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Ser solteira com mais de sessenta anos traduz um pouco, bem pouco, da vida daquela mulher. Quando jovem teve uns tantos amores, alguns episódios picantes e montanhas de sonhos. Teve também obrigações de filha que não lhe deram trégua. Com o único irmão morando longe, cuidou da mãe e depois do pai enquanto doentes. Atualmente, até o irmão já faleceu e faz muito tempo que vive sozinha.  Não sabe explicar o motivo, mas sente-se alegre na maioria das vezes. Como ela diz, vive ela e sua privacidade em paz. Goza da amizade de pessoas que apareceram há muito tempo em sua vida. Cultiva flores no seu quintal e vibra quando elas desabrocham. Fuma muito e não gosta quando lhe chamam a atenção por causa disso. Já teve doenças sérias e dores terríveis. Sempre deu jeito e de alguma maneira o socorro chegou quando ela precisou. Mora em frente à uma pequena praça. Diz não gostar de andar à toa, portanto aprecia as árvores e o canto dos pássaros, mas não se exercita, como tantos outros, naquele lugar tão convidativo. Recentemente, um acaso lhe reaproximou de um amigo de infância que não via há décadas. Ele ficou viúvo. Depois que chorou por uns tempos, quis ajeitar sua vida. Lembrou-se dela e descobriu o número do seu telefone. Foi direto. Quis saber se ela estava disponível. Ligou como quem tinha uma oferta irrecusável, um prêmio da Loteria. Ela não entendeu assim. Foi explicando que como nunca casou, tinha suas manias. Ele não parecia querer escutar ou se importar com nada. Disse a ela que tinha empregada todos os dias e até uma casa na praia para passear. Disse que ela ia parar de trabalhar e ser madame ao lado dele. Uma vontade de ficar longe dessa história, levou-a a dizer que precisava desligar. Ele não esperava uma dona tão arredia. De alguma forma, essa maneira de ser dela valorizou a conquista que ele tinha em mente fazer. Ele se mostrou insistente, pois tornou a ligar mais algumas vezes. Ela sempre lhe atendeu educada, mas começou a sentir faniquitos com a forma pegajosa dele. Da última vez, chegou a lhe dar conselhos sobre como é bom aprender a viver só. Não sabe se ele ouviu ou se entendeu. Cheia de suspense, contou essa novidade para alguns amigos íntimos, que preocupados com seu futuro, tentaram lhe pedir calma e boa vontade com o pretendente. Cheia de graça, gargalhada na ponta da língua e bastante faceira, ela deixa claro que tem muito pouca chance dela entrar nessa roubada. Para não dizer que o assunto está encerrado, afinal não é todo dia que aparece um galã assim, deixou uma frestinha aberta permitindo que ele ligue quando tiver vontade.
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