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YOM KIPUR* Cada ano que chega o Dia do Perdão, relembro os ensinamentos que recebi ainda criança e como tal imagino o Todo Poderoso inscrevendo nomes num grande livro. Tudo em meio a nuvens e paisagens celestiais. Sei, pois foi assim que aprendi, que tenho que pensar em tudo o que andei fazendo e verificar se há algo que posso resolver, ou, ao menos, remediar. Um vacilo numa hora dessas pode ser literalmente fatal! Neste ano de 5774, aos primeiros sons do Kol Nidrei*derramei algumas lágrimas. Quase não acompanhei as rezas pelo livro de orações. E não foi por rebeldia. Preferi ir para longe, ainda que a voz do rabino insistisse em tentar me cutucar. Devaneei como quem ganhou asas e se soltou sem obedecer a nenhuma limitação convencional. Foi extasiante. Não demorou muito e eu embarquei num doce reencontro com meus avós. Abracei-os, sentindo seus peitos fartos e macios, como se fossem ninhos, como se fossem lugares que eu tanto andei a procura. Estava eu nesse estado de graça, quando um movimento incomum me despertou. Algumas mulheres discutiam. Fazia calor na sinagoga cheia. Praticamente todos os lugares estavam lotados. As janelas estavam fechadas por motivo de segurança e muita gente devia estar pensando como que o projeto de comprar e instalar ar condicionados não teve êxito ainda... Então, indiscutivelmente, fazia um calor do Senegal. Dois ventiladores velhos zumbiam sem entusiasmo espalhando o ar quente por algumas senhoras. Os dois não davam conta de alcançar toda a mulherada. Apesar de não ser um grande alívio, sentir o ar jogado por um dos ventiladores era o melhor que se poderia ter.  Portanto, junto com o calor, subiu à cabeça de algumas mulheres a dúvida sobre quem teria o direito de usufruir desse fachguinign*? Preocupei-me com o rabino. Ele precisava ficar concentrado. O tumulto poderia quebrar todo o clima da reza. As partes em conflito pareciam não se importar com nada. Na verdade, parecia que se esqueceram de onde estavam. As mais ousadas se levantaram e moveram o velho aparelho para lhes favorecer. A indignação daquelas que anteriormente estavam se refrescando foi sentida no ambiente. O ar quente ficou tomado por olhares furiosos e manifestações meio abafadas contendo, provavelmente um monte de maus pensamentos. Como encaixar tamanho absurdo nesse dia tão sagrado? Acontece que logo a paz foi reestabelecida. As orações tomaram conta novamente da sinagoga e eu pude voltar ao meu devaneio. Não posso obrigar ninguém a acreditar, mas escutei meus avós conversando sobre brigas que aconteciam nos campos de concentração por causa de qualquer pedaço de alimento. Querer o melhor para si parece uma atitude feia e errada, mas disseram eles, sem dúvida, é uma atitude profundamente humana. Deixar que o outro fique com o melhor pedaço do frango, com a melhor cama ou até mesmo com o vento de um velho ventilador pode mostrar que existe um senso de respeito, mas pode mostrar que existe uma subordinação exagerada ou até desnecessária a alguma autoridade. Nós judeus já fomos obrigados a respeitar muitas autoridades. Gostamos de dar nossas opiniões e fazer valer nossas idéias. Aprendemos que não somos obrigados a engolir nada e que podemos discutir, sempre respeitando o outro. Será que a discussão acaba sendo mais positiva que o incômodo que ela causa? Meus avós me responderam que sim. Eles me falaram que a partir da discussão, alguma coisa pode acontecer e que por outro lado, nada pode mudar enquanto todos estão acomodados, por exemplo, sentindo calor. Percebi que já era hora de nos despedirmos. Segurei a vontade de pedir que ficassem mais. Sei que não poderiam. Ganhei beijos, abraços, recomendações e quando quis saber quando eles voltariam... Notei que se foram. Naquele momento, todas as pessoas estavam cantando abraçadas a última reza da noite. Não havia nenhum sinal da discussão que houve anteriormente. Os desejos de um bom ano, de saúde e de tantas coisas boas eram repetidos a cada cumprimento trocado entre todos os que estavam na sinagoga. Como muitos, fui descansar e no dia seguinte voltei para as rezas da manhã. Ainda fazia calor, mas como tinha menos gente, os dois velhos aparelhos, como guerreiros, davam conta do que tinham que fazer. Quase na hora do IZCOR* , apareceu um dos membros da comunidade carregando um ventilador novinho e depois mais um. O que tinha tudo para levar o título da guerra do Yom Kipur, virou o Milagre de Yom Kipur. Três mulheres decidiram não só se rebelar contra a posição dos aparelhos, mas também enfrentaram a regra de não comprar coisas no dia sagrado. Graças a essas rebeldes o calor foi muito melhor suportado. Escutei meus avós gargalhando quando os quatro ventiladores brindaram as mulheres com ventos por todos os lados. Nós sabíamos, sabíamos! A esposa do rabino ao meu lado disse que nunca viu alguém que alternava choro e riso como eu no dia de Yom Kipur. Não me faltam motivos, lhe expliquei. Ela pediu que eu escrevesse sobre eles. Prometi escrever e como foi uma promessa no dia mais sagrado, corri para cumpri-la.                   * Kol Nidrei ou Kol Nidre (do aramaico כל נדרי Todos os votos) é uma declaração judaica recitada nas sinagogas no início do serviço noturno de Yom Kipur. Esta declaração permite aos presentes anular votos feitos e não cumpridos. A melodia lembra uma suplica de perdão e é repetida três vezes com o máximo de fervor. Fachguinign significa em idish um prazer muito grande, uma sensação maravilhosa. IZCOR é a oração em memória dos pais falecidos YOM KIPUR é o Dia do Perdão. O mais sagrado dos feriados religiosos judaicos.      
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