas e declarações de amor de mais de oitenta pessoas que fazem parte da minha vida. Ficaram mensagens na minha caixa de e-mails e no facebook. Em mim, dentro de mim, fica a certeza da vontade de seguir adiante e os agradecimentos pela vida abençoada nesses primeiros sessenta anos.    

ESCANDINÁVIA II - PASSEIO OPCIONAL PARA GELEIRA

Quinta, 04 Setembro 2014 10:35
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Era opcional. Um programa a mais no meio de tanta coisa bonita. Será que valeria a pena? Meu marido e eu nem chegamos a ter dúvidas. Já havíamos visitado outras geleiras. Sabíamos que se tratava de uma paisagem rara e belíssima. Vamos! Mal tivemos tempo de fazer um intervalo entre a chegada do passeio da manhã e a saída para a geleira. O céu estava anunciando chuva. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso perceberia que estávamos entrando numa fria. Não nós que estávamos abduzidos pelo espírito do turista, aquele que elimina dúvidas sem análises, ou melhor, o pensamento descansa e só funcionam as emoções. O espírito em questão pinça em cada um a sua parte mais cheia de vontade de aproveitar o máximo de qualquer coisa, muitas vezes a qualquer preço.  Entramos no ônibus, fomos contados pelo guia e, assim, estávamos prontos para seguir. O grupo do opcional era composto na maioria por pessoas, como nós, de meia idade, mas também constava de alguns jovens e outros com idades mais avançadas. O aspecto em comum era a animação crescente à medida que nos aproximávamos do local esperado. Paramos num típico lugar para pessoas não nativas. Um local com café, comidinhas, banheiro e a lojinha de presentes e lembrancinhas. Tínhamos que esperar nosso horário de ir visitar a geleira. Estávamos na Noruega e não havia jeitinho para apressar nossa visita. Outros grupos já estavam por lá. Tudo organizado. Quando nos reunimos na hora e local indicado, já caia uma chuvinha fina. Tínhamos que andar. Os otimistas de plantão se apressaram a dizer que não era nada. Houve quem ficasse ressabiado, mas calou-se e seguiu com o grupo. Chegamos com mais chuva ao encontro de veículos totalmente abertos que estavam a nossa espera. Só nos restava achar graça, acomodarmo-nos e aguardarmos. O motorista distribuiu lonas e, falando em norueguês, entendemos mais tarde, queria dizer que iriam nos proteger. A chuva apertava. Era uma chuva de água bem fria. O motorista deu a partida. Começamos a subir. Depois de uma ou duas curvas, deu para ver uma queda d’água enorme muito próxima de nós. O motorista pegou uma ponta da lona e fez um gesto de se cobrir dizendo mais coisas em norueguês. Um dos engraçadinhos do grupo fez piada e disse que já estávamos mesmo na chuva, então era para se molhar... Não deu outra, todos do banco ao lado do motorista ficaram totalmente encharcados pela força da água. Em fração de segundos, os demais, no qual me incluo, ficaram espertos e entraram embaixo da lona. Como a lona não era transparente e queríamos ver o que a natureza tinha para nos mostrar, sorrateiros, colocávamos as cabeças para fora da lona e, qualquer um pode imaginar que estávamos a cada segundo mais e mais encharcados. Ríamos muito cada vez que alguém fazia alguma coisa para tentar se secar. A subida continuou mais uns dez ou quinze minutos. Quando não deu mais para seguir motorizado, descemos do nosso veículo e seguimos caminhando. Sim, ainda chovia. Sim, estávamos molhados como pintos. De repente avistamos a geleira. A maioria viu o espetáculo junto com as gotas de chuva que enfeitavam seus óculos. Majestosa! De tirar o fôlego! Fotos e filmagens foram feitas acreditando que a água não iria danificar nossas máquinas. Tive a impressão que a geleira parecia contente com nossa visita, ainda que não se mexesse, não abrisse a boca, nem esboçasse um sorriso. Quis entender melhor esse assunto, mas acabei me conformando em compreender que há grandezas que não cabem em explicações. O nosso grupo, o opcional, no tempo todo que teve para apreciar a geleira, deixou transparecer uma enorme alegria. Riu por tudo, por nada ou apenas por estar onde estava. Ficamos um bom tempo apreciando e curtindo. Alguns inclusive ergueram pequenas esculturas com pedras. Foi nos dito que o formato das pedras poderia ter relação com os trols e espíritos diversos... Alguns chegaram a sentir que deixaram mensagens para falecidos moradores daquela região, ou de outras, ou talvez para os que ainda não morreram, ou para os que não nasceram. Não sei... Não engatei bem com essa lenda e só com algum custo consegui que duas pedras se aquietassem uma sobre a outra. Até as pedras sentem quando não há uma boa conexão... Voltamos no mesmo veículo. Quase não chovia. Chegamos ao mesmo café. O sol estava saindo. Um novo grupo já estava a postos para conhecer a geleira. O céu ficou azul e o sol brilhava forte. Sorte deles? Pode ser. Fomos para o ônibus que nos levou direto para o hotel. A sensação mais presente no grupo foi a de ter feito uma boa travessura. Fizemos o trajeto para o hotel gargalhando e lembrando da queda d’água, da lona, da chuva e da geleira. Quando algum de nós teria feito algo parecido pela última vez?  Pesquisando na volta da viagem, descobri que a Noruega tem algo em torno de 1.600 geleiras. Não tenho certeza se lembro do nome correto da geleira que visitamos. A única certeza que tenho é que ninguém do grupo deste opcional se arrependeu da farra!          

