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UMA ORQUÍDEA MUITO ESPECIAL

Sexta, 19 Agosto 2016 11:59 Escrito por
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Um vento forte interrompeu meu sono e a calma da noite. Portas e janelas bateram como se tivessem urgência de avisar que alguma coisa grave estava por acontecer ou como se apenas precisassem me fazer levantar da cama para tomar as providências necessárias. Devo ter demorado, pois quando levantei a chuva já estava começando a cair. É preciso coragem para sair debaixo das cobertas e se dispor a lidar com janelas histéricas numa noite de temporal. Sempre penso nisso, levo um tempo, mas acabo me sentindo forte o bastante para enfrentar as rajadas de vento e a chuva que costuma me molhar nessas situações. As portas da varanda estavam escancaradas e o chão da sala todo molhado. Nada muito grave, nada muito fora do comum. Quando ia fechar as portas que separam a varanda da sala, minha atenção se voltou para o vaso que estava balançando, ou melhor dizendo, tremendo por ação da chuva e da ventania. Era a bela orquídea com seis dos seus treze botões em flor. Fui capturada. Nós já nos conhecemos há algum tempo. Ela é linda e me sensibiliza muito quando ela esta florindo. É como se ela estivesse lentamente parindo até dar à luz a cada uma das suas flores. Alguns dias são necessários para acabar esse processo e o resultado que ela nos apresenta é sempre de muito capricho e arte. Penso que ela deve ficar exausta... Ao vê-la sujeita à intempérie, tive pena dela. Esse foi o meu sentimento. Achei que ela era frágil e não iria aguentar a tormenta. Num impulso, peguei o vaso da orquídea e coloquei-o a salvo na mesa da sala. Dei as costas para a orquídea e continuei a dar conta do que precisava fazer. Quando todas as janelas tinham sido fechadas, não havia mais nenhuma porta batendo, já tinha secado com um pano a água que a chuva fez entrar e eu poderia voltar para cama, ao passar pela sala, com uma nitidez absurda, escutei a orquídea me chamar. Num primeiro momento não acreditei. Como eu quis conferir, fui bem perto dela e esse pode ter sido meu erro. Quem lhe pediu para me trocar de lugar? Fiquei absolutamente pasma e atônita. Levou um tempo para eu começar a lhe dar alguma resposta. Parecia que ela se divertia com o meu assombro. Você poderia ficar sem suas flores, iria se machucar se ficasse exposta como estava. Como você pode afirmar uma coisa dessas? Fui criada para viver na natureza. Eu só quis lhe ajudar... Mas ninguém lhe pediu ajuda. Eu não queria ser ajudada. Eu queria sentir que era capaz de ficar onde estava. Queria sentir a chuva e o vento em mim. Você me tirou à força, me desrespeitou. Você deve fazer isso em outras situações... Pensa que é boa, que faz o bem, mas é uma tirana. Agora eu estava chocada. Como era possível? Sentei-me numa das cadeiras que rodeiam a mesa da sala e assim fiquei pertinho daquela flor. Minha orquídea tinha sido contundente. Não me deixou nenhuma brecha para escapar das suas acusações. Eu não tinha alternativa. Tive que vasculhar episódios em busca de situações semelhantes ao que havia acabado de passar. Fui lembrando... E lembrando... A flor estava muda. Deve ter adormecido ou não tinha mais razão para falar comigo. Eu não estava mais certa se devia ou não mexer com ela. Senti vontade de colocá-la de volta na varanda, mas havia acabado de aprender que precisava consultá-la. Tentei ser delicada e sussurrei baixinho: Você quer ir de volta para varanda? Agora está fresquinho lá fora, parece gostoso. A orquídea se mostrou diferente. Com um jeitinho muito maroto me fez saber que estava gostoso onde estava. Então... É, deixe-me ficar agora na sala. Ficarei linda para enfeitar sua mesa. E o vento? A chuva? Foi até bom não ter me molhado, nem passado pelas provações da tormenta. Agora já está tarde, estou cansada para ser novamente mexida. Vai dormir querida. Posso assegurar que suas palavras chegaram a mim de uma forma quase doce.  Do corredor joguei um beijo para ela e fui cambaleando para minha cama.

