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Estavam bem cansados quando finalmente chegaram ao hotel. Ele se jogou na cama. Ela sentou no sofá e começar a falar sobre sair e fazer compras e sobre a decepção dos netos e outras tantas frases, quando ele a interrompeu. Não entre nesse caminho agora. Vamos apreciar o silêncio maravilhoso desse quarto e depois teremos tempo para tudo o que for preciso. Como estava realmente exausta, ela concordou. Ambos são idosos e ele, ainda por cima, vem sendo acompanhado pelo Mal de Parkinson há mais de uma década. Fizeram uma viagem cansativa. Foram mais de onze horas de avião, fora quatro horas de atraso do voo e mais um par de horas para chegar ao aeroporto do embarque e depois do aeroporto do destino até o hotel. Uma das filhas, a que mora perto deles, fez de tudo para que o estresse da viagem fosse minimizado. Só não foi junto. Ajudou a escolher as roupas que seriam adequadas para viagem, a arrumar as malas e, por fim, fotografou as muitas malas e bagagens que seus pais estavam levando. Dessa forma, acreditou que estava tudo organizado e sob controle. Os desconfortos que o Parkinson provoca fizeram com que ele perambulasse pelo avião a noite toda. Ela, como sempre, descansou meio que superficialmente, não fechando os dois olhos ao mesmo tempo, para poder cuidar do marido. Ainda assim, desde que saíram de casa até a chegada ao hotel, foram se distraindo e achando motivos para amenizar as dificuldades que estavam enfrentando.  A animação do casal para fazer uma viagem tão longa e desgastante foi por conta da maioridade religiosa da neta caçula, o Bat Mitzva da Maia. Para algumas pessoas esse motivo pode não exercer nenhum apelo especial. Para esse casal e sua família de três filhos, uma nora, dois genros, cinco netos, fora a irmã, sobrinhos e agregados foi mais que o bastante para que enxergassem a rara e imperdível oportunidade de um belíssimo encontro. Fora todos os detalhes da cerimônia religiosa e da festa, os pais de Maia pensaram nas acomodações, transportes, alimentação e até diversão para os que vinham de outros países e cidades distantes. Fizeram o máximo para tudo sair perfeito. Os avós de Maia foram instalados no mesmo andar onde o café da manhã é servido no hotel, de tal forma que eles não tivessem que se locomover muito. O quarto deles era espaçoso o suficiente para poderem receber visitas. Assim que a notícia que os avós chegaram se espalhou, o descanso do casal foi interrompido. Todos os outros parentes já haviam chegado e estavam aflitos para se ver e se abraçar. O quarto dos avós foi invadido pela parentada eufórica e barulhenta. O ar quase ficou rarefeito, possivelmente alguma reação, não cientificamente comprovada, sobre a quantidade de emoções por metro quadrado e o oxigênio que é demandado nessas situações.  Além dos abraços e beijos demorados, o olhar brilhante e atento do filho percebeu uma inquietação na sua mãe. Ele notou, além do cansaço da viagem, que sua mãe estava incomodada com alguma coisa. Ele quis saber o que estava acontecendo, o que a preocupava. Ela foi sucinta e despejou o incomodo: Perdemos uma mala. Não chegou? Não sei. Sabe qual é? Uma mala vermelha. Alguém não se conteve: Não viram as fotos? Não. Nenhum de nós dois se lembrou de fazer isso. Muitas vozes se cruzaram, uma balburdia encheu o recinto, mas deu para entender que  se tratava de uma mala com uma importância singular, pois tinha um monte de presentes, principalmente para os netos. Ninguém sabia o que dizer quando a avó começou a chorar. Alguém teve o bom senso de fazer a retirada de uma boa parte das pessoas daquele quarto. Deveriam ficar apenas o casal de idosos e seus três filhos. Eu queria muito ficar perto deles e desobedeci à regra sugerida. Fiz da minha permanência algo quase imperceptível (pelo menos assim acreditei), fiquei num canto encolhida e muda. As duas filhas se colocaram cada uma de um lado da mãe. Sem nenhuma combinação, as duas iniciaram uma sessão de carinhos e afagos e em poucos segundos deu para perceber que a mãe reagiu e parou de chorar. Conte mãe! Conte como foi... Conte o que aconteceu. Escutaram uma, duas ou dez vezes o que a mãe precisava contar. Parecia que ela tinha que se exorcizar. Embora o incômodo maior estivesse dentro da mãe, o pai também quis explicar como foi que a situação aconteceu. Ninguém lhe tirou a palavra, muito pelo contrário, estavam atentos em atitude respeitosa. Os três filhos não tiveram dificuldades para entender que seus pais simplesmente esqueceram aquele objeto. Foram embora com outras malas e não retiraram a tal mala vermelha da esteira. Foi isso. Nada demais! Um esquecimento. Apesar de terem constatado a causa do problema, nenhum dos filhos riu, nem demonstrou chateação pelo imprevisto. Para começar a tranquilizar os pais, disseram que esse tipo de situação pode acontecer com qualquer um. Não perguntaram sobre o valor em dinheiro do que tinha na mala, nem cogitaram outra coisa a fazer que não fosse resgatar a mala vermelha. Eles se organizaram. Pediram para mãe alguns dados e disseram que fariam de tudo para recuperar a mala. Fizeram ligações telefônicas, entraram na internet e, assim, já começaram a recuperar o mais importante, a calma e o equilíbrio da mãe. Tiraram dela um peso e o colocaram para si. Eu estava lá. Fui testemunha da forma madura e amorosa com que aqueles filhos agiram. Aliás, já os vi fazendo isso em outras ocasiões... Conheço muita gente, muitos são pais, muitos são filhos, mas não são muitos que sabem ser maduros e amorosos. Saí do quarto silenciosamente. Saí tentando não me fazer notar. Fui andar um pouco pelos arredores daquele hotel. As folhas avermelhadas explodiam pelas árvores. Fazia frio. Fiquei revendo as cenas que havia acabado de presenciar. Tão incomum. Fui andando sem rumo, gostando de dar um tempo para pensar na importância e singularidade do que aconteceu. Voltei ao hotel. O pequeno saguão estava lotado de gente da minha família. Abracei cada um dos meus três primos com força e sem pressa de largar. Para cada um deles falei o quanto eu admirei a forma como eles agiram. Os três reagiram com uma mistura de espanto com “não sei do que você está falando”. Não expliquei. Não havia como fazer isso naquele lugar e naquele momento. Guardei o ocorrido num canto especial da minha memória e sabia que um dia iria escrever sobre tudo que presenciei e senti.        
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