COISAS DIFÍCEIS DE EXPLICAR

Sexta, 24 Outubro 2014 08:52
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Levantei da cama cedo. Havia tempo para uma caminhada. O sol já anunciava um dia quente. Entrei cantarolando no elevador. Percebi que meus olhos estavam com disposição de fotografar tudo o que aparecesse no meu caminho. Notei flores desabrochadas. Notei plantas, árvores, passarinhos. As cores, formas e texturas eram incríveis! Uma verdadeira explosão de beleza. Apareceram, então, cães levando seus donos para o passeio do dia. Os estímulos eram tantos e em tantas direções que eu fiquei absolutamente distraída. Não notei um pequeno buraco e quase cai. Um alarme soou em mim, afinal, já me esborrachei uma vez. Nesse instante, a drogaria foi aberta para o público. Era um sinal inequívoco de que o dia de trabalho se fazia começar. Dei de ombros. Minha pressa não estava comigo. Meus compromissos me davam o direito de estar ali aproveitando tudo. E era exatamente ali que eu queria estar. Então, um homem me capturou. Não sei se foi só ele, ou o andador no qual ele se apoiava. Ficamos bem próximos, quando cruzamos nossas direções. Trocamos sorrisos. Ele não era velho. Talvez, no máximo, uns dez anos a mais que eu. Estava de bermudas, camiseta, barbeado e, quase posso jurar, senti nele o cheiro de alfazema. Dava para notar que fazia força para respirar. Fazia força também para se locomover. Quis parar e trocar algumas palavras com ele. Não fiz isso. Percebi que estava tomada por uma emoção grande. Não me foi difícil entender que aquele homem me remeteu para quase vinte anos atrás, quando meu pai fez uma cirurgia de retirada de 1/3 do pulmão direito por causa de um câncer. Papai se propôs a voltar a caminhar logo que teve alta do hospital. Em poucos meses, papai desfilava seu otimismo e sua garra pela Avenida Atlântica, no RJ. O homem já estava longe, quando tive a impressão de ter saído de um transe. Senti um prazer muito grande de conseguir me aproximar de papai. Pode ser que a história desse estranho seja totalmente distinta. Pode ser... Ainda caminhei um pouco mais e consegui aproveitar outros olhares. Quando comecei a sentir que minha mente já estava me dirigindo para as tarefas do dia, dei por encerrada a caminhada. Estava novamente cantarolando, quando entrei no elevador do prédio onde moro. Um vizinho entrou comigo. Não se conteve e expressou sua admiração pelo meu bom humor matinal. Quis saber por onde andei e, malicioso, me questionou sobre quem havia encontrado na minha caminhada. Parei de cantar. Sorri. Um sorriso meia boca, mas sorri. Respondi com educação que o dia estava realmente muito lindo e não senti vontade de dizer mais nada. 

