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ACONTECEU COM MINHA AMIGA

Sexta, 07 Outubro 2016 18:46 Escrito por
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Nem era tão tarde, mas eu já estava de pijama e pronta para me recolher. Gosto muito dessa hora. Deixo-me inundar de silencio e sento na beira da cama, perto da minha cabeceira, para realizar uma rotina que já faço quase sem pensar. Primeiro pego o copo de água para tomar meus remédios. São dois: um cuida da minha pressão arterial e o outro do meu colesterol. Depois, acerto o despertador para o horário que preciso acordar no dia seguinte. Já não me lembro da última vez que acordei com o som desse velho despertador. Faz tempo que descobri um prazer muito grande de competir com essa máquina e desliga-la todos os dias sem ouvir o som que deveria me tirar do meu sono. Por fim, pego o livro e os óculos, me enfio nas cobertas e ajeito o travesseiro para ter a posição mais adequada para leitura. Todas as noites, deixo meu celular, sem som, carregando numa tomada que fica no corredor, perto da entrada do meu quarto. Quando nessa noite passei por ele, notei que havia sinais de mensagens. Ler ou não ler... Sabia que se tentasse ignorar essas chamadas, eu poderia ficar remoendo fantasias na cama. Era preferível saber o que se tratava. Das quatro mensagens que eu tinha, uma me fisgou. Uma grande e querida amiga, (preciso confessar que mudei seu nome e algumas partes da trama), Adélia, usando o áudio me contou que havia sido furtada. O ocorrido tinha sido no domingo à noite, entre 19:00 e 22:00 horas, quatro dias atrás. Senti um monte de emoções. Não hesitei, liguei imediatamente para Adélia. Puxa! Como você está querida? Estou bem, mas foi uma loucura. É muito estranho lembrar a cena que vivi ao entrar em casa e me deparar com tudo de pernas para o ar. Minha amiga descreveu aos borbotões e com detalhes os armários e gavetas que foram revirados e esvaziados. Eu escutava e fui percebendo uma crescente indignação dentro de mim. Adélia seguia falando. Eu moro em Ipanema, num edifício, meu apartamento é pequeno, são dois quartos... Lembra? Sim, lembro. Parece que quem esteve aqui sabia bem o que queria levar. Estava procurando joias e os dólares. Tenho montes de bijuterias. Não levaram nenhuma. Eram competentes. Profissionais. Eu tenho uma tranca especial na porta de casa. Você tem? Tenho querida, tenho sim, mas confesso que não a uso. Pois é, eu também tinha e não a usava. Agora, por favor, passe a usá-la. Isso pode lhe salvar de um dissabor como esse que eu tive. Concordei e segui na escuta. Adélia contou que no domingo pela manhã tinha saído com a irmã para passear. Foram andar de VLT no centro do Rio de janeiro. Almoçaram junto com a mãe e depois acharam bom descansar um pouco, já que à noite teriam um jantar em família. Adélia foi para o seu apartamento. Teve tempo de colocar música, ficar bem à vontade, se espalhar no sofá e ler uma revista. Deu uma boa cochilada. Quando despertou, olhou pela janela e notou que a luz do dia já estava sumindo. Precisava tomar um banho rápido, se arrumar e sair. Como sempre, ao sair, bateu a porta e verificou se estava bem fechada. Adélia lembra que quando pegou o elevador, verificou a hora. Eram 18:55. O jantar foi na casa do primo Renato. Era o jantar de Rosh Hashaná, Ano Novo Judaico. Muita comida gostosa, bolo de mel, peixe, frango, massa, compota, frutas, nozes e muito mais. Muita gente alegre e muitas risadas. Foi uma noite muito gostosa. Adélia lembrou que no ano anterior seu marido ainda era vivo, mas não lhe acompanhou nesse jantar. Ele passou por alguns meses de doença antes do desfecho triste e esperado. Adélia emocionada me disse que exatamente naquele domingo fazia um ano que ela havia ficado viúva. Tentei esticar meu braço e alcança-la para um abraço. Tentei encontrar as palavras mais próprias. Só saiu de mim um murmúrio. Pigarreei para reencontrar minha voz. Eu sei. Foi só o que consegui dizer. Adélia, então, voltou a falar de