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De pai para filha ou vice versa

Sábado, 29 Setembro 2012 16:31 Escrito por
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Sempre critiquei um hábito incomum de meu pai. Ele bufava. Eu interpretava esse seu comportamento, como um sinal de que alguma coisa não estava bem ou, pelo menos, que estava difícil para ele. Tanto ele bufava no volante do seu carro à procura do caminho certo, quanto no corredor de um hospital, após visitar alguém querido. Quando bufava, seu rosto se transfigurava e me fazia lembrar imediatamente de meu avô, seu pai, que era mestre nesta arte. Papai era dotado de um ótimo humor, mas era ansioso, sem paciência e também explosivo. Não seria exagero compará-lo a uma panela de pressão. Acredito que por conta de crescer habituada e desencanada com as bufadas de papai, nunca senti medo de ter que enfrentar alguém muito sério, carrancudo ou mesmo que bufava. Faz pouco tempo, confesso meio sem jeito e até incrédula, comecei eu a bufar. Das primeiras vezes, achei minha atitude estranha. Como pode? Nada a ver comigo! Detesto reconhecer que adotei tal comportamento deselegante. Como um detetive, passei a me perseguir para identificar a raiz dessa situação. Peguei-me no pulo, diversas vezes, bufando quando estava para chegar atrasada num compromisso ou quando tinha que dar conta de várias coisas ao mesmo tempo. No entanto, para enorme surpresa minha, notei que já ando bufando regularmente, tipo algo que já faz parte de um ritual, como quando entro no carro, ajeito os espelhos, dou a partida e... Bufo. Oh céus! Criei um hábito ou pior, um vício! Minhas netas, tão novinhas, já notaram e até já as peguei me imitando. Qualquer dia desses, elas vão sair escrevendo num jornal que me pareço com uma panela de pressão... Como são espantosas certas ironias da vida! E falando em espantos, sei que nem todo mundo vai acreditar, mas posso jurar que, apesar de estar sozinha, ouvi umas risadas da última vez que bufei. Senti um arrepio estranho. Na verdade, não posso contar isso para qualquer um, pois podem me achar louca. Posso afirmar que eram risadas iguais a que meu pai, quando estava vivo, soltava para expressar seu contentamento. As risadas ficaram cada vez mais nítidas e deixaram de me arrepiar. Foi um momento maravilhoso. Senti como se um véu suave me envolvesse. Saboreei cada segundo desse meu jeito de aplacar saudades. Ah! Papai...

Transtorno Bipolar do Humor

Sábado, 29 Setembro 2012 16:26 Escrito por
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Sinto arrependimento de muitas coisas misturado com um estranho impulso de escapar, mas não sei para onde ir. Foi assim que ele começou a falar quando lhe sugeri que contasse alguma coisa sobre si mesmo. Como fiquei calada, ele continuou. Sou um cara esforçado, mas não sou persistente. Raramente alcanço bons resultados. Hoje não saberia dizer quais são meus sonhos. Nunca fui um bom aluno, ainda assim consegui terminar uma faculdade. Por ter sido muitas vezes alvo de gozação dos colegas, adquiri vergonha de fazer perguntas em sala de aula e em reuniões de trabalho.Assim, finjo que sei e, em geral, me ferro. Tenho trinta anos. Transar não é fácil para mim, embora, em algumas épocas, pareço uma máquina de fazer sexo. Penso muito e me atormento demais. Sou acelerado. Quem é assim como eu na família? Nunca pensei nisso, mas meu pai tem muitas coisas parecidas comigo e acho que meu avô era assim também. Acordo várias vezes durante a noite. Não tenho paciência de ler livros. Quando tento, me pego pulando linhas e sem entender nada do que leio. Escrevo mal. Qualquer pequeno problema se torna um horror para mim, pois meus pensamentos o ampliam e me torturam. Falo rápido e mudo de foco no meio do caminho, o que torna minha comunicação complicada. Às vezes, me agarro firmemente a uma idéia e quero convencer meio mundo que descobri alguma coisa extraordinária. Algumas pessoas já me disseram que chego a ser muito inconveniente. Por outro lado, há dias, em que me encolho na cama e quero sumir. Não consigo me levantar, não tenho apetite e em vez de euforia e agitação, fico apático. Já pensei em me matar. Fui procurar um neurologista e ele me medicou. Fiquei bem enquanto tomei a medicação indicada. Estava mais calmo e até mais feliz. Arranjei um emprego legal. Parei, pois meus pais se preocuparam que eu iria me viciar nos remédios. Não, meus pais não são médicos. Moro com eles. Depois de três meses sem os remédios, fiz besteiras, gritei com meu chefe e fui mandado embora do tal emprego legal. Não, nunca ouvi falar sobre transtorno bipolar do humor. Pode ser isso o que eu tenho? Balancei afirmativamente a cabeça, ao mesmo tempo em que compreendia plenamente a urgência do seu pedido de ajuda para escapar de tanto sofrimento. 
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