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VIVENDO COM IMPERFEIÇÕES

Terça, 19 Setembro 2017 16:27 Escrito por
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Quando abri a porta, conheci Seu João Batista. Chamou-me a atenção seus olhos cansados. Pode ser que simplesmente espelhavam os meus. Era um feriado e fazia um calor tremendo. No dia seguinte chegariam meus parentes que iriam ficar três dias em casa e os azulejos de uma das paredes da área de serviço estavam estufados, prestes a cair. Na véspera, tentei trazer algum dos meus conhecidos que sempre me salvaram em situações assim. Nenhum estava disponível. Só depois do feriado. Eu estava quase apelando para a internet, quando fui interceptada pelo meu marido que me questionou sobre quem me daria referencias de pessoas desconhecidas... Achei que ele estava sendo sensato e merecia a oportunidade de resolver esse desafio sem minha intervenção. A sorte lhe sorriu e lhe colocou em contato com o Seu João Batista, vizinho do nosso porteiro da noite e segundo esse, um homem religioso e de total confiança. Esse santo homem se dispôs a vir em pleno feriado nos salvar. Quando Seu João entrou na área de serviço do nosso apartamento, notei algo peculiar no seu jeito. Era como se ele estivesse tentando escutar algum som, alguma mensagem vinda daquela parede adoecida. João ficou um bom tempo sendo só silencio.  Quando se deu por satisfeito, mudou sua forma de proceder e passou a acarinhar os azulejos, como se fossem doentes e ele estivesse ali para curá-los. Confesso que fui capturada logo de início assistindo a essa cena tão poética. Enquanto Seu João e eu estávamos deslumbrados, meu marido, muito mais prático que eu, relatava para João uma aula que viu no youtube sobre como salvar azulejos prestes a cair colocando fitas adesivas. A poesia e a urgência prática, em geral, não são companheiras. Havia a necessidade de tinta e outros materiais. Quis o destino que meu marido fosse resolver essas pendencias. Fiquei só com Seu João. Com cuidado para não lhe constranger, ofereci fita adesiva. Seu João não riu com a boca, mas notei que por dentro gargalhava. Com a mesma mão cuidadosa que antes fez carinho nos azulejos, ele bateu aqui e ali para me mostrar que o assunto era grave e sem tempo para muitas elucubrações. Seu João estava sem nenhum tipo de proteção. Ofereci-me para lhe trazer um casaco do meu marido. Ele disse que não precisava e no segundo seguinte um estrondo enorme marcou a queda de todos os azulejos da parede. Todos! Evidentemente, todos se quebraram. Alguns caíram em cima dele e outros em cima de mim. Nós não nos machucamos. Não sei dizer a razão. Pode ser que João seja mesmo santo, tenha o corpo fechado. E eu? Acho que tive muita sorte. A poeira e a sujeira de cacos de azulejo estavam por toda parte na área de serviço. Não havia pressa, nem urgência na atitude contemplativa do João. Quis chama-lo de volta ou tirá-lo do transe e me prontifiquei a ser sua ajudante. Ele me mostrou que trouxe uns sacos grossos onde poderíamos colocar o entulho. Fui esperto, ele se gabou. Sem luva, nem nada para proteger as mãos, fui catando os pedaços de azulejos e promovendo um início de arrumação. Levamos um tempo, mas conseguimos. Então, João me contou que quando ele estava saindo de casa, seu filho chegou com os netos. Um casal de gêmeos de um ano e meio. Lindos, espertos, umas gracinhas. Entendi que era hora de fazer um intervalo. Vi as fotos no celular dele, enquanto tomamos café expresso e comemos uma torta de ricota. Ele me contou que a esposa estava doente. Era ele que fazia tudo agora. A senhora me ensina a fazer essa torta? Escrevi a receita e lhe entreguei. Ela vai ficar maluca quando eu aparecer com essa gostosura. Quer ir para sua casa? Até que horas as crianças vão ficar lá? Não sei. Nunca se sabe. Meu filho não avisa se vem e não diz quanto tempo vai ficar. Chato, mas ainda bem que vem... Claro! Nem ligo! Acho que é uma boa ideia ir embora agora e voltar depois de amanhã para passar a massa e pintar. Amanhã não é possível? Não, amanhã tenho compromisso. Deixa que lhe ajude a levar esses sacos. A senhora é uma boa ajudante. Obrigada. Quando voltei para casa, fechei a porta da área e adiei o fim da história. No dia seguinte, como previsto, meus parentes chegaram. O problema na área de serviço não afetou em nada o ânimo ou a programação dos visitantes. No sábado pela manhã, dia em que Seu João voltou para finalizar seu trabalho, fui com meus familiares passear numa exposição de flores, enquanto meu marido foi providenciar os pedidos que Seu João lhe fez. Deve ter sido um dos dias mais quentes do ano, mas meus tios e primos não se deixam abater por coisas miúdas como temperaturas elevadas ou falta de umidade no ar. Eles são resistentes e determinados. Vimos quase tudo o que tínhamos direito e voltamos para almoçar em casa. A tarde já estava no meio quando fui examinar as quantas andava o serviço do Seu João. Difícil explicar. Ele se revelava ao pintar a parede. Pintava exibindo uma total falta de habilidade. As imperfeições eram várias e notórias. E ele pintava. Em um dado instante, ele parou e me perguntou se eu não achava que o seu trabalho já estava merecendo um Salve e uma Aleluia. Como fui pega de surpresa por tal questionamento, pigarreei e respondi que valia a pena olhar aqui e ali alguns probleminhas antes das exclamações. Ah! Estava bem pior, já remendei o máximo... Entendi onde nós havíamos chegado. Salve Seu João! E Aleluia também! Então acabou? Não! Ainda vou jogar água no chão. Deixa. Sou a ajudante. Esse é meu serviço. Tem razão. Paguei o combinado. Gostei muito de trabalhar na sua casa. Vou lhe dizer um segredo: a senhora sabe que eu nunca fiz isso na minha vida para ninguém? Já pintei minha casa e já quebrei uns galhos por lá, mas assim como esse serviço é a primeira vez. Esse dinheiro está chegando numa boa hora. Estou orgulhoso de mim! É para estar orgulhoso mesmo, Seu João... Quando precisar, me chame e pode me indicar também. Claro, Seu João. Com o tempo a senhora nem vai mais perceber os furinhos ou as partes que não estão muito lisas. Vai esquecer ou vai ter outras coisas para pensar. Eu sei Seu João, sei que a vida segue. Tem certeza que vai dar conta de limpar tudo sozinha? Tenho. Está calor e vai ser gostoso jogar água nos pés. Ele foi. Foi e deixou mais que marcas na parede. Varri, catei e depois joguei água no chão. Era como se eu seguisse conversando com aquele homem. Dois dias depois, bem cedo pela manhã, com meu copo de café com leite na mão, tive vontade de ir olhar novamente a parede pintada pelo Seu João. Ela estava do jeito que ele a deixou, mas para minha grande surpresa, alguns pisos no chão estavam levantados. Olhei bem para me certificar de que era uma cena real. Era. Nada de pânico. Provavelmente os azulejos que despencaram da parede provocaram essa situação. Chamei meu marido para que ele tomasse ciência do novo fato. Foi gostoso quando ele me abraçou e com bom humor selou aquele instante: Vamos chamar o Seu João?  

NO CINEMA

Terça, 11 Julho 2017 10:02 Escrito por
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Assim que a luz apagou, o aparelhinho começou a vibrar dentro da bolsa. Não era algo contínuo. Vibrava e parava e então recomeçar a vibrar. Sem dúvida, era alguém querendo falar com ela naquele momento. Como ela não queria falar com ninguém, tentou ignorar o incômodo. O filme começou. A vibração não parava. Alguém insistia como se tivesse algo urgente para resolver. Quem seria? Embora fizesse força para prestar atenção no filme, começou a ficar preocupada. Beto havia terminado o namoro com ela há três semanas e desde então não se falaram. Seria ele? Se fosse, o que ele poderia estar querendo? Na tela, um homem alto e muito magro entrega um pacote para uma mulher ruiva e gorda. Melhor não atender se for o Beto. Ela jurou que nunca mais falaria com ele. Chorou por ele durante quase uma semana. Agora que estava melhor, não poderia se dispor a escutar sua fala melosa e sedutora. Esse Roberto é um perigo ambulante. Não! Opa! A ruiva da tela parece que desmaiou. O aparelho seguia vibrando. Quem sabe era a Virgínia querendo lhe contar sobre a festa de ontem? Ora, mas isso não mereceria tanta insistência. No filme, três crianças se despedem de um homem, que parece ser o pai, que tudo indica que vai trabalhar, e saem para andar de bicicleta num lugar que parece um subúrbio americano. O pai liga o carro, dá a ré e sai cantarolando. A ruiva aparece na cozinha. Ué! Ela ficou boa? Que saco! Essa droga não para de vibrar! E se eu olhar quem é... Não! Estou no cinema. Como estou resolvida a não atender, que importa olhar quem seja? O homem magro e alto agora está no metrô. Ele tem um jeito sinistro. O pai das crianças está sentado do lado do magro. Ela percebeu que não estava entendendo nada. Sua bolsa parecia que estava viva. Gemia e tinha movimento. Um senhor atrás dela lhe cutucou e lhe pediu para desligar seu celular. Ela fez cara de paisagem e quis saber se ele estava ouvindo alguma coisa. Ele disse que sim. Ela lhe cumprimentou pela boa audição, apesar da idade avançada. O senhor não achou graça e falou alguns impropérios de forma exasperada. Algumas pessoas se manifestaram pedindo silêncio. O celular seguia vibrando. Chega! Nem ela estava aguentando mais aquela tortura. Tinha que resolver se iria atender ou se iria desligar o aparelho. Seu olhar se prendeu nas três crianças que agora brincam num parque. O parque tem outras crianças. Está um lindo dia de céu azul, mas faz frio, já que todas estão de gorros e casacos. Quem terá levado essas crianças para esse lugar? A música do filme faz pensar que alguma coisa vai acontecer. Um cachorro corre atrás de uma bola. A vibração do seu celular não para. Ela enfia a mão na bolsa e pega o aparelho. Sabe que a luz pode incomodar alguém, então se abaixa e, como se estivesse amarrando os cadarços de seu tênis, tenta identificar a chamada que não lhe dava sossego. Não consegue. O celular escorrega de sua mão. Não acredita no que lhe aconteceu. Volta para a posição anterior e mira na tela. O homem alto e magro está agora num aeroporto. Pela sua fisionomia, meio sério, meio tenso, achou que ele estava indo numa viagem de negócios. A ruiva apareceu de repente para viajar também. Volta a pensar no seu maldito aparelho que foi parar embaixo de uma das poltronas na fila da frente. O cachorro corre feito louco e uma das três crianças está atrás dele. Um carro surge do nada e o motorista freia desesperadamente. O momento é de grande emoção, mas ela escuta o barulho do celular vibrando. Ela toma coragem e pede para a pessoa sentada à sua frente pegar o seu aparelho. Era uma senhora de óculos, de certa idade e até com muita boa vontade. A mulher se mexeu, se revirou, mas não conseguiu achar o aparelho. Quando a senhora insistiu na busca, fazendo um esforço maior de se abaixar, conseguiu a façanha de deixar cair seus próprios óculos. Inesperadamente um palavrão curto e seco se fez ouvir em meio ao silêncio que reinava na sala do cinema. Quem diria? Uma senhora... Sem óculos a mulher não enxergava quase nada, essa foi a explicação para o desabafo de baixo calão. O rapaz ao lado da senhora foi convocado para ajudar a achar os óculos. Ele disse que não. Queria ver o filme. A mulher buscou outra ajuda. Sem enxergar quase nada, ela apenas identificou que era uma moça que estava abraçada numa outra pessoa.  Quando o filme acabar vai ser mais fácil... Agora não dá! A criança atropelada estava num hospital. Alguém parecia chorar baixinho numa fila bem próxima. O celular seguia vibrando. O homem que se alterou no início do filme, voltou à cena avisando que iria chamar o gerente. Só quero achar meus óculos. E eu quero o meu celular. Cala a boca! Quero ver o filme! A ruiva está num close e de óculos escuros. Será que aconteceu alguma coisa grave? Se alguém pisar nos meus óculos vou ter um troço. Fica quieta! Eu não enxergo sem óculos! Então dorme... Mas que falta de educação! A essas alturas o filme já estava totalmente sem pé nem cabeça. A dona do celular ainda escutava o som que o seu vibrar emitia. Levantou do seu lugar e, decidida, foi engatinhar na fila a sua frente. Um jovem, saído de algum lugar não identificado, teve compaixão, se juntou a ela e sussurrou que iria ajudar na busca. Numa cena patética, os dois desconhecidos engatinhavam tateando no escuro. Não demoraram a achar os objetos perdidos. Os óculos e o celular estavam próximos. Ainda agachado, o rapaz solidário fez a entrega solene para a senhora que não devia estar enxergando nada: Seus óculos... Obrigada! Muito obrigada! Cala a boça! Não enche! Um carro em alta velocidade corta uma estrada em meio a um temporal. O celular vibrou mais uma vez. Dessa vez, estava na mão dela e ela se rendeu. Decidiu que queria saber quem era. Foi ver. O celular emudeceu e escureceu. Acabou a carga. Morreu. O jovem tinha acabado de voltar para o seu lugar. Ela enfiou o celular na bolsa com raiva. O homem magro e alto está num quarto com a ruiva. O rapaz solidário estava olhando para ela. Era um olhar insistente, tanto que percebeu. Olhou de volta. Ele fez um sinal sutil com a cabeça. Ela ficou confusa. O que será que ele queria? A ruiva estava séria. O homem magro dormia. O rapaz agora fazia um gesto com a mão. Ele mostrava que queria sair do cinema. Era um convite. Ela se levantou devagar. Sacudiu a cabeça como que para se livrar das travas e das dúvidas. Ajeitou o cabelo talvez para parecer bonita. Num último olhar para a tela viu a ruiva com uma arma na mão. Que se explodam todos! Virou-se em direção a saída. Por uma fração de minuto, respirou ou fez uma oração... Quem há de saber? Com passos decididos, saiu do escuro.

JULIO

Segunda, 22 Maio 2017 16:13 Escrito por
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Foi como se uma porta se abrisse súbita e inesperadamente pela força de um vento forte. Foi assim que me encontrei nesta madrugada diante de fatos que estavam empoeirados, embrulhados e guardados no sótão da minha alma. Tive o ímpeto de fugir, mas sabia que não tinha escolha. Muitas cenas estavam borradas. Meu irmão de quase 26 anos estava doente. Melanoma. Julio sempre teve muitas pintas. Era um charme que virou uma tragédia. Ele havia passado um tempo nos Estados Unidos, onde operou. O que exatamente será que ele operou? Lembro que seu médico oncologista americano se chamava Dr. Roland. Lembro que conversei com ele pelo telefone. Seu irmão vai voltar para o Brasil. Ele está curado? Ficou bom? Ele precisa voltar... Precisa ficar perto da família. Doutor, o senhor não está me respondendo... Preciso que o senhor cure meu irmão. É meu único irmão! Sei... Mas ele precisa ficar perto de vocês agora. Eu não fui capaz de interpretar essas falas. Julio voltou. Fui buscá-lo no aeroporto. Eu estava grávida. Naquele tempo, podíamos ver as pessoas assim que entravam no grande salão do desembarque. Papai devia estar ao meu lado, mas papai andava mudo e quase invisível naquela época. Vi meu marido e minha mãe. Acenei para eles. Onde estava meu irmão? Não o achei e cheguei a pensar que alguma mudança de última hora havia acontecido. Minha mãe e meu marido me abraçaram e com um susto entranhando no meu corpo, reconheci a voz do meu irmão naquele homem sem cabelo, envelhecido e sem brilho que vinha junto com eles. Julio ainda teria alguns meses de vida. Eu não tinha a mínima ideia de que o fim estava tão perto. Eu tinha um filho de dois anos e um para chegar em breve. O neném chegou um mês antes do tempo e o tio lhe conheceu. Julio me pediu que não o deixasse chorar. Estranho pedido. Não tive a oportunidade de saber o seu motivo. Cumpri o possível, me esforcei. Meus avós maternos fizeram uma festa de suas bodas de ouro. Julio foi. Não sei como ele estava se sentindo. Não sei se tinha dores. Ele foi. Foram meus sogros, primos, tios e alguns parentes que não víamos com frequência. Temos fotos para garantir isso. Que esforço Julio deve ter feito para comparecer nessa festa! Não sei ao certo se foi logo depois dessa festa ou pouco antes dela, mas o fato é que Julio anunciou que queria se casar. Que reboliço! Que confusão! Julio tinha uma namorada. Não era um namoro de muito tempo, ou pelo menos é assim que o fato está registrado na minha memória. Era uma moça não judia. Não lembro seu nome. Lembro que ela não tinha a aprovação da minha mãe, nem dos meus avós maternos. Eles queriam que Julio se casasse com uma moça judia. Não lembro o que papai achava. Posso imaginar que para ele a religião da moça e o impasse resultante não eram tão importantes, mas não posso garantir nada. Lembro escutar que a moça poderia estar se aproveitando de uma triste situação. Pensando nisso agora, me parece um absurdo sem pé nem cabeça. Eu, com menos um ano que meu irmão e ocupada com os filhos pequenos, não enxergava as garras da morte se aproximando dele. Os amigos do meu irmão conseguiam conversar, rir e, provavelmente, até chorar com ele. Um deles arrumou um apartamento e concedeu a realização do seu último desejo. Julio não casou, mas foi morar com a namorada. Meus pais o queriam perto de si, mas acabaram cedendo. Eles o ajudaram a montar o seu apartamento. Capaz que até minha avó tenha ajudado. Não sei, não lembro. Geladeira, fogão, televisão, batedeira, etc.. Eu estive lá. Não sei quantas vezes fui ao apartamento do meu irmão. Não imagino que foram muitas vezes. Guardo uma imagem do Julio deitado, descansando no seu quarto naquele apartamento. Lembro que havia um som forte vindo da sua respiração. Não era um ronco. Um som que traduzia um esforço. Não lembro o nome dela, da namorada. Ela estava lá e está esfumaçada na minha memória junto dessa respiração tão difícil e ruidosa. Não estou certa se falei com ela. Acho que nunca falei com ela. Eu adorava meu irmão. Tive sempre muitos ciúmes dele. Eu não sabia discriminar meu papel de irmã do papel de uma namorada. No meu aniversário de 25 anos, meu irmão não apareceu. Era uma pequena reunião no meu apartamento com meus filhos, marido e alguns amigos. Eu reclamei. Uma reclamação estúpida e fora de qualquer nexo. Julio estava mal. Eu não escutava, nem compreendia essa informação. Julio foi hospitalizado no dia seguinte ao meu aniversário ou talvez até já estivesse internado. Lembro que encontrei seu amigo médico no quarto do hospital. Dr. Silvio deve ter me dito coisas bem diferentes das que eu captei e levei comigo naquela ultima vez que vi meu irmão vivo. Ele vai ficar bem. Ele está até mais forte... E a namorada? Não a vejo nas minhas lembranças no dia do enterro, nem na casa de meus pais, nas rezas que foram feitas durante a semana de luto. A namorada evaporou. Foi a ultima mulher que meu irmão amou. Não sei o seu nome. Lembro escutar conversas do desmanche do apartamento do meu irmão. Ela ficou com tudo. Tudo? Quem sabe o que ela queria era apenas ele? Ela possivelmente deve ter esquecido o meu nome também. Precisei quase quarenta anos para revisitar essa moça. Eu não tinha olhos, nem ouvidos para a realidade tenebrosa. Não estava capacitada a entender, quanto mais analisar e emitir alguma conclusão. Foi assim que perdi uma pessoa que pode ter sido alguém muito especial, afinal meu irmão escolheu compartilhar seus últimos dias com ela. Olhei o despertador. Eram quase cinco horas. Olhei meu marido adormecido. Ele já estava comigo quando eu tive que conhecer essa dor.  Ajeitei-me nos seus braços. Estava sentindo uma emoção muito especial, como se tivesse entrado uma nesga de luz no sótão da minha alma.   

AULAS DE PIANO

Quinta, 20 Abril 2017 16:16 Escrito por
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Era uma vez, há muito tempo, uma menininha alegre e esperta, chamada Rosali. Era você vovó? Era. Bem, Rosali ia à escola e tinha muitos amigos lá. Um dia, sua amiga Sara lhe contou que havia começado a aprender a tocar piano. Falou maravilhas da professora, das músicas e de como era fácil ser uma pianista. Iria viajar pelo mundo todo tocando piano para grandes plateias... Rosali ficou impressionada e com a certeza que essa era uma atividade bem legal. Todos os dias, Sara contava os progressos que fazia e assim, Rosali foi ficando cada vez com mais vontade de também fazer essa aula. Antes de falar com a mamãe, Rosali conversou com seu irmão, Julio. Ele era só um ano e vinte dias mais velho que ela. Eram muito bons amigos. Julio adorava música e facilmente se entusiasmou pela ideia de também aprender a tocar piano. Numa noite depois do jantar, quando papai e mamãe estavam silenciosos lendo, Julio e Rosali pediram licença por interrompê-los e se puseram a falar sobre aulas de piano. Os olhos azuis de mamãe brilharam. Ela logo gostou da ideia. Mamãe disse para o papai que tocar um instrumento é muito bom para o desenvolvimento das crianças. Papai explicou que concordava que era uma ótima ideia, mas precisava saber se ele conseguiria pagar pelas aulas. Vovó, seu pai, nosso bisavô, trabalhava em que? Ele sempre foi comerciante. Assim que casou vendia joias, passados uns anos, teve loja de brinquedos, depois loja de carros e mais tarde se tornou um corretor de imóveis. O que é isso? É a pessoa que vende casas, terrenos e apartamentos. Seu bisavô tinha um jeito especial para fazer negócios. Sua conversa era agradável e interessante. As pessoas gostavam de lhe escutar. Ele me ensinou o valor da palavra. Tudo o que dizemos é importante. Não podemos falar bobagens nem mentiras para não perdermos nunca a credibilidade. Vó... Calma, eu explico. Quando a pessoa perde a credibilidade é quando não se acredita mais nessa pessoa. Puxa! Isso não é nada bom mesmo! Bem, Rosali sabia dizer o preço das aulas e papai disse que daria para pagar uma aula por semana para cada um. Julio e Rosali deram gritos de alegria! Mamãe começou a falar que ia procurar uma professora, quando Rosali a interrompeu e lhe entregou um papel com o nome, endereço e telefone da professora da Sara. Papai exclamou: Que menina eficiente! Mamãe ligou logo para a professora e combinou que no dia seguinte, às dez horas levaria seus filhos para conhecê-la. Rosali e Julio dormiam no mesmo quarto e naquela noite ficaram de conversa até tarde. Eles estavam muito animados. Foi difícil sossegar, mas acabaram adormecendo. No dia seguinte, acordaram mais cedo do que o normal, escovaram os dentes, foram para a cozinha e como mamãe não estava lá, prepararam tudo que iam precisar para o café da manhã, comeram, beberam e foram se arrumar. Quando mamãe levantou da cama e foi para o banheiro, até levou um susto quando viu as duas crianças prontas na porta de casa. Eu já me senti assim vovó. Quando foi? Foi quando fui pela primeira vez na aula de equitação. Papai disse que eu não cabia dentro de mim! Era assim mesmo que eu estava! E você? Já ficou assim? Sim! Quando fui viajar de avião pela primeira vez. Era uma viagem para a casa da Bisa Edith no RJ. Foi muito legal! Bem, Mamãe não demorou a ficar pronta e os três saíram de casa em direção à casa da professora de piano, que por sinal, chamava-se Dona Irene. Vovó, qual o carro que sua mamãe tinha? Nenhum. Minha mamãe não dirigia. Ela chegou a tirar a carteira de motorista, mas isso já é outra história... Bem, Mamãe deu uma mão para o Julio e a outra para Rosali. Depois que caminharam uma meia hora, chegaram numa rua calma e bonita. Logo escutaram o som de um piano. Os três ficaram parados como encantados por uma magia. Era lá! Era aquela a casa da professora Irene! Mamãe tocou a campainha. O piano se calou. Em poucos segundos, uma senhora de cabelos pretos, arrumados como se fosse um capacete e vestida com uma linda saia estampada de flores apareceu. Era a professora vovó? Sim! E ela usava brincos de pérola que combinavam com um colar também de pérolas. Bem, Quem quer ser o primeiro? Foram essas as palavras iniciais da professora. Julio apontou para Rosali ao mesmo tempo em que Rosali apontou para Julio. Que engraçado vovó! Pois é, mamãe não achou muita graça e disse para Rosali ser logo a primeira. Julio e mamãe ficaram num sofá perto do piano. Os dois sabiam que não podiam conversar e nem fazer barulho. Eles não podiam atrapalhar a aula da Rosali. Não é fácil ficar assim! Que situação! De repente, apareceu um menino. Ele devia ter uns sete ou oito anos. Uma idade como a do Julio ou como da Rosali. O menino estava descalço, de shorts, sem camisa e bem suado. Ele chegou bem perto do Julio e quase sussurrando, convidou-o para brincar no quintal atrás da casa. O Julio foi? Claro! Ele foi correndo, nem virou para trás. Mamãe, num ímpeto, se levantou como se fosse fazer Julio voltar para o sofá. Pensou melhor, fez um gesto, que fazia muito sem perceber, de erguer ligeiramente o braço e abaixar a mão, meio que dizendo para si mesma para deixar o menino aproveitar. O quintal não era grande, mas Julio admirou o espaço como um pássaro que sai da gaiola. Um sorriso largo encheu seu rosto. Vó, eu vou fazer um desenho do Julio com essa boca bem grande ocupando todo o seu rosto. Ótima ideia! Bem, Julio notou que havia uma marcação de gol feita com um par de chinelos. Era mais que um convite para jogar bola. Os meninos não perderam tempo. Aquele espaço se tornou para eles um estádio e o jogo era a decisão de um campeonato mundial. Os dois meninos gritaram, chutaram e fizeram montes de gols. Essa alegria toda durou mais ou mesmo uma meia hora, que foi quando a professora deu por terminada a aula da Rosali e sem fazer nenhum intervalo, num tom de voz seco e forte, disparou uma pergunta para mamãe: Onde está o seu filho? Puxa vovó, a professora era meio brava, não era? Ela era de poucas palavras, poucos sorrisos e acabava parecendo brava. Bem, Mamãe devia estar entretida com seus pensamentos e até se sobressaltou com o questionamento repentino. Meu filho deve estar com o seu. Em silêncio, a professora deu as costas para mamãe e foi para o quintal. Mateus! E agora? Como esse menino suado e imundo vai se sentar para uma aula de piano? Julio era esperto e logo entendeu duas coisas: primeiro que o novo amigo se chamava Mateus e segundo que ele estava levando uma bronca da mãe dele. Dona Irene estava chateada e colocou as mãos na cintura como esperando uma resposta do seu filho. Mateus pediu calma para a mãe e saiu de cena. Logo voltou com uma toalha e uma camiseta limpa para emprestar para Julio. Deu certo. O problema foi solucionado e em poucos minutos Julio estava à frente do piano, ao lado da professora Irene. Mamãe nem podia perguntar para Rosali se ela gostou da aula, não queria fazer barulho e levar bronca daquela mulher braba. Mateus ficou com pena de perder o parceiro do futebol, mas rapidamente deve ter lembrado a expressão que diz que quem não tem cão, caça com gato e foi cochichar no ouvido da Rosali algumas palavras que fizeram a pequena menina balançar a cabecinha e segui-lo em direção ao quintal. Vó, Mateus chamou a Rosali para jogar bola? Exatamente! O futebol, como se dizia na gíria daquela época, voltou a comer solto! Rosali sabia chutar direitinho, gritava e se esbaldava com cada gol que ela ou Mateus fazia. Que pena que deu quando a aula do Julio acabou e Mamãe foi até o quintal para chamar Rosali para ir embora para casa. Mateus choramingou que a partida ainda não tinha terminado e sugeriu que os três poderiam ficar brincando. Dona Irene nem deixou Mateus terminar suas argumentações e lembrou que todos precisariam se aprontar para escola. Semana que vem eles voltarão e então vocês vão brincar novamente. Com essas palavras, Dona Irene abriu a porta e estendeu a mão para se despedir da mamãe e dos novos alunos. Mamãe, Julio e Rosali caminharam meia hora de volta para casa. Foram conversando. Mamãe queria saber se eles gostaram. Sim! Eu gostei, disse o Julio. E eu também, disse a Rosali. A professora disse que vocês vão precisar estudar em casa. É... Ela falou sim. Todos os dias! Pode deixar mamãe. Naquela semana, entre a primeira e a segunda aula, Julio e Rosali  fizeram algumas vezes um exercício de escala. Vó, como é esse exercício? Eles tinham que tocar dó, ré mi, fá, sol, lá, si, dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó com as duas mãos muitas vezes. Bem, A semana passou e quando Julio e Rosali chegaram à casa da professora para a segunda aula, Dona Irene perguntou imediatamente se mamãe havia trazido a camiseta do Mateus. Mamãe lhe entregou um embrulho, onde a camiseta estava lavada e passada. Então, a professora se dirigiu para as crianças e indagou quem iria ser o primeiro a ter aula. Os dois repetiram o mesmo gesto de um apontar o outro. Vó, dessa vez a mamãe achou graça? Não achou nenhuma graça. Mamãe ficou surpresa, mas rapidamente deu a ordem para que Rosali fosse a primeira. Não é justo, mamãe. Fui a primeira da outra vez, agora e a vez do Julio ser o primeiro! Não, mãe! Eu quero ser o segundo! Eu é que quero! Dona Irene já estava colocando as mãos na cintura, quando mamãe se abaixou e ficando mais perto dos seus filhos perguntou: Quando eu quis saber na semana passada se vocês gostaram, vocês me disseram que gostaram. Acho que eu não fiz a pergunta direito. Vocês gostaram da aula de piano? Querem estudar esse instrumento? Ou vocês gostaram de brincar com Mateus de jogar bola no quintal? Julio foi o primeiro a responder. Eu gostei de jogar futebol com Mateus e prefiro jogar a tocar piano. Mamãe não conseguiu segurar seu desapontamento, mas a sinceridade do filho era muito mais importante. E você, Rosali. Rosali queria dizer que também preferiria brincar, mas achou que sua mãe iria ficar muito decepcionada com ela. Rosali sentia que precisava dar uma resposta. Parecia que um relógio fazia tic, tac na sua cabeça. Bem, eu gostei das duas coisas. Com essa resposta, Rosali imaginou que mamãe ficaria mais feliz. Vó, então ela teve que ter a aula? Mas ela não queria... De fato, mamãe deu por encerrada a conversa, apontando a banqueta ao lado da cadeira da professora para Rosali se sentar. A aula teve inicio. O futebol e a algazarra no quintal também. Rosali se esforçou para não imaginar Julio e Mateus brincando e se divertindo, mas cada vez que Rosali pensava em não pensar, mais ela pensava neles. Foi ficando triste e se afastando da aula. Lágrimas começaram a correr pelo seu rostinho. O que está acontecendo menina? Nada... Minha mão está doendo um pouco. Era verdade, mas não era a razão das lágrimas. Dona Irene tentou seguir com escalas, bemóis e sustenidos, mas o interesse da Rosali já havia evaporado. Vó, eu já tentei não pensar numa coisa e essa coisa ficou o tempo todo na minha cabeça. O que era? Era na época que eu queria ter um cachorro. Bem, Para Rosali, aquela aula durou um tempo sem fim. Pode levantar menina, a aula acabou. Mamãe, que ficou acompanhando a aula, dessa vez sem se distrair nos seus pensamentos, percebeu que Rosali não estava nada bem. Mamãe se abaixou para conversar com sua filha. Fale comigo... O que está acontecendo? Mamãe, eu também queria brincar, mas não consegui falar isso quando você perguntou. E as aulas de piano? Não lhe interessam mais? Acho que não. Você vai ficar triste mamãe? Eu ficaria muito triste se minha filha não conseguisse falar comigo o que pensa e o que sente. Venha mais pertinho, me dá um abraço bem apertado e gostoso Rosali! Quer dizer que eu posso parar com essas aulas? Pode. Posso vir aqui só para jogar bola no quintal com Mateus e Julio? Mamãe foi se erguendo e já ia responder, quando a professora se adiantou: Nem pensar! Aqui não é parque público. Puxa! Essa professora não era nada gentil, não é vovó? Não mesmo! Ela sabia muito bem dar ordens e falar palavras ásperas. Engraçado você dizer palavras ásperas vovó, mas dá para entender que são palavras que machucam, não é isso? Exatamente isso! Bem, Rosali e mamãe foram chamar o Julio para ir embora. Ele ainda queria brincar. Não dá... Precisamos ir. Julio obedeceu. A despedida da professora foi mais fria do que a da primeira vez. No caminho, os três tiveram tempo suficiente para conversar e acertar muito bem todo o assunto das aulas de piano. Depois, começaram a cantar. Estavam felizes. Estavam bem. Estavam leves e em paz. É bom demais se sentir assim!    

SONHANDO ACORDADA

Segunda, 09 Janeiro 2017 15:02 Escrito por
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Inesperadamente uma mensagem dele apareceu para mim. Achei estranho, mas ao mesmo tempo, senti um sabor apimentado e forte. Ele queria me encontrar. Havia urgência nas palavras dele. Na verdade, não era nas palavras. A urgência eu percebi em alguma sutileza, possivelmente numa vírgula ou nas reticencias que ele usou. Fazia mais de um ano que eu não tinha nenhuma noticia dele. Era assim que funcionava nossa relação que tem o título de amigos de infância. Estudamos juntos desde o antigo ginásio e nos separamos quando cada um foi fazer sua faculdade. Eu o admirava muito e tenho uma nítida lembrança de, com cerca de onze anos, escrever uma redação citando-o como um futuro presidente do Brasil. Minha previsão não se cumpriu. Ele se tornou médico. Durante muitos anos morou fora do país. Casou, teve filhos, separou, casou novamente e no meio de tudo isso deve ter tido algumas paqueras. Quando eu era menina, tentei fisgá-lo. Além de ótimo aluno e garoto bonito, ele sempre foi muito educado, portanto soube se esquivar de minha investida com elegância: não podemos namorar, pois não quero perder nunca minha amiga. Levei um tempo para entender o fora que levei e até para me permitir sentir uma pitadinha de raiva dele. A raiva não durou e nossas vidas foram em frente. Quando voltamos a nos encontrar já éramos avós, ou quase, não lembro bem. Nossos encontros sempre se deram junto com outros amigos da época da escola e aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Assim como todos nós, ele estava envelhecendo. Seu cabelo ruivo tornou-se prateado e seu porte atlético havia se tornado apenas uma lembrança de décadas atrás. Dava para perceber que era guloso e que não conseguia abrir mão dos prazeres que uma boa mesa podia lhe proporcionar. Sua conversa era interessante e seu sorriso tinha ainda aquele antigo charme. Ele nunca foi como eu, alguém que ri à toa e escancarado. Ele sempre foi mais econômico nas suas demonstrações de sentimentos e emoções. Pode ser que essa era sua maneira de capturar a atenção e até o coração de desavisados. Com muito cuidado, como se estivesse andando em pedras lisas e escorregadias, durante nossos encontros, eu me dedicava a entender melhor os sinais que vinham dos seus olhos. Percebia com frequência uma tristeza fugaz e bem disfarçada. Como sempre estávamos com os outros amigos, nossos assuntos prediletos eram os livros e filmes. Se algumas vezes tentamos falar de assuntos íntimos, logo alguém transformava o tema em piada e rapidamente libertava-nos de uma possível cilada emocional. Agora ele quer me encontrar. Só nós dois. Sem nossos amigos, sem marido, nem esposa. Impetuosa como de costume, já lhe respondi que topo o encontro. Ele sugeriu um jantar. Eu cheguei a escrever, mas apaguei a pergunta audaciosa se era à luz de velas... Para não perder o costume, nessa última troca de mensagens, já nos atualizamos sobre os últimos livros lidos. Fiquei surpresa quando ele escreveu que quer comentar comigo sobre esses livros no nosso encontro. Já entendi que teremos um tempo de aquecimento antes de entrar no assunto principal. Ri sozinha da minha inibição de lhe dizer que minha digestão à noite é terrível e que se eu jantar, seguramente ficarei sem dormir. Tenho pensado, nos momentos em que a vida me dá trégua, no que vamos conversar no nosso jantar. Vamos falar sobre meu irmão, que era seu grande amigo e, como estaremos sozinhos, poderemos até chorar abraçados. Poderemos nos lembrar de nossos pais e das vezes que todos estivemos juntos e felizes.  Será que ele tem alguma ideia de organizar um lar de amigos para morarem juntos na velhice? Isso até que seria interessante... Será que falaremos dos planos que fizemos para os nossos filhos e avaliaremos o que de fato aconteceu? Será que vamos filosofar sobre a rapidez com que a vida passou? Falaremos sobre o amor? Um pensamento sombrio me assalta e me incomoda. Será que ele está doente e quer se despedir? Será que quer discutir sobre a eutanásia como fizemos na nossa colônia de férias quando tínhamos onze ou doze anos? Meu Deus! Ainda falta um mês para ficar imaginando e sonhando... Quem sabe ele está arrependido e quer aceitar o pedido de namoro que lhe fiz há mais de quarenta anos? Tenho que me preparar. Não posso me deixar pegar de surpresa. Aqueles olhos são ciladas. Talvez eu deva treinar soltar o não para qualquer pergunta. Tenho sempre o sim pronto na ponta da língua. Preciso inverter esses dois. Vou começar a treinar na frente do espelho! Estou gostando muito de imaginar e sonhar com nosso encontro. Contei para o meu marido e ele nem se incomodou. Ou ele é muito seguro de si, ou seguro de mim ou entende que dois velhos amigos podem ir jantar sem maiores problemas. Sorte a minha! Ainda não comecei a pensar na roupa que eu vou usar. Decidi que o perfume deverá ser bem discreto. Talvez use a velha e boa alfazema... Vou passar só um batom e nada de maquiagem. Aposto que ele nem pensou, nem vai pensar em nada disso. Falta um mês. Seria legal se ele mandasse uma mensagem querendo saber que tipo de comida eu prefiro para escolher o local do encontro. Será que eu diria: café com leite e torrada integral com queijo? Duvido...
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