como ela se despediu da família no jantar e foi para sua casa. Logo ao entrar, notou na sala alguns objetos em cima da mesa. Achou estranho. Adélia é organizada e não costuma sair de casa deixando nada fora do lugar. Olhou para dentro de seu quarto e custou a entender o que estava vendo. As suas roupas estavam emboladas pelo chão. As gavetas esvaziadas. Sapatos, bolsas, papéis, fotos, remédios, etc. Tudo espalhado pelo quarto. O fundo falso do armário, onde guardava as joias, que o marido havia lhe dado, e os dólares que sobraram da última viagem, estava escancarado. Nem sombra do que antes estava lá dentro! Que desgraçados! Quebraram ou sujaram alguma coisa? Não, não fizeram nada disso. Apenas pegaram o que se propuseram a pegar. Que violência! Como você está querida? Não vou me deixar abater por isso. Foram-se os anéis e ficaram os dedos! Adélia, você tem direito a estar bem chateada... Não adianta! De que me adianta ficar com raiva? Você deu queixa na polícia? Dei. Você sentiu que eles vão procurar descobrir quem foi o ladrão? De jeito nenhum! Eles me aconselharam a passar a sempre usar a tranca, mas foram taxativos em afirmar que esse furto foi feito por pessoa que me conhece, que conhece meu apartamento e onde guardo meus valores. Começaram a levantar suspeitas. Segundo eles, nesse tipo de ação, o meliante pode ser a faxineira, ou alguém que tivesse feito algum serviço para mim ou até um de meus amigos e parentes. Como cereja do bolo, o delegado, sabendo do meu estado civil, me perguntou se eu trazia muitos homens para casa...Nunca se sabe quem se conhece num bar ou numa balada, não é mesmo mocinha? Canalha! O que você respondeu para ele, querida? Nada. Olhei para ele com indiferença, perguntei se faltava fazer alguma coisa, me levantei e fui embora. Você é mesmo incrível! Conseguiu trabalhar no dia seguinte? Calma! O dia seguinte ainda estava longe. Quando voltei da Delegacia, percebi que havia batido a porta e deixado a chave dentro do apartamento. Era mais de meia noite e eu estava sem ter para onde ir. Não poderia ir para casa de minha mãe, pois era muito tarde e ela poderia se assustar. Depois de ter sido roubada, não tinha a mínima vontade de ir para um hotel. Sentei nas escadas e comecei a rir. Afinal, o que eu estava vivendo parecia tão absurdo que se fosse um filme, ninguém iria engolir essa história. Deitar no corredor foi minha primeira opção, mas em seguida, num lampejo de coragem, veio o pensamento de tocar a campainha do vizinho e pedir acolhida. Você o conhece? Um pouco. É um moço de uns quarenta e muitos anos ou cinquenta e poucos. Depois que meu marido morreu, ele ocupou o cargo de síndico. Isso me fez considera-lo alguém de confiança. Você teve mesmo coragem? Tive sim. Toquei e ele apareceu de pijama e cara de quem estava dormindo. Custou para ele entender o que estava acontecendo. O cara é meio lerdo... Mas ele, por fim, me disse para entrar e dormir no sofá da sala. Puxa! Que sorte! Calma... Ainda falta alguma coisa? Quando eu deitei no sofá, logo sabia que não iria conseguir dormir. Fiquei sem jeito de perguntar se ele teria, por acaso, um rivotril... Cara! Não... Isso você não fez! Não fiz mesmo, mas tentei entender o que estava me incomodando, o que eu precisava fazer para melhorar um pouco a minha situação. Eu estava de calça jeans justa e uma camisa. Eu não consigo dormir assim. Ia ser uma noite dos infernos se eu não tomasse a atitude que tomei. Chega de suspense Adélia, fale! Eu encostei o ouvido na porta do quarto do vizinho. Escutei o ronco dele. Quase voltei para o sofá e abafei o caso, mas senti que eu não merecia sofrer nem um minutinho a mais naquela noite e bati na porta do quarto do meu protetor. Ele só abriu a porta na terceira batida. Dessa vez, a expressão dele quase me assustou. Ele questionou o que eu queria. Fui bem objetiva: Você pode me emprestar uma camiseta sua para eu dormir? Ele não esperava por mais esse pedido e talvez, por ter sido pego de surpresa, não teve outra reação que ir ao seu armário e providenciar o que eu precisava. Agradeci e voltamos a nos separar. Deitei no sofá e minha mente se pôs a rever as cenas do dia. Fui afastando uma a uma para poder tentar descansar. Quando o cansaço estava quase me vencendo, um diabinho me trouxe um pensamento torturante: você faz cocô, pela manhã, todos os dias quando acorda. Com essa maré de azar que você está vivendo, há grandes chances de você usar o banheiro do vizinho e não conseguir dar a descarga. Já pensou? Adélia, você jura que ficou pensando nisso? Fiquei. A noite toda? Uma boa parte.  