TENTE NÃO ADIVINHAR

Segunda, 15 Agosto 2016 11:04 Escrito por
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Com a cabeça totalmente dominada por pensamentos rodopiantes, quase foi um milagre ter percebido que o elevador havia chegado e estava vazio. Entrou. Apertou no andar dela. Olhou-se no espelho. Deu um jeito no cabelo. Notou algumas rugas. O elevador parou. Fez menção de sair e esbarrou num homem que entrava. Notou que não era o andar dela. Muito sem graça, voltou para o seu lugar, mas dessa vez ficou de costas para o espelho. O elevador voltou a parar. A porta não abriu. O homem que o acompanhava no elevador disse um palavrão. Deu para entender que o elevador estava com algum problema. Pegou o fone para pedir ajuda à portaria. Não funcionava. Nem um som. O homem que o acompanhava no elevador se mostrou mais nervoso e puxou o fone de sua mão dizendo “me dá essa merda aqui”. Quando ele percebeu que o fone estava quebrado repetiu o palavrão anterior e começou a suar na testa. E agora? Essa foi a frase que repetiu três vezes aos berros. Calma... Essa foi a única palavra que, mesmo pronunciada de forma calma e serena, detonou a avalanche que estava contida naquele homem que o acompanhava no elevador. Socos, berros e muitos palavrões transbordaram por cada metro cúbico do elevador. Foi incrível perceber como os pensamentos que poucos instantes teimavam em não lhe abandonar, se escafederam. Pode notar que havia uma placa que dizia que cabiam 12 pessoas naquele espaço. Que sorte que só eram duas! Que azar que eram dois, sendo que um se transtornou, se agigantou e fez daquele espaço um cubículo quase irrespirável. O cara estava mal. O cara estava surtado. Tentou o celular, mas não pegava. Controlou-se para não esboçar nenhum sorriso, mas estava convicto de que teria um tempo a passar com aquele homem naquele lugar. O homem era forte e parecia que tinha um grande estoque de socos, berros e palavrões. Seguia desvairado. Subitamente o elevador se mexeu. Desnecessário mencionar o grande espanto e alívio. Quando a máquina parou era no andar dela. Saiu apressado e em frações de segundo se viu completamente atônito ao perceber que o homem que estava ao seu lado no elevador também saiu e também se dirigiu para a porta dela. Agora já se olhavam com ares de interrogação. Deve ter sido muito difícil conter as perguntas esclarecedoras, mas nada foi falado depois que o mais afoito tocou a campainha e ambos esperaram a porta se abrir. Sem dúvida alguma escutaram passos e a voz dela cantando, muito mal, um samba antigo. Ela encostou-se à porta, deve ter ficado na ponta dos pés e olhado pelo visor. Depois disso, fez-se de morta e não se escutou mais nenhum som que viesse de dentro do apartamento. Obviamente ali estava acontecendo uma situação. Tem tempo para um café? A resposta veio pelos ombros e pela cabeça. Andaram em direção ao elevador e com o olhar mostraram-se sem vontade de reviver a experiência recente no elevador parado. Desceram pelas escadas. Parecia um exercício para deixa-los tontos. Chegaram ao térreo. Havia uma padaria na esquina. Dois cafés. Puros, sem açúcar, sem adoçante. O tema foi introduzido de forma chula: Afinal, que porra é essa? Ela marcou com você? Sim, mas não para hoje. Eu já estava no prédio e resolvi dar um pulo para tirar umas dúvidas antes de lhe entregar o orçamento da reforma da cozinha. Está na cara que entrou em contato com dois profissionais para poder escolher. Ficou sem graça ao nos ver juntos. Risos e gargalhadas desenfreadas. Como é seu nome? Trocaram os cartões profissionais. Numa conversa franca e animada, combinaram um jeito de não perder a cliente. Quem sabe até conseguiriam fazer esse projeto juntos? Os tempos não estão para abrir mão de nada. Falando em tempo, parece que os dois se esqueceram dele. De totais estranhos, eles já pareciam amigos com certa intimidade. Mais um café? Não, obrigado... Tenho que ir. Só uma coisinha... Fale! Quer uma indicação de um bom psiquiatra?  Um sorriso foi a resposta e a introdução do convite: já que você quer cuidar de mim, vem em casa hoje à noite para jantarmos juntos...        