DA SURPRESA AO ABRAÇO

Quarta, 05 Novembro 2014 16:03
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Ela chegou de surpresa. Era uma amiga antiga, que morava pertinho e, por circunstâncias da vida, foi para longe. É daquelas que nem podemos pensar muito na falta que fazem, para não ficarmos pensando só no tempo que já passou. Ela tinha menos de uma hora e queria colocar tudo em dia: maridos, namorados, filhos, netos, trabalhos e mais mil casos antigos e novos. Gostei de perceber que seus quase sessenta anos não atrapalham em nada seu animo e bom humor. Parecíamos duas adolescentes sentadas de lado, com as pernas encolhidas e uma de frente para a outra no mesmo sofá da sala. Contou que depois de quarenta anos, reencontrou um colega de escola que lhe ajudou a levantar o astral depois da última separação no ano passado. O colega era bonito, bem apessoado e chegado a um chamego como ele só! Era um homem equipado e atento para a arte do amor. Pelo tempo que nada acontecia nos últimos anos de casada, ela estava certa que sexo era coisa do passado e que suas chuteiras já podiam ser penduradas. Em seis meses dessa aventura, o galã lhe mostrou como estava errada. Foi um deleite. Reativou motores enferrujados e partes da máquina que estavam totalmente sem uso. Se não fosse a gula por sabores e cores de fêmeas diferentes, até que poderiam ser um belo casal. Foi uma pena... Com os olhos mareados, mas ao mesmo tempo ostentando um sorriso, contou-me que não fez dessa separação nenhuma tragédia, afinal já havia passado situações bem piores. Levantando-se como quem já estava começando a se despedir, me garantiu que estava livre e pronta para voltar a ser quem sempre foi e voar para onde tivesse vontade. Essa era a amiga que eu conheci! Nem eu, nem ela queríamos nos separar, então lhe sugeri que ficasse mais um pouco para comermos juntas uma pizza. Parece que acertei a deixa. Ela soltou a bolsa no chão e disse que não poderia ir embora, sem me contar uma passagem que ocorreu enquanto esteve casada com um homem ciumento e mal humorado. Voltamos para o sofá da sala e ela foi iniciando o relato como quem tinha um carretel para desenrolar. Era um fim de tarde de domingo. Só os dois e a TV ligada no programa para ajudar o fim do domingo acontecer. Nada na geladeira e pizza na certa. Deixei escapar um suspiro. Ela foi adiante. Disse que não aguentava mais esse tipo de refeição calórica, mas estava sem energia para discutir por tão pouco. Ele perguntou se podia ser quatro queijos, ela preferiria um queijo só, mas sabia que era mais fácil deixar pra lá. Quando avisaram que a pizza chegou, ela quase se levantou, mas lembrou que ele cismava com as conversas dela com estranhos. Na cabeça dele, provavelmente, o entregador não seria capaz de resistir aos encantos dela e nem ela aos apelos do moço. Sendo assim, ela ficou sentada e ele foi buscar a comida. Ela estranhou a demora dele, mas não se mexeu. Quando enfim ele apareceu, ela estranhou o aspecto da caixa da pizza. Estava suja e meio desconjuntada. Ela quase comentou alguma coisa, mas lembrou-se que poderia chatear seu marido. Nessas horas, ela sentia-se como uma prisioneira dentro dela mesma, mas tratava de pensar que não era tão ruim assim e que ele tinha mil outras qualidades. O marido colocou a caixa esquisita na mesa e os dois se sentaram para comer a pizza. Quando ele abriu a tampa da caixa, ela notou que havia sujeira em cima dos tomates e dos queijos. Um pouco de grama e até lama atestavam que o conteúdo da caixa havia caído no chão. Ela olhou para ele como pedindo uma explicação. Ele pegou seu prato e deu a entender que queria ser servido. Ela ensaiou um início de conversa. Você demorou... Ele abreviou um fim. O cara estava sem troco. Ela tentou de outro jeito. A caixa... Ele esmurrou a mesa e perguntou se dava para mudar de assunto.  Ela sentiu que não ia conseguir ficar sem falar alguma coisa, mas queria fazer força para evitar discussões desnecessárias. Quando tinha sentimentos fortes, era comum que ela sentisse vontade de rir. Era uma reação nervosa. Foi o que aconteceu. A vontade de rir foi ficando avassaladora. Ela tinha que fazer alguma coisa urgente. Lembrou que só havia uma saída. Uma vez, uma amiga lhe deu um conselho para resolver situações assim. Fixou o seu pensamento num ponto triste da sua vida e apertou a boca para engolir o riso e junto conseguiu até engolir a indignação. Olhou diretamente para a pizza repetindo sem som e sem parar apenas uma frase: “Meu pai morreu! Meu pai morreu”. Foi difícil, mas deu certo! Conseguiu não rir, nem falar nada sobre a grama e a lama. Enquanto contou para mim esse caso, chorava de tantas risadas. Eu também ri, apesar de perceber que o que aconteceu não era só uma comédia. Ela confessou que comeu um pedaço. Comeu por que quis. Sentiu vontade de misturar na boca as coisas que sentia com aquela última pizza que iria comer com aquele cara. Quis ter certeza de que nunca mais se submeteria daquele jeito. Comeu como quem tomou uma vacina. Já sem rir, nem chorar, ela me olhou nos olhos e me perguntou se eu concordava que era uma passagem importante da vida dela. Amigas se abraçam. Foi o que fizemos.  

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