Você está aqui:Home»Blog»SEM CHÃO
Duas mulheres andavam elegantes numa rua movimentada, em sentidos opostos, a passos rápidos e com seus mais diversos pensamentos em ebulição, fazendo com que suas cabeças estivessem no mundo da lua. Esta é uma fórmula quase perfeita para um pequeno desastre. Não deu outra... O encontrão foi inevitável. As duas perderam o equilíbrio. Com muito custo, afinal pareciam uma dupla de dançarinas bêbadas, conseguiram se aprumar nos respectivos saltos bem altos. No meio dessa cena, suas bolsas caíram e se abriram. Vários objetos que estavam dentro das bolsas, acomodados e quietos, subitamente pareceram ter ganhado vida e, sem cerimonia, se espalharam pela calçada. Ninguém pode afirmar, mas aquela bagunça na rua deve ter provocado algum grau de vergonha naquelas duas senhoras que nem se conheciam. Era como se cada uma estivesse expondo sua nudez de forma diferente e dramaticamente reveladora. Os olhares dos transeuntes, provavelmente, contribuíam para aumentar o desconforto nelas. Estava tudo misturado, até os risinhos sem graça que elas tentavam segurar. Teriam que separar o que era de uma e o que era da outra. Ambas se agacharam e iniciaram o trabalho que tinham pela frente. Sem introdução, deram início à tarefa. Essa chave deve ser sua... É, obrigada. Os absorventes? Eu também tinha alguns na minha bolsa. Lembra quantos? Não... Vamos dividir... Certo? Claro... Essa cartela de remédio é minha. Eu também já usei esse ai, mas não me dei bem com ele. Você sentia a boca seca? Demais! E engordei muito também. Ah! Essa merda faz engordar! Pois é... Converse com seu médico. Nesse instante, como notaram que a coisa não seria tão rápida, elas improvisaram um modo mais confortável, esticaram os lencinhos que identificaram como seus e se sentaram sobre eles no meio fio. Assim indicaram que estavam mais disponíveis e presentes. Um peito se abriu e uma conversa começou a fluir. Mês passado fui mandada embora do emprego. Fiquei sem chão. Ainda estou meio assim. Fui num psiquiatra e ele me receitou esse medicamento. Sei que vai passar. Sem saber como seguir com esse assunto complicado, a ouvinte do drama da outra catou a primeira coisa que encontrou no chão e assim mudou o tema da prosa. Essa lanterna é sua? A desempregada aceitou a mudança de tema. É. Com alívio, a outra seguiu nesse rumo. Nunca pensei em ter uma lanterna na bolsa. Essa é de um bom tamanho. Quer para você? Jura? Está me dando de presente? Claro, pode ficar. Enfiando o presente na bolsa, sentiu que um pensamento lhe martelava a cabeça: Como alguém pode estar mal e ser generosa ao mesmo tempo? Espanou essa dúvida e pegou um retrato do chão. Que lindas fotos! Obrigada... Eu carrego a família toda comigo. Posso ver? Claro! Esse é meu marido, aqui é meu filho e do lado é a minha filha. Nessa outra foto estão meus pais e meus irmãos comigo na praia. Que lindos! Você está casada há quanto tempo? Vinte anos. Que beleza! E você? Casei no ano passado. Ainda não tenho filhos e nem sei se vou ter. Tal revelação causou um silêncio com pitadas de assombro e estranhamento. Ficou no ar a diferença entre elas, como se tivessem descoberto que eram de times ou até de seitas diferentes. Ainda tinha muita coisa espalhada e não dava para ficar em transe para sempre. A casada a menos tempo esticou o braço para pegar cartões e carteiras. Notou que seus cartões de crédito estavam embaralhados com documentos que não lhe pertenciam. Passou tudo para a outra e pediu para que ela separasse o que era dela. Estou vendo que desse bolo todo só me pertencem meu RG e CPF. Já falta pouca coisa. É... Nem está sendo tão complicado... Tem um desodorante que deve ser seu, pois eu não levo isso comigo. É meu mesmo. Sem controlar uma curiosidade meio sem pé nem cabeça quis saber se o desodorante tinha bom cheiro. Posso ver? Que suave! Vou anotar a marca. Olhe ali uma caneta e um caderninho... Devem ser seus.  