Como termina esse horror? Eu usei o banheiro do vizinho. E? Deu tudo certo. Quando fui embora do apartamento do vizinho, agradeci a gentileza dele. Ele me respondeu que não foi nada e que estava reparando que para quem havia passado tamanha tensão, até que eu estava bem, parecia que eu tinha até um sorriso no rosto. Eu lhe respondi que me considerava uma pessoa de sorte, pois eu tinha certeza que as coisas poderiam ser bem piores... Pronto! Contei tudo que eu tinha para lhe contar! Só falta lhe mostrar as fotos que tirei do estado que encontrei meu apartamento. Vou lhe enviar. Certo, mas só as verei amanhã. Boa noite! Já está tarde. Vamos dormir. Como admiro você minha amiga querida! Você é inspiradora. Vai escrever essa história? Se eu escrever, muita gente vai achar que você não existe. Posso? Claro...

DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34 Escrito por
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(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

UMA ORQUÍDEA MUITO ESPECIAL

Sexta, 19 Agosto 2016 11:59 Escrito por
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Um vento forte interrompeu meu sono e a calma da noite. Portas e janelas bateram como se tivessem urgência de avisar que alguma coisa grave estava por acontecer ou como se apenas precisassem me fazer levantar da cama para tomar as providências necessárias. Devo ter demorado, pois quando levantei a chuva já estava começando a cair. É preciso coragem para sair debaixo das cobertas e se dispor a lidar com janelas histéricas numa noite de temporal. Sempre penso nisso, levo um tempo, mas acabo me sentindo forte o bastante para enfrentar as rajadas de vento e a chuva que costuma me molhar nessas situações. As portas da varanda estavam escancaradas e o chão da sala todo molhado. Nada muito grave, nada muito fora do comum. Quando ia fechar as portas que separam a varanda da sala, minha atenção se voltou para o vaso que estava balançando, ou melhor dizendo, tremendo por ação da chuva e da ventania. Era a bela orquídea com seis dos seus treze botões em flor. Fui capturada. Nós já nos conhecemos há algum tempo. Ela é linda e me sensibiliza muito quando ela esta florindo. É como se ela estivesse lentamente parindo até dar à luz a cada uma das suas flores. Alguns dias são necessários para acabar esse processo e o resultado que ela nos apresenta é sempre de muito capricho e arte. Penso que ela deve ficar exausta... Ao vê-la sujeita à intempérie, tive pena dela. Esse foi o meu sentimento. Achei que ela era frágil e não iria aguentar a tormenta. Num impulso, peguei o vaso da orquídea e coloquei-o a salvo na mesa da sala. Dei as costas para a orquídea e continuei a dar conta do que precisava fazer. Quando todas as janelas tinham sido fechadas, não havia mais nenhuma porta batendo, já tinha secado com um pano a água que a chuva fez entrar e eu poderia voltar para cama, ao passar pela sala, com uma nitidez absurda, escutei a orquídea me chamar. Num primeiro momento não acreditei. Como eu quis conferir, fui bem perto dela e esse pode ter sido meu erro. Quem lhe pediu para me trocar de lugar? Fiquei absolutamente pasma e atônita. Levou um tempo para eu começar a lhe dar alguma resposta. Parecia que ela se divertia com o meu assombro. Você poderia ficar sem suas flores, iria se machucar se ficasse exposta como estava. Como você pode afirmar uma coisa dessas? Fui criada para viver na natureza. Eu só quis