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UM SUPER HERÓI NO TEMPO DO BONDE - Crônica Infantil

Segunda, 30 Novembro 2015 16:33 Escrito por 
Era um começo de dia como outro qualquer na casa de Zaidá (vovô no idioma idish). Buba ( vovó no idioma idish) aprontava o café da manhã e o colocava na mesa da sala. Sempre a mesa estava coberta por uma toalha bonita e limpa e cada um tinha seu prato, seus talheres, a xícara e o guardanapo de pano.   Zaidá acordava cedo para se exercitar e tomar um banho de água gelada. Ele acreditava que sua boa saúde dependia dos exercícios e do choque térmico que sentia com a água do chuveiro. Estherzinha se aprontava para ir à escola. Não dava tempo para muita conversa, mas Zaidá adorava brincar e aprontar situações para fazer sua família se alegrar. Nesse dia, Zaidá decidiu esconder a frigideira. Buba começou a procurar sem imaginar que fosse uma peça que seu marido estava lhe pregando. Buba se abaixou e vasculhou bem no armário embaixo da pia. Como não encontrou o que procurava, tirou todas as panelas para fora do armário. Pediu ajuda à filha. Zaidá assistia a toda àquela agitação sem dizer nada e sem rir, o que era mais difícil. A frigideira era importante, pois Buba a usava para fritar ovos todas as manhãs. Buba já estava ficando sem paciência, quando Zaidá sugeriu que nesse dia poderiam comer ovos cozidos, nesse caso, não seria preciso a frigideira. Como Zaidá e Estherzinha tinham hora para sair e já estavam quase ficando atrasados, Buba concordou com a ideia. Quando ela foi pegar os ovos na geladeira deu um grito e começou a falar em idish: Manale! Bistu Michiguene Guevorn? (Manoel! Você ficou maluco?) O que foi mamãe? O que foi? Olhe! A frigideira! Como ela veio parar aqui? Estherzinha quase chorou de tanto rir. Zaidá pulava e dançava fazendo com que a Buba também entrasse no clima. Que farra! Zaidá e Estherzinha comeram apressadamente, despediram-se da Buba e foram para o ponto do bonde. Não demorou nem um minuto e o bonde chegou. O motorneiro era o mesmo todos os dias. Ele conhecia todos os passageiros e tinha o hábito de cumprimentá-los: Bom dia Sr. Manoel! Bom dia Estherzinha! Subam! Puxou a cordinha e o sino que anunciava a partida do bonde soou. O trajeto até a escola levava uma meia hora passando por ruas calmas e arborizadas. Era um bonito passeio. Estherzinha, como fazia muitas vezes, recitou a propaganda que ficava ao lado do motorneiro: Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado, mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado. Zaidá gostava de ouvir sua filha falando alto, para todo mundo ouvir. Quando ela acabou, Zaida foi o primeiro a aplaudir. O bonde ainda não estava nem cinco minutos distante do ponto onde Zaidá e Estherzinha subiram, quando, sem mais nem menos, Estherzinha começou a gritar: AI! Pai! Pai! Que foi? O que está acontecendo? Você está sentindo alguma coisa? Não! Eu esqueci meu caderninho! E daí? Eu preciso dele! Preciso muito! De verdade! Tem muita coisa importante lá! Ah! Papai! A essas alturas, Estherzinha, que nem era uma menina chorona, não conseguiu conter as lágrimas. Então foi a vez de Zaida usar sua voz num tom bem alto: Motorneiro! Motorneiro! Pare o bonde! O pedido do Zaidá chegou como uma ordem nos ouvidos do motorneiro, que puxou o freio e imediatamente parou o bonde. Sr. Manoel, o que está acontecendo? O senhor pode me explicar? Posso! Estherzinha precisa do seu caderno que ficou em casa. Vou buscá-lo. Vou bem rápido. Não mova esse bonde até eu voltar! Nenhum passageiro reclamou ou, sequer, duvidou da decisão daquele pai em ajudar sua filha. O motorneiro ficou de boca aberta, como se fosse argumentar alguma coisa, mas nada falou. Zaidá ainda recomendou para sua filha ficar bem, sem sair dali, que ele já voltava. Todos do bonde viram como ele saiu em disparada. Chegou à sua casa esbaforido. Buba estranhou e até se assustou quando trombou com ele na cozinha. O que houve? Você está todo suado? Parece que andou correndo pelas ruas... Cadê Estherzinha? Calma Dora! Está tudo bem. Não tenho tempo para lhe dar maiores explicações. Estherzinha está no bonde. Ela se esqueceu de levar seu caderninho. É eu notei... E o guardei na gaveta ao lado da cama dela. Corre! Pegue o caderno, pois preciso voltar logo com ele. Buba entregou o caderno e Zaidá saiu numa disparada maior ainda. Encontrou o bonde no mesmo lugar onde o havia deixado. Quase sem fôlego, subiu nos estribos do bonde e sentou-se ao lado da sua filha. Estava quase sem ar, tamanho o esforço de tanta correria. Estherzinha abraçou-o e beijou-o muitas vezes. Alguém apareceu com um copo de água, nem se sabe de onde, mas foi ótimo para Zaidá se recuperar. Todos aplaudiram Zaidá, que se mostrou encabulado, afinal, na cabeça dele, qualquer pai faria isso pela sua filha. Como o ator principal daquela encenação, Zaidá se levantou, dirigiu seu olhar para os passageiros e também para o condutor do veículo e falou: Obrigado a todos pela ajuda e paciência. Depois, soltando a voz a plenos pulmões gritou: Motorneiro!...Toca o bonde! (Dedico esse texto para meus netos e todas as crianças que ainda gostam de ouvir histórias)     
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