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YOM KIPUR

Quinta, 19 Setembro 2013 10:03
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YOM KIPUR* Cada ano que chega o Dia do Perdão, relembro os ensinamentos que recebi ainda criança e como tal imagino o Todo Poderoso inscrevendo nomes num grande livro. Tudo em meio a nuvens e paisagens celestiais. Sei, pois foi assim que aprendi, que tenho que pensar em tudo o que andei fazendo e verificar se há algo que posso resolver, ou, ao menos, remediar. Um vacilo numa hora dessas pode ser literalmente fatal! Neste ano de 5774, aos primeiros sons do Kol Nidrei*derramei algumas lágrimas. Quase não acompanhei as rezas pelo livro de orações. E não foi por rebeldia. Preferi ir para longe, ainda que a voz do rabino insistisse em tentar me cutucar. Devaneei como quem ganhou asas e se soltou sem obedecer a nenhuma limitação convencional. Foi extasiante. Não demorou muito e eu embarquei num doce reencontro com meus avós. Abracei-os, sentindo seus peitos fartos e macios, como se fossem ninhos, como se fossem lugares que eu tanto andei a procura. Estava eu nesse estado de graça, quando um movimento incomum me despertou. Algumas mulheres discutiam. Fazia calor na sinagoga cheia. Praticamente todos os lugares estavam lotados. As janelas estavam fechadas por motivo de segurança e muita gente devia estar pensando como que o projeto de comprar e instalar ar condicionados não teve êxito ainda... Então, indiscutivelmente, fazia um calor do Senegal. Dois ventiladores velhos zumbiam sem entusiasmo espalhando o ar quente por algumas senhoras. Os dois não davam conta de alcançar toda a mulherada. Apesar de não ser um grande alívio, sentir o ar jogado por um dos ventiladores era o melhor que se poderia ter.  Portanto, junto com o calor, subiu à cabeça de algumas mulheres a dúvida sobre quem teria o direito de usufruir desse fachguinign*? Preocupei-me com o rabino. Ele precisava ficar concentrado. O tumulto poderia quebrar todo o clima da reza. As partes em conflito pareciam não se importar com nada. Na verdade, parecia que se esqueceram de onde estavam. As mais ousadas se levantaram e moveram o velho aparelho para lhes favorecer. A indignação daquelas que anteriormente estavam se refrescando foi sentida no ambiente. O ar quente ficou tomado por olhares furiosos e manifestações meio abafadas contendo, provavelmente um monte de maus pensamentos. Como encaixar tamanho absurdo nesse dia tão sagrado? Acontece que logo a paz foi reestabelecida. As orações tomaram conta novamente da sinagoga e eu pude voltar ao meu devaneio. Não posso obrigar ninguém a acreditar, mas escutei meus avós conversando sobre brigas que aconteciam nos campos de concentração por causa de qualquer pedaço de alimento. Querer o melhor para si parece uma atitude feia e errada, mas disseram eles, sem dúvida, é uma atitude profundamente humana. Deixar que o outro fique com o melhor pedaço do frango, com a melhor cama ou até mesmo com o vento de um velho ventilador pode mostrar que existe um senso de respeito, mas pode mostrar que existe uma subordinação exagerada ou até desnecessária a alguma autoridade. Nós judeus já fomos obrigados a respeitar muitas autoridades. Gostamos de dar nossas opiniões e fazer valer nossas idéias. Aprendemos que não somos obrigados a engolir nada e que podemos discutir, sempre respeitando o outro. Será que a discussão acaba sendo mais positiva que o incômodo que ela causa? Meus avós me responderam que sim. Eles me falaram que a partir da discussão, alguma coisa pode acontecer e que por outro lado, nada pode mudar enquanto todos estão acomodados, por exemplo, sentindo calor. Percebi que já era hora de nos despedirmos. Segurei a vontade de pedir que ficassem mais. Sei que não poderiam. Ganhei beijos, abraços, recomendações e quando quis saber quando eles voltariam... Notei que se foram. Naquele momento, todas as pessoas estavam cantando abraçadas a última reza da noite. Não havia nenhum sinal da discussão que houve anteriormente. Os desejos de um bom ano, de saúde e de tantas coisas boas eram repetidos a cada cumprimento trocado entre todos os que estavam na sinagoga. Como muitos, fui descansar e no dia seguinte voltei para as rezas da manhã. Ainda fazia calor, mas como tinha menos gente, os dois velhos aparelhos, como guerreiros, davam conta do que tinham que fazer. Quase na hora do IZCOR* , apareceu um dos membros da comunidade carregando um ventilador novinho e depois mais um. O que tinha tudo para levar o título da guerra do Yom Kipur, virou o Milagre de Yom Kipur. Três mulheres decidiram não só se rebelar contra a posição dos aparelhos, mas também enfrentaram a regra de não comprar coisas no dia sagrado. Graças a essas rebeldes o calor foi muito melhor suportado. Escutei meus avós gargalhando quando os quatro ventiladores brindaram as mulheres com ventos por todos os lados. Nós sabíamos, sabíamos! A esposa do rabino ao meu lado disse que nunca viu alguém que alternava choro e riso como eu no dia de Yom Kipur. Não me faltam motivos, lhe expliquei. Ela pediu que eu escrevesse sobre eles. Prometi escrever e como foi uma promessa no dia mais sagrado, corri para cumpri-la.                   * Kol Nidrei ou Kol Nidre (do aramaico כל נדרי Todos os votos) é uma declaração judaica recitada nas sinagogas no início do serviço noturno de Yom Kipur. Esta declaração permite aos presentes anular votos feitos e não cumpridos. A melodia lembra uma suplica de perdão e é repetida três vezes com o máximo de fervor. Fachguinign significa em idish um prazer muito grande, uma sensação maravilhosa. IZCOR é a oração em memória dos pais falecidos YOM KIPUR é o Dia do Perdão. O mais sagrado dos feriados religiosos judaicos.      