Exatamente! Tenho milhões de dicas colecionadas nesse caderninho. Bacana... Eu anoto coisas no meu i phone. Acaba dando no mesmo. É... Claro. Essa maçã é sua. Eu sempre trago comigo uma fruta ou uma barrinha por recomendação da nutricionista. É mesmo? Eu procuro comer de três em três horas. E é magra desse jeito! É uma questão de hábito alimentar e faz bem para saúde. Você deveria fazer o mesmo. Quase dava para ver como o conselho saiu da boca de uma e bateu de frente com a surpresa da outra. Uma nota de vinte quis fugir da cena pegando carona numa lufada de vento.  A que tinha acabado de guardar a maçã fez uma defesa espetacular e agarrou a nota fujona. Peguei! Você lembra quanto tinha na carteira? Mais ou menos... E você? Não lembro. E agora? Como vamos fazer a divisão? Vou contar todo o dinheiro espalhado, inclusive as moedas. Aqui tem R$ 237,75. Sei que eu não tinha muito dinheiro. Você acha que tinha menos de cinquenta? Acho. Fique com cinquenta e eu fico com o resto, assim não vamos errar muito. Que incrível! Nunca pensou que existisse gente assim... Ainda estava guardando o dinheiro, quando percebeu a aflição na fala da sua nova conhecida. Não estou achando meu i phone! Ele vai aparecer... Calma! Veja, o danadinho está quase no bueiro. Ainda bem, obrigada, sem ele fico perdida. Eu sei, comigo é igual. Agora nossos batons... Temos que admitir que nossos gostos são bem parecidos. Incrível! Tem até dois de cores e marcas iguais. Só que um já está mais gasto. Qual será o seu e qual será o meu? Ah! Tenho certeza que esse mais novo é meu. Posso guarda-lo? Bem, se você tem tanta certeza... Tenho! Não pode ser esse outro aqui? Não! Esse está usado de uma forma que não é minha. Nem minha! Um silêncio breve e grave deu um tom azedo àquele diálogo. Você acha que estou mentindo? Não, acho que você pode estar enganada. Mas não estou... Devolve o meu batom! É meu! Já guardei e não vou devolver nada. Aliás, já estou muito atrasada. Essas porcarias que ainda estão pelo chão devem ser suas. Já ficamos tempo demais nessa cena esdrúxula! Sem cerimônia e se apoiando nas costas da outra, levantou-se, fez alguns movimentos para desamassar sua roupa e tentou ficar recomposta. A que serviu de apoio, admirada, ainda no chão, parecendo anestesiada diante das mudanças de humor e do modo de se comportar da outra mulher, apenas se restringiu a olhar. Virou espectadora. A que estava levantada deu uns passos como indo embora, mas voltou, se abaixou e pegou seu lencinho. Depois disso, muito solene e sem se despedir, girou seus calcanhares e tomou seu rumo.  De quem seria aquele batom? Como foi possível degringolar uma conversa que estava se encaminhando tão bem só por causa de um batom? A mulher sentada no meio fio ergueu o braço como querendo chamar a mulher que minutos atrás estava lhe confidenciando intimidades, mas se deu conta que nem sabia seu nome. Baixou o braço e abortou a ideia. Não achou sensato emitir um grito na direção de alguém que se mostrou tão perturbada e sem equilíbrio. Queria entender... Talvez não tenha percebido alguns sinais, talvez tenha perdido a oportunidade de conversar e ajeitar aquela confusão. Sem ter em quem se apoiar, pegou seu lencinho e foi se erguendo bem devagar, parecia que erguia uma carga muito pesada. Ficou de pé e sem chão, mesmo assim tomou também seu rumo.
Lido 1112 vezes
Avalie este item
(6 votos)

Comente e Compartilhe

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*).

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook