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QUEM ME ENVIOU UM QUEIJO?

Sexta, 22 Janeiro 2016 17:04 Escrito por
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Quando cheguei à garagem do meu prédio, ainda não estava escuro, mas era o fim do meu dia de trabalho. Eu estava feliz tanto pelo que realizei, quanto pela programação que eu iria me brindar para ter uma noite de paz e prazer. Já podia me ver sentada no sofá da sala com um lanche gostoso, escolhendo um bom filme para assistir. Lá pelas dez da noite, iria para cama ler um livro que, como um animal fiel, já estaria à minha espera na cabeceira. Deixei meus pensamentos rolarem, fiz as manobras para entrar na minha vaga e quando estava quase desligando o carro, percebi que um jovem vizinho me aguardava segurando gentilmente a porta do elevador. Apressei o passo, agradeci e entrei. Apertamos os botões de nossos andares. Trocamos algumas palavras. O elevador logo parou. Era o zelador que tinha correspondências e uma sacola para mim. Notei que se tratava de uma sacola térmica. Perguntei quem a havia deixado. Ele me respondeu sem pestanejar: Rita! Devo ter feito uma cara muito estranha. O zelador emendou: Regina! Meu semblante deve ter revelado a continuação do meu questionamento. Não lembro! Desculpe-me, mas ela falou e eu não estou conseguindo lembrar... Agora o nome que parece que foi dito é Cristina. Isso! Foi Cristina. Olhei para o meu jovem e gentil vizinho e percebi sua impaciência. Com razão. Obrigada, Sr. Mario, acho que pode ser Cristina... Vou averiguar e qualquer coisa, eu lhe avisarei. Assim que cheguei no meu apartamento, larguei minha bolsa, correspondências e a sacola térmica no balcão da cozinha. Estava curiosa. Abri a sacola térmica em busca de algum envelope, alguma mensagem. Nada. Havia apenas um saco plástico transparente e dentro dele um queijo minas com um jeito apetitoso.  Mais que depressa fui lavar as mãos e voltei para experimentar um pedacinho. Hummmm. Que delícia! Rita... Regina... Cristina... Eu havia estado com uma pessoa com um desses nomes. Ela me contou sobre sua decisão de se cuidar e se alimentar melhor. Claro! Devia ser ela. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que havia recebido o queijo, por sinal delicioso, e que queria me certificar se foi ela quem me presenteou com essa gostosura saudável. A resposta não demorou. Poderia ter sido ela, mas não foi. Ela me sugeriu vasculhar entre outras pessoas que gostam de mim tanto quanto ela. Liguei para o zelador. Sabia que não iria adiantar para muita coisa, mas talvez estivesse com necessidade de compartilhar o andamento dessa estranha situação. Sr. Mario, não era quem eu pensei que poderia ter sido... O senhor não lembra de mais nada? Deixe-me ver... Ah! A pessoa disse que era irmã do Marquinhos. Isso! Foi ele quem, na verdade, lhe mandou o queijo de presente. Marquinhos? É. Desse nome tenho certeza. Por que a senhora não olha no seu facebook? Fechei os olhos, balancei a cabeça e tive vontade de rir. Sr. Mario, se alguém aparecer falando do queijo ou da sacola, pode me ligar, estarei acordada. Olhei para o queijo e para a faca suja. Cortei mais um pedaço. Muito bom! Recordei que Marquinhos era o nome de um antigo cabelereiro. Durante um bom tempo cortei cabelo com ele. Conversávamos bastante, mas... Não. Não imaginava que ele iria surgir do nada usando um queijo como pretexto. Como se estivesse conduzindo uma charrete, eu segurei firme as rédeas e meus pensamentos me levaram para outro lugar. Há uns cinquenta e poucos anos convivi com outro Marquinhos. Foi no período do primário na escola. Será que aquele Marquinhos virou um fazendeiro que me descobriu e cheio de saudades apareceu, meio tímido, diga-se de passagem, deixando uma sacola térmica com um queijo de sua produção? Não consegui embarcar nessa fantasia. Na verdade, eu não podia ter certeza de nome algum. Comecei a pensar que talvez o queijo não era para mim. Algum outro morador era o destinatário daquela delícia. Experimentei pela primeira vez a sensação desconfortável de estar fazendo algo errado. Havia grandes chances de estar comendo um queijo que não era meu. Coloquei o queijo na geladeira e resolvi adiar a continuação desse episódio para o dia seguinte. Ao acordar, logo percebi que estava com o queijo na cabeça. Ou talvez com Marquinhos... Mas, que bobagem! Eu estava ficando atrasada para trabalhar. Minha mente ficou ocupada o dia inteiro o suficiente para não haver a mínima brecha para o queijo. Quando cheguei do trabalho à noitinha, não tive coragem de cortar outro pedaço. Confesso que, fora a quase certeza de que estaria comendo algo que não me pertencia, me veio um pensamento maluco de que alguém poderia querer se passar por uma bruxa igual a que deu a maçã envenenada para a Branca de Neve. Parei na portaria para falar com o Sr. Mario. Era folga dele. Perguntei ao outro funcionário se havia algum recado para mim. Nada. Deixei para fazer as devidas investigações no dia seguinte. Fui dormir certa de que havia alguma coisa bem errada. Quando amanheceu, corri para revirar novamente a sacola térmica em busca de um bilhete bem escondido nela. Inútil. Fui fazer compras. Será que devia ou não comprar queijo para o fim de semana? Afinal, Marquinhos me mandou um queijo lindo... Tive que rir e estava tão distraída que quase bati no carrinho de uma senhora. Ela percebeu que eu estava no mundo da lua e me disse que paixão de outono é mesmo uma maravilha. Eu sorri e deixei-a acreditar no que tivesse vontade. Voltei para casa, arrumei tudo e desci na portaria. Perguntei pelo Sr. Mario e fiquei sabendo que ele só viria de tarde. Puxa! A zeladora quis saber o que estava me afligindo. Comecei a falar da sacola térmica e do queijo e logo ela me interrompeu exclamando: Então foi a senhora? Fui... Pouco tempo depois, eu estava batendo na porta da legítima dona do queijo e da sacola. Levei meu livro de crônicas com uma dedicatória me desculpando pela deliciosa fatia que eu comi. Minha vizinha me ofereceu outra fatia. Demos algumas risadas. Saí daquele apartamento sem a sacola e sem o queijo, mas em troca estava com a crônica todinha na cabeça... 
Era um começo de dia como outro qualquer na casa de Zaidá (vovô no idioma idish). Buba ( vovó no idioma idish) aprontava o café da manhã e o colocava na mesa da sala. Sempre a mesa estava coberta por uma toalha bonita e limpa e cada um tinha seu prato, seus talheres, a xícara e o guardanapo de pano.   Zaidá acordava cedo para se exercitar e tomar um banho de água gelada. Ele acreditava que sua boa saúde dependia dos exercícios e do choque térmico que sentia com a água do chuveiro. Estherzinha se aprontava para ir à escola. Não dava tempo para muita conversa, mas Zaidá adorava brincar e aprontar situações para fazer sua família se alegrar. Nesse dia, Zaidá decidiu esconder a frigideira. Buba começou a procurar sem imaginar que fosse uma peça que seu marido estava lhe pregando. Buba se abaixou e vasculhou bem no armário embaixo da pia. Como não encontrou o que procurava, tirou todas as panelas para fora do armário. Pediu ajuda à filha. Zaidá assistia a toda àquela agitação sem dizer nada e sem rir, o que era mais difícil. A frigideira era importante, pois Buba a usava para fritar ovos todas as manhãs. Buba já estava ficando sem paciência, quando Zaidá sugeriu que nesse dia poderiam comer ovos cozidos, nesse caso, não seria preciso a frigideira. Como Zaidá e Estherzinha tinham hora para sair e já estavam quase ficando atrasados, Buba concordou com a ideia. Quando ela foi pegar os ovos na geladeira deu um grito e começou a falar em idish: Manale! Bistu Michiguene Guevorn? (Manoel! Você ficou maluco?) O que foi mamãe? O que foi? Olhe! A frigideira! Como ela veio parar aqui? Estherzinha quase chorou de tanto rir. Zaidá pulava e dançava fazendo com que a Buba também entrasse no clima. Que farra! Zaidá e Estherzinha comeram apressadamente, despediram-se da Buba e foram para o ponto do bonde. Não demorou nem um minuto e o bonde chegou. O motorneiro era o mesmo todos os dias. Ele conhecia todos os passageiros e tinha o hábito de cumprimentá-los: Bom dia Sr. Manoel! Bom dia Estherzinha! Subam! Puxou a cordinha e o sino que anunciava a partida do bonde soou. O trajeto até a escola levava uma meia hora passando por ruas calmas e arborizadas. Era um bonito passeio. Estherzinha, como fazia muitas vezes, recitou a propaganda que ficava ao lado do motorneiro: Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado, mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado. Zaidá gostava de ouvir sua filha falando alto, para todo mundo ouvir. Quando ela acabou, Zaida foi o primeiro a aplaudir. O bonde ainda não estava nem cinco minutos distante do ponto onde Zaidá e Estherzinha subiram, quando, sem mais nem menos, Estherzinha começou a gritar: AI! Pai! Pai! Que foi? O que está acontecendo? Você está sentindo alguma coisa? Não! Eu esqueci meu caderninho! E daí? Eu preciso dele! Preciso muito! De verdade! Tem muita coisa importante lá! Ah! Papai! A essas alturas, Estherzinha, que nem era uma menina chorona, não conseguiu conter as lágrimas. Então foi a vez de Zaida usar sua voz num tom bem alto: Motorneiro! Motorneiro! Pare o bonde! O pedido do Zaidá chegou como uma ordem nos ouvidos do motorneiro, que puxou o freio e imediatamente parou o bonde. Sr. Manoel, o que está acontecendo? O senhor pode me explicar? Posso! Estherzinha precisa do seu caderno que ficou em casa. Vou buscá-lo. Vou bem rápido. Não mova esse bonde até eu voltar! Nenhum passageiro reclamou ou, sequer, duvidou da decisão daquele pai em ajudar sua filha. O motorneiro ficou de boca aberta, como se fosse argumentar alguma coisa, mas nada falou. Zaidá ainda recomendou para sua filha ficar bem, sem sair dali, que ele já voltava. Todos do bonde viram como ele saiu em disparada. Chegou à sua casa esbaforido. Buba estranhou e até se assustou quando trombou com ele na cozinha. O que houve? Você está todo suado? Parece que andou correndo pelas ruas... Cadê Estherzinha? Calma Dora! Está tudo bem. Não tenho tempo para lhe dar maiores explicações. Estherzinha está no bonde. Ela se esqueceu de levar seu caderninho. É eu notei... E o guardei na gaveta ao lado da cama dela. Corre! Pegue o caderno, pois preciso voltar logo com ele. Buba entregou o caderno e Zaidá saiu numa disparada maior ainda. Encontrou o bonde no mesmo lugar onde o havia deixado. Quase sem fôlego, subiu nos estribos do bonde e sentou-se ao lado da sua filha. Estava quase sem ar, tamanho o esforço de tanta correria. Estherzinha abraçou-o e beijou-o muitas vezes. Alguém apareceu com um copo de água, nem se sabe de onde, mas foi ótimo para Zaidá se recuperar. Todos aplaudiram Zaidá, que se mostrou encabulado, afinal, na cabeça dele, qualquer pai faria isso pela sua filha. Como o ator principal daquela encenação, Zaidá se levantou, dirigiu seu olhar para os passageiros e também para o condutor do veículo e falou: Obrigado a todos pela ajuda e paciência. Depois, soltando a voz a plenos pulmões gritou: Motorneiro!...Toca o bonde! (Dedico esse texto para meus netos e todas as crianças que ainda gostam de ouvir histórias)     

UM AMOR DE FILHOS

Quarta, 25 Novembro 2015 09:31 Escrito por
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Estavam bem cansados quando finalmente chegaram ao hotel. Ele se jogou na cama. Ela sentou no sofá e começar a falar sobre sair e fazer compras e sobre a decepção dos netos e outras tantas frases, quando ele a interrompeu. Não entre nesse caminho agora. Vamos apreciar o silêncio maravilhoso desse quarto e depois teremos tempo para tudo o que for preciso. Como estava realmente exausta, ela concordou. Ambos são idosos e ele, ainda por cima, vem sendo acompanhado pelo Mal de Parkinson há mais de uma década. Fizeram uma viagem cansativa. Foram mais de onze horas de avião, fora quatro horas de atraso do voo e mais um par de horas para chegar ao aeroporto do embarque e depois do aeroporto do destino até o hotel. Uma das filhas, a que mora perto deles, fez de tudo para que o estresse da viagem fosse minimizado. Só não foi junto. Ajudou a escolher as roupas que seriam adequadas para viagem, a arrumar as malas e, por fim, fotografou as muitas malas e bagagens que seus pais estavam levando. Dessa forma, acreditou que estava tudo organizado e sob controle. Os desconfortos que o Parkinson provoca fizeram com que ele perambulasse pelo avião a noite toda. Ela, como sempre, descansou meio que superficialmente, não fechando os dois olhos ao mesmo tempo, para poder cuidar do marido. Ainda assim, desde que saíram de casa até a chegada ao hotel, foram se distraindo e achando motivos para amenizar as dificuldades que estavam enfrentando.  A animação do casal para fazer uma viagem tão longa e desgastante foi por conta da maioridade religiosa da neta caçula, o Bat Mitzva da Maia. Para algumas pessoas esse motivo pode não exercer nenhum apelo especial. Para esse casal e sua família de três filhos, uma nora, dois genros, cinco netos, fora a irmã, sobrinhos e agregados foi mais que o bastante para que enxergassem a rara e imperdível oportunidade de um belíssimo encontro. Fora todos os detalhes da cerimônia religiosa e da festa, os pais de Maia pensaram nas acomodações, transportes, alimentação e até diversão para os que vinham de outros países e cidades distantes. Fizeram o máximo para tudo sair perfeito. Os avós de Maia foram instalados no mesmo andar onde o café da manhã é servido no hotel, de tal forma que eles não tivessem que se locomover muito. O quarto deles era espaçoso o suficiente para poderem receber visitas. Assim que a notícia que os avós chegaram se espalhou, o descanso do casal foi interrompido. Todos os outros parentes já haviam chegado e estavam aflitos para se ver e se abraçar. O quarto dos avós foi invadido pela parentada eufórica e barulhenta. O ar quase ficou rarefeito, possivelmente alguma reação, não cientificamente comprovada, sobre a quantidade de emoções por metro quadrado e o oxigênio que é demandado nessas situações.  Além dos abraços e beijos demorados, o olhar brilhante e atento do filho percebeu uma inquietação na sua mãe. Ele notou, além do cansaço da viagem, que sua mãe estava incomodada com alguma coisa. Ele quis saber o que estava acontecendo, o que a preocupava. Ela foi sucinta e despejou o incomodo: Perdemos uma mala. Não chegou? Não sei. Sabe qual é? Uma mala vermelha. Alguém não se conteve: Não viram as fotos? Não. Nenhum de nós dois se lembrou de fazer isso. Muitas vozes se cruzaram, uma balburdia encheu o recinto, mas deu para entender que  se tratava de uma mala com uma importância singular, pois tinha um monte de presentes, principalmente para os netos. Ninguém sabia o que dizer quando a avó começou a chorar. Alguém teve o bom senso de fazer a retirada de uma boa parte das pessoas daquele quarto. Deveriam ficar apenas o casal de idosos e seus três filhos. Eu queria muito ficar perto deles e desobedeci à regra sugerida. Fiz da minha permanência algo quase imperceptível (pelo menos assim acreditei), fiquei num canto encolhida e muda. As duas filhas se colocaram cada uma de um lado da mãe. Sem nenhuma combinação, as duas iniciaram uma sessão de carinhos e afagos e em poucos segundos deu para perceber que a mãe reagiu e parou de chorar. Conte mãe! Conte como foi... Conte o que aconteceu. Escutaram uma, duas ou dez vezes o que a mãe precisava contar. Parecia que ela tinha que se exorcizar. Embora o incômodo maior estivesse dentro da mãe, o pai também quis explicar como foi que a situação aconteceu. Ninguém lhe tirou a palavra, muito pelo contrário, estavam atentos em atitude respeitosa. Os três filhos não tiveram dificuldades para entender que seus pais simplesmente esqueceram aquele objeto. Foram embora com outras malas e não retiraram a tal mala vermelha da esteira. Foi isso. Nada demais! Um esquecimento. Apesar de terem constatado a causa do problema, nenhum dos filhos riu, nem demonstrou chateação pelo imprevisto. Para começar a tranquilizar os pais, disseram que esse tipo de situação pode acontecer com qualquer um. Não perguntaram sobre o valor em dinheiro do que tinha na mala, nem cogitaram outra coisa a fazer que não fosse resgatar a mala vermelha. Eles se organizaram. Pediram para mãe alguns dados e disseram que fariam de tudo para recuperar a mala. Fizeram ligações telefônicas, entraram na internet e, assim, já começaram a recuperar o mais importante, a calma e o equilíbrio da mãe. Tiraram dela um peso e o colocaram para si. Eu estava lá. Fui testemunha da forma madura e amorosa com que aqueles filhos agiram. Aliás, já os vi fazendo isso em outras ocasiões... Conheço muita gente, muitos são pais, muitos são filhos, mas não são muitos que sabem ser maduros e amorosos. Saí do quarto silenciosamente. Saí tentando não me fazer notar. Fui andar um pouco pelos arredores daquele hotel. As folhas avermelhadas explodiam pelas árvores. Fazia frio. Fiquei revendo as cenas que havia acabado de presenciar. Tão incomum. Fui andando sem rumo, gostando de dar um tempo para pensar na importância e singularidade do que aconteceu. Voltei ao hotel. O pequeno saguão estava lotado de gente da minha família. Abracei cada um dos meus três primos com força e sem pressa de largar. Para cada um deles falei o quanto eu admirei a forma como eles agiram. Os três reagiram com uma mistura de espanto com “não sei do que você está falando”. Não expliquei. Não havia como fazer isso naquele lugar e naquele momento. Guardei o ocorrido num canto especial da minha memória e sabia que um dia iria escrever sobre tudo que presenciei e senti.        

INDECISA

Quinta, 08 Outubro 2015 09:51 Escrito por
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Ela torce para que seja um bom momento, mas não tem certeza. Quer se despedir, mas tem a sensação de que pode incomodar e isso não é o que pretende. É estranho pensar que as crianças    estarão brincando e não vão interromper o que fazem para falar com ela. Só para falar com ela... Os adultos podem estar lendo, cozinhando, arrumando alguma coisa ou descansando e também podem preferir não ouvir suas despedidas. Essa hesitação nunca fez parte do modo dela se comportar. Em geral, sempre foi decidida e confiante. Estará ficando uma velha frouxa? Era tão firme... Por outro lado, pode estar aprendo a ser mais respeitosa. Suas urgências e necessidades podem esperar e assim têm a probabilidade de se revelar como desimportâncias. Qual o problema de viajar sem dizer tchau? Certamente nada muda no universo. O mundo vai continuar a girar igual. Ela sabe disso, mas é como se estivesse partindo levando uma bagagem incompleta. Fica lhe faltando falar as falas que traduzem seu carinho e amor e escutar desejos de boa viagem. Ora, pensa ela, certamente foi condicionada a esse tipo de comportamento. Era assim que seus pais e avós faziam. Mas quem sabe pode ser bom experimentar fazer diferente? Talvez nas primeiras vezes, como essa, sinta um nó, um aperto e até uma dor. Talvez com o tempo não sinta mais nada. Da sua garganta escapa um som. Parece que disse basta. Ao notar que estava falando sozinha fica encabulada. Frouxa e maluca... Ela pega o celular e procura alguma mensagem ou ligação que possa ter perdido. Não tem nada. Olha pela janela tentando fazer seu olhar chegar ao impossível. Num ímpeto resolve arriscar. Liga. Toca, toca e ninguém atende. Liga novamente. Nada. Deixa um recado. Desliga achando que não disse exatamente o que pretendia. Balança a cabeça. Agora é tarde. Pega sua mala, abre a porta e vai.