AS LÉAS

Terça, 28 Junho 2016 11:01 Escrito por
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Nem quando apertou os olhos para ajudar a melhorar o foco da visão, conseguiu ter certeza. Estaria vendo um fantasma? Pensava que ela havia morrido... Será que escutou a notícia errada? De fato, fazia uma longa data que não se viam. Talvez nem fosse aquela pessoa que pensava estar vendo. Ah! Como ela queria que fosse! Com seus noventa anos, chegou a pensar que poderia facilmente estar caducando. Ao mesmo tempo, seria bom se fosse a amiga do tempo das crianças pequenas. Naquela época, tinham conversas sem fim no banco da pracinha, enquanto olhavam os filhos brincando nos balanços e correndo um atrás do outro. As crianças também se divertiam muito pegando peixinhos no lago com potinhos de sorvete e bolinhas bem miúdas de pão. Uma vez, um dos meninos caiu naquele lago, mas nada grave aconteceu, além de se molhar e ter que ir embora correndo para casa. A amiga e ela trocavam muitas receitas. Trocavam também confidências... Quando algum motivo apertava seu coração, a amiga tinha o dom de escutar sem pressa de dizer coisa alguma, como quem escuta uma música clássica pela primeira vez e ainda precisa acolhê-la em alguma parte da alma para alcançar compreensão. Ah! Se fosse aquela amiga... Agora já havia deixado seu coração começar a se entusiasmar com a possibilidade de estar prestes a viver um reencontro e ele reagiu como um louco em disparada. Que coração mais doido! E assim, em meio a uma taquicardia e pensamentos de dúvida e esperança, levantou-se e foi se aproximando daquela mulher que havia acabado de entrar no refeitório do asilo, que para agradar os ouvidos da grande maioria era chamado de lar. Como alguém que se sente perdida, a velha ainda não identificada ficou parada atrapalhando a passagem. Parecia buscar com o olhar alguma referência para entender o funcionamento daquele salão. Um homem em cadeira de rodas tentou passar por ela. Como não conseguiu, usou um tom excessivamente alto de voz para pedir que livrasse seu caminho. A idosa, além de perdida, se encolheu. Só não ficou muito tempo encolhida, pois recebeu um toque no ombro como se estivessem testando se ela era alguém de verdade. A mulher desencolheu e ergueu a cabeça. Os dois pares de olhos azuis não demoraram a se encontrar e imediatamente se reconhecer. Uma emoção indescritível tomou conta daquelas duas mulheres. Murmuravam coisas incompreensíveis. Quem sabe estavam falando em idish? Quem sabe falavam um idioma secreto que só se alcança usar em momentos de extrema emoção? Subitamente uma palavra ganhou um som bem audível. Ambas as mulheres gritaram a mesma pequena palavra: Léa! Léa... Repetiram e repetiram seus próprios nomes várias vezes. Como recitando um mantra em diversos modos, elas pareciam que estavam em transe. Grudaram-se num abraço. O tempo parou para elas e assim puderam ficar abraçadas sentindo cada pedaço dos seus corpos que estavam comprimidos e acariciados. Então, entraram na fase dos beijos. Tentavam apenas com os lábios dizer mil coisas que não se disseram, pelo menos, nas últimas seis décadas. Não foi surpresa quando começaram a chorar. Choraram como crianças, diriam aqueles que nunca presenciaram gente de idade chorando assim. Choraram de uma forma intensa e singela, como só um violino nas mãos de um mestre pode ousar chegar perto de reproduzir. A emoção das duas se espalhou pelas pessoas que estavam no refeitório, mas ninguém ousou se aproximar, provavelmente temendo quebrar o encanto daquela situação. Existem momentos que dão a impressão de durar séculos. Esse foi um deles. Quando o século acabou, a Léa, que já era residente no Lar, fez o convite: Venha sentar perto de mim para almoçarmos juntas. Claro! E as primeiras perguntas, como pingos que antecedem a chuva, começaram a pipocar de uma para outra. Você está aqui há muito tempo? Não. Cheguei aqui nesse ano. Minhas filhas acharam melhor eu vir para cá. Você sabe como é... Cada um tem a sua vida... Elas nem moram no Brasil. E você? Bem, na verdade, eu andava meio desanimada e muito sozinha. Gostava muito de ficar na cama, sem fazer nada ou, no máximo, via alguma coisa na televisão. O tempo passava. Escurecia e clareava. Nos intervalos alguém me chamava e me alimentava. Não sinto dor, nem passo nenhuma necessidade. Meus filhos acharam que numa instituição eu teria gente em volta o tempo todo e assim iria me distrair e viver melhor. Entendo... Você quer sopa? Sempre tem uma sopinha de entrada e são bem gostosas. Quero. Vamos buscar? A Léa que estava chegando se ergueu e notou que sua xará andava com dificuldade. De braços dados foram buscar a sopa. Como crianças, elas deixaram rastros pelo salão. Não se incomode, pois eles vão limpar. Estão acostumados com esse e outros tipos de gracinha que aprontamos. Sentaram de volta e concordaram que a sopa estava realmente deliciosa. Uma ajudante trouxe salada e levou os pratos usados. O almoço correu sem pressa. Com uma animação súbita e nada usual, a Léa que estava chegando considerou que seria muito bom poder lembrar as coisas que viveram juntas.  Claro que sim! Somos como aquelas pessoas que se conheceram nos navios que trouxeram os emigrantes fugitivos da Europa antes do Holocausto, os irmãos de navio. Fomos unidas pelas nossas experiências de juventude e agora ficaremos unidas nessa etapa também. Vamos ter que encontrar um nome para nossa situação... Irmãs de pracinha e asilo... Irmãs de início e fim de vida... Como uma nuvem que se coloca na frente do sol, parece que o enveredar da conversa escureceu um pouco o brilho do olhar das duas senhoras. Foi então que se deram conta da presença de um jovem. Ele não estava nem tão perto, mas como ele se movia e tinha uma máquina fotográfica nas mãos foi o suficiente para que o notassem. De onde ele saiu? Era como um paraquedista que havia acabado de pousar de um salto. A Léa novata questionou o rapaz. Ele não teve nenhum problema em se explicar. Estava no asilo fazendo um trabalho para seu curso de fotografia. Pediu autorização à direção do Lar e quando teve que justificar seu motivo, disse que idosos são bons modelos para fotos, principalmente por conta das rugas. Acrescentou que rugas são traços cheios de histórias e mistérios. O garoto já sabia dessas coisas. Foi fácil para ele obter a permissão. A maioria dos residentes o ignorou. Parece que esse fato impulsionou seu trabalho. Em nenhum momento ele pediu para olharem para a sua câmera. Em nenhum momento ele tentou juntar mais essa ou aquela pessoa para conseguir uma foto melhor. Ele foi registrando o que estava acontecendo sem interferir. Por sorte dele, ele estava no refeitório do asilo quando estava acontecendo um fato notável.  Com um olhar treinado para enxergar as sutilezas e emoções, ele percebeu tudo e tirou um monte de fotos das Léas. Capturou desde a incredulidade até o êxtase do reconhecimento e encontro das duas. A vida tem dessas coisas... Ele teve sorte. Foi uma sorte tão grande que deu uma guinada na vida dele e até das Léas. As fotos do rapaz viraram exposição e até ganharam prêmios. Quando ele recebeu um convite para expor em Nova York foi correndo contar para suas modelos. As Léas, que a cada dia estavam mais irmanadas, se animaram e resolveram que queriam ir junto com o jovem artista. Foi um fuzuê no asilo e também entre os familiares das idosas. Como? Tão longe? Quem iria se responsabilizar? Quem iria cuidar das duas? Como adolescentes teimosas, elas tinham respostas para tudo. O jovem fotógrafo achou que a presença das Léas seria o marketing que precisava para sua exposição internacional. Com tamanha excitação, dá para entender como ficou difícil dormir para uma daquelas senhoras chamadas Léas, aquela da taquicardia. Passou a sonhar acordada e elaborar planos e maneiras de alcançar o que tanto queriam.  E assim foram. A viagem de avião foi um sonho. Viram as nuvens e se divertiram com seus formatos. Com taças de vinho brindaram a proximidade que estavam do céu e desejaram, sem melancolia alguma, que quando morressem pudessem fazer uma passagem bonita assim. Ficaram num hotel confortável e tiveram um dia para descansar. O evento foi marcado para as cinco p.m. do outro dia. Os três estavam excitados e foram pontuais. Cada uma das Léas estava mais elegante e bonita que a outra. Foram maquiadas e penteadas. Souberam aproveitar o enigma daquele azul celeste no rosto de cada uma. Vestidos longos, como há muito não usavam lhes destacaram na pequena multidão presente ao evento de inauguração daquela mostra fotográfica. O artista e as duas idosas estavam se tornando celebridades, mas depois de um tempo de badalações, as duas Léas se cansaram. Deixaram os holofotes para o dono da festa, foram para um canto e se sentaram. Murmuraram coisas baixinho uma para outra. Talvez falassem em idish... Talvez naquele idioma secreto... Elas já queriam tirar os sapatos, as meias, os vestidos, os soutiens... Queriam ficar à vontade. Ninguém percebeu quando foram para o banheiro. Eram duas molecas com um indisfarçável sorriso maroto naqueles rostinhos angelicais. Gostaram de ficar descalças. Livraram-se dos vestidos, como se estivessem tirando fantasias depois do desfile de carnaval. Ficaram apenas de combinação. A Léa mais assanhada resolveu que podiam ficar assim e que as pessoas iriam achar que elas estavam com um vestidinho mais casual. Deixaram uma bagunça no banheiro e escapuliram pelo elevador. Ganharam a rua. Riam tanto e estavam tão ofegantes que em muitos momentos quase caíram. Foram andando abraçadas e com uma tremenda alegria que lhes dava combustível para seguir para qualquer lado. Por casualidade, chegaram ao famoso parque de NY. Conseguiram achar um banco livre e se instalaram.  O sol parecia estar com pena de ir embora, mas não houve jeito, logo ele se foi.  O escuro não trouxe medo, nem forma alguma de apreensão. O jovem fotógrafo dessa vez não teve a sorte de estar lá naquele momento. Ele teria percebido que os sorrisos das duas idosas estavam mais evidentes que todas as rugas. Teria feito um monte de outras fotos das Léas, que poderiam seguramente lhe render outras exposições espetaculares. Pena... Não houve tampouco registro da cena quando as Léas se abraçaram e adormeceram no banco do Central Park.

QUEM ME ENVIOU UM QUEIJO?

Sexta, 22 Janeiro 2016 17:04 Escrito por
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Quando cheguei à garagem do meu prédio, ainda não estava escuro, mas era o fim do meu dia de trabalho. Eu estava feliz tanto pelo que realizei, quanto pela programação que eu iria me brindar para ter uma noite de paz e prazer. Já podia me ver sentada no sofá da sala com um lanche gostoso, escolhendo um bom filme para assistir. Lá pelas dez da noite, iria para cama ler um livro que, como um animal fiel, já estaria à minha espera na cabeceira. Deixei meus pensamentos rolarem, fiz as manobras para entrar na minha vaga e quando estava quase desligando o carro, percebi que um jovem vizinho me aguardava segurando gentilmente a porta do elevador. Apressei o passo, agradeci e entrei. Apertamos os botões de nossos andares. Trocamos algumas palavras. O elevador logo parou. Era o zelador que tinha correspondências e uma sacola para mim. Notei que se tratava de uma sacola térmica. Perguntei quem a havia deixado. Ele me respondeu sem pestanejar: Rita! Devo ter feito uma cara muito estranha. O zelador emendou: Regina! Meu semblante deve ter revelado a continuação do meu questionamento. Não lembro! Desculpe-me, mas ela falou e eu não estou conseguindo lembrar... Agora o nome que parece que foi dito é Cristina. Isso! Foi Cristina. Olhei para o meu jovem e gentil vizinho e percebi sua impaciência. Com razão. Obrigada, Sr. Mario, acho que pode ser Cristina... Vou averiguar e qualquer coisa, eu lhe avisarei. Assim que cheguei no meu apartamento, larguei minha bolsa, correspondências e a sacola térmica no balcão da cozinha. Estava curiosa. Abri a sacola térmica em busca de algum envelope, alguma mensagem. Nada. Havia apenas um saco plástico transparente e dentro dele um queijo minas com um jeito apetitoso.  Mais que depressa fui lavar as mãos e voltei para experimentar um pedacinho. Hummmm. Que delícia! Rita... Regina... Cristina... Eu havia estado com uma pessoa com um desses nomes. Ela me contou sobre sua decisão de se cuidar e se alimentar melhor. Claro! Devia ser ela. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que havia recebido o queijo, por sinal delicioso, e que queria me certificar se foi ela quem me presenteou com essa gostosura saudável. A resposta não demorou. Poderia ter sido ela, mas não foi. Ela me sugeriu vasculhar entre outras pessoas que gostam de mim tanto quanto ela. Liguei para o zelador. Sabia que não iria adiantar para muita coisa, mas talvez estivesse com necessidade de compartilhar o andamento dessa estranha situação. Sr. Mario, não era quem eu pensei que poderia ter sido... O senhor não lembra de mais nada? Deixe-me ver... Ah! A pessoa disse que era irmã do Marquinhos. Isso! Foi ele quem, na verdade, lhe mandou o queijo de presente. Marquinhos? É. Desse nome tenho certeza. Por que a senhora não olha no seu facebook? Fechei os olhos, balancei a cabeça e tive vontade de rir. Sr. Mario, se alguém aparecer falando do queijo ou da sacola, pode me ligar, estarei acordada. Olhei para o queijo e para a faca suja. Cortei mais um pedaço. Muito bom! Recordei que Marquinhos era o nome de um antigo cabelereiro. Durante um bom tempo cortei cabelo com ele. Conversávamos bastante, mas... Não. Não imaginava que ele iria surgir do nada usando um queijo como pretexto. Como se estivesse conduzindo uma charrete, eu segurei firme as rédeas e meus pensamentos me levaram para outro lugar. Há uns cinquenta e poucos anos convivi com outro Marquinhos. Foi no período do primário na escola. Será que aquele Marquinhos virou um fazendeiro que me descobriu e cheio de saudades apareceu, meio tímido, diga-se de passagem, deixando uma sacola térmica com um queijo de sua produção? Não consegui embarcar nessa fantasia. Na verdade, eu não podia ter certeza de nome algum. Comecei a pensar que talvez o queijo não era para mim. Algum outro morador era o destinatário daquela delícia. Experimentei pela primeira vez a sensação desconfortável de estar fazendo algo errado. Havia grandes chances de estar comendo um queijo que não era meu. Coloquei o queijo na geladeira e resolvi adiar a continuação desse episódio para o dia seguinte. Ao acordar, logo percebi que estava com o queijo na cabeça. Ou talvez com Marquinhos... Mas, que bobagem! Eu estava ficando atrasada para trabalhar. Minha mente ficou ocupada o dia inteiro o suficiente para não haver a mínima brecha para o queijo. Quando cheguei do trabalho à noitinha, não tive coragem de cortar outro pedaço. Confesso que, fora a quase certeza de que estaria comendo algo que não me pertencia, me veio um pensamento maluco de que alguém poderia querer se passar por uma bruxa igual a que deu a maçã envenenada para a Branca de Neve. Parei na portaria para falar com o Sr. Mario. Era folga dele. Perguntei ao outro funcionário se havia algum recado para mim. Nada. Deixei para fazer as devidas investigações no dia seguinte. Fui dormir certa de que havia alguma coisa bem errada. Quando amanheceu, corri para revirar novamente a sacola térmica em busca de um bilhete bem escondido nela. Inútil. Fui fazer compras. Será que devia ou não comprar queijo para o fim de semana? Afinal, Marquinhos me mandou um queijo lindo... Tive que rir e estava tão distraída que quase bati no carrinho de uma senhora. Ela percebeu que eu estava no mundo da lua e me disse que paixão de outono é mesmo uma maravilha. Eu sorri e deixei-a acreditar no que tivesse vontade. Voltei para casa, arrumei tudo e desci na portaria. Perguntei pelo Sr. Mario e fiquei sabendo que ele só viria de tarde. Puxa! A zeladora quis saber o que estava me afligindo. Comecei a falar da sacola térmica e do queijo e logo ela me interrompeu exclamando: Então foi a senhora? Fui... Pouco tempo depois, eu estava batendo na porta da legítima dona do queijo e da sacola. Levei meu livro de crônicas com uma dedicatória me desculpando pela deliciosa fatia que eu comi. Minha vizinha me ofereceu outra fatia. Demos algumas risadas. Saí daquele apartamento sem a sacola e sem o queijo, mas em troca estava com a crônica todinha na cabeça... 
Era um começo de dia como outro qualquer na casa de Zaidá (vovô no idioma idish). Buba ( vovó no idioma idish) aprontava o café da manhã e o colocava na mesa da sala. Sempre a mesa estava coberta por uma toalha bonita e limpa e cada um tinha seu prato, seus talheres, a xícara e o guardanapo de pano.   Zaidá acordava cedo para se exercitar e tomar um banho de água gelada. Ele acreditava que sua boa saúde dependia dos exercícios e do choque térmico que sentia com a água do chuveiro. Estherzinha se aprontava para ir à escola. Não dava tempo para muita conversa, mas Zaidá adorava brincar e aprontar situações para fazer sua família se alegrar. Nesse dia, Zaidá decidiu esconder a frigideira. Buba começou a procurar sem imaginar que fosse uma peça que seu marido estava lhe pregando. Buba se abaixou e vasculhou bem no armário embaixo da pia. Como não encontrou o que procurava, tirou todas as panelas para fora do armário. Pediu ajuda à filha. Zaidá assistia a toda àquela agitação sem dizer nada e sem rir, o que era mais difícil. A frigideira era importante, pois Buba a usava para fritar ovos todas as manhãs. Buba já estava ficando sem paciência, quando Zaidá sugeriu que nesse dia poderiam comer ovos cozidos, nesse caso, não seria preciso a frigideira. Como Zaidá e Estherzinha tinham hora para sair e já estavam quase ficando atrasados, Buba concordou com a ideia. Quando ela foi pegar os ovos na geladeira deu um grito e começou a falar em idish: Manale! Bistu Michiguene Guevorn? (Manoel! Você ficou maluco?) O que foi mamãe? O que foi? Olhe! A frigideira! Como ela veio parar aqui? Estherzinha quase chorou de tanto rir. Zaidá pulava e dançava fazendo com que a Buba também entrasse no clima. Que farra! Zaidá e Estherzinha comeram apressadamente, despediram-se da Buba e foram para o ponto do bonde. Não demorou nem um minuto e o bonde chegou. O motorneiro era o mesmo todos os dias. Ele conhecia todos os passageiros e tinha o hábito de cumprimentá-los: Bom dia Sr. Manoel! Bom dia Estherzinha! Subam! Puxou a cordinha e o sino que anunciava a partida do bonde soou. O trajeto até a escola levava uma meia hora passando por ruas calmas e arborizadas. Era um bonito passeio. Estherzinha, como fazia muitas vezes, recitou a propaganda que ficava ao lado do motorneiro: Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado, mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado. Zaidá gostava de ouvir sua filha falando alto, para todo mundo ouvir. Quando ela acabou, Zaida foi o primeiro a aplaudir. O bonde ainda não estava nem cinco minutos distante do ponto onde Zaidá e Estherzinha subiram, quando, sem mais nem menos, Estherzinha começou a gritar: AI! Pai! Pai! Que foi? O que está acontecendo? Você está sentindo alguma coisa? Não! Eu esqueci meu caderninho! E daí? Eu preciso dele! Preciso muito! De verdade! Tem muita coisa importante lá! Ah! Papai! A essas alturas, Estherzinha, que nem era uma menina chorona, não conseguiu conter as lágrimas. Então foi a vez de Zaida usar sua voz num tom bem alto: Motorneiro! Motorneiro! Pare o bonde! O pedido do Zaidá chegou como uma ordem nos ouvidos do motorneiro, que puxou o freio e imediatamente parou o bonde. Sr. Manoel, o que está acontecendo? O senhor pode me explicar? Posso! Estherzinha precisa do seu caderno que ficou em casa. Vou buscá-lo. Vou bem rápido. Não mova esse bonde até eu voltar! Nenhum passageiro reclamou ou, sequer, duvidou da decisão daquele pai em ajudar sua filha. O motorneiro ficou de boca aberta, como se fosse argumentar alguma coisa, mas nada falou. Zaidá ainda recomendou para sua filha ficar bem, sem sair dali, que ele já voltava. Todos do bonde viram como ele saiu em disparada. Chegou à sua casa esbaforido. Buba estranhou e até se assustou quando trombou com ele na cozinha. O que houve? Você está todo suado? Parece que andou correndo pelas ruas... Cadê Estherzinha? Calma Dora! Está tudo bem. Não tenho tempo para lhe dar maiores explicações. Estherzinha está no bonde. Ela se esqueceu de levar seu caderninho. É eu notei... E o guardei na gaveta ao lado da cama dela. Corre! Pegue o caderno, pois preciso voltar logo com ele. Buba entregou o caderno e Zaidá saiu numa disparada maior ainda. Encontrou o bonde no mesmo lugar onde o havia deixado. Quase sem fôlego, subiu nos estribos do bonde e sentou-se ao lado da sua filha. Estava quase sem ar, tamanho o esforço de tanta correria. Estherzinha abraçou-o e beijou-o muitas vezes. Alguém apareceu com um copo de água, nem se sabe de onde, mas foi ótimo para Zaidá se recuperar. Todos aplaudiram Zaidá, que se mostrou encabulado, afinal, na cabeça dele, qualquer pai faria isso pela sua filha. Como o ator principal daquela encenação, Zaidá se levantou, dirigiu seu olhar para os passageiros e também para o condutor do veículo e falou: Obrigado a todos pela ajuda e paciência. Depois, soltando a voz a plenos pulmões gritou: Motorneiro!...Toca o bonde! (Dedico esse texto para meus netos e todas as crianças que ainda gostam de ouvir histórias)     
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