NO CINEMA

Terça, 11 Julho 2017 10:02 Escrito por
Publicado em Blog
Assim que a luz apagou, o aparelhinho começou a vibrar dentro da bolsa. Não era algo contínuo. Vibrava e parava e então recomeçar a vibrar. Sem dúvida, era alguém querendo falar com ela naquele momento. Como ela não queria falar com ninguém, tentou ignorar o incômodo. O filme começou. A vibração não parava. Alguém insistia como se tivesse algo urgente para resolver. Quem seria? Embora fizesse força para prestar atenção no filme, começou a ficar preocupada. Beto havia terminado o namoro com ela há três semanas e desde então não se falaram. Seria ele? Se fosse, o que ele poderia estar querendo? Na tela, um homem alto e muito magro entrega um pacote para uma mulher ruiva e gorda. Melhor não atender se for o Beto. Ela jurou que nunca mais falaria com ele. Chorou por ele durante quase uma semana. Agora que estava melhor, não poderia se dispor a escutar sua fala melosa e sedutora. Esse Roberto é um perigo ambulante. Não! Opa! A ruiva da tela parece que desmaiou. O aparelho seguia vibrando. Quem sabe era a Virgínia querendo lhe contar sobre a festa de ontem? Ora, mas isso não mereceria tanta insistência. No filme, três crianças se despedem de um homem, que parece ser o pai, que tudo indica que vai trabalhar, e saem para andar de bicicleta num lugar que parece um subúrbio americano. O pai liga o carro, dá a ré e sai cantarolando. A ruiva aparece na cozinha. Ué! Ela ficou boa? Que saco! Essa droga não para de vibrar! E se eu olhar quem é... Não! Estou no cinema. Como estou resolvida a não atender, que importa olhar quem seja? O homem magro e alto agora está no metrô. Ele tem um jeito sinistro. O pai das crianças está sentado do lado do magro. Ela percebeu que não estava entendendo nada. Sua bolsa parecia que estava viva. Gemia e tinha movimento. Um senhor atrás dela lhe cutucou e lhe pediu para desligar seu celular. Ela fez cara de paisagem e quis saber se ele estava ouvindo alguma coisa. Ele disse que sim. Ela lhe cumprimentou pela boa audição, apesar da idade avançada. O senhor não achou graça e falou alguns impropérios de forma exasperada. Algumas pessoas se manifestaram pedindo silêncio. O celular seguia vibrando. Chega! Nem ela estava aguentando mais aquela tortura. Tinha que resolver se iria atender ou se iria desligar o aparelho. Seu olhar se prendeu nas três crianças que agora brincam num parque. O parque tem outras crianças. Está um lindo dia de céu azul, mas faz frio, já que todas estão de gorros e casacos. Quem terá levado essas crianças para esse lugar? A música do filme faz pensar que alguma coisa vai acontecer. Um cachorro corre atrás de uma bola. A vibração do seu celular não para. Ela enfia a mão na bolsa e pega o aparelho. Sabe que a luz pode incomodar alguém, então se abaixa e, como se estivesse amarrando os cadarços de seu tênis, tenta identificar a chamada que não lhe dava sossego. Não consegue. O celular escorrega de sua mão. Não acredita no que lhe aconteceu. Volta para a posição anterior e mira na tela. O homem alto e magro está agora num aeroporto. Pela sua fisionomia, meio sério, meio tenso, achou que ele estava indo numa viagem de negócios. A ruiva apareceu de repente para viajar também. Volta a pensar no seu maldito aparelho que foi parar embaixo de uma das poltronas na fila da frente. O cachorro corre feito louco e uma das três crianças está atrás dele. Um carro surge do nada e o motorista freia desesperadamente. O momento é de grande emoção, mas ela escuta o barulho do celular vibrando. Ela toma coragem e pede para a pessoa sentada à sua frente pegar o seu aparelho. Era uma senhora de óculos, de certa idade e até com muita boa vontade. A mulher se mexeu, se revirou, mas não conseguiu achar o aparelho. Quando a senhora insistiu na busca, fazendo um esforço maior de se abaixar, conseguiu a façanha de deixar cair seus próprios óculos. Inesperadamente um palavrão curto e seco se fez ouvir em meio ao silêncio que reinava na sala do cinema. Quem diria? Uma senhora... Sem óculos a mulher não enxergava quase nada, essa foi a explicação para o desabafo de baixo calão. O rapaz ao lado da senhora foi convocado para ajudar a achar os óculos. Ele disse que não. Queria ver o filme. A mulher buscou outra ajuda. Sem enxergar quase nada, ela apenas identificou que era uma moça que estava abraçada numa outra pessoa.  Quando o filme acabar vai ser mais fácil... Agora não dá! A criança atropelada estava num hospital. Alguém parecia chorar baixinho numa fila bem próxima. O celular seguia vibrando. O homem que se alterou no início do filme, voltou à cena avisando que iria chamar o gerente. Só quero achar meus óculos. E eu quero o meu celular. Cala a boca! Quero ver o filme! A ruiva está num close e de óculos escuros. Será que aconteceu alguma coisa grave? Se alguém pisar nos meus óculos vou ter um troço. Fica quieta! Eu não enxergo sem óculos! Então dorme... Mas que falta de educação! A essas alturas o filme já estava totalmente sem pé nem cabeça. A dona do celular ainda escutava o som que o seu vibrar emitia. Levantou do seu lugar e, decidida, foi engatinhar na fila a sua frente. Um jovem, saído de algum lugar não identificado, teve compaixão, se juntou a ela e sussurrou que iria ajudar na busca. Numa cena patética, os dois desconhecidos engatinhavam tateando no escuro. Não demoraram a achar os objetos perdidos. Os óculos e o celular estavam próximos. Ainda agachado, o rapaz solidário fez a entrega solene para a senhora que não devia estar enxergando nada: Seus óculos... Obrigada! Muito obrigada! Cala a boça! Não enche! Um carro em alta velocidade corta uma estrada em meio a um temporal. O celular vibrou mais uma vez. Dessa vez, estava na mão dela e ela se rendeu. Decidiu que queria saber quem era. Foi ver. O celular emudeceu e escureceu. Acabou a carga. Morreu. O jovem tinha acabado de voltar para o seu lugar. Ela enfiou o celular na bolsa com raiva. O homem magro e alto está num quarto com a ruiva. O rapaz solidário estava olhando para ela. Era um olhar insistente, tanto que percebeu. Olhou de volta. Ele fez um sinal sutil com a cabeça. Ela ficou confusa. O que será que ele queria? A ruiva estava séria. O homem magro dormia. O rapaz agora fazia um gesto com a mão. Ele mostrava que queria sair do cinema. Era um convite. Ela se levantou devagar. Sacudiu a cabeça como que para se livrar das travas e das dúvidas. Ajeitou o cabelo talvez para parecer bonita. Num último olhar para a tela viu a ruiva com uma arma na mão. Que se explodam todos! Virou-se em direção a saída. Por uma fração de minuto, respirou ou fez uma oração... Quem há de saber? Com passos decididos, saiu do escuro.

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