UM PEDIDO BIZARRO

Terça, 15 Setembro 2015 14:20 Escrito por
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  Estávamos na piscina, duas fotógrafas e eu. Só nós três em toda aquela grande piscina ao ar livre, em pleno inverno, num fim de tarde de domingo. A água estava tépida e as árvores em volta balançavam devagar evidenciando que havia um vento suave. Quando as duas chegaram, eu já estava na água. Gostei de vê-las. Senti que elas também gostaram de me ver. Entraram na piscina sem se incomodar com a temperatura da água. Nadaram cinquenta metros e pararam perto de mim. Não demorou muito, começamos a papear. Com a ajuda de flutuadores, ficamos nos mexendo fazendo discretas alegorias com as pernas e com os braços. Não somos íntimas, nem nos conhecemos há muito tempo. Ainda assim as palavras saíam fáceis. Falamos de casos que aconteceram conosco, coisas que pareciam que tinham que vir à tona. Junto com a conversa me veio a sensação de termos colocado cadeiras na frente de nossas casas, numa rua de um bairro, num interior qualquer, bonito, calmo e muito gostoso. E eu que nunca morei em casa, nem no interior, muito menos levei cadeira para parte alguma para conversar com vizinhas! Será que estaria eu sob o efeito de alguma magia produzida pelas cores do fim de tarde ou pelas fotógrafas falantes? Não sei. A prosa seguiu e eu contei para elas que iria fazer uma viagem em breve. Fazendo um pequeno mistério, disse que era um lugar diferente e que elas não iriam adivinhar. Depois que elas falaram algumas possibilidades exóticas, fui benevolente e contei: Alaska. Notei que ficaram pasmas. Ambas deram gritinhos de euforia e foram alternando observações sobre meu destino: Um cruzeiro perto do Polo Norte. Um encontro com ursos polares! As cores desse lugar, as fotos maravilhosas... De repente pararam. Durante a pausa uma olhou para outra. Um olhar sapeca, levado e divertido ao mesmo tempo. Então, a mais velha, não se conteve e pediu para irmã falar. Vai, fala... Pode pedir... Não tem nada de mais... Ela não vai pensar que você é louca... Ela sabe que você é artista e artistas têm dessas coisas... Fiquei curiosa. Sabia que estava para escutar algo incomum. Ela começou como quem tateia no escuro. Bem, eu tenho uma coleção... Com mais confiança seguiu. Uma coleção vinda de várias partes do mundo. Fique à vontade se não quiser trazer. Não preciso lhe dar dinheiro, pois não custa nada. Nem vai pesar muito ou ocupar espaço demais na sua bagagem. Queria que você me trouxesse uma coisa do Alaska. Do que se trata?  Tenho quase certeza de que nessa hora elas se olharam e piscaram. Pode ser que até riram. Foi tudo muito rápido. Ar. Essa foi a resposta. Escutei perfeitamente e nem duvidei de ter confundido o som e ter chegado à palavra errada. De qualquer forma, achei melhor me certificar. Você quer que eu lhe traga o ar do Alaska? Sabia que você iria entender logo! Escolha um lugar especial e coloque no vidrinho que vou lhe dar. Você pode fazer isso? Respondi sem hesitar, talvez estivesse abduzida. Posso. De verdade? Sim. Não acha que é loucura? Bem... É, no mínimo, um pedido inusitado... O vento, que até então estava agradável, foi sendo substituído por uma brisa gelada. Notei que havia escurecido. Era hora de ir embora. Saímos da água e rapidamente nos enrolamos em nossas toalhas. Estava muito frio. Uma pressa necessária e esquisita fez com que nos despedíssemos de forma súbita. Elas correram para o vestiário e eu fui embora pela rua escura com o meu roupão em cima do maillot molhado. Os dias foram passando sem muito tempo para nada além dos afazeres de rotina. Na véspera do dia da viagem, enquanto fazia a lista do que pretendia levar, tocou o interfone. Era para avisar que uma senhora havia deixado um pequeno embrulho para mim. Fui até a portaria. O porteiro me entregou um pequeno vidro dentro de um saquinho de pano. Coloquei-o na palma da minha mão. Um vidrinho de geleia protegido por um pano. Quando entrei no meu apartamento, meu marido quis saber se fui buscar alguma coisa que ele havia comprado pela internet. Murmurei que não e já ia começar a contar o que fazia com aquele vidrinho na mão, quando ele me interrompeu dizendo que estava apurado e sem tempo para conversarmos. Completou dizendo que teríamos tempo de sobra durante a viagem. Apertei o vidrinho na minha mão e senti que alguma coisa diferente estava começando e mexendo comigo. Escolhi uma mala pequena e conveniente. Com cuidado, acomodei o vidrinho e depois todo o resto. A longa viagem transcorreu bem, sem surpresas. Quando finalmente entrei no navio onde faria o cruzeiro pelo Alaska, a primeira coisa que fiz foi me sentar e me certificar de que estava acordada. Era tudo tão bonito! Bonito demais! Como cheguei ali? Será que estava tudo certo mesmo? Alguns pensamentos começaram a rodopiar na minha cabeça. Viajei... Os outros passageiros deviam ser da realeza de algum lugar e eu teria entrado escondida... Era um engano! Meu navio deveria ser outro e como ninguém notou o erro, o embarque aconteceu. A qualquer momento, a polícia poderia chegar e me fazer descer daquele navio tão lindo... Meu marido, sem perceber, acabou com meu devaneio, convidando-me para almoçar. De braços dados com ele, fui me deixando inundar por um sentimento profundo de gratidão pelo privilégio de estar vivendo tamanha felicidade. Esse sentimento me acompanhou por toda a viagem.   Depois de um dia e meio de navegação, chegamos à primeira cidade do Alaska, Wrangel. Coloquei uma pochete que se mostrou perfeita para carregar documentos, cartão da cabine do navio, algum dinheiro e ainda o vidrinho. Andei de caiaque e me deslumbrei com cenários belíssimos. Fiquei uma hora e meia envolta pela natureza. Como uma música de fundo, podia escutar o som dos remos entrando e saindo da água. Precisei parar alguns minutos a fim de usufruir do silêncio daquele lugar. Toquei no vidrinho. Não. Não senti que era ali. Como é possível ter certeza? Eu tinha. Nas horas em que fiquei em Wrangel andei bastante e olhei para tudo como querendo absorver o cenário. Voltei inebriada e exausta para o navio. Mas não era dali o ar que iria para o vidrinho. O cruzeiro passou por várias cidades. Em cada uma delas, parei para sentir se era ou não o local para abrir o vidrinho e capturar o ar do local. Que poder estranho estava eu imbuída! Foi em Ketchikan, na última cidade que conheci do Alaska, que senti a certeza que estava aguardando. Essa foi a primeira cidade do Alaska e, atualmente, é a quinta cidade mais populosa deste estado americano com cerca de 8.000 habitantes. Quando escutei que Ketchikan é uma cidade com um clima muito chuvoso e frio na maior parte do tempo, fiquei buscando entender como as pessoas poderiam viver num lugar assim. Fui num museu. Assisti um filme (Ketchikan: The Artists ) que me deu a resposta que procurava. Ketchikan se transforma numa usina de artes e muita criatividade durante os longos meses de clima inóspito. Eles dançam, fazem teatro e apresentações musicais; fazem trabalhos com retalhos, fazem pinturas usando várias técnicas, fotografam, bordam e fazem esculturas. Todas essas atividades se tornam meios para que a vida aconteça de uma forma mais suave, mais feliz, mais sensível, bela e em grupo. Enquanto o filme passava pelos meus olhos, minha intuição foi se tornando certeza. Definitivamente, era de Ketchikan o ar que tinha que levar no vidrinho para minhas amigas fotógrafas. Ao sair do museu, numa cerimônia simples, mas significativa, abri a tampinha do vidrinho de geleia, pensei nas minhas amigas, na nossa conversa na piscina, pensei na felicidade que desejo para elas e capturei o ar daquela cidade. Cheguei do Alaska já faz uns dias. Precisava entregar o vidrinho, mas queria entregar junto com algumas palavras. Agora sinto que está tudo certo. Já posso deixar o vidrinho na porta delas. Começo a pensar que alguém, algum dia irá ter essa mesma incumbência que eu tive. E assim a coleção de ar de lugares especiais do mundo vai crescendo... Lindo! Definitiva e delicadamente lindo!  
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