lhe ajudar... Mas ninguém lhe pediu ajuda. Eu não queria ser ajudada. Eu queria sentir que era capaz de ficar onde estava. Queria sentir a chuva e o vento em mim. Você me tirou à força, me desrespeitou. Você deve fazer isso em outras situações... Pensa que é boa, que faz o bem, mas é uma tirana. Agora eu estava chocada. Como era possível? Sentei-me numa das cadeiras que rodeiam a mesa da sala e assim fiquei pertinho daquela flor. Minha orquídea tinha sido contundente. Não me deixou nenhuma brecha para escapar das suas acusações. Eu não tinha alternativa. Tive que vasculhar episódios em busca de situações semelhantes ao que havia acabado de passar. Fui lembrando... E lembrando... A flor estava muda. Deve ter adormecido ou não tinha mais razão para falar comigo. Eu não estava mais certa se devia ou não mexer com ela. Senti vontade de colocá-la de volta na varanda, mas havia acabado de aprender que precisava consultá-la. Tentei ser delicada e sussurrei baixinho: Você quer ir de volta para varanda? Agora está fresquinho lá fora, parece gostoso. A orquídea se mostrou diferente. Com um jeitinho muito maroto me fez saber que estava gostoso onde estava. Então... É, deixe-me ficar agora na sala. Ficarei linda para enfeitar sua mesa. E o vento? A chuva? Foi até bom não ter me molhado, nem passado pelas provações da tormenta. Agora já está tarde, estou cansada para ser novamente mexida. Vai dormir querida. Posso assegurar que suas palavras chegaram a mim de uma forma quase doce.  Do corredor joguei um beijo para ela e fui cambaleando para minha cama.

TENTE NÃO ADIVINHAR

Segunda, 15 Agosto 2016 11:04 Escrito por
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Com a cabeça totalmente dominada por pensamentos rodopiantes, quase foi um milagre ter percebido que o elevador havia chegado e estava vazio. Entrou. Apertou no andar dela. Olhou-se no espelho. Deu um jeito no cabelo. Notou algumas rugas. O elevador parou. Fez menção de sair e esbarrou num homem que entrava. Notou que não era o andar dela. Muito sem graça, voltou para o seu lugar, mas dessa vez ficou de costas para o espelho. O elevador voltou a parar. A porta não abriu. O homem que o acompanhava no elevador disse um palavrão. Deu para entender que o elevador estava com algum problema. Pegou o fone para pedir ajuda à portaria. Não funcionava. Nem um som. O homem que o acompanhava no elevador se mostrou mais nervoso e puxou o fone de sua mão dizendo “me dá essa merda aqui”. Quando ele percebeu que o fone estava quebrado repetiu o palavrão anterior e começou a suar na testa. E agora? Essa foi a frase que repetiu três vezes aos berros. Calma... Essa foi a única palavra que, mesmo pronunciada de forma calma e serena, detonou a avalanche que estava contida naquele homem que o acompanhava no elevador. Socos, berros e muitos palavrões transbordaram por cada metro cúbico do elevador. Foi incrível perceber como os pensamentos que poucos instantes teimavam em não lhe abandonar, se escafederam. Pode notar que havia uma placa que dizia que cabiam 12 pessoas naquele espaço. Que sorte que só eram duas! Que azar que eram dois, sendo que um se transtornou, se agigantou e fez daquele espaço um cubículo quase irrespirável. O cara estava mal. O cara estava surtado. Tentou o celular, mas não pegava. Controlou-se para não esboçar nenhum sorriso, mas estava convicto de que teria um tempo a passar com aquele homem naquele lugar. O homem era forte e parecia que tinha um grande estoque de socos, berros e palavrões. Seguia desvairado. Subitamente o elevador se mexeu. Desnecessário mencionar o grande espanto e alívio. Quando a máquina parou era no andar dela. Saiu apressado e em frações de segundo se viu completamente atônito ao perceber que o homem que estava ao seu lado no elevador também saiu e também se dirigiu para a porta dela. Agora já se olhavam com ares de interrogação. Deve ter sido muito difícil conter as perguntas esclarecedoras, mas nada foi falado depois que o mais afoito tocou a campainha e ambos esperaram a porta se abrir. Sem dúvida alguma escutaram passos e a voz dela cantando, muito mal, um samba antigo. Ela encostou-se à porta, deve ter ficado na ponta dos pés e olhado pelo visor. Depois disso, fez-se de morta e não se escutou mais nenhum som que viesse de dentro do apartamento. Obviamente ali estava acontecendo uma situação. Tem tempo para um café? A resposta veio pelos ombros e pela cabeça. Andaram em direção ao elevador e com o olhar mostraram-se sem vontade de reviver a experiência recente no elevador parado. Desceram pelas escadas. Parecia um exercício para deixa-los tontos. Chegaram ao térreo. Havia uma padaria na esquina. Dois cafés. Puros, sem açúcar, sem adoçante. O tema foi introduzido de forma chula: Afinal, que porra é essa? Ela marcou com você? Sim, mas não para hoje. Eu já estava no prédio e resolvi dar um pulo para tirar umas dúvidas antes de lhe entregar o orçamento da reforma da cozinha. Está na cara que entrou em contato com dois profissionais para poder escolher. Ficou sem graça ao nos ver juntos. Risos e gargalhadas desenfreadas. Como é seu nome? Trocaram os cartões profissionais. Numa conversa franca e animada, combinaram um jeito de não perder a cliente. Quem sabe até conseguiriam fazer esse projeto juntos? Os tempos não estão para abrir mão de nada. Falando em tempo, parece que os dois se esqueceram dele. De totais estranhos, eles já pareciam amigos com certa intimidade. Mais um café? Não, obrigado... Tenho que ir. Só uma coisinha... Fale! Quer uma indicação de um bom psiquiatra?  Um sorriso foi a resposta e a introdução do convite: já que você quer cuidar de mim, vem em casa hoje à noite para jantarmos juntos...        

AS LÉAS

Terça, 28 Junho 2016 11:01 Escrito por
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Nem quando apertou os olhos para ajudar a melhorar o foco da visão, conseguiu ter certeza. Estaria vendo um fantasma? Pensava que ela havia morrido... Será que escutou a notícia errada? De fato, fazia uma longa data que não se viam. Talvez nem fosse aquela pessoa que pensava estar vendo. Ah! Como ela queria que fosse! Com seus noventa anos, chegou a pensar que poderia facilmente estar caducando. Ao mesmo tempo, seria bom se fosse a amiga do tempo das crianças pequenas. Naquela época, tinham conversas sem fim no banco da pracinha, enquanto olhavam os filhos brincando nos balanços e correndo um atrás do outro. As crianças também se divertiam muito pegando peixinhos no lago com potinhos de sorvete e bolinhas bem miúdas de pão. Uma vez, um dos meninos caiu naquele lago, mas nada grave aconteceu, além de se molhar e ter que ir embora correndo para casa. A amiga e ela trocavam muitas receitas. Trocavam também confidências... Quando algum motivo apertava seu coração, a amiga tinha o dom de escutar sem pressa de dizer coisa alguma, como quem escuta uma música clássica pela primeira vez e ainda precisa acolhê-la em alguma parte da alma para alcançar compreensão. Ah! Se fosse aquela amiga... Agora já havia deixado seu coração começar a se entusiasmar com a possibilidade de estar prestes a viver um reencontro e ele reagiu como um louco em disparada. Que coração mais doido! E assim, em meio a uma taquicardia e pensamentos de dúvida e esperança, levantou-se e foi se aproximando daquela mulher que havia acabado de entrar no refeitório do asilo, que para agradar os ouvidos da grande maioria era chamado de lar. Como alguém que se sente perdida, a velha ainda não identificada ficou parada atrapalhando a passagem. Parecia buscar com o olhar alguma referência para entender o funcionamento daquele salão. Um homem em cadeira de rodas tentou passar por ela. Como não conseguiu, usou um tom excessivamente alto de voz para pedir que livrasse seu caminho. A idosa, além de perdida, se encolheu. Só não ficou muito tempo encolhida, pois recebeu um toque no ombro como se estivessem testando se ela era alguém de verdade. A mulher desencolheu e ergueu a cabeça. Os dois pares de olhos azuis não demoraram a se encontrar e imediatamente se reconhecer. Uma emoção indescritível tomou conta daquelas duas mulheres. Murmuravam coisas incompreensíveis. Quem sabe estavam falando em idish? Quem sabe falavam um idioma secreto que só se alcança usar em momentos de extrema emoção? Subitamente uma palavra ganhou um som bem audível. Ambas as mulheres gritaram a mesma pequena palavra: Léa! Léa... Repetiram e repetiram seus próprios nomes várias vezes. Como recitando um mantra em diversos modos, elas pareciam que estavam em transe. Grudaram-se num abraço. O tempo parou para elas e assim puderam ficar abraçadas sentindo cada pedaço dos seus corpos que estavam comprimidos e acariciados. Então, entraram na fase dos beijos. Tentavam apenas com os lábios dizer mil coisas que não se disseram, pelo menos, nas últimas seis décadas. Não foi surpresa quando começaram a chorar. Choraram como crianças, diriam aqueles que nunca presenciaram gente de idade chorando assim. Choraram de uma forma intensa e singela, como só um violino nas mãos de um mestre pode ousar chegar perto de reproduzir. A emoção das duas se espalhou pelas pessoas que estavam no refeitório, mas ninguém ousou se aproximar, provavelmente temendo quebrar o encanto daquela situação. Existem momentos que dão a impressão de durar séculos. Esse foi um deles. Quando o século acabou, a Léa, que já era residente no Lar, fez o convite: Venha sentar perto de mim para almoçarmos juntas. Claro! E as primeiras perguntas, como pingos que antecedem a chuva, começaram a pipocar de uma para outra. Você está aqui há muito tempo? Não. Cheguei aqui nesse ano. Minhas filhas acharam melhor eu vir para cá. Você sabe como é... Cada um tem a sua vida... Elas nem moram no Brasil. E você? Bem, na verdade, eu andava meio desanimada e muito sozinha. Gostava muito de ficar na cama, sem fazer nada ou, no máximo, via alguma coisa na televisão. O tempo passava. Escurecia e clareava. Nos intervalos alguém me chamava e me alimentava. Não sinto dor, nem passo nenhuma necessidade. Meus filhos acharam que numa instituição eu teria gente em volta o tempo todo e assim iria me distrair e viver melhor. Entendo... Você quer sopa? Sempre tem uma sopinha de entrada e são bem gostosas. Quero. Vamos buscar? A Léa que estava chegando se ergueu e notou que sua xará andava com dificuldade. De braços dados foram buscar a sopa. Como crianças, elas deixaram rastros pelo salão. Não se incomode, pois eles vão limpar. Estão acostumados com esse e outros tipos de gracinha que aprontamos. Sentaram de volta e concordaram que a sopa estava realmente deliciosa. Uma ajudante trouxe salada e levou os pratos usados. O almoço correu sem pressa. Com uma animação súbita e nada usual, a Léa que estava chegando considerou que seria muito bom poder lembrar as coisas que viveram juntas.  Claro que sim! Somos como aquelas pessoas que se conheceram nos navios que trouxeram os emigrantes fugitivos da Europa antes do Holocausto, os irmãos de navio. Fomos unidas pelas nossas experiências de juventude e agora ficaremos unidas nessa etapa também. Vamos ter que encontrar um nome para nossa situação... Irmãs de pracinha e asilo... Irmãs de início e fim de vida... Como uma nuvem que se coloca na frente do sol, parece que o enveredar da conversa escureceu um pouco o brilho do olhar das duas senhoras. Foi então que se deram conta da presença de um jovem. Ele não estava nem tão perto, mas como ele se movia e tinha uma máquina fotográfica nas mãos foi o suficiente para que o notassem. De onde ele saiu? Era como um paraquedista que havia acabado de pousar de um salto. A Léa novata questionou o rapaz. Ele não teve nenhum problema em se explicar. Estava no asilo fazendo um trabalho para seu curso de fotografia. Pediu autorização à direção do Lar e quando teve que justificar seu motivo, disse que idosos são bons modelos para fotos, principalmente por conta das rugas. Acrescentou que rugas são traços cheios de histórias e mistérios. O garoto já sabia dessas coisas. Foi fácil para ele obter a permissão. A maioria dos residentes o ignorou. Parece que esse fato impulsionou seu trabalho. Em nenhum momento ele pediu para olharem para a sua câmera. Em nenhum momento ele tentou juntar mais essa ou aquela pessoa para conseguir uma foto melhor. Ele foi registrando o que estava acontecendo sem interferir. Por sorte dele, ele estava no refeitório do asilo quando estava acontecendo um fato notável.  