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VÉSPERA DO FIM DE FÉRIAS

Quinta, 18 Janeiro 2018 08:39 Escrito por 
Não seria correto simplificar tudo que passei numa noite mal dormida assumindo que apenas foi desagradável ficar sem dormir direito. Preciso confessar que acima de tudo foi espantoso. Fiquei rolando na cama na véspera do fim das minhas férias. Nunca imaginaria que tal fato acontecesse, visto que estou com 64 anos e já trabalho há mais de trinta e cinco anos como psicóloga clinica. A sensação de obrigação e volta à rotina pode ter tocado numa questão delicada: o que faço com o precioso tempo de minha vida?  Ao tentar me responder fui levada para lugares não totalmente estranhos, mas lugares não muito visitados. Tenho plena noção que o exercício da psicologia me tornou alguém que se especializou ou se refinou na arte de escutar. De uma forma espetacular, percebi que minha mente abriu portas e janelas para expor os mais diversos materiais que andei escutando e que estavam registrados na minha memória. Num primeiro momento, talvez num ataque de covardia, quis resistir e adormecer. Quis acabar com aquele desfile de desejos, dramas, ambições, doenças e muito mais. Segurei firme meu travesseiro e fiz dele um escudo. Dobrei as pernas. Estiquei as pernas. Rolei para um lado. Esbarrei no companheiro, que demonstrou sua insatisfação através de um muxoxo. Rolei para o outo lado. Tentei colocar um travesseiro a mais na cabeça. Nada deu certo! Entendi por fim que era impossível não aceitar um convite vindo de uma instância tão especial e simplesmente adormecer.  Resignada aceitei a situação. Foi como se aceitasse fazer as pazes comigo mesma e parasse de brigar. Achei uma posição boa ao colocar uma mão no peito e outra na testa. Minha respiração entrou numa cadência e num ritmo suave. Percebi que me acalmei. Nesse momento, fiquei à disposição da minha alma e de tudo que ela achava que eu precisava revisitar. E assim foi. Escutei relatos de adolescentes entediados e zangados com seus pais. Escutei jovens sem planos, sem alegria de viver. Escutei noras se queixando de sogras e vice versa. Escutei profissionais estressados e irremediavelmente adoecidos por conjunturas venenosas. Escutei casais que já se amaram e se perderam no meio de algum caminho nublado. Escutei pessoas que querem ser alguém, mas não conseguem chegar nem perto do que almejam. Escutei pais e mães que não sabem colocar limites e educar seus filhos. Escutei pessoas de todas as idades falando de desejos, amores e sexo. Escutei pessoas doentes cheias de medo da morte. Escutei idosos resignados com a morte e cheios de raiva pela vida que estão levando. Escutei pessoas que querem ser respeitadas. Escutei também uns poucos relatos de sucesso, de conquistas e de alegrias. Não sei exatamente quanto tempo fiquei vivendo essa retrospectiva. Lembro que não senti vontade que acabasse, mas acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci. Acordei com o barulho do despertador. Por um reflexo condicionado, pulei da cama. Entrei na sequencia de atividades que me levaram em pouco mais de meia hora a estar pronta para ir trabalhar. O trajeto de minha casa até meu trabalho é curto e em quinze minutos a pé cheguei ao prédio onde tenho o meu consultório. Entrei no elevador e respirei fundo. Olhei-me no espelho, sorri sem exagero, gostei do que vi e me enxerguei pronta para recomeçar a trabalhar. Ainda no elevador, escutei assombrada uma voz zombeteira e estridente que me provocou: Está mesmo?    
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