ATITUDE

Quarta, 15 Outubro 2014 10:54
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Quando ela chegou, ele, como de costume, já estava no seu mundo paralelo. Era assim que ela chamava a vida que ele levava na frente do computador. Ela foi tomar um banho e ficou à vontade. Foi à cozinha, pegou alguma coisa para comer e assim que ficou satisfeita, chamou-o para conversar. Ele quis saber do que se tratava. Precisamos conversar... Não pode deixar para depois? Ela insistiu. Ele acabou perdendo a concentração e o game que estava jogando. Do que se trata? Pode falar... Qual a ordem do dia? Alguma nova queixa ou vai repetir as velhas ladainhas?  Precisamos falar de nós, das nossas vidas... Ele sinalizou seu desinteresse abrindo a boca disparando bocejos repetidos. Posso voltar pro meu computador? Antes que ele continuasse com seu repertório conhecido e sem graça ela declarou: Nosso casamento acabou! Ele arregalou os olhos como um bicho que foi pego numa armadilha. Ela ganhou coragem e seguiu dizendo que estava cansada de viver só e que queria voltar a ter sonhos e planos junto com alguém. Queria voltar a ser desejada e desejar. Tudo foi sendo falado sem alterar o tom de voz, apenas com o olhar bem firme nos olhos dele. Ele iniciou um gaguejar destrambelhado para questionar o que mais ela queria dele, se lhe faltava alguma coisa, se ele bebia ou batia nela, se queria um carro novo... O que era? Sem esperar resposta, ele deu um murro na mesa e num berro colocou para fora o seu pior pesadelo: você deve ter se enrabichado por outro! Sem se alterar, ela disse que já havia dito o que queria e acrescentou que ainda não tinha nenhum outro na história. Ele estava impressionado e irritado com a calma dela. Perguntou se ela estava sob o efeito de algum medicamento novo. Ou seria a nova terapia? Ah! Devia ser isso! Estavam colocando minhocas na cabeça de sua mulher. Ela que sempre esteve tão bem e sem reclamar de nada durante tantos anos, agora queria se separar... Não fazia o menor sentido para ele. Era pura armação! Fale mulher! Ela não respondeu nada. Fez-se um silêncio pesado e incômodo. Ele voltou a bocejar. Disse, então, que estava com sono, que queria ir para cama. Ela lhe desejou boa noite, esperou pelos seus roncos mais fortes e cadenciados, trocou de roupa, pegou sua mala que já estava pronta, deu uma última boa olhada pela casa, soprou um beijo na direção dele e, como se estivesse inebriada por ter acabado de receber seu alvará de soltura, abriu a porta e saiu de casa.  

PORTARIA VIRTUAL

Quarta, 25 Setembro 2019 18:44
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Após mais de um ano de discussões acaloradas nas reuniões de condomínio, finalmente a ideia vingou. Em nome de diminuir o valor do condomínio, abrimos mão de termos uma equipe de funcionários para nos atender no prédio onde moro. Teremos agora o que a modernidade atribuiu o nome de portaria virtual. Com certeza estamos deixando para trás hábitos antigos de mordomias que não cabem mais num mundo moderno. Apesar de não ser do agrado de todos, os moradores devem separar seus lixos orgânicos dos recicláveis e levá-los devidamente acondicionados até o local apropriado. Não há mais uma pessoa que recolhe diariamente o lixo que ficava no andar de cada um. Temos que andar com umas fichas chamadas tags para abrir portas e portões. Se as esquecermos, o jeito é falar por um dos interfones com alguém, que não temos a menor ideia de quem seja e de onde está e que vai nos indagar questões para ter certeza que somos quem somos antes de abrir nossas portas e portões que nunca estavam fechadas. O direito a ter essas fichas de “abre-te sésamo” é restrito as famílias dos moradores. Isso vem causando polêmica, pois há patrões que insistem em dar os tags para suas empregadas domésticas. Eles alegam que elas trabalham nos apartamentos há muito tempo e possuem as chaves dos apartamentos, portanto, nada as impede de serem consideradas como pessoas de confiança. Acredito que essa questão, como sempre ocorre em impasses das mais diversas naturezas, vai ser resolvida quando o bom senso prevalecer sobre a rigidez. As escutas precisam estar apuradas para que se entenda o que de fato incomoda.   Nossas sacolas pesadas ou malas de viagem não passarão das nossas mãos para as mãos calejadas e gentis de algum dos nossos antigos funcionários.  Encomendas devem chegar dentro de um horário estipulado para não darem com a cara na porta e terem que voltar para o lugar de onde vieram. O cheiro do prédio mudou. Quase diariamente litros de desinfetante com aromas florais eram esfregados desde o hall de entrada  até o último degrau da escadaria que vai até o decimo segundo andar. Hoje não é mais assim. Temos uma única funcionária que atende tudo o que for necessário durante seu horário de trabalho e uma vez por semana aparece uma faxineira que dá um tapa geral na limpeza. Dessa forma, o aroma de flores passou a existir só na memória de uns e outros como eu mais apegados a esses detalhes sensoriais. É uma nova era. Faz com que cada um seja muito mais responsável por tudo o que acontece ou possa acontecer no prédio. Aliás, parece que todos foram obrigados a refletir na existência desse espaço comum a que chamamos prédio. O apartamento, onde cada família mora, está inserido num espaço comum, que até então era apenas a passagem para chegar ou sair do próprio lar. Antes, se algo estava sujo ou quebrado, sabíamos que o zelador ou algum faxineiro iria resolver esse problema. Hoje estamos começando a entender que custa muito menos para todos nós se adotarmos um comportamento menos aristocrático e mais colaborativo. Alguns dos moradores já são capazes de catar folhas e papéis que o vento cismou de acumular na entrada do nosso prédio, ao invés de esperar que o dia da faxina chegue para que isso seja feito. Virou um assunto entre os moradores falar sobre nossa adaptação. Alguns falam da falta que sentem da pessoa que estava sentada quando passavam para sair ou entrar no prédio e lhes dava bom dia e as demais saudações. Eu sinto uma estranheza, olho para a cadeira vazia e tento engolir as palavras que ainda teimam em me escapar pela boca. Alguns moradores falavam que o fato de ter alguém sentado na portaria 24 horas lhes dava uma sensação de proteção. Tiveram que se render aos argumentos que lhes foram apresentados. A segurança total não existe. Nenhum porteiro poderá fazer nada diante de bandidos armados, por exemplo. E se alguém precisar de ajuda dentro do apartamento? Se cair? Teremos que pensar quem dos vizinhos pode prestar algum socorro. Antes ninguém precisava incomodar ninguém. Agora pode ser que aumente o grau de solidariedade entre os moradores. Esses funcionários trabalhavam conosco há pelo menos dez anos. Todos sabiam que eles faziam um trabalho que já não existe em muitas partes do mundo desde o século passado. Lembro-me da profissão dos ascensoristas de elevador que tinham como função acompanhar pessoas dentro dos elevadores, perguntar para qual andar iam e apertar o devido botão. Pode ser que muitos deles marcaram presença com toques de cordialidade ou humor. Muitos sabiam falar de política e traziam as principais notícias do dia espetacularmente resumidas já que o tempo para contá-las era pequeno. Apesar dessas qualidades ímpares, foram forçados a buscar outras ocupações. Penso que deve ter sido difícil, mas imagino quanta gente cresceu, se desenvolveu, estudou e foi buscar outras oportunidades. Os profissionais das portarias de prédios estão nessa mesma situação. Os anos de acomodação numa profissão fadada a acabar lhes conduziram ao ponto que chegamos. Foram indenizados, demitidos e nos deixaram órfãos de bajulações e paparicos que nos fizeram crer muito mais especiais e merecedores de atenções do que de fato somos. Num primeiro momento a sensação se aproxima a de termos caído do cavalo, mas já estamos sacudindo a poeira e logo estaremos nos levantando. Em alguns meses, após o pagamento de todas as rescisões, o valor do condomínio vai baixar. Com a diferença desse valor alguns moradores poderão comprar viagens, trocar de carros, pintar o apartamento ou fazer doações para causas sociais. Ou pode ser que o novo valor do condomínio, como atestam os estudos motivacionais relativos a aumentos de salario, logo se incorpore a realidade de cada um e nem se note uma grande vantagem por mais do que uns poucos meses. Então mergulharemos em reflexões e novas discussões sobre a mudança que teremos feito e sobre tantas outras que ainda haveremos de fazer.  

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