Com um olhar treinado para enxergar as sutilezas e emoções, ele percebeu tudo e tirou um monte de fotos das Léas. Capturou desde a incredulidade até o êxtase do reconhecimento e encontro das duas. A vida tem dessas coisas... Ele teve sorte. Foi uma sorte tão grande que deu uma guinada na vida dele e até das Léas. As fotos do rapaz viraram exposição e até ganharam prêmios. Quando ele recebeu um convite para expor em Nova York foi correndo contar para suas modelos. As Léas, que a cada dia estavam mais irmanadas, se animaram e resolveram que queriam ir junto com o jovem artista. Foi um fuzuê no asilo e também entre os familiares das idosas. Como? Tão longe? Quem iria se responsabilizar? Quem iria cuidar das duas? Como adolescentes teimosas, elas tinham respostas para tudo. O jovem fotógrafo achou que a presença das Léas seria o marketing que precisava para sua exposição internacional. Com tamanha excitação, dá para entender como ficou difícil dormir para uma daquelas senhoras chamadas Léas, aquela da taquicardia. Passou a sonhar acordada e elaborar planos e maneiras de alcançar o que tanto queriam.  E assim foram. A viagem de avião foi um sonho. Viram as nuvens e se divertiram com seus formatos. Com taças de vinho brindaram a proximidade que estavam do céu e desejaram, sem melancolia alguma, que quando morressem pudessem fazer uma passagem bonita assim. Ficaram num hotel confortável e tiveram um dia para descansar. O evento foi marcado para as cinco p.m. do outro dia. Os três estavam excitados e foram pontuais. Cada uma das Léas estava mais elegante e bonita que a outra. Foram maquiadas e penteadas. Souberam aproveitar o enigma daquele azul celeste no rosto de cada uma. Vestidos longos, como há muito não usavam lhes destacaram na pequena multidão presente ao evento de inauguração daquela mostra fotográfica. O artista e as duas idosas estavam se tornando celebridades, mas depois de um tempo de badalações, as duas Léas se cansaram. Deixaram os holofotes para o dono da festa, foram para um canto e se sentaram. Murmuraram coisas baixinho uma para outra. Talvez falassem em idish... Talvez naquele idioma secreto... Elas já queriam tirar os sapatos, as meias, os vestidos, os soutiens... Queriam ficar à vontade. Ninguém percebeu quando foram para o banheiro. Eram duas molecas com um indisfarçável sorriso maroto naqueles rostinhos angelicais. Gostaram de ficar descalças. Livraram-se dos vestidos, como se estivessem tirando fantasias depois do desfile de carnaval. Ficaram apenas de combinação. A Léa mais assanhada resolveu que podiam ficar assim e que as pessoas iriam achar que elas estavam com um vestidinho mais casual. Deixaram uma bagunça no banheiro e escapuliram pelo elevador. Ganharam a rua. Riam tanto e estavam tão ofegantes que em muitos momentos quase caíram. Foram andando abraçadas e com uma tremenda alegria que lhes dava combustível para seguir para qualquer lado. Por casualidade, chegaram ao famoso parque de NY. Conseguiram achar um banco livre e se instalaram.  O sol parecia estar com pena de ir embora, mas não houve jeito, logo ele se foi.  O escuro não trouxe medo, nem forma alguma de apreensão. O jovem fotógrafo dessa vez não teve a sorte de estar lá naquele momento. Ele teria percebido que os sorrisos das duas idosas estavam mais evidentes que todas as rugas. Teria feito um monte de outras fotos das Léas, que poderiam seguramente lhe render outras exposições espetaculares. Pena... Não houve tampouco registro da cena quando as Léas se abraçaram e adormeceram no banco